terça-feira, 25 de março de 2014

Quantidade e qualidade

 

A qualidade e a quantidade opõem-se, embora não em si mesmas. Opõem-se porque a qualidade diz respeito às essências (normalmente transcendentes), ao passo que a quantidade diz respeito ao espaço-tempo e à mudança (normalmente imanentes).

Na medida em que a imanência aponta para a linha limite da transcendência (por analogia: infere a transcendência, da mesma forma que a linha limite do horizonte infere a terra que está para além dela), então podemos afirmar que “a qualidade é susceptível de mais ou menos” — e só neste sentido podemos atribuir uma quantidade à qualidade. É a imanência que quantifica a qualidade, mas essa quantificação não é própria da transcendência.

Quando se diz que “a afirmação ou a negação indicam a qualidade do juízo”, devemos pensar que estamos no âmbito da imanência. Por exemplo, quando dizemos: “este homem é louro”, estamos a fazer um juízo de qualidade (de valor); quando dizemos que “este homem é alto”, estamos a fazer um juízo de quantidade (de facto); mas também podemos dizer que “este homem é mais louro do que aqueloutro”, o que não coloca em causa a independência da essência da “louridade”, mas apenas atribui à essência da “louridade” um atributo quantitativo que não desvirtua a independência da essência da “louridade”.