A essência do pensamento de Espinoza é a defesa (dele) da possibilidade de o ser humano chegar, através do exercício da Razão (ou da ciência), à unidade com a substância única (panteísmo) a que ele chama de “Deus”.
“Os homens, as mulheres, as crianças, todos na verdade, podem igualmente obedecer, mas não serem sábios. Se dizemos que não é necessário compreender os atributos de Deus mas, acreditar nisso com toda a simplicidade e sem demonstração, está-se em pleno sonho: porque as coisas invisíveis, e que não são senão objecto do espírito, não podem ver-se sobre outra perspectiva para além da demonstração; razão por que o que não a possui não vê absolutamente nada dessas coisas…”
Isto seria coisa semelhante a que um cientista físico actual defendesse a ideia de que é possível, ao ser humano e através do exercício da Razão (ou seja, da ciência), compreender todo o universo (incluindo a essência da antimatéria, da matéria escura, dos buracos negros, da física quântica, etc.). Um cientista ateu dirá que sim, que “é possível ao ser humano compreender todo o universo... talvez daqui a 25 mil milhões de anos!”
O cientista ateu é muito optimista e romântico.
Quem estudou suficientemente a Filosofia sabe que Espinoza foi um gnóstico (ver gnose). O gnosticismo parasitou o Cristianismo desde a fundação deste, ou seja, desde a Antiguidade Tardia, e esse parasitismo continuou através da Idade Média — por exemplo, com Joaquim de Fiore, Espinoza, e muitos renascentistas —, entrou pela Idade Moderna adentro com Hegel e quejandos românticos alemães, depois Nietzsche, e mais tarde dominou a contemporaneidade do pensamento dos séculos XX (por exemplo, Heidegger, o Pós-modernismo) e XXI.
A diferença entre um gnóstico medieval, por um lado, e um cristão propriamente dito, por outro lado, é a de que a gnose (ou gnosticismo) é uma qualquer doutrina metafísica de salvação religiosa por intermédio do conhecimento intelectual, e por isso sem o dom directo da Graça Divina — ao passo que o Cristianismo pressupõe o dom directo da Graça de Deus (“graça” é proveniente do grego “Kharis”, que significa “benevolência”, “encanto”: é a dádiva proveniente de Deus relativa à salvação da alma, à remissão dos pecados, e à constância na provação).
A diferença entre Espinoza e um cristão normal é que Espinoza pensa que pode abarcar a compreensão do conceito de Deus (ou de universo) através da Razão humana, enquanto que o cristão adopta uma postura mais humilde e realista, porque sabe que o ser humano jamais conseguirá meter o universo inteiro dentro de um laboratório.
Ou seja: Espinoza é burro, mas é classificado pelos intelectuais como sendo “inteligente”; o cristão é inteligente, mas é classificado pelos intelectuais como sendo “burro”.
E não há mais nada a dizer acerca de Espinoza.