terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Aleksandr Dugin e a modernidade

 

É difícil encontrar um texto que me dê uma noção do pensamento de Aleksandr Dugin, e muito menos um texto escrito pelo próprio; mas também aprendi que não devemos confiar na propaganda da Wikipédia. Não encontrei, até agora, um resumo escrito do pensamento de Dugin, ou seja, uma síntese do seu pensamento filosófico, e, portanto, político. Se me perguntarem: ¿qual é a essência do pensamento de Aleksandr Dugin?, a minha resposta é: não sei.

Não fica mal alguém reconhecer a sua ignorância. Quando não sei, digo que não sei e procuro saber. E foi o que fiz. Mas nestas coisas da Internet temos sempre que manter o nosso espírito crítico bem aguçado, porque me parece que se diz muita coisa acerca de Dugin sem que se tenha documentos do próprio que corroborem essas informações. Uma coisa é alguém dizer, por exemplo, que eu sou fascista; outra coisa é um texto meu em que eu reconheça, explícita ou implicitamente, que sou fascista. Não confundir as duas coisas.

Nós temos a tendência de colocar rótulos nas pessoas mesmo antes de qualquer análise de ideias. E são as próprias “elites” “intelectuais” que dão este exemplo negativo. Por exemplo, identifica-se muitas vezes o “tradicionalismo” com o “fascismo”: por essa ordem de ideias, o sociólogo Durkheim foi um “fascista”. Voltando a Aleksandr Dugin.

Podemos encontrar aqui algumas ideias esparsas do pensamento de Dugin. Pelos textos ali publicados não podemos concluir nada de substantivo: não existe um fio ideológico condutor entre aqueles textos. Por exemplo, misturar Heidegger e Alain de Benoist não faz grande sentido. A ideia segundo a qual “o tradicionalismo se opõe ao liberalismo” é absurda, porque só podemos comparar coisas de uma idêntica natureza — quando duas coisas se opõem, então pertencem a uma mesma natureza (o povo diz que “não devemos confundir alhos com bugalhos”).

Uma análise crítica a uma determinada ideologia não deve ser confundida com “oposição política” no sentido estrito. Uma crítica não significa necessariamente oposição no sentido de “alternativa política”. Em ciência, uma crítica que pretenda refutar uma teoria não significa que essa crítica seja considerada, em si mesma, como uma teoria alternativa. Por exemplo, o marxismo opõe-se ao liberalismo económico porque se baseiam ambas as ideologias na supremacia do campo da economia sobre a realidade.

O marxismo e o liberalismo têm muita coisa em comum, e por isso é que é possível falar-se em “oposição ideológica”. Mas não é possível falar de “oposição ideológica” entre tradicionalismo e liberalismo, porque estamos em presença de mundividências diferenciadas nas suas essências. Seria como se eu dissesse que “a teoria de Darwin opõe-se à teoria da gravitação”: as duas teorias são diferentes, e a única coisa em comum entre as duas é que ambas pertencem ao campo da investigação científica. De modo semelhante, a única coisa em comum entre o liberalismo e o tradicionalismo é ambos pertencem à ciência política e à filosofia. Não se podem opôr entre si.

Por outro lado, há que saber o que significa “tradicionalismo”, para evitar confusões. O pensamento de Aleksandr Dugin é, aparentemente, hegeliano, o que está em contradição com o tradicionalismo. Não é possível ter uma visão hegeliana da História — como tem a esquerda e Obama, por exemplo —, por um lado, e por outro lado pretender ser tradicionalista. Ser tradicionalista, como em tempos idos era “ser estóico”, é, antes de mais, uma prática, um modo de viver em função de uma determinada mundividência. Reduzir o tradicionalismo a uma ideologia é uma contradição em termos, porque se reduz uma prática e mundividência não-moderna à lógica dialéctica do modernismo.

¿É possível que o tradicionalismo se transforme em uma ideologia política? Apenas e só se a prática tradicionalista for adoptada (através do exemplo cultural) pela maioria da população. O tradicionalismo pode ser uma consequência política de uma práxis, e não uma causa política que se imponha segundo a lógica da teoria política moderna.

Há uma coisa de que eu estou certo: ao contrário do que Aleksandr Dugin parece querer dizer, a democracia não é incompatível com o tradicionalismo — depende daquilo que entendamos por “democracia”. Se “democracia” significa a prevalência, no sistema político, do conceito abstracto e elitista de "Vontade Geral" de Rousseau, então podemos dizer que a democracia é incompatível com o tradicionalismo. Mas é possível conceber a democracia fora do quadro ideológico actual.

A sequência hegeliana dos sistemas ideológicos que Aleksandr Dugin critica — liberalismo → marxismo → fascismo – é produto do conceito de "Vontade Geral" de Rousseau. Liberalismo, marxismo e fascismo são vergônteas de Rousseau. Porém, não me parece que, na sua crítica, Dugin consiga escapar ao conceito de "Vontade Geral": seria como se um trotskista criticasse um estalinista: a crítica seria feita em função da forma, e não do conteúdo ideológico. O que é preciso é rejeitar liminarmente, e antes de mais nada, o conceito de "Vontade Geral" de Rousseau, e imaginar uma outra forma de democracia que rejeite a ideia moderna de “massas” e se apoie no conceito cristão de “pessoa”.

Por fim, embora o pensamento de Dugin me pareça confuso, o exemplo dos Estados Unidos de Obama é péssimo e não deve ser seguido. Pelo menos, Aleksandr Dugin tem um mérito: o de expor a putrefacção acelerada dos Estados Unidos de Obama.