1/ O mundo é um fluxo de estados transitórios directa ou indirectamente perceptíveis fundado numa eternidade imperceptível.
2/ O mundo não é uma ilusão, mas é uma tela invertida onde as aparências do ser, que são reais mas impermanentes, encobrem o ser das aparências, que é permanente e por isso mesmo parece irreal. Essa inversão ocorre tanto na nossa percepção do mundo quanto na de nós mesmos.
3/ A identidade por baixo dos nossos estados e percepções é totalmente inacessível ao nosso conhecimento mas ao mesmo tempo nenhum conhecimento poderia existir sem ela. Por isso é que práticas místicas e ascéticas não levam a parte alguma se a acção decisiva é nossa e não vem do próprio Deus.
Olavo de Carvalho (FaceBook)
1/ “o mundo é fundado em uma eternidade imperceptível”. Ou seja, deduzo que essa eternidade imperceptível é a causa do mundo, causa essa que não se confunde com o efeito que é o próprio mundo. Essa eternidade imperceptível é infinita, e por isso não se confunde com o mundo que é finito. Quando se diz que essa eternidade é “imperceptível”, quer-se dizer que ela não é perceptível pelos sentidos humanos (percepção entendida como uma relação sensível ao mundo).
2/ a “aparência do Ser” é aquilo que pertence ao Ser e que aparece à percepção: é real e impermanente: ou seja, é o mundo. E o “Ser das aparências” é aquilo que está encoberto ou oculto pelo mundo, e que é permanente e que parece irreal.
Aqui coloca-se um problema: a analogia da “tela invertida”.
Se a relação entre o Ser permanente, por um lado, e, por outro lado, o mundo ou Ser impermanente é o de uma “tela invertida”, então o Ser não pode ser a causa do mundo, porque a causa não pode pertencer a uma categoria idêntica ou semelhante da do efeito.
O Ser permanente (a causa) e o Ser impermanente (o efeito, ou o mundo) pertencem a categorias diferentes e não se confundem um com o outro, nem podem, por isso, ser uma “inversão” de um pelo outro. A causa actua no efeito, mas não se confunde, de qualquer modo, com este.
O que é “invertido”, em relação ao mundo que é objecto da nossa percepção, é imanência do Ser — e não a transcendência do Ser ou a causa impermanente permanente.
Existem, por isso, três categorias básicas da realidade: o mundo perceptível (impermanente), a imanência que só é perceptível através dos axiomas lógicos — que não são físicos — mas que é semi-permanente (a categoria da “semi-permanência”: por exemplo, as partículas elementares físicas são todas idênticas (iguais) entre si, o que revela um carácter de semi-permanência ou de resistência à mudança), e a transcendência que se infere a partir das duas categorias anteriores, e que é permanente. Em vez de uma “tela invertida” em um mesmo nível ontológico, temos a analogia de três categorias distintas de três níveis ontológicos diferenciados entre si.
3/ quando se diz que “a identidade por baixo dos nossos estados e percepções”, quer-se dizer “a identidade subjacente aos nossos estados e percepções”. E ela, a “identidade”, “é totalmente inacessível ao nosso conhecimento”; “mas ao mesmo tempo nenhum conhecimento poderia existir sem essa identidade”.
Essa “identidade”, colocada nestes termos, equivale ao conceito de “X”, de Kant.
É este X que constitui a diferença entre um ser humano, por um lado, e um autómato, por outro lado. Neste X (nessa “identidade”) — que corresponde à afirmação segundo a qual “eu penso!”, do sujeito (humano) —, todos os conteúdos da consciência estão ligados, e essa “identidade” é a condição lógica de qualquer pensamento e da percepção e, por isso, do conhecimento.
Essa “identidade” constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento do sujeito. E não é possível, ao sujeito, reconhecer esse X (ou essa “identidade”) porque qualquer acto do pensamento já o pressupõe! Mas este X, ou essa “identidade”, é comparável ao conceito platónico de “alma”.