Quando falamos de política, não devemos esquecer que existem causas para o “estado a que chegamos”. As coisas não acontecem por acaso. Por exemplo, não devemos esquecer o desastre da governança de José Sócrates (que Santana Lopes elogiou recentemente!) quando elevou o nível da dívida pública portuguesa de uma forma deliberada; mas também não devemos outras causas, por exemplo:
1/ desde finais da década de 1990 que se sabia que, com a liberalização do comércio com “países terceiros” como a China (por exemplo, o Acordo Multifibras), entre outros (Paquistão, Bangladeche, Indonésia, etc.), a economia portuguesa iria sair altamente prejudicada com uma concorrência baseada em salários baixos. E foi o que aconteceu.
2/ com a entrada dos países de leste (Polónia, república checa, Eslovénia, Eslováquia, Roménia, Bulgária, Hungria, Estónia, Lituânia, etc.) na União Europeia, Portugal seria, mais uma vez, altamente prejudicado com uma concorrência baseada em salários mais baixos. Foi o que aconteceu.
3/ em função dos dois pontos anteriores, há que dizer a verdade, que a classe política, em geral, não diz: a partir de 2005, começou-se a sentir, na economia real portuguesa, o efeito da liberalização do comércio com os países terceiros baratos, e com os países de leste que integraram a União Europeia. O tecido empresarial português não é, hoje, aquele que o Partido Social Democrata de Passos Coelho e o CDS/PP de Paulo Portas “pinta”: as empresas não contratam, o desemprego real ultrapassa os 17%, não porque as empresas não queiram contratar, mas por que não há empresas suficientes para contratar. As falências e bancarrotas das empresas portuguesas sucederam-se desde 2008. Não é possível competir, por exemplo, com a China.
4/ quando a demagogia do governo de Passos Coelho fala em “alta performance da indústria exportadora de calçado”, por exemplo, está a enganar a opinião pública, porque se refere a uma mínima franja das empresas que sobraram da hecatombe crísica da nossa economia que se iniciou há 14 anos (que coincidiu com a adopção de Portugal do Euro). O mesmo se passa em relação à indústria têxtil, por exemplo.
Em troca do comércio livre com países como a China, por um lado, e em troca da adesão à União Europeia dos países baratos do ex-bloco soviético, por outro lado, a União Europeia (leia-se, Alemanha) prometeu a Portugal um tipo de investimento privado que não se baseasse em mão de obra intensiva/barata (dou como exemplo a fábrica da Volkswagen da Auto-Europa). Mas — entre outras razões que não cabem aqui — porque o Estado português não se reformou (na área da Justiça, por exemplo, que continua a ser uma justiça morosa), esse “investimento alternativo” prometido pela União Europeia não se verificou.
Ademais, a classe política portuguesa estava já “convencida”, com o Tratado de Lisboa de finais de 2007, que a União Europeia já tinha entrado em uma senda de um federalismo europeísta, e é neste contexto que o então governador do Banco de Portugal — o socialista Vítor Constâncio que está hoje a co-presidir o BCE [Banco Central Europeu] — tinha já anteriormente declarado publicamente que Portugal estava para a União Europeia como um estado federal americano estava para os Estados Unidos. As PPP (Parcerias Público-privadas), que já vinham do princípio da década de 2000, disparam e crescem de uma forma informe a partir de 2005. No mínimo, podemos dizer que a classe política portuguesa “pôs-se de cócoras” e “foi encavada”; mas também não seria irracional dizer que uma parte da classe política traiu Portugal e vendeu o país à estranja.
5/ portanto, chegamos à crise do Subprime, em 2008, com uma economia que já estava de pantanas. Não fazíamos quase nada e comprávamos quase tudo feito nos países do norte da Europa e na China (à semelhança do que acontecia com a Grécia). Foi então que o Estado português (leia-se, José Sócrates) resolveu empurrar a crise para a frente, com a barriga: a dívida do Estado disparou de uma forma irracional (à moda de Obama), alegadamente para “suprir as lacunas do contra-ciclo económico” (o que é um absurdo, porque Portugal tinha já uma economia real muito mais fraca do que tinha em 1999).
6/ como se a crise do Subprime não chegasse, em 2010 surgiu a crise das dívidas soberanas. As promessas da União Europeia, afinal, não existiam; o “federalismo europeu”, de Vítor Constâncio, apenas se aplicou a ele próprio e a outros políticos portugueses como ele com altos cargos e prebendas na União Europeia. Portugal arrebentou pelas costuras. Chegou a Troika. Em bom português: o povo português estava fodido e mal pago: comprou uma utopia federalista propagandeada por uma classe sibaritas políticos que se abotoou com prebendas da União Europeia em troca de uma destruição parcial de Portugal.
7/ naturalmente que essa classe de sibaritas políticos ainda anda por aí e não perdeu o Poder. Passos Coelho é o exemplo do sibaritismo português que ainda prevalece. É neste contexto que vemos textos sibaríticos e bovinotécnicos como este: é que, segundo o sibarismo da política portuguesa, mais importante do que um povo inteiro, é a certeza de que a utopia vendida ao povo se mantenha agora em forma de tragédia; mais importante do que um povo que foi dono de escravos, é que esse povo tenda a ser, hoje, escravizado. E, depois, dizem que o “Wishful Thinking é o dos outros”! Vendem uma utopia ao povo, e depois dizem que o povo é utópico! Maior cinismo político do que este é impossível.
8/ para conseguirem os seus intentos, os sibaritas da política portuguesa tentam confundir a opinião pública com atoardas do género “temos que pagar a dívida!”, como se alguém, no seu juízo integral, pudesse defender que Portugal não pague a sua dívida. Confundem propositadamente “reestruturação da dívida”, por um lado, com “não pagamento da dívida”, por outro lado. Tentam enganar, como sempre o fizeram, o Zé Povinho. Pretendem que a estratégia política deliberada que levou Portugal “ao Estado a que chegamos” (e a que me referi nos pontos anteriores) se mantenha como um negócio leonino.