«A grande asneira tem ainda a característica intrínseca de ser, muito provavelmente, da autoria de grandes pessoas / instituições. Para que se transforme num standard, a grande asneira precisa de autoridade e poder.
Não raras vezes vem acompanhada de apoiantes de grande relevância social e do apoio de comentadores de jornal que ajudam à consolidação da coisa nas mentes menos preparadas. Aos poucos, a asneira no seu caminho para standard, vai conquistando o pensamento dos que não questionam a autoridade até, finalmente, se impor para todos. Ou porque "toda a gente sabe que é assim" ou porque "está escrito na lei".»
Este trecho deste texto no blogue Rerum Natura, corresponde a factos, passados e/ou presentes; ou seja, “apreende” em si mesmo, uma verdade. Já lá iremos. O “problema” é o que se segue a este trecho verdadeiro.
«Agora, vamos imaginar que sou um banco, além do Zé, tenho o Manuel, o Joaquim, a Maria...
Tenho aquilo a que se chama uma carteira de crédito. Vou à minha carteira e sei, pelas realizações, que a probabilidade de um destes devedores incumprir é x. Como? Não tenho outra hipótese senão ver quantos incumpriram no histórico da minha carteira. Pego nesse valor e deduzo o valor esperado de perdas na carteira e considero essa diferença um custo. Certo?
Até agora parece bem, mas agora imaginemos que estou numa crise, como a que passamos. Neste caso, naturalmente, as imparidades sobem porque há mais gente a incumprir.
Como sobem os custos, vou ter que subir o preço que peço pelo crédito (o spread) de forma a compensar. Como resultado vou dar menos crédito. Os créditos cumpridores vão terminando e não são substituídos por novos. A probabilidade tal como a estou a medir, que era x, vai passar a ser x+dx, subindo os custos. Como os custos vão subir, vou subir o spread reduzindo ainda mais o número de créditos que dou. Resultado, sobe a probabilidade medida de incumprimento e por aí em diante até ao colapso completo da carteira e, consequentemente, do banco.»
Este outro trecho, do mesmo verbete, reflecte uma visão academista da economia, por um lado, e, por outro lado, de um tipo de visão da economia específica em relação a um mercado português. ¿Onde está, no trecho, o “problema” daquele raciocínio?
Em primeiro lugar, quando os custos da Banca aumentam (por exemplo, em tempos de crise), a Banca deveria começar por cortar nos seus próprios custos fixos, em vez de preferir aumentar spreads aos seus clientes. Mas a tradição da Banca portuguesa não é esta: qualquer sinal de crise, mesmo que não exista de facto e seja um fogo fátuo, serve e serviu sempre para aumentar spreads.
Em segundo lugar, os clientes não são todos iguais, ou, pelo menos, nem todos “incumprem” da mesma maneira; por exemplo, alguns oferecem garantias e outros nem tanto. Portanto, o aumento de spreads, entendido em si mesmo como política de gestão de crédito — em tempo de crise, ou não —, não faz sentido (a não ser na tradição bancária portuguesa que, sempre alcantilada no Estado e sob a protecção do Estado, transforma sistematicamente o spread bancário em um fim em si mesmo, e não em um meio de desenvolver o negócio).
Em terceiro lugar, em tempo de crise, quando toda a gente ganha menos, a Banca não pode aspirar a ganhar o mesmo que ganhava antes da crise. Isto é uma evidência: tão evidente quanto é evidentemente estúpido alguém defender que se deve matar a galinha dos ovos de ouro. O problema é de racionalidade na gestão de crédito, e esta racionalidade depende das pessoas que gerem a Banca portuguesa que, na maior parte das vezes, não têm uma noção da economia real (estão fechadas em gabinetes).
Em relação ao primeiro trecho (com o qual concordo, no geral):
1/ a ideia segundo a qual, “ao longo da História, o povo engana-se menos vezes do que as elites”, corresponde a uma verdade (de La Palisse). E a razão da maior asneira por parte das elites está na tentativa, da parte destas, de “transcender o fenómeno” (na linguagem de Husserl). Normalmente, o chamado “povo inculto” olha para um fenómeno de forma a constatar a sua evidência imanente (a noção de “imanência inclusa”, de Husserl): a “coisa” (o fenómeno) apresenta-se-lhe ao conhecimento de forma evidente e, por isso, de forma imanente — o que se traduz na ideia popular segundo a qual “as coisas são o que são”.
Em contraponto, as elites, já imbuídas de um tipo de conhecimento naturalista que lhes envenena o espírito, procuram no fenómeno aquilo que (aparentemente) o transcende (aquilo que está para além do fenómeno, ou que está “oculto” no fenómeno), o que faz com que a asneira seja mais provável de acontecer no juízo das elites.
2/ as elites utilizam sistematicamente a seu favor o conceito de “autoridade de direito”, em oposição à “autoridade de facto”. E, através da “autoridade de direito”, as elites impõem a asneira a toda a sociedade através de um mecanismo cultural que Georg Simmel chamou de “Trickle-down Effect”, por um lado, e, por outro lado, através da estimulação contraditória que conduz a uma dissonância cognitiva transversal a toda a sociedade.
A nossa esperança é que o povo não deixe de ver no fenómeno a sua evidência imanente.