Na polémica em torno de Aleksandr Dugin, devemos optar por uma análise crítica, em vez de ceder a qualquer ideologia. Ambas as partes — os chamados “euro-asianos” russos, por um lado, e os neocons americanos, por outro lado — utilizam o argumento da “legitimidade” na sua propaganda política. Isto leva-nos a uma situação de double blind.
A narrativa de ambas as partes escora-se em um jogo de sombras e de alegados “factos” que não estão comprovados. ¿O que se passou, realmente e em detalhe, na praça Maidan, em Kiev? A verdade é que não sabemos ao certo; e se os factos estão a ser manipulados, de um lado e do outro, não devemos ter opinião baseada em terias da conspiração (de ambos os lados).
Sabemos o seguinte (isto são factos):
1/ o regime de Kiev derrubado era altamente corrupto e era apoiado politicamente pela Rússia.
2/ o regime de Kiev foi derrubado com o apoio da CIA e dos neocons americanos.
3/ os Estados Unidos pretendem que a Ucrânia passe a integrar a NATO (ou OTAN), à revelia dos tratados entre os Estados Unidos e a Rússia acerca da Ucrânia. Ou seja, os Estados Unidos dão, agora, o dito pelo não dito.
4/ a extrema-direita ucraniana (neonazi) apoiou o golpe-de-estado ucraniano apoiado pelos Estados Unidos.
5/ a ideologia de Aleksandr Dugin é anti-judaica (ou anti-semita, se preferirem).
6/ o Cristianismo de Aleksandr Dugin é instrumental: é um meio de acção política e ideológica, e não um fim em si mesmo. O pensamento de Dugin é determinista e gnóstico, o que está em profunda contradição com o Cristianismo propriamente dito.
7/ tal como os nazis alemães pensavam a raça alemã como sendo uma raça superior, o euro-asianismo de Aleksandr Dugin pensa a raça eslava como sendo uma raça superior.
8/ os neocons americanos e a CIA têm cometido erros sucessivos com as intervenções em vários países do mundo: Kosovo, Iraque, Líbia, Síria, e agora na Ucrânia. Isto é um facto. A exportação da “democracia” é vista pelos neocons americanos como uma forma de controlo político de outros países. Ou seja, para os neocons, a democracia não é um fim em si mesma, mas antes um meio de controlo político, cultural, económico e social de outros países.
E, por outro lado, os Estados Unidos — que têm, por exemplo, a pena de morte — utilizam sistematicamente o argumento dos “direitos humanos” para poderem intervir em outros países (por exemplo, no Panamá, em 1989). Ou seja: para os Estados Unidos não são os direitos humanos, considerados em si mesmos, que contam: o que conta é aquilo que se pode controlar económica e politicamente utilizando o argumento dos “direitos humanos”.
9/ de um lado e doutro, não são “flores que se cheirem”. Qualquer pessoa que tome partido nesta contenda, está comprometida ideologicamente (ideologia política) com uma das duas agendas políticas. Isto também é um facto.