Eu não simpatizo com o João Galamba; mas devo reconhecer que ele é coerente em relação a ideias com as quais eu não concordo. É coerente do princípio ao fim, e essa coerência pode até incomodar certas pessoas — como, por exemplo, parece incomodar o João Miguel Tavares que, de coerente, tem quase nada.
A mim não me incomoda — “absolutamente” nada! — a coerência do João Galamba: como sabemos, uma doutrina ou/e um sistema de ideias têm muitas vezes uma coerência interna que aparentemente a legitima. Por exemplo, o sistema hegeliano tem uma coerência lógica interna que desafia a crítica do espírito mais agudo. Mas a dialéctica de Hegel, quando aplicada à Realidade, não resiste à crítica racional — ainda mais quando já se sabe hoje muita coisa acerca da realidade quântica!
No caso do João Miguel Tavares, e em função das suas (dele) mais incoerentes tomadas de posição públicas — por exemplo, ¿como é possível conciliar o capitalismo propriamente dito, por um lado, com a destruição (na cultura antropológica) da família natural, por outro lado? ¿Como é possível ser-se simultaneamente apaniguado dos “pequenos passos” hegelianos da revolução na cultura antropológica, segundo a doutrina do marxista Gramsci, e simultaneamente defender o capitalismo que se fundou na família natural calvinista, segundo Max Weber? —, ainda me é mais repelente, porque ele orienta-se exclusivamente segundo a moda do Zeitgeist.
No João Galamba não há (apenas) moda: antes, há sobretudo a “lógica de uma ideia” (segundo o conceito de Hannah Arendt em relação às ideologias). Em contraponto, no João Miguel Tavares há a necessidade de “parecer bem”, nem que se tenha de defender simultaneamente uma coisa e o seu contrário. Ou seja: respeito muito mais o João Galamba.