«Lucas Pires argumenta que a “eutanásia é uma visão utilitária da vida” e esquerda “devia ser contra”, tal como é contra o consumismo noutras áreas.»
→ “Eutanásia é uma visão utilitária da vida” e esquerda “devia ser contra”
O Jacinto Lucas Pires está equivocado: nem toda a Esquerda tem uma “visão utilitária da vida”.
O único partido da Esquerda que (ainda) não é utilitarista é o Partido Comunista; aliás, na esteira do próprio Karl Marx, que dizia que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.
O próprio Álvaro Cunhal (o ex-Secretário-geral do Partido Comunista), no seu livro “O Aborto - Causas e Soluções”, confessa que hesitou muito — e reflectiu ainda mais — antes de defender a legalização do aborto, precisamente por causa do carácter utilitarista da lei do aborto (e, por isso, não consentâneo com a pureza da doutrina marxista).
Toda a doutrina utilitarista encontra-se condicionada por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si:
- uma proposição positiva (axiomática de interesse próprio), que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista — por exemplo, Rui Rio do PSD ou José Pacheco Pereira; “libertários” de Esquerda que mais não são do que prosélitos do marxismo cultural, como Rui Tavares; a maioria da elite do Partido Socialista; e grande parte dos militantes do Partido Social Democrata;
- e uma proposição normativa (axiomática sacrificialista), que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do "maior número" — por exemplo, Catarina Martins do Bloco de Esquerda, alguns quadros do Partido Comunista (excluindo Jerónimo de Sousa);
Todo o utilitarismo mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é simultaneamente um encantamento pelo egoísmo e uma apologia do altruísmo, e tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente colectivista, globalizada e holista.
Bloco de Esquerda, Partido Socialista, e PSD actual são partidos que perfilham o princípio ético de Bentham — o da “maior felicidade para o maior número possível”: mas quem não faz parte do “maior número” … está f*d*d*!