Hoje está na moda, nos círculos intelectualóides de língua inglesa, escrever CE (Common Era) em vez de AD (Anno Domini). Certos intelectualóides de urinol portugueses traduziram a palavra para E.C. (Era Comum), em vez de d.C. (Depois de Cristo).
Ora, acontece que CE (Common Era) é a mesma coisa que AD (Anno Domini); significam o mesmo.
Seria semelhante que chamasse de “Manel” ao “Manuel”: o objecto das duas palavras é o mesmo (o homem em causa é o mesmo). A razão de se substituir o nome de uma mesma coisa, por outro nome com o mesmo significado, neste caso concreto só se pode atribuir a uma estaurofobia aguda e patológica. Ou então pretende-se eliminar o conceito de “símbolo” e substitui-lo por meros sinais que são essencialmente aleatórios e arbitrários — o que entra em profunda contradição com a teoria marxista da “Reificação” (Karl Marx, Lukacs –> Escola de Frankfurt) que critica precisamente a de-simbolização e a coisificação da realidade humana.
Imagine o leitor que eu não gosto da palavra “pau”, por razão de uma determinada conotação sexual, e passo a chamar-lhe “trintrim”.
Ora, a mudança de nome não retira ao “pau” a sua natureza intrínseca que é a de “um ramo de árvore” ou “vara”. Não é por eu lhe chamar “trintrim”, em vez de “pau”, que o objecto em causa deixa de ser “um ramo de árvore” ou “vara”.
Quem muda os nomes às coisas, acreditando (patologicamente) que a realidade muda com a mudança de nomes, é um apóstolo consciente ou inconsciente do movimento revolucionário que se desenvolveu, em forma “hardcore”, com os jacobinos na Revolução Francesa e com o positivismo de Augusto Comte, e mais tarde (em modo “intelectualóide”) com Karl Marx.
O marxismo sempre teve um problema em relação aos “factos”.
Karl Marx escreveu que “a ciência burguesa é ideologia”, e que a verdadeira ciência jaz no método filosófico estabelecido no “Das Kapital” que penetra “por detrás das aparências” (gnose) até à essência social que a burguesia quer esconder. Ou seja, para Marx a ciência experimentalista é ideologia, e o materialismo dialéctico do “Das Kapital” é a verdadeira ciência.
Marx tinha uma certa aversão aos factos e à realidade.
Lenine dizia que “os factos são teimosos” – em sentido crítico em relação aos factos, e no sentido em que seria necessário criticar e até combater os factos. Lukacs escreveu (“História e Consciência de Classe”, 1923) que “o empiricismo é uma ideologia burguesa” — “empiricismo” tomado no sentido de experimentação científica, e tudo isto no sentido de se tentar salvar o marxismo dos malditos assaltos provenientes da Realidade.
É neste contexto de animosidade marxiana — em relação aos factos e ao empírico — que se desenvolveu o cientismo controlado pela ideologia, por um lado, e a anti-ciência inerente ao desconstrutivismo relativista radical de Derrida e de Foucault em relação à verdade na ciência que tem marcado a Esquerda radical a partir do fim da década de 1970, mas que se exacerbou a partir da queda do muro de Berlim.
A partir da queda do muro e com a derrocada do comunismo, os neomarxistas passaram a atacar a sociedade pelos flancos: por exemplo, através da imanentização do éschatos na cultura antropológica procurando a destruição das economias ocidentais utilizando a ideologia do Aquecimento Global, ou minando culturalmente as instituições por dentro sem deixar impressões digitais.
Quando se faz um esforço para mudar o nome de “pau” para “trintrim” sem se mudar a natureza física e ontológica do objecto do nome (“um ramo de árvore” ou “vara”), pretende-se alterar a realidade na qual o referido objecto persiste enquanto facto.
Ou seja, pretende-se mudar a cultura humana (a cultura antropológica, na sua relação com os objectos) — sem que daí resulte uma mudança da natureza intrínseca dos objectos: a realidade não muda, mas os idiotas intelectuais acreditam que ela mudou com a mudança do nome.
Ser de Esquerda é lutar encarniçadamente contra a História e contra a Natureza Humana.
A ideia — dos herdeiros culturais do marxismo (conscientes) — é a de que ao usar o nome CE (Common Era) em vez de AD (Anno Domini), a memória histórica de Jesus Cristo, na cultura antropológica, desaparece do conceito de início da contagem do tempo da actual Era.
Seria como se o sistema político procurasse cobrir / tapar as cruzes e crucifixos de todas as igrejas do país para assim ocultar (na cultura antropológica) a origem cristã da nossa cultura que é espelhada nos edifícios públicos. Isto já foi tentado na União Soviética, sem sucesso; mas os idiotas não desistem.