A elite “intelectual” portuguesa está a trabalhar afincadamente para transformar a cultura portuguesa em um deserto — ou, neste caso, numa mancha de floresta amazónica que não distingue a diversidade da vegetação.
Chamo aqui à colação um tal Carlos Rocha, que, alegadamente, é «Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.»

Este senhor “intelectual” português classifica, como sendo uma expressão linguística de bom português, a expressão “em meio a” — apenas porque uma universidade brasileira sanciona a expressão. Ou seja, se um dia a UNESP vier a terreiro dizer que “o Tupi Guarani faz parte da língua portuguesa”, o senhor Carlos Rocha, como bom “intelectual” português, irá dizer “ámen” e assinar por baixo (com as duas mãos).
É isto que temos. O Ciberdúvidas transformou-se em organismo acrítico que se limita a ratificar as decisões brasileiras acerca da língua que é suposta ser portuguesa. Não é aceitável que um “mestre em Linguística” português sancione uma qualquer expressão idiomática como sendo “portuguesa”, apenas porque consta de um dicionário brasileiro mais ou menos obscuro.
A expressão “em meio a” é tão portuguesa como a expressão “toda semana” que vemos aqui em baixo.
O jornalismo brasileiro começa já a ter problemas com o plural sintáctico: em vez de “todas as semanas”, o intelectual brasileiro já adopta “toda semana”: de uma assentada, o jornalista e o intelectual brasileiro eliminam o plural e o artigo definido.
Os intelectuais portugueses, maioritariamente de Esquerda, estão a trabalhar para a desertificação da língua portuguesa: por isso é que a literatura portuguesa actual é um deserto: vou a uma livraria e só se edita e publica esterco como sendo “literatura portuguesa”.
Ou, como escreveu Virgílio na Eneida, “apparent rari nantes in gurgite vasto”: os escritores portugueses de qualidade desaparecem num mar vasto de mediocridade onde impera agora a vulgaridade confrangedora da língua brasileira.

