segunda-feira, 2 de março de 2015

A Raquel Varela e a prostituição feminina

 


A julgar pelas perguntas que a Raquel Varela faz aqui acerca da prostituição, talvez ela precise de ler o “Tratado da Natureza Humana” de David Hume — não porque  o livro tenha alguma coisa de positivo, mas pelo que ele tem de negativo.

“Dizem por aí que vender sexo é um trabalho como outro qualquer…

A mais velha profissão do mundo é…caçador-colector, pescador, cozinheiro, ama ou cuidador, vigia…A prostituição é histórica, como tudo. Não é natural. E por isso não tem que ser eterna. O sexo, sim, é natural. E também histórico, ou seja, a forma como o vivemos/fazemos muda no seio das relações que vivemos, e com quem vivemos.”

→ Raquel Varela

Podemos perguntar: ¿onde é que a História se desliga da Natureza Humana?

Do que estamos a falar é da Natureza Humana, e não da natureza do mundo animal, em geral. Ou seja, se a prostituição é histórica, então pertence à  Natureza Humana — a não ser que a Raquel Varela faça coincidir a História com a descoberta da escrita, e na medida em que a Natureza Humana não surgiu, como que por milagre, com a descoberta da escrita.

Através da sociobiologia, existe hoje uma tendência para desconsiderar a Natureza Humana enquanto tal, e inserir a natureza do ser humano no contexto do mundo animal em geral (falácia de apelo à natureza).

trafico-de-mulheresÉ certo que as mudanças económicas, ao longo da existência do homo sapiens sapiens, foram alterando os “faróis” da cultura antropológica; mas a Natureza Humana não mudou, e é por isso que quando acontece um pequeno tremor de terra, por exemplo, até o mais famoso cientista e racionalista se comporta com a irracionalidade de um homem do neolítico.

Se acontecesse hoje uma hecatombe à  escala global em que a humanidade fosse praticamente extinta (por exemplo, o embate de um asteróide no nosso planeta), um grupo sobrevivente de professores universitários de Harvard voltaria à  sobrevivência do neolítico, e passadas algumas gerações, a tecnologia actual faria parte de um mito religioso qualquer.

Portanto, e ao contrário do que escreve a Raquel Varela, a prostituição é natural, no sentido da Natureza Humana. Mas nem tudo o que é natural (no sentido da Natureza Humana), é positivo ou é bom: é esta a confusão que parece urdir na cabecinha da Raquel Varela. Pensa ela que o natural é bom (excepto nos casos em que não é bom porque alimenta a sua — dela —  dissonância cognitiva); e o que não é boa, é a História. Ela dissocia da Natureza Humana, por um lado, da História (em sentido geral, que englobe a Pré-história), por outro  lado.

Essa dissociação tem a ver com a interpretação errada e enviesada que Engels fez da História e da Natureza Humana. Quem não faz uma leitura crítica de Engels, acontece-lhe isso.

Raquel Varela concebe os primórdios da humanidade à maneira de Rousseau com o seu “bom selvagem”; porém, quando os primeiros missionários jesuítas portugueses chegaram ao interior do Brasil, descobriram que existia prostituição “legalizada” entre os índios “incivilizados”: era normal um marido índio permitir que a sua esposa se deitasse com um outro homem da tribo em troca de trabalho deste. Isto também faz parte da História — daquela História que a Raquel Varela não gosta porque lhe causa dissonância cognitiva.

Erradicar a prostituição é utopia: ela desaparece de um contexto social e aparece noutro, o que nos dá a sensação ilusória de que tinha desaparecido; mas apenas muda de forma e método. Por exemplo, nos países nórdicos, que dizem ter erradicado a prostituição, esta reaparece em um contexto muitíssimo mais difícil de prova jurídica através do conceito de “liberdade sexual e de género”. Mudam-se os nomes às coisas mas mantém-se a Natureza Humana. A mulher nórdica já não se passeia pelas esquinas, mas encontra-se “ocasionalmente” com os “amigos” nos bares, clubes de futebol e em restaurantes finos.


Em relação à  pedofilia, Jesus Cristo afirmou o seguinte:

“ É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causa! Melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem ao mar, do que escandalizar um só destes pequeninos.” »

— (S. Lucas, 17, 1 – 2).

Repare-se na asserção de Jesus Cristo: “é inevitável que haja escândalos.” É inevitável. Faz parte da Natureza Humana. Mas ¿será que, porque é inevitável, vamos legalizar a pedofilia? Genericamente, a Esquerda concorda com a legalização daquilo que é “inevitável”; senão vejamos o que escreve a Raquel Varela:

“Sou a favor da legalização da prostituição, por isso. Mas contra a prostituição.”

Cá está a dissonância cognitiva da Raquel Varela. É favor, mas é contra. O princípio da não-contradição é colocado em causa. Não há lógica que resista à  mente revolucionária!

Legalizar a prostituição é legitimá-la, na cultura antropológica, através do Direito. Legalizar a prostituição é reduzir a mulher a uma hierodula moderna sacrificada nos altares do utilitarismo. E quando eu digo “mulher”, são “todas as mulheres”, porque não há mulheres ontologicamente diferenciadas aquando do nascimento.

Mas a alternativa à  legalização da prostituição não é a perseguição política das prostitutas — como acontece hoje nos países nórdicos, porque isso não vai resolver o problema. O problema tem que ser colocado no plano ético — nas escolas —, em vez de ser exclusivamente tratado no âmbito da política.

A prostituição combate-se com a educação escolar da ética cristã, mesmo sabendo de antemão que a prostituição será inevitável, e que haverá sempre (mesmo com a melhor educação possível) uma pequena franja da sociedade que enveredará por esse modo de vida nada dignificante.

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