Em latim, em algumas declinações, as palavras eram pronunciadas da mesma maneira; por exemplo, ânus e ano:
Multi anni elapsi sunt (muitos anos passaram)
e
Ani orificium non hominibus loquitur (o orifício anal não produz discursos)
Os romanos tiveram, neste exemplo (mais há muitos mais), a preocupação de separar o cu, por um lado, e a cronologia temporal, por outro lado. Parece-me um exercício saudável, da parte dos romanos: é que, normalmente, o cu não tem nada a ver com as calças. Embora as duas palavras se pronunciassem de forma idêntica, as duas grafias eram diferentes. Os romanos eram inteligentes.
No português acordita, temos, por exemplo, a palavra “espetadores”, que se refere simultaneamente àqueles que espetam qualquer coisa, e àqueles que assistem, por exemplo, a uma tourada. Ou seja, numa tourada há dois tipos de “espetadores”: os bandarilheiros e o público das bancadas. Os romanos eram mais inteligentes.
Existem muitas pessoas que parece que não sabem sequer que a língua portuguesa teve origem no latim, por um lado, e por outro lado, e contra a ideia etimológica, defendem o princípio segundo o qual se deve escrever conforme se fala. Se os romanos escrevessem conforme se fala, confundiriam o Cu do Senhor com o Ano do Senhor; mas os romanos eram inteligentes.
E dizem os actuais “inteligentes” que a crítica ao Acordo Ortográfico é “afetiva”, e, alegadamente, se deve escrever conforme se fala. E escrevem este relambório todo para tentar esconder o verdadeiro problema: é um absurdo que se defenda que uma língua se deve escrever conforme se fala. Este princípio está errado.
Portanto, o problema não é “afetivo”: antes, é um problema racional e de respeito pela razão. É que Ano Regis não é a mesma coisa que Anno Regis. Embora Ano e Anno se pronunciem da mesma maneira, Ano Regis significa “o cu do rei”, e Anno Regis “o ano do rei”.