Perante uma dissonância cognitiva — porque o José Gomes Ferreira (o Topo Gigio) sabe que o manifesto dos 70 tem razão de ser —, o Topo Gigio constrói uma narrativa imensa em que mistura alhos com bugalhos, e que convenientemente a Helena Matos reproduz aqui.
O argumentário começa pelo “timing” do manifesto: é inconveniente, diz o Topo Gigio (talvez porque aparece antes das eleições europeias, e porque não foi da iniciativa do Partido Social Democrata de Passos Coelho). Quando não nos queremos confrontar com a realidade concreta e objectiva, e pretendemos fugir aos problemas, normalmente dizemos que o “momento não é oportuno”. Em vez de enfrentarmos o touro pelos cornos, preferimos uma pega de cernelha.
Depois, em função de uma petição de princípios, que é o manifesto (porque não passa de uma petição de princípios), o Topo Gigio entra em delírio interpretativo, construindo uma narrativa que imputa ao manifesto aquilo que o manifesto não diz. E, o mais grave: o Topo Gigio diz claramente que a democracia acabou em Portugal: o temor em relação aos “mercados” tolheu a democracia nos próximos trinta anos! E, depois, os “faxistas” são os outros...!
Segundo o Topo Gigio, a reestruturação da dívida tem que ser discreta. Não se pode falar nela. É tabu. “Não se pode anunciar ao mundo”. É matéria esotérica de apresentador de televisão em miniatura. O povo português não tem direito a informação e muito menos a ter opinião. E os “faxistas” são os outros...!
Finalmente, o Topo Gigio entra na estória habitual: a culpa dos socialistas e de José Sócrates (que é real!) justifica absolutamente quaisquer erros da governança de Passos Coelho! Este discurso de branqueamento da actual política significa um insulto sistemático à inteligência dos portugueses. Ao Topo Gigio só lhe falta dizer que a culpa foi de Salazar, e que o grande líder Passos Coelho está a resgatar os erros de D. Afonso Henriques...!