quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos

 

Podemos ver nas epístolas de S. Paulo — por exemplo, 1 Tess 5, 23 — uma referência à iniciação mística da Antiga Aliança (Antigo Testamento) através dos conceitos de corpo (sôma) e de alma (psychê).

Mas S. Paulo (na esteira das instruções deixadas por Jesus Cristo) e os apóstolos acrescentaram, a estes dois conceitos, os conceitos de Nous (mente superior) e pneûma (espírito), ou seja, S. Paulo traduziu em linguagem corrente (tanto quanto possível) os Mistérios Cristãos, mais elevados do que os anteriores Mistérios, e análogos para ambos os sexos e para todas as castas e raças — o intelecto superior (Nous) e o espírito (pneûma) são idênticos tanto para o homem como para a mulher, embora os respectivos corpos (sôma) seja polarmente diferentes, assim como as respectivas almas (psychê).

Por isso é que, nos mistérios antigos (anteriores aos Mistérios Cristãos, sejam pagãos ou judaicos), as iniciações eram diferenciadas de acordo com os sexos, as funções, as castas; porque implicavam apenas o sôma e a psychê — ao passo que a iniciação dos Mistérios Cristãos, que envolve o Nous e o pneûma (para além do sôma e da psychê) não exclui ninguém que deseje preparar-se para a receber.

Porém, segundo S. Paulo, a iniciação nos Mistérios Cristãos difere da gnose, por um lado, e do hermetismo, por outro lado, porque se baseia no conceito de “Graça”. Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos quando separou a fé, por um lado, da acção humana, por outro lado; mas Lutero não chegou ao ponto absurdo da predestinação calvinista que surgiu depois (esta sim!, de total orientação gnóstica).


A ideia segundo a qual Lutero foi o “fundador da gnose” (que o Pedro Arroja cita) é patética. E a ideia de que “a maçonaria foi buscar a sua filosofia a Espinoza e a Locke”, é um simplismo.

Dos movimentos protestantes, alguns tiveram forte influência gnóstica (por exemplo, o Calvinismo, que deu origem, mais tarde, aos puritanos iconoclastas ingleses e holandeses), mas já não podemos dizer o mesmo do luteranismo.

A maçonaria (em geral) sofre influência do hermetismo (e não do gnosticismo) que, à semelhança da ortodoxia católica, admite que a razão humana pode, de certo modo, alcançar Deus.

O Deus hermético é mais pessoal e menos abstracto do que o Deus gnóstico (que se distingue do demiurgo gnóstico): o Deus hermético (o “Grande Arquitecto” da maçonaria) “é o Pai de todas as coisas, criou o ser humano à sua própria semelhança e amou-o como seu próprio filho” (Poimandres, C.H. I,1).

Não significa isto que algumas correntes maçónicas — por exemplo, as lojas maçónicas irregulares, como o GOL (Grande Oriente Lusitano) — tivessem optado pela “religião natural” que esteve na base do deísmo que alimentou a revolução francesa e a americana. Mas a esmagadora maioria das correntes maçónicas baseia-se no hermetismo, e não no gnosticismo. Mas os mistérios maçónicos ou herméticos (iniciação maçonica) são uma regressão espiritual em relação aos Mistérios Cristãos.

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