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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O Anselmo Borges e os mitos acerca de Lutero

 

O Anselmo Borges escreve aqui um textículo acerca de Lutero. Como sempre, nele, aplica-se o poema do Aleixo: “Prá mentira ser segura / e atingir profundidade, / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. No caso do texto em análise, a maior parte dos factos narrados são verdadeiros, “mas o diabo está nos detalhes”.

mascara-de-morte-de-lutero-web1/ O Anselmo Borges começa por “abençoar” o Lutero por este se ter indignado contra a política papal-mendicante das indulgências; mas, logo a seguir, o Anselmo Borges reconhece que o Lutero apoiou a repressão da revolta dos camponeses alemães que causou “a morte a mais de cem mil camponeses”.

Para Lutero, os fins justificavam quaisquer meios; e os fins passavam pela unificação política da Alemanha. Lutero foi o precursor de Fichte e de Hegel.

Ou seja, Lutero foi um filósofo político, e não propriamente um teólogo. Foi a política (no sentido mais redutor) que o motivou e o orientou. A própria doutrina teológica de Lutero é incoerente (ao contrário do que se passava com a doutrina católica de antanho), e foi essa incoerência dele que alimentou a Contra-reforma.

2/ É certo que o papado do Renascimento, em geral, deixou muitíssimo a desejar; mas a verdade é que o movimento de Lutero foi político, embora invocando incoerentemente princípios religiosos e teológicos. Portanto, é absurdo que o Anselmo Borges nos dê a ideia de que Lutero não desejava a ruptura com a Igreja de Roma, e que foi obrigado a isso por amor aos princípios teológicos da Igreja — os princípios que nortearam Lutero foram estritamente políticos, embora deitasse mão de argumentos teológicos e éticos para os justificar. A própria defesa da Bíblia em língua alemã (proposta por Lutero) teve intenções políticas, porque foi com Lutero que surgiu o HochDeutsch (que passou a unir culturalmente os alemães) em oposição aos muitos PlattDeutsch regionais (falta ao Anselmo Borges formação em Germânicas).

3/ Lutero foi um “teólogo” que se suicidou — coisa rara, aliás... não me lembro de um outro teólogo cristão que se tenha suicidado. Provavelmente, se Lutero fosse vivo hoje seria adepto da legalização da eutanásia.

Sabemos o que a doutrina da Igreja Católica sempre afirmou acerca do suicídio. Ao contrário do que defende o Anselmo Borges, não existem praticamente “efeitos positivos” da doutrina de Lutero, nem podemos dizer que Lutero defendeu a liberdade em si mesma, porque a sua nova doutrina submeteu a nova igreja alemã ao poder do príncipe (ou seja, do Estado).

4/ Dizer que “Lutero defendeu a liberdade” é um eufemismo de muito mau gosto, quanto mais não seja porque o conceito católico e tomista de “liberdade” foi anulado pela teoria pseudo-teológica de Lutero, substituído por um determinismo implícito que floresceu exuberantemente mais tarde nas teorias de Calvino.

“Para poder abusar da sua liberdade, o Homem necessita de se converter a doutrinas deterministas.
O Homem só se rende aos seus demónios quando crê ceder a um decreto divino. O determinismo é a ideologia das perversões humanas”.
Nicolás Gómez Dávila

5/ A “força da música na liturgia” (a polifonia) nasceu na Igreja Católica francesa, no decorrer do século XV. Ao contrário do que diz o Anselmo Borges, a maioria dos reformadores fez tudo para aniquilar o acompanhamento musical da missa (o Anselmo Borges tem lacunas no conhecimento acerca da Idade Média). A maior parte dos que (nos séculos XV e XVI) contribuíram para o acompanhamento musical polifónico da missa eram católicos extremamente ortodoxos.

Em 1500 (antes de Lutero) a missa polifónica era muitas vezes composta por melodias seculares, embora permanecendo na órbita do sagrado — e por isso foi vigorosamente atacada pela maioria dos reformadores. É certo que o Concílio de Trento propôs a abolição da polifonia na missa, mas depois recuou perante a Missa Papae Mercelli, de Palestrina.

Erasmo de Roterdão (um católico progressista daquela época, que foi convidado pessoalmente por Lutero a aderir à “Reforma”, mas não aceitou o convite) não encontrava justificação para a polifonia nas escrituras cristãs, e achava que a música cristã se deveria confinar ao canto dos salmos e nada mais do que isso. Esta ideia de Erasmo viria a dominar a atitude da maior parte dos reformadores do século XVI e a influenciar católicos como Thomas More. Por exemplo, o Requiem durante a missa foi uma invenção pós-tridentina inspirada pela insistência da Contra-reforma na missa entendida como um sacrifício — o que Lutero negou: para Lutero, a missa não era nunca um sacrifício, mas era toda ela um sacramento.

Em suma: a ideia de Anselmo Borges segundo a qual “a força da música na liturgia” foi um fenómeno luterano, é falsa.


Imagem: máscara de morte de Lutero. Texto do Anselmo Borges em ficheiro PDF.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Lutero foi um homicida, e suicidou-se

 

“O Dr. Dietrich Emme, em seu livro: "Martinho Lutero - sua juventude e os seus anos de estudos, entre 1483 e 1505", Bona, 1983, afirma que Lutero entrou no Convento só para não ser submetido à justiça criminal, cujo resultado teria sido, provavelmente, a pena de morte, por ter matado em duelo um seu colega de estudos chamado Jerónimo Buntz.

(…)

Lutero tinha um temperamento extremamente mórbido e neurótico. Depois de sua revolta contra a Igreja, a sua neurose atingiu os limites extremos. Estudos especializados lhe atribuem uma "neurose de angústia gravíssima", do tipo que leva ao suicídio (Roland Dalbies, em "Angústia de Lutero").

O suicídio de Lutero é afirmado tanto por católicos como por protestantes.”

Martinho Lutero, homicida e suicida

A Igreja Católica do filho-de-puta do Chico: católicos são expulsos da igreja por rezarem o terço

 

Dia 28 de Outubro de 2017, na catedral católica de St. Michael e St. Gudula em Bruxelas, Bélgica, rezava-se uma missa protestante em celebração dos 500 anos da revolução luterana. A missa foi conduzida pelo pastor protestante Steven Fuite, e nela estava presente o cardeal “católico” e Arcebispo de Bruxelas, Jozef De Kesel.

Um grupo de jovens católicos que rezava o terço foi expulso da igreja por ordem do próprio cardeal “católico”.

 

domingo, 29 de outubro de 2017

A opinião do cardeal de Lisboa — D. Manuel Clemente — acerca de Lutero, é anticatólica

 

Ando tão afastado da actual Igreja Católica do papa Chiquinho que nem sabia que o Bispo de Lisboa já tinha recebido o cardinalato. E leio a notícia: «Cardeal Patriarca de Lisboa vê Lutero como "grande fonte de inspiração"».

A opinião do cardeal de Lisboa acerca de Lutero é totalmente falsa. D. Manuel Clemente não resistiria a 5 minutos de troca de texto comigo. Aliás: a opinião do cardeal de Lisboa é anticatólica.

Toda a gente sabe que a chamada “Reforma” de Lutero teve um fundamento político, e não propriamente teológico.

Por isso é que o cardeal de Lisboa mente. E a prova disso é que grandes porções da Alemanha (por exemplo, a Baviera) manteve-se católica apesar de Lutero, porque a política bávara não seguiu o paradigma político dos príncipes alemães do norte.

O cardeal de Lisboa segue, de forma canina, a opinião anticatólica do papa Chiquitito acerca de Lutero. Se o Chico fosse da opinião que nos devêssemos lançar a um poço, o cardeal de Lisboa seria o primeiro a lançar-se ao poço.

O que o cardeal de Lisboa faz de conta que não sabe (ou, se calha, não sabe mesmo!) é o seguinte:

  • Lutero separou a Fé, por um lado, e a Razão, por outro lado.
  • Lutero separou a acção humana, por um lado, das consequências dessa acção, por outro lado.

Por favor leiam dois textos que reduzem o cardeal de Lisboa à insignificância intelectual que ele merece:

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Carlos Fiolhais e Lutero

 

É preciso que alguém diga ao Carlos Fiolhais que a tese de Max Weber acerca do capitalismo não se relacionava com o luteranismo, mas antes com o Calvinismo. É claro que, para o Carlos Fiolhais, “é tudo protestantismo”. Mas o luteranismo é bastante diferente do Calvinismo.

Também é falso que “a Europa do norte se tenha desenvolvido mais rapidamente do que a do sul” — como diz o Carlos Fiolhais .

Em princípios do século XIX, a Prússia (Alemanha) luterana ainda vivia em um sistema feudal.

Quem se desenvolveu mais depressa foi a potência marítima inglesa (depois da revolução inglesa da segunda metade do século XVII, em que se separou o Estado e a Igreja [John Locke], o que não aconteceu na Alemanha e noutros países nórdicos até ao final do século XIX); e não consta que “o norte da Europa” se reduza à Inglaterra.

E, a par com a Inglaterra, foi a França latina e do sul que comandou o progresso nas ciências e na cultura do século XIX; e no princípio do século, o alemão Hegel tecia loas a Napoleão como o “salvador do mundo”; só com Bismarck a Alemanha começou a levantar-se do chão, e à custa de sucessivas guerras que acabaram em Hitler.

Comparar Lutero com Santo Agostinho (ou mesmo com S. Tomás de Aquino) só pode vir de uma mente alienada.

Mas de nada nos vale dizer que o Carlos Fiolhais não percebe pívia do assunto: é ele que tem acesso aos me®dia, tem um alvará de inteligente, e ninguém o contradiz porque a atitude da elite portuguesa é (e quase sempre foi) corporativista.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O Pedro Arroja devia dedicar-se à economia

 

Um dia destes hei-de escrever aqui sobre as façanhas dos Papas da Renascença (século XV) que deram razões a Lutero — a ver se o Pedro Arroja se dedica à economia e deixa filosofia e a História em paz. O Pedro Arroja escreve:

“Portugal, nos últimos anos, pela via do socialismo e da dominância da Alemanha na União Europeia, tem vindo a importar o luteranismo, com todas as suas consequências. Foi o luteranismo que deu origem à ideologia socialista (pela mão, em primeiro lugar, do filósofo alemão Immanuel Kant), a qual é, na realidade, um luteranismo laico, um luteranismo sem "Deus". (Kant era um luterano convicto, um luterano pietista)”.

O luteranismo legitimou (teologicamente) a taxa de juro bancária e a usura (contra uma grande parte da Igreja Católica, que não via a usura bancária com bons olhos), e vem o Pedro Arroja dizer que foi “o luteranismo que deu origem à ideologia socialista”.

E mais: Kant foi um liberal, tanto na economia como nos costumes:

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo — tal o do pai para com os seus filhos, quer dizer, um governo paternal —, onde, por consequência, os sujeitos, tais filhos menores, incapazes de decidir acerca do que lhes é verdadeiramente útil ou nocivo, são obrigados a comportar-se de um modo unicamente passivo, a fim de esperar, apenas do juízo do chefe do Estado, a maneira como devem ser felizes, e unicamente da sua bondade que ele o queira igualmente — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber.”

→ Kant, “Teoria e Prática” (1793)

Kant critica aqui o Camaralismo ou Wohlfahrtsstaat (o “Estado Providência”) que foi um fenómeno alemão e também austríaco (também da Baviera e da Áustria católicas) que teve a ver com a dinâmica política de unificação da Alemanha que conduziu ao aparecimento de Bismarck. Ou seja, o Wohlfahrtsstaat não tem nada a ver com o luteranismo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos

 

Podemos ver nas epístolas de S. Paulo — por exemplo, 1 Tess 5, 23 — uma referência à iniciação mística da Antiga Aliança (Antigo Testamento) através dos conceitos de corpo (sôma) e de alma (psychê).

Mas S. Paulo (na esteira das instruções deixadas por Jesus Cristo) e os apóstolos acrescentaram, a estes dois conceitos, os conceitos de Nous (mente superior) e pneûma (espírito), ou seja, S. Paulo traduziu em linguagem corrente (tanto quanto possível) os Mistérios Cristãos, mais elevados do que os anteriores Mistérios, e análogos para ambos os sexos e para todas as castas e raças — o intelecto superior (Nous) e o espírito (pneûma) são idênticos tanto para o homem como para a mulher, embora os respectivos corpos (sôma) seja polarmente diferentes, assim como as respectivas almas (psychê).

Por isso é que, nos mistérios antigos (anteriores aos Mistérios Cristãos, sejam pagãos ou judaicos), as iniciações eram diferenciadas de acordo com os sexos, as funções, as castas; porque implicavam apenas o sôma e a psychê — ao passo que a iniciação dos Mistérios Cristãos, que envolve o Nous e o pneûma (para além do sôma e da psychê) não exclui ninguém que deseje preparar-se para a receber.

Porém, segundo S. Paulo, a iniciação nos Mistérios Cristãos difere da gnose, por um lado, e do hermetismo, por outro lado, porque se baseia no conceito de “Graça”. Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos quando separou a fé, por um lado, da acção humana, por outro lado; mas Lutero não chegou ao ponto absurdo da predestinação calvinista que surgiu depois (esta sim!, de total orientação gnóstica).


A ideia segundo a qual Lutero foi o “fundador da gnose” (que o Pedro Arroja cita) é patética. E a ideia de que “a maçonaria foi buscar a sua filosofia a Espinoza e a Locke”, é um simplismo.

Dos movimentos protestantes, alguns tiveram forte influência gnóstica (por exemplo, o Calvinismo, que deu origem, mais tarde, aos puritanos iconoclastas ingleses e holandeses), mas já não podemos dizer o mesmo do luteranismo.

A maçonaria (em geral) sofre influência do hermetismo (e não do gnosticismo) que, à semelhança da ortodoxia católica, admite que a razão humana pode, de certo modo, alcançar Deus.

O Deus hermético é mais pessoal e menos abstracto do que o Deus gnóstico (que se distingue do demiurgo gnóstico): o Deus hermético (o “Grande Arquitecto” da maçonaria) “é o Pai de todas as coisas, criou o ser humano à sua própria semelhança e amou-o como seu próprio filho” (Poimandres, C.H. I,1).

Não significa isto que algumas correntes maçónicas — por exemplo, as lojas maçónicas irregulares, como o GOL (Grande Oriente Lusitano) — tivessem optado pela “religião natural” que esteve na base do deísmo que alimentou a revolução francesa e a americana. Mas a esmagadora maioria das correntes maçónicas baseia-se no hermetismo, e não no gnosticismo. Mas os mistérios maçónicos ou herméticos (iniciação maçonica) são uma regressão espiritual em relação aos Mistérios Cristãos.

sábado, 15 de outubro de 2016

Lutero pode ser canonizado pelo papa Chico

 

No dia 13 de Outubro passado (dia de aniversário das aparições de Fátima), o papa Chiquinho inaugurou uma estátua de Lutero no Vaticano. Já se fala que o Chico vai canonizar Lutero para insultar os iconoclastas protestantes.

lutero-e-o chico

sábado, 25 de junho de 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)


Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

domingo, 6 de março de 2016

Descartes copiou Santo Agostinho, e a cultura dividiu a Europa

 

“Lutero só se deixa convencer pelas Escrituras e pela razão (plain reason). A experiência está omissa. Descartes vai pegar no argumento da razão para fazer o seu célebre exercício intelectual "Cogito ergo sum", penso, logo existo.”

Pedro Arroja

1/ Na “Cidade de Deus”, Santo Agostinho escreveu o seguinte:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida... portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

Santo Agostinho antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”. Ou seja, basicamente Descartes copiou Santo Agostinho.

Descartes — assim como Kant — tem sido vítima de algumas acusações infundadas por parte de católicos; porque se queremos acusar Descartes do “cogito”, teremos que acusar, em primeiro lugar, Santo Agostinho.


2/ O protestantismo (Lutero) surgiu por questões políticas (inerentes à organização social e política dentro do Sacro Império Romano-Germânico), e por questões culturais. Das primeiras não vou falar aqui e agora. Sobre as questões culturais, invoco aqui o fenómeno cultural do carnaval.

O termo italiano carnevale deriva do latim dominica carnelevalis ou Domingo da quadragésima, que era uma festa que marcava, para o clero católico, a passagem do regime normal para o regime de penitência, e que significava a abolição da carne ou do peixe. Ou seja, carnevale significava a entrada no período temporal e sagrado da Quaresma, dando origem a outros termos vernaculares como antruejo, introitus, carême-entrant, etc. Não há nada que indique a existência do carnaval antes de 1200 d.C. .

Segundo o pregador alemão Johann Geiler von Kaysersberg, era mais difícil convencer o povo a fazer a abstinência e penitência durante o período de tempo que vai do dominica carnelevalis até à Quaresma, do que meter um cavalo num barco pequeno. Então, a partir de 1500, os ritos de dissolução, conhecidos entre o povo coevo como “carnaval”, passaram a ser particularmente cultivados — embora, já antes do século XVI existissem regiões da Europa onde o clero já teria conseguido, com maior ou menor sucesso, introduzir entre o povo a abstinência e penitência da Quaresma.

Porém, o carnaval não se propagou por toda a Europa católica: por exemplo, no noroeste de França e na província francesa da Bretanha, em Inglaterra, na Holanda (excepto na fronteira com a Bélgica), na Alemanha do norte e na Escandinávia, não existe alguma tradição do carnaval. De modo diferente, o carnaval disseminou-se em regiões como Itália, Espanha, Portugal, a maior parte da França, uma grande parte da Alemanha com fulcro na Baviera, e na Grécia.

A razão desta diferenciação cultural (e aqui chamo à atenção para aquilo que é, erroneamente, considerado como sendo uma diferença entre protestantes e católicos) tem a ver com a história da tradição da penitência nas diversas regiões da Europa, e com a forma como a cultura romana influenciou ou não essa tradição da penitência.

Nas regiões do norte e noroeste da Europa comia-se, na Idade Média, panquecas na Terça-feira Gorda, e não se celebrava o carnaval porque eram regiões onde as taxas (impostos) de penitência eram pacificamente aceites, e onde a confissão e a penitência eram vistos como assuntos privados e pessoais — ao contrário do que acontecia nas regiões da Europa mais influenciadas pela cultura romana, em que o processo litúrgico da penitência pública (e não privada) era uma tradição cultural especifica.

A partir do início do século XIII, o carnaval apareceu nas regiões de maior influência cultural romana, onde a tradição da confissão pública e da penitência foi sendo progressivamente abandonada em favor do avanço de uma maior privacidade e privatização.

Em suma: para além das questões políticas relacionadas com a unificação da Alemanha, por um lado, e com a guerra alemã contra o centralismo de Roma que absorvia recursos financeiros, por outro lado — temos as questões culturais. As tradições dos povos da Europa não eram todas iguais, e por isso o catolicismo não podia ser seguido da mesma forma por todos.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Antes ser ortodoxo do que protestante

 

“¿De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? ¿Acaso essa fé poderá salvá-lo?

Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, ¿de que lhe aproveitará? Assim também é a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.”

Carta de Tiago, 3, 14

Ontem dei comigo a ver este vídeo sobre as profecias de Newton (o físico inglês) acerca do fim do mundo que, segundo os cálculos matemáticos dele, acabará no ano de 2060. Newton era protestante anglicano envolvido com a Cabala.

As profecias do fim do mundo são tipicamente uma “vocação” protestante.

Os dois livros da Bíblia mais importantes para os protestantes são os de Daniel e o Apocalipse. Os protestantes, tal qual os revolucionários, gostam de ter a certeza do futuro; e a tal ponto que os calvinistas negam (pelo menos parcialmente) o livre-arbítrio humano, na medida em que, segundo eles, há uma elite de predestinados (gnósticos) que será salva por Deus (os “Pneumáticos” modernos) e uma maioria de condenados à morte espiritual (os “Hílicos” modernos).

Mas há dois livros da Bíblia que os protestantes censuraram : a Carta de Tiago (de que lemos em epígrafe uma passagem), e os dois Livros de Macabeus. A Carta de Tiago foi censurada pelos protestantes porque afirma que a fé, sem as obras, não serve para nada; ou seja, “de boas intenções está o inferno cheio” — como diz o povo católico. Ora, Lutero retirou a Carta de Tiago da Bíblia luterana, porque para ele, as obras de caridade não contavam: o que contava era a fé e só a fé, e as obras de caridade eram deixadas por Lutero a cargo do príncipe e do Estado. Lutero esteve na génese do Camaralismo alemão (o Estado providência).

O livro de Macabeus fala da realidade do purgatório — e os protestantes não aceitam o purgatório. Consta que em Inglaterra, imediatamente depois do fim da II Guerra Mundial, não se realizaram cerimónias religiosas (leia-se, “missas”) pelas almas dos soldados ingleses mortos na guerra, porque o anglicanismo não aceita o purgatório. Ora, isto seria impensável em qualquer país católico.

A razão por que os protestantes não aceitam a realidade do purgatório é a de que eles acreditam que eles (protestantes) vão directamente para o Céu depois da morte, e que, por isso, o purgatório não faz sentido algum — nem sequer faz sentido que o purgatório seja o destino dos católicos, porque, segundo os protestantes, os católicos vão directamente para o inferno (porque não são protestantes e não fazem parte dos “eleitos”).

Quando vemos, por exemplo, o Júlio Severo criticar o "casamento" gay (e também criticar o catolicismo), devemos ficar surpreendidos: foi Lutero que retirou o casamento do rol dos Sete Sacramentos, transformando-o em um mero contrato celebrado pelas autoridades civis. E perguntamos: ¿que autoridade moral tem o protestante Júlio Severo para criticar o "casamento" gay? — quando foi o “chefe” dele que transformou o casamento em um simples contrato?!

Para os católicos, o casamento continua (ainda hoje) a ser um sacramento (segundo o simbolismo do casamento de Cristo com a sua Igreja), e por isso os católicos não perderam a autoridade moral para criticar o "casamento" gay.

O catolicismo está muito mais perto da Igreja Ortodoxa Grega ou da Igreja Ortodoxa Russa do que do protestantismo (qualquer que seja a seita). Por exemplo, os protestantes não acreditam na presença real de Jesus Cristo na celebração da Eucaristia, ao passo que, para os católicos e para os ortodoxos, essa presença de Jesus Cristo na Eucaristia faz parte da doutrina da fé.