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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Carlos Fiolhais e Lutero

 

É preciso que alguém diga ao Carlos Fiolhais que a tese de Max Weber acerca do capitalismo não se relacionava com o luteranismo, mas antes com o Calvinismo. É claro que, para o Carlos Fiolhais, “é tudo protestantismo”. Mas o luteranismo é bastante diferente do Calvinismo.

Também é falso que “a Europa do norte se tenha desenvolvido mais rapidamente do que a do sul” — como diz o Carlos Fiolhais .

Em princípios do século XIX, a Prússia (Alemanha) luterana ainda vivia em um sistema feudal.

Quem se desenvolveu mais depressa foi a potência marítima inglesa (depois da revolução inglesa da segunda metade do século XVII, em que se separou o Estado e a Igreja [John Locke], o que não aconteceu na Alemanha e noutros países nórdicos até ao final do século XIX); e não consta que “o norte da Europa” se reduza à Inglaterra.

E, a par com a Inglaterra, foi a França latina e do sul que comandou o progresso nas ciências e na cultura do século XIX; e no princípio do século, o alemão Hegel tecia loas a Napoleão como o “salvador do mundo”; só com Bismarck a Alemanha começou a levantar-se do chão, e à custa de sucessivas guerras que acabaram em Hitler.

Comparar Lutero com Santo Agostinho (ou mesmo com S. Tomás de Aquino) só pode vir de uma mente alienada.

Mas de nada nos vale dizer que o Carlos Fiolhais não percebe pívia do assunto: é ele que tem acesso aos me®dia, tem um alvará de inteligente, e ninguém o contradiz porque a atitude da elite portuguesa é (e quase sempre foi) corporativista.

sábado, 5 de novembro de 2016

O determinismo soteriológico do Calvinismo e da gnose da Antiguidade Tardia

 

Acerca deste verbete, um leitor colocou a seguinte pergunta:

¿Você poderia explicar melhor por que a predestinação calvinista tem orientação gnóstica?


Os leitores deste blogue, em geral, terão já notado que o blogue não sofre actualizações diárias, como acontecia ainda há pouco tempo. E uma das razões deste semi-abandono do blogue é a dificuldade em fazer subir o nível de complexidade dos assuntos tratados: chegamos a um ponto em que nos tornamos incompreensíveis ou ininteligíveis.


Para responder a esta pergunta, eu teria que dizer o que é a “predestinação calvinista”; e depois dizer o que é a “gnose”. E depois, estabelecer paralelos ideológicos entre uma coisa e outra. ¿Estão a ver a trabalheira?

Podemos resumir a coisa assim: na gnose da Antiguidade Tardia, a salvação do indivíduo também estava pré-determinada por Deus:

“Os gnósticos da Antiguidade Tardia formaram seitas iniciáticas assentes na distinção radical entre os chamados Hílicos (a escória da humanidade, ou profanos, ou não-convertidos), por um lado, e por outro lado os chamados Pneumáticos (os possuidores do Espírito Santo). Apenas para os Pneumáticos havia a possibilidade hic et nunc de salvação, ao passo que os Hílicos estavam, à partida, destinados à morte espiritual (determinismo da salvação)”.

sábado, 25 de junho de 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)


Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O puritanos da Esquerda moderna, e os puritanos do século XVII (parte 1)

 

Os Ranters eram uma seita calvinista inglesa do século XVII. Juntamente com os Seekers e com os Quakers, formavam as principais seitas calvinistas em Inglaterra.

quakerOs Ranters, que interpretavam a sua própria vitória sobre o “corpo” e sobre a “carne” (sobre a “matéria”, em termos gerais) denominando-se a eles próprios como o “corpo de Deus” — defendiam o fim da hierarquia social e o fim da propriedade privada, para além de serem contra o casamento monogâmico e contra a privacidade da família nuclear tradicional, porque diziam eles que a propriedade privada e o casamento monogâmico eram obstáculos à formação de uma verdadeira comunidade (tal como Engels defenderia dois séculos mais tarde).

Mas, ao mesmo tempo que queriam abolir a hierarquia social e a propriedade privada, os Ranters acreditavam na predestinação da “salvação dos eleitos”; e eles consideravam-se a si próprios como os “eleitos”. Ou seja, só os eleitos — eles próprios — seriam salvos, e por isso toda a gente deveria pensar como eles para serem salvos.

Temos aqui a génese do pensamento totalitário da Esquerda moderna.

Os Quakers e os Seekers não diferiam muito dos Ranters. Os Seekers, para além de concordarem com a doutrina dos Ranters, eram uma seita terrorista: para eles, não era suficiente que os “eleitos” se mantivessem fora do mundo (vivendo em uma espécie de apartheid): deviam pegar em armas, destruir todos os governos existentes, e erigir um regime teocrático (totalitário), com uma disciplina divina.

Se retirarmos dessas crenças calvinistas os conceitos de “Cristo” e de “Espírito”, vemos semelhanças com a Esquerda. É neste sentido que Eric Voegelin tem razão quando relaciona espistemologicamente os gnósticos da Antiguidade Tardia, os movimentos puritanos do século XVI, e o movimento revolucionário do século XIX e seguintes.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Os ateus e os calvinistas: um problema idêntico

 

Recebi o seguinte comentário de um “cristão” de uma seita herdeira do Calvinismo:

“Animal quadrúpede, o que eu disse foi que o materialismo veio antes do esquerdismo, e estava presente, por exemplo, no atomismo da Índia antiga e em Demócrito; podemos concluir com isso que essa perspectiva está presente em diversas culturas em maior ou menor grau; o materialismo que herdamos do século 21 é herança da Igreja Católica (principalmente pós Renascimento), quando a Igreja deu às costas para Mística Cristã; não tenha o trabalho de publicar o meu comentário, porque não lerei mais seu blog. Boa sorte com suas fantasias.”



“Em verdade, nada sabemos de nada, pois a opinião vem de fora para cada qual. É preciso conhecer o Homem com este critério: que a verdade fica longe dele.” — Demócrito 1


Definição:

Dizemos do “materialismo” que é o conjunto de doutrinas que não admitem outra realidade para além da matéria, sendo o pensamento e o espírito modalidades ou qualidades da matéria.

A palavra “materialismo” é equívoca: é muitas vezes utilizada com intenção polémica e em sentido pejorativo. Por exemplo, algumas seitas cristãs e a seita católica do "papa Francisco" dizem que “os ricos são materialistas apenas porque têm dinheiro”. A riqueza é identificada com o “materialismo”. Jesus Cristo nunca disse que era impossível a um rico entrar no Reino dos Céus: disse apenas que era difícil.

Dizer que Demócrito e/ou os atomistas eram “materialistas”, no sentido moderno, é um abuso, e revela a completa ignorância de quem tirou um cursinho online de filosofia e já julga que sabe tudo.

Os que mais se aproximavam do “materialismo” (no sentido moderno), na Grécia Antiga, foram os epicuristas 2. Quanto muito, podemos dizer que os atomistas (tal como Aristóteles) foram os precursores da ciência e do empirismo científico, o que não significa que tenham sido “materialistas”. Por exemplo, John Locke foi empirista e não consta que fosse materialista — no sentido moderno, “materialismo” identifica-se com “ateísmo”; nem Rousseau foi ateu e/ou materialista; e Voltaire era deísta, o que não é a mesma coisa que “materialista”. Nem mesmo Diderot se pode considerar propriamente materialista, porque defendeu um panteísmo lírico.

Para além dos epicuristas — que não eram propriamente “materialistas” no sentido moderno —, o materialismo propriamente dito surgiu na Idade Moderna. Podemos falar de materialismo em Helvetius, D'Holbach, La Mettrie, (materialismo mecanicista), Comte (Positivismo) David Hume, Bentham e os utilitaristas (Stuart Mill, por exemplo), a Esquerda Hegeliana (Feuerbach, Karl Marx, Engels), Neopositivismo, etc..

O materialismo (no sentido da definição supracitada) é uma característica da mente revolucionária (moderna) e do gnosticismo anti-cósmico (da Antiguidade Tardia com reflexos na modernidade), ou seja, é uma característica daquilo a que se convencionou, depois da Revolução Francesa, chamar de “Esquerda”.

Mente revolucionária = Esquerda.

A ciência não é “materialista”. O que pode acontecer é que uma grande parte dos cientistas sejam materialistas. De modo semelhante, e por analogia, não podemos dizer que a energia nuclear é boa ou má: depende do uso que fazemos dela. A ciência é eticamente neutra e escora-se na metafísica: por isso, é um absurdo dizer que a ciência é “materialista” ou “ateia”.

Eu sou um grande adepto da ciência porque esta procura a verdade — assim como a filosofia e a religião, embora de modos diferentes. A filosofia, a religião e a ciência não se opõem: complementam-se! Uma atitude anti-científica ou anti-religiosa revela uma mente obscurantista.

É tão um obscurantista um ateu como um calvinista fanático.

Por outro lado, a negação da matéria — por exemplo, o Imaterialismo de Berkeley, que é uma forma de Positivismo — ou o repúdio da matéria são características dos cristãos gnósticos modernos, de tipo calvinista nomeadamente.

A verdadeira doutrina católica — que não é a do "papa Francisco", porque tem uma visão quase panteísta da Natureza — escorada na patrística e em Santo Agostinho, considera a Natureza (ou seja, aquilo a que se convencionou chamar de “matéria”, seja o que for que seja a “matéria” porque nem a ciência sabe bem o que é) uma criação de Deus, e por isso, uma realidade boa e positiva. Apreciar a Natureza (a “matéria”) e dar graças a Deus por ela, é uma característica do bom católico.


Notas
1. citado do Vol. I da História da Filosofia de Nicola Abbagnano, Editorial Presença, 1969, pág. 92
2. Epicuro interpretado por Lucrécio, nota bem!

quinta-feira, 13 de março de 2014

O tradicionalismo e o capitalismo

 

Alguém sabe quem inventou, na Europa, os prémios de seguro de risco e a taxa de juro de empréstimos financeiros?

O prémio de seguro de risco foi “inventado” (no sentido de ser concebido pela primeira vez na Idade Média) pelos Fraticelli católicos!, de finais do século XII (frades menores franciscanos, devotos da pobreza), e a taxa de juro foi “inventada” pela ordem católica dos Templários!, no século XIII.

Ou seja, a base do capitalismo foi concebida nos séculos XII e XIII!, em plena Idade Média católica! A prosperidade das cidades-estado italianas, durante o Renascimento, foi fundada em um capitalismo incipiente e elitista, nas taxas de juros e nos prémios de seguros de risco!

A novidade do Calvinismo — em relação ao capitalismo incipiente que existia já na Europa antes da Contra-reforma do Concílio de Trento — foi que o capitalismo se tornou popular (ler “A Ética Protestante”, de Max Weber), e não já uma prerrogativa de uma certa elite. ¿E por que razão o capitalismo se tornou popular?

O capitalismo popular, introduzido à sombra do Calvinismo, e segundo Max Weber, não se revela na procura desenfreada e cega do lucro por especuladores e aventureiros: pelo contrário, o capitalismo popular surge com a procura racional e sistemática, metódica e controlada, do lucro — mas no exercício honesto e constante de uma profissão.

A outra razão por que o capitalismo se tornou popular — em oposição ao capitalismo elitista que já existia, de certa forma, antes da Reforma — foi a doutrina determinista calvinista, segundo a qual Deus decidiu, em virtude de decretos insondáveis e irrevogáveis — portanto, para todo o sempre — que “certos homens estão destinados à vida eterna e outros votados à morte eterna” (Confissão de Westminster, de 1647).

E, como perder a Graça de Deus é tão impossível àqueles a quem foi (a priori) concebida, como também é impossível obtê-la por aqueles a quem foi (a priori) recusada, instalou-se uma angústia profunda no calvinista que se interroga: “¿Serei eu o eleito?”.

Nunca certo da sua eleição, o calvinista buscava os sinais da sua salvação aqui na Terra, nos frutos do seu trabalho sem descanso e sem alegria, trabalhava para a glória de Deus e para apaziguar a sua angústia. Tendo o trabalho por vocação e a riqueza por sinal da bênção divina, o calvinista acumulava necessariamente capital que não gastava. Foi assim que o capitalismo popular nasceu.

Hoje, em muitos países da Europa, esse capitalismo popular está moribundo e surgiu de novo (embora por outras razões) uma espécie de capitalismo de elites. A concentração de capital destruiu o capitalismo popular.

Portanto, ao contrário do que escreve o Guilherme Koehler, não é verdade que “antes da Reforma não existia capitalismo”. O que não existia era uma cultura utilitarista (utilitarismo), que também não existiu com a Reforma protestante. Mais tarde, já no século XVIII, e uma vez instituído, o sistema capitalista passou a obedecer às suas próprias leis, já não tendo necessidade da religião para nada; e surgiu, então, o império da ética utilitarista profana (com Bentham) que passou a assombrar a modernidade.

Enfim: os tradicionalistas deveriam ter mais respeito pela História para que possam ser mais credíveis.