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domingo, 14 de julho de 2024

Maçonaria é uma forma actualizada de gnosticismo


O livrinho “Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa”, de Jorge de Matos (Editora Sete Caminhos), é essencial para se entender como pensa a elite maçónica portuguesa.

A maçonaria é (em juízo universal) anticatólica — mas, o anticatolicismo, entendido apenas e só em si mesmo, não é relevante: o que é relevante é o anticatolicismo (que Fernando Pessoa chama de “Cristismo”, e “igreja romana”) aliado a uma visão prometaica e evolutiva da Natureza Humana, que caracteriza o anticatolicismo maçónico.

Para a maçonaria, a Lógica e a Natureza Humana, “evoluem” — o que é extraordinário!

Fernando Pessoa chama ao catolicismo (e seus fiéis) de “forças involutivas”, por um lado, e por outro lado faz a apologia do protestantismo. Ou seja, a maçonaria é nítida- e claramente (também) uma vergôntea do protestantismo mais radical.

Ademais, há na maçonaria portuguesa uma aversão à ruralidade e à economia agrícola — vem daqui a crítica de Marcelo Rebelo de Sousa a Luís Montenegro, apodando-o de alguém com “comportamentos rurais”: apesar de Luís Montenegro ser membro da maçonaria dita “regular”, é alvo de crítica de Marcelo Rebelo de Sousa por causa do seu perfil não-coetâneo e de repúdio pela ruralidade. Para o maçon que se preze, ser “rural” é pertencer à Idade da Pedra.

A maçonaria detém um misticismo gnóstico (também por isso podemos dizer que a maçonaria é uma religião).

Devemos distinguir o misticismo teísta (catolicismo), o misticismo naturalista (monismos, panteísmo) e o misticismo personalista (gnosticismo, maçonaria): o primeiro, manifesta a experiência da realidade de Deus; o segundo, a experiência da incorrupção do mundo; e o terceiro, a experiência da sempiternidade do Eu.

O misticismo teísta (católico) é incorruptível; mas o misticismo naturalista (monismos) é pervertido em panteísmo, quando a consciência extática identifica o esplendor da criação intacta, por um lado, com o esplendor do próprio Criador, por outro lado; e o misticismo personalista (maçonaria) é pervertido em gnosticismo, quando a consciência egocêntrica identifica a eternidade da alma com a eternidade de Deus (chamado de “Arquitecto”, pelos maçons).

(a continuar, se Deus quiser).

sábado, 15 de junho de 2024

O gnosticismo maçónico de Fernando Pessoa (1)


“Mais do que uma melhoria das condições biológico-profissionais das populações, o conceito maçónico de Regeneração Social representa a redenção do Género Humano enquanto processo de transformação elevatória do nível de vibração dos veículos físicos e subtis da Humanidade, permitindo um despertar progressivo de capacidades latentes e uma expansão crescente e acelerada do grau de consciência intuitiva e supra-intelectual, bem como além-fronteiras do contexto global de integração planetária e das relações individuais e grupais que com ele se mantêm, até atingir o Grupo Perfeito e Divino, a Fraternidade Universal, que deve ser conscientemente vivida no espaço sagrado da Loja maçónica, como célula básica do trabalho espiritual grupal — livre de quaisquer conotações filosóficas eventuais exclusivistas, contra o seu carácter fraternalmente internacionalista”.

→ “ O Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa”, de Jorge de Matos, 2006, página 16



Escrevendo o trecho supracitado, Jorge de Matos não estava a ironizar: acreditava mesmo que é possível, ao ser humano, só por si e apenas pelos seus próprios meios, atingir “a redenção do Género Humano”, neutralizando e superando a própria Natureza Humana, atingindo o Grupo Perfeito e Divino (leia-se: atingindo a perfeição divina).

Olavo de Carvalho diria que esta visão da Natureza Humana retrata  uma “mundividência prometaica”.

Trata-se de uma crença — porém, a contrario sensu da crença científica e/ou da religiosa (que são crenças racionais, embora em graus de racionalidade diferentes), trata-se de um crença irracional, porque é racionalista (o racionalismo decorre de uma doença mental incurável: o Delírio Interpretativo).

O racionalismo é a expressão intelectual por excelência da irracionalidade humana — racionalismo entendido aqui como sendo proveniente da doutrina gnóstica e parasitária da Antiguidade Tardia que afirma que o pensamento racional é capaz de atingir a verdade absoluta porque as suas próprias leis são também as leis dos objectos do conhecimento (por exemplo, em Hegel: “Tudo o que é racional é [efectivamente] real, e tudo o que é real é [efectivamente] racional”).

Este racionalismo, de Hegel, provém da tradição do racionalismo do judeu Espinoza, que privilegia a Razão como Princípio Prometaico de explicação do universo, por oposição à fé religiosa, por um lado, e por oposição ao empirismo científico de origem aristotélica, por outro lado; e, simultaneamente, este racionalismo afirma o carácter racional da realidade e do sentido da História — o determinismo histórico da Cabala, que gerou o “Fim da História” de Hegel, Marx, Hayek ou Fukuyama, que se caracteriza por ser a ideologia das doutrinas que recusam a paternidade dos seus próprios crimes.

O indivíduo mentalmente deformado (por uma interpretação delirante) crê no “sentido da História” quando o futuro previsível parece ser favorável à realização das suas paixões e das suas crenças. Neste racionalismo cabalístico, a origem psicológica da razão é deixada na sombra: a sua vontade é eliminada, ou desviada para o irracional (e, portanto, negada ou rejeitada).

Por sua vez, o racionalismo panteísta (ou seja, imanente e ateísta) de Espinoza provém directamente da Cabala judaica.

Portanto, vemos aqui papel secular e importantíssimo do judeu na irracionalização do ser humano através da destruição das instituições da civilização europeia, de que a maçonaria (operativa e especulativa) foi e é uma parte predominante.

Toda a filosofia alemã depois de Kant (Kant não faz parte do Idealismo alemão!) é cabalística e irracionalista. A origem hegeliana da dialéctica marxista é cabalística, e por isso, irracional:

“A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.” → Nicolás Gómez Dávila.

A dialéctica cabalística de Hegel (proveniente da Cabala Yetzira e do seu conceito de “Árvore da Vida”) levanta um problema sério: se o pensamento passa de si próprio ao seu oposto, a resolução das duas contradições (a síntese) é inconciliável com o termo inicial (que, segundo determinados exegetas, mais não faria do que reforçar, pela negação da negação), ou arrasta incessantemente de negação em negação até um pensamento “radicalmente diferente” — o que conduziria de facto a um cepticismo relativista total.

Fica a aqui a demonstração sucinta e cabal de que as doutrinas do marxismo, do liberalismo e da maçonaria (ou seja, a chamada “modernidade”) têm a mesma origem epistemológica: o movimento intelectual parasitário da gnose, da Antiguidade Tardia.

(continua)

quinta-feira, 16 de julho de 2020

A maçonaria faz parte de um movimento gnóstico multi-secular


Lemos aqui um texto da professora Maria Susana Mexia (ler em PDF) que nos serve (também) para definirmos os contornos do desenvolvimento do pensamento gnóstico desde a Antiguidade Tardia até à contemporaneidade.

eschatos-maçonico-webO gnosticismo, ao negar o Deus da Bíblia (ou a subalternizar o Deus da Bíblia, chamado-o de “demiurgo”), tem duas características essenciais que o caracterizam ao longo dos séculos: 1/ é herético (em relação ao Cristianismo), mas simultaneamente 2/ é parasitário (vive à custa da diferenciação cultural criada pelo Cristianismo).

O gnosticismo é imanente (recusa a transcendência): O Grande Arquitecto do Universo maçónico é uma “entidade” imanente.

No caso do gnosticismo da Antiguidade Tardia, a alegada “transcendência” do “verdadeiro Deus” (que não era o “demiurgo” cristão e bíblico, mas uma entidade superior a este) era apenas um instrumento para colocar em causa a legitimidade do Deus bíblico, por um lado, e uma forma de criação de castas baseadas em putativo “Conhecimento” (gnose), por outro lado.

A “transcendência” do deus gnóstico é apenas uma forma parasitária (um instrumento de combate simbólico) da transcendência do Deus cristão; e é parasitária porque serve para colocar em causa o valor ideológico e simbólico do Deus cristão. Para o gnosticismo (de todos os tempos), todos os métodos são válidos (vale tudo) para combater a diferenciação cultural cristã.

O grande inimigo do gnóstico é o cristão; mas como o gnóstico não tem argumentos para “combater” o cristão “em campo aberto”, o gnóstico parasita a mundividência do cristão criada pela diferenciação cultural que o cristianismo trouxe à Humanidade.


Em 2013 escrevi um texto (ler em PDF) acerca da forma e conteúdo dos ritos maçónicos que se identificam com as religiões dos mistérios da antiguidade — exactamente a cultura “mistérica” que o Cristianismo veio postergar.

A heresia (em relação ao Cristianismo) é a própria essência “mistérica” da maçonaria.

Obviamente que o gnosticismo moderno não se resume à maçonaria; todas as ideologias (a imanência) modernas fazem parte desse movimento multi-secular gnóstico, anti-cristão e elitista, que divide a Humanidade entre os Pneumáticos modernos (os eleitos, os poucos que estão salvos à partida — por exemplo, os militantes do Bloco de Esquerda ou os membros de uma loja do Grande Oriente Lusitano), por um lado, e os Hílicos modernos (por exemplo, os que não acordaram para a luz da imanência da certeza do futuro propagandeada pela elite gnóstica, e que, por isso, estão condenados — a priori — à morte ontológica).

O determinismo ontológico é uma característica gnóstica.

O cientismo é essencialmente gnóstico (e maçónico). O cientismo é entendido, pelo movimento gnóstico moderno, como uma “anti-metafisica” que se impõe como um veículo da verdade gnóstica que, alegadamente, substituiu a Era de Cristo pela Era de Comte.

O movimento do Aquecimento Global Antropogénico (e os “verdes”) é um exemplo deste cientismo como expressão gnóstica que estabelece o éschatos (a certeza do futuro) através da diabolização da economia dos combustíveis fósseis. Os aquecimentistas assumem-se como os salvadores da humanidade, colocando-se em uma posição soteriológica e Crística (exemplo do parasitismo gnóstico em relação ao Cristianismo).

Os aquecimentistas comportam-se como puritanos; o puritanismo radical e intelectual (por exemplo, George Bernard Shaw, ou o movimento puritano inglês no século XVI) foi sempre uma característica dos gnósticos de todos os tempos.

Verificamos esta tendência gnóstica (determinista do futuro) também em algumas seitas ditas “cristãs”, no Livro do Apocalipse e, (aqui e ali) no próprio Evangelho de S. João.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O gnosticismo abjecto do Anselmo Borges

O Anselmo Borges não se dá conta das suas contradições — acho extraordinário que um indivíduo destes seja professor universitário de filosofia e “teólogo”.

1. A concepção de “cristianismo”, segundo o Anselmo Borges e comandita, é (escandalosamente) gnóstica: baseia-se no conhecimento, por um lado, e coloca em segundo plano ou elimina a graça, por outro lado. E sendo gnóstica, não pode ser cristã. Um “gnóstico cristão” é uma contradição com pernas.

"o cristão do futuro será místico, isto é, alguém que "experienciou" algo, ou não será cristão, porque a espiritualidade do futuro já não se apoiará num ambiente religioso generalizado, anterior à experiência e à decisão da pessoa."

Segundo este conceito de “Cristianismo”, o “cristão do futuro” não será cristão (porque o Cristianismo será extinto), desde logo porque a “experiência” religiosa (do indivíduo) é subjectiva — não pode ser medida, de forma objectiva —, e por isso ela não pode ser um critério de aferição da religiosidade da pessoa; o conceito de “Cristianismo”, segundo o Anselmo Borges e sequazes, conduz inexoravelmente à abolição objectiva do Cristianismo enquanto tal — porque, do ponto de vista social, a religião deixará de existir.

Celso e Porfírio inventaram o Jesus revolucionário. 

O dogma da bondade natural do Homem formula, em termos éticos, a experiência central do gnóstico: o Homem é naturalmente bom porque é naturalmente deus (Spinoza).

O Anselmo Borges é objectivamente um inimigo da Igreja Católica. Ou então, é burrinho e não se dá conta das suas (dele) contradições.


Vamos definir “religião”.

A religião é um conjunto de crenças e de ritos que compreendem um aspecto subjectivo (o sentimento religioso ou a fé) e um aspecto objectivo (as cerimónias, as instituições, os ritos, e um templo).


O conceito de “Cristianismo do futuro” — segundo o Anselmo Borges, os seus sequazes da Nova Teologia e da Teologia da Libertação, e também segundo o Frei Bento Domingues (é tudo a mesma tropa fandanga!) — diz que a parte subjectiva da religião (ou seja, o sentimento religioso ou a fé) constitui a experiência individual, por um lado, e por outro lado pretende abolir o aspecto objectivo da religião (ou seja, as cerimónias, as instituições, os ritos, e um templo).

Ora, a abolição do aspecto objectivo do Cristianismo implica o fim deste enquanto religião. É isto que o Anselmo Borges objectivamente defende.

2. Na Idade Média, a noção de “religião” não existia (do ponto de vista da cultura antropológica). Para o homem medieval, falar de “religião” seria como falar do ar que ele respirava: não lhe lembraria isso, e nem ao careca!

¿Conseguem imaginar um homem medieval (clérigo, paisano ou fidalgo) a conjecturar sobre o ar circundante?
Pois, de modo semelhante, não lhe passaria pela cabeça falar de “religião” — porque a religião (cristã) fazia parte da sua própria realidade em termos idênticos ao do ar que ele respirava.

Foi com a “reforma” protestante que o Cristianismo (a religião) passou a estar separado do indivíduo e da sociedade; e foi graças à “reforma” protestante que surgiu a Nova Teologia e a Teologia da Libertação .

A missão (satânica) do papa Chico e dos seus sequazes (entre os quais o Anselmo Borges) é o de protestantizar a Igreja Católica.

Acho extraordinário que alguém (como é o caso do Anselmo Borges e do Frei Bento Domingues) que faz a apologia da Nova Teologia se possa afirmar como “católico”. Extraordinário! A que ponto chegamos !

gnosticismo-web3. Se retirarmos à religião o seu aspecto objectivo — as cerimónias, as instituições, e os ritos a que o burrinho Anselmo Borges chama de “ritualismos secos” —, deixa de ser religião (ver definição de “religião”).

Estamos em presença (no conceito de “religião” do Borges) da versão actual de gnosticismo e de puritanismo: a recusa de contemplar Deus, e/ou o Bem, senão através do intelecto e da “experiência” alegadamente “privilegiada” e elitista.

O Racionalismo é o pseudónimo oficial de Gnosticismo.

O puritano (religioso, neste caso, porque há hoje puritanos ateus) é um homem cuja mente não tem férias; e não deixa que nada se interponha entre ele e o seu deus (e vem daqui o conceito de “experiência” individual, de Anselmo Borges e dos protestantes católicos): uma atitude que implica um desprezo elitista em relação aos modernos Hílicos (que são aqueles católicos “chãos e básicos”, os tais que se envolvem em “ritualismos secos”).

Para os actuais gnósticos e puritanos (da laia do Anselmo Borges e do papa Chicozinho ), é muito melhor rezar num palheiro do que numa catedral gótica, pela simples razão de que a catedral é bela e de construção dispendiosa: para os novos gnósticos e puritanos, a beleza física é um símbolo falso e sensual que se interpõe entre o intelecto e o objecto de adoração (o deus deles).

Ademais, para os novos gnósticos e puritanos (como é o caso do Anselmo Borges), Deus só pode ser adorado através de uma directa contemplação (sem qualquer tipo de intermediação, e vem daí a iconoclastia do puritano Anselmo Borges): para eles, é perversa a adoração de Deus por intermediação dos santos católicos ou da Mãe de Jesus Cristo, e/ou mediante o hábito dos ritos, e/ou através do instinto humano em relação à Beleza.

domingo, 21 de julho de 2019

A escatologia do Anselmo Borges, ou a revolução antropocêntrica do papa gnóstico


Há, no discurso do Anselmo Borges, algo de “escatológico” — entendido no sentido biológico. É um discurso bio-degradado; mas é também “escatológico” no sentido metafísico: um discurso característico dos fins-dos-tempos.


Se juntarmos a excrescência humana do “dogma antidogmático” 1  — quem silenciosamente repudia os dogmas da Igreja Católica (como é o caso do Chico e dos seus sequazes), tem que escolher entre indiferentismo e hierarquia; e é esta a verdadeira “tensão” dos gnósticos que comandam a actual Igreja Católica, que o Anselmo Borges escamoteia — , por um lado, à crença metafísica da centralidade do Homem no universo 2 (o antropocentrismo do papa Chicozinho) , por outro lado, obtermos a escatologia do Anselmo Borges.


Dizia Aristóteles que quando partimos de princípios errados, toda a nossa teoria está errada. É o caso do Anselmo Borges:


« A Igreja tem dentro dela, inevitavelmente, uma tensão que a conduz a um paradoxo. Esta tensão e este paradoxo foram descritos de modo penetrante, preciso e límpido pelo sociólogo Olivier Robineau, nestes termos: "A Igreja Católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção - o descentramento segundo o amor - e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial - de que a confissão é o arquétipo - colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada." »


1/ Desde logo, está errado o princípio do Anselmo Borges segundo o qual a “tensão existencial ” é um fenómeno exclusivo da Igreja Católica — como fica explícito na escatologia do Anselmo Borges.


O que verificamos naquele trecho do Anselmo Borges é uma tentativa de justificar a separação dos pólos da experiência (existencial) — considerando os pólos da experiência como sendo entidades (objectos) independentes (neste caso, a fé, por um lado, e a Igreja enquanto organização humana, por outro lado) entre si.


A separação dos pólos da experiência (considerando-os como entidades independentes um do outro) significa a destruição da Realidade da existência enquanto tal; é uma forma de libertação revolucionária em relação à Metaxia que tem como consequência grave, entre outras, a mutilação do papel da ética no pensamento (relativismo).


A tentativa gnóstica (ou neognóstica, ou revolucionária; vai dar no mesmo) de libertação do humano em relação à existência metáxica (segundo Platão, a Metaxia é a condição dialéctica da existência do ser humano) tem como resultado a ideia absurda segundo a qual a Ordem do Ser pode ser mudada através de um processo histórico, por um lado, e por outro lado, que a mudança do Ser depende da política — é isto exactamente que está presente no ideário do papa Chicozinho e dos seus sequazes, incluindo o Anselmo Borges.


A “tensão” da Igreja Católica, a que se refere escatologicamente o Anselmo Borges, é característica própria da Realidade da existência — e não apenas uma característica da Igreja Católica. Essa tensão metáxica está presente em todos os seres humanos na relação que têm com qualquer  organização social.


2/ A contraposição que o Anselmo Borges faz entre a consciência (a fé), por um lado, e a história dos acontecimentos mundanos (neste caso, a organização da Igreja), por outro lado, consiste em uma uma falsa dicotomia — porque o encontro da consciência humana (a fé) com a transcendência não ocorre na história dos acontecimentos mundanos (na organização social), mas antes ocorre no processo interno da experiência da consciência humana.


O conceito neognóstico de libertação do ser humano em relação à existência metáxica através da tentativa da eliminação da “tensão” existencial que, alegadamente, conduziria (segundo a teoria gnóstica do Chico e seus sequazes) à “salvação em relação ao mal” (à construção de um paraíso na Terra) através de um processo histórico e político — é uma fraude intelectual e uma aberração ética.


papa-açorda


Notas

1. O dogma da bondade natural do Homem (Rousseau) formula, em termos éticos, a experiência central do papa gnóstico: o Homem é naturalmente bom porque é naturalmente deus (imanência e monismo).


2. A
experimentação não refuta nem confirma axiomas matemáticos ou dogmas religiosos. Racionalizar o dogma católico, abrandar a moral, simplificar o rito, não facilita a aproximação do crente, mas sim facilita a aproximação em relação ao incréu.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A hipocrisia puritana do Júlio Machado Vaz

 

Hoje ouvi na rádio pública (Antena 1, rádio do Estado) o Júlio Machado Vaz insurgir-se contra as touradas e, de uma forma implícita, a defender a proibição das touradas — argumentando, por exemplo, que “a tourada não é uma tradição em Portugal porque, de um total de 308 concelhos, apenas em 40 se realizam espectáculos de tourada” (este argumento é o mais estúpido que alguém poderia conceber: como se uma tradição pudesse ser considerada como tal independentemente da cultura antropológica; como se fosse necessário que a maioria dos concelhos de Portugal tivesse praças-de-touros para que a tourada fosse considerada tradição em Portugal.

julio machado vaz webO Júlio Machado Vaz, que hoje ouvi defender publicamente (implicitamente) a proibição das touradas em nome do alegado “sofrimento do touro”, é o mesmo Júlio Machado Vaz que fez campanha a favor da legalização do aborto gratuito pago pelo Estado (ou seja, abortos pagos por todos os portugueses).

Quando se trata do sofrimento de um ser em que já bate um coração, o Júlio Machado Vaz “chuta para canto”, porque entra em dissonância cognitiva, por um lado; e por outro lado porque ele adopta uma agenda política tenebrosa que pretende substituir uma série de tabus tradicionais e seculares por outros tabus anti-naturais.

Neste caso, o Júlio Machado Vaz (e a Esquerda em geral) pretende substituir um tabu tradicional, que eticamente impede o aborto, por um novo tabu que proíbe a tourada (eliminando o tabu do aborto da cultura antropológica). O Júlio Machado Vaz sabe que uma cultura sem tabus é um círculo quadrado; e por isso sabe que é imprescindível substituir os tabus tradicionais por outros tabus que permitam (ou que facilitem) o assalto totalitário ao Poder.

Este fenómeno político e cultural, de que é exemplo o Júlio Machado Vaz, ganhou um nome nos Estados Unidos : Virtue signalling”. Traduzindo em português: “Sinalização de Virtudes”. No fundo, trata-se de um tipo de puritanismo hipócrita que, na esteira cultural da Reforma protestante, se caracteriza por uma “guerra” contra a tradição.

Os esquerdistas actuais são os herdeiros culturais de Lutero e/ou Calvino. “Nietzsche, o grego; Karl Marx, o cristão protestante” (Albert Camus).

« Os puritanos detestavam os combates de ursos, não porque esses jogos causassem sofrimento aos ursos, mas porque davam prazer aos espectadores. »Thomas B. Macaulay 

Esse puritanismo hipócrita, de Sinalização de Virtudes e anti-tradicionalista que esteve sempre presente na cultura europeia cristã através do gnosticismo anti-cristão, evoluiu para o gnosticismo puritano moderno.

Ernest Sternberg, professor da universidade de Bufallo, Estados Unidos, escreveu um ensaio sobre as novas tendências da Esquerda a nível global que crescem actualmente sobre os escombros do marxismo-leninismo. O ensaio tem o título genérico de “Purifying the World: What the New Radical Ideology Stands For”“Purificando o Mundo: O que pretende a nova ideologia radical”.

Ernest Sternberg chama ao novo tipo de esquerdismo (renascido do marxismo cultural) que desponta e se organiza a nível internacional, de “Purificacionismo” (trata-se de uma religião monista !). O nome dado por Ernest Sternberg (Purificacionismo) está intimamente ligado ao movimento puritano inglês dos princípios da idade moderna, que Eric Voegelin descreve com uma minúcia surpreendente na sua obra “A Nova Ciência da Política”.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Anselmo Borges, um herdeiro de Rousseau

 

1/ Uma das características das elites portuguesas (ou aquilo a que os ingleses chamam de “rulling class”) é a de criticarem sistémica- e sistematicamente o povo. Essa ruling class inclui gente que tem acesso regular aos me®dia, como é o caso do Anselmo Borges. Vemos, pois, gente que pertence à presumível “elite” de um povo, a criticar o próprio povo a que pertence, como se não se não fizesse parte dele.

“Se percorrermos, olhando sem óculos de nenhum grau nem cor, a paisagem que nos apresentam as produções e as improduções do nosso escol — entendo por escol o escol literário e artístico, o escol político e jornalístico, e o escol industrial e comercial — facilmente notaremos que o provincianismo é o seu característico comum e constante.”

→ Fernando Pessoa, “Sobre Métodos”.

O escol, segundo Fernando Pessoa, é (grosso modo, neste contexto) a “ruling class”.

Uma das características do escol (ou da ruling class) portuguesa é a crítica constante em relação ao povo — uma crítica destrutiva, ou uma crítica paternalista que pretende denunciar o provincianismo que a própria ruling class ostenta sem o reconhecer.

Vemos neste texto do Anselmo Borges o que eu pretendo dizer; o Anselmo Borges faz lembrar o Belmiro de Azevedo, que, em uma entrevista a uma rádio inglesa há já uma boa dúzia de anos (eu ouvi a entrevista, sou testemunha directa), afirmou que “o povo português é preguiçoso”, quando de facto, o povo português (em geral) trabalha mais horas por ano do que os povos britânicos. E é o Belmiro e a sua famelga que sustentam o jornal deficitário de Esquerda que é o Jornal Púbico.

Quando os parques de estacionamento não existem, ou quando os seus preços são proibitivos; ou quando não existem transportes públicos abrangentes e dignos — o Anselmo Borges critica os automobilistas da rua dele. Isto é uma característica da actual ruling class portuguesa: atira para cima do povo as responsabilidades que recusa assumir. A culpa é do “horrível cheiro a povo”, quando sabemos que, ao longo da História, os povos (em geral) erraram menos do que as respectivas elites.


2/ Aquilo a que chamamos “esquerda” surgiu do conceito romântico de "Vontade Geral", de Rousseau.

O conceito de "Vontade Geral" é colectivista (coloca o grupo antes do indivíduo) e romântico (utopia), e influenciou a Revolução Francesa e a Europa continental dos séculos XIX e XX.

Todos os totalitarismos do século XX (nazismo, fascismo, comunismo) são vergônteas românticas (utópicas) de Rousseau e da sua Vontade Geral.

Em contraponto, a cultura política inglesa e americana (e australiana) têm origem em John Locke (e não em Rousseau), e dá prioridade ao indivíduo em detrimento do colectivo. Por isso é que os americanos têm a Primeira Emenda da Constituição que garante a liberdade de expressão que é, por definição, ofensiva (a liberdade de expressão que não tem a possibilidade de ser “malcriada” e de não ofender, corre o sério risco de não ser livre).

Por isso é que o Anselmo Borges diz que a liberdade de expressão é malcriada: para ele, a má-criação (que é o vernáculo do povo e da língua portuguesa, por exemplo) deverias ser eliminada juntamente com a liberdade de expressão que só deveria ser garantida à “elite” dos gnósticos modernos que se juntam em redor de um qualquer caudilho e rei-filósofo platónico da moda.

A Esquerda, como boa herdeira do romântico colectivista Rousseau, nunca conviveu bem com a liberdade de expressão. E o Anselmo Borges também não.

Isto é patente, por exemplo, no conceito de “achismo” expresso aqui por Anselmo Borges. A livre expressão, para o “esquerdista de elite”, é “achismo”; um qualquer militante do Bloco de Esquerda diria que qualquer opinião dissonante da cartilha politicamente correcta, é uma manifestação de “ignorância” — o que coincide com o conceito de “achismo” do Anselmo Borges.

Hoje está na moda (esquerdista) dizer que quem não concorda connosco é “ignorante”; ora eu não penso que o Anselmo Borges seja ignorante: ele é simplesmente um romântico rosseauniano e utopista (é uma doença mental), e tem uma agenda política neognóstica para-totalitária encoberta pelos evangelhos do Cristianismo.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Gente iconoclasta ( Anselmo Borges, Torgal Ferreira, Frei Bento Domingues) que se diz “católica” mas que é avessa a símbolos

 

Chego a sentir pena do Frei Bento Domingues, do Bispo Torgal Ferreira, do Anselmo Borges, e de outros; pena, como a que se sente em relação a gente inconsciente, gente a quem Jesus Cristo se referiu, dizendo: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

Vamos chamar, a essa casta de gente, de “católicos gnósticos”, porque se julgam acima do povo ignaro que vai a Fátima manifestar a sua fé.

Os “católicos gnósticos” têm o conhecimento que lhes permite “pairar” acima do comum dos católicos (são os Pneumáticos da modernidade do Concílio do Vaticano II e da Nova Teologia), fazer-lhes críticas desveladas, tratá-los como animais irracionais — enquanto se auto-outorgam a capacidade sobranceira de fazer juízos metafísicos definitivos sobre todo e qualquer fenómeno ou facto da Igreja Católica.


O Torgal Ferreira — o Bispo vermelho, comunista inveterado, hipócrita marxistaterá afirmado:

“Não quero exagerar e dizer que é idolatria, mas o facto de a fé das pessoas em Nossa Senhora se prender tanto com uma imagem, que até vai pelo mundo, em digressão, obriga-me a perguntar: será que não educámos mal o povo? Escandaliza-me que as pessoas só rezem àquela imagem, que se despeçam dela a chorar, na Procissão do Adeus. Eu nunca me despeço de Nossa Senhora, porque ela está sempre comigo. Aquilo para mim não é nada, é um pedaço de barro!”

torgal-ferreira-web¿Como é possível que aquela mente não compreenda o que nos parece evidente?

Seguindo o raciocínio do Bispo Torgal, a cruz de Cristo de cada igreja é um pedaço de madeira“Aquilo não é nada!: é um pedaço de madeira!”, diria o Bispo. Aliás, nem sei o que está a fazer o madeiro na igreja, porque Jesus Cristo está sempre comigo, e eu nunca me despeço da cruz de pau quando saio da igreja.

¿Por que razão és idiota, Torgal? ¿Por que não vais à bardamerda e nos deixas em paz?!

  • Pergunta: ¿O fenómeno de Fátima transformou-se em negócio para muita gente? (hotéis, restaurantes, etc.).
  • Resposta: Sim, é verdade.

Mas não devemos ser estúpidos — como o Torgal e o Anselmo Borges — e confundir o cu com as calças.

Os estúpidos pretendem criticar o fenómeno de Fátima; mas, em vez disso, criticam o negócio à volta do fenómeno de Fátima, julgando que, dessa forma, criticam também o fenómeno de Fátima — como é o caso do atoleimado e senil Padre Mário de Oliveira; ou seja, incorrem na falácia lógica Ignoratio Elenchi, que consiste em querer provar a veracidade de um argumento ou de um facto, mas em vez disso, o raciocínio da argumentação chega a um conclusão que não prova o facto ou a situação que se pretendia; ou então, prova outra coisa qualquer.

Em bom português, quando nos deparamos com a falácia Ignoratio Elenchi, normalmente dizemos que “o cu não tem nada a ver com as calças”. Pois não tem nada a ver (directamente) o negócio de Fátima, por um lado, com o fenómeno religioso de Fátima que teve origem em 1917, por outro lado.

Não é racional que se critique o fenómeno religioso de Fátima mediante a crítica ao negócio à volta de Fátima. “O cu não tem nada a ver com as calças”.


Até o Islamismo, que se diz iconoclasta, tem um livro como símbolo (o Alcorão) religioso; esse símbolo do Alcorão existe por si mesmo, e não depende directamente do seu conteúdo que assume outras formas simbólicas. Para que o muçulmano iconoclasta fosse totalmente coerente, teria que abolir também o símbolo do livro alcorânico — porque, de facto, os maomedanos adoram Alá através do livro Alcorão que é, em si mesmo, um símbolo.

O símbolo é a intermediação; neste caso, o Alcorão é um símbolo, é a intermediação da fé dos maomedanos.

É tão iconoclasta o muçulmano que “adora” o livro Alcorão para “chegar” a Alá (tentem queimar um livro do Alcorão em frente a um muçulmano, a ver o que dá), como é iconoclasta o católico que “adora” a imagem de Maria para “chegar” a Jesus Cristo. São ambos, símbolos.

O que nos interessa saber, em qualquer religião, é o valor do símbolo — o que vale o símbolo, qual é o valor da sua representação e do seu representado, se esse valor é positivo ou negativo, pior ou melhor.

E o que deve preocupar os católicos é a sanha anticatólica de alguns “católicos gnósticos” infiltrados no Poder do Vaticano por intermédio do papa Chiquitito, cuja sapiência teológica dispensa a simbologia na prática religiosa. São os novos iconoclastas puritanos.

sábado, 5 de novembro de 2016

O determinismo soteriológico do Calvinismo e da gnose da Antiguidade Tardia

 

Acerca deste verbete, um leitor colocou a seguinte pergunta:

¿Você poderia explicar melhor por que a predestinação calvinista tem orientação gnóstica?


Os leitores deste blogue, em geral, terão já notado que o blogue não sofre actualizações diárias, como acontecia ainda há pouco tempo. E uma das razões deste semi-abandono do blogue é a dificuldade em fazer subir o nível de complexidade dos assuntos tratados: chegamos a um ponto em que nos tornamos incompreensíveis ou ininteligíveis.


Para responder a esta pergunta, eu teria que dizer o que é a “predestinação calvinista”; e depois dizer o que é a “gnose”. E depois, estabelecer paralelos ideológicos entre uma coisa e outra. ¿Estão a ver a trabalheira?

Podemos resumir a coisa assim: na gnose da Antiguidade Tardia, a salvação do indivíduo também estava pré-determinada por Deus:

“Os gnósticos da Antiguidade Tardia formaram seitas iniciáticas assentes na distinção radical entre os chamados Hílicos (a escória da humanidade, ou profanos, ou não-convertidos), por um lado, e por outro lado os chamados Pneumáticos (os possuidores do Espírito Santo). Apenas para os Pneumáticos havia a possibilidade hic et nunc de salvação, ao passo que os Hílicos estavam, à partida, destinados à morte espiritual (determinismo da salvação)”.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cátaros, albigenses e valdenses eram seitas gnósticas

 

O problema da narrativa histórica é o de que depende da interpretação dos factos, e não dos factos em si mesmos; ou melhor dizendo, os factos documentados apenas servem para fundamentar uma qualquer interpretação deles. Os historiadores contam uma história que não tem necessariamente uma relação causal e, sobretudo, não vai à essência dos factos.

Temos aqui uma narrativa histórica acerca dos cátaros, albigenses e valdenses; os factos citados (datas, eventos, nomes de pessoas) correspondem, grosso modo, à verdade histórica. Mas o erro da narrativa está na essência: parte-se do princípio (na narrativa) de que as seitas da Antiguidade Tardia que deram origem aos cátaros, albigenses e valdenses, eram cristãs — o que é absolutamente falso.

O problema dos historiadores em geral é o de não terem estudado suficientemente filosofia. Afirmar que as seitas gnósticas da Antiguidade Tardia eram cristãs, é um erro de palmatória.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O gnosticismo de Frei Bento Domingues

 

“Alguns leitores reagindo ao meu texto do domingo passado, disseram-me: se o panorama da família em desconstrução e reconstrução é tão caótico, como poderão as famílias agrupar-se para evangelizar, encher de alegria, antigos e novos projectos familiares?

Podem. Com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu - de avós a netos - que sem alarido, já vivem antigos e novos processos de alimentar e renovar a esperança das futuras gerações. Por outro lado, a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura, como certa apologética pouco católica, ignorante e sectária, insiste em proclamar”.

Frei Bento Domingues : Que temos nós a ver com os migrantes?

Ao contrário do que o Frei Bento Domingues declara sobre quem não concorda com ele, eu não considero que o Frei Bento Domingues seja ignorante; de ignorante, ele tem pouco. O ignorante não age com dolo, exactamente porque ignora.

Em contraponto, a perversidade não é ignorante, porque a intencionalidade do perverso revela-se nas suas ideias e acções — ao passo que o ignorante não age em função de uma causa. O moto do ignorante é a doxa, ao passo que o do perverso é a manipulação e adulteração do episteme.

Uma das características marcantes do politicamente correcto  é o de rotular de “ignorante” toda a gente que tenha ideias diferentes da norma politicamente correcta. ¿Não concordas com o "casamento" gay? Então és ignorante!. ¿Não concordas com as “famílias arco-íris”? Então és ignorante!. E por aí afora. O Frei Bento Domingues enquadra-se perfeitamente no espírito da Esquerda politicamente correcta mais radical. O mais que poderei dizer de Frei Bento Domingues é que ele parece ser psicótico; mas nunca “ignorante”.


Repare-se no trecho supracitado de Frei Bento Domingues. ¿O que é que ele quer dizer com “com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu”? ¿Refere-se ele (Frei Bento Domingues), por exemplo, às famílias poligâmicas que prevalecem no Islão? ¿Frei Bento Domingues avaliza a poligamia? Ele não o diz explicitamente. Mas ¿será que a poligamia vai ao encontro do critério do “amor” que o Frei Bento Domingues refere? ¿Será que, em nome de um pretenso “amor”, vale tudo?

¿E o que é que o Frei Bento Domingues quer dizer com “a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura”? ¿Será que, na opinião do Frei Bento Domingues, a Natureza determina a ética e a moral? O Frei Bento Domingues não diz quase nada de concreto: em vez disso, “atira umas coisas para o ar”. A ambiguidade é uma característica do perverso.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Pequeno diálogo entre Sócrates e Nietzsche

 

Sócrates – Nietzsche, você que é um literato, e diz que estudou a retórica e a linguagem, diga-me: ¿o que é a “verdade”?

Nietzsche – A verdade é um exército móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos, em suma, um conjunto de relações humanas que foram poética- e retoricamente consagradas, transpostas e ornadas, e que, no termo de um longo uso, parecem firmes a um povo, canónicas e obrigatórias. As verdades são ilusões que esquecemos que o são, metáforas que perderam a sua força sensível, moedas que perderam o seu cunho e passam a ser consideradas, não moedas, mas metal.1

Sócrates – ¿E será que a sua definição de “verdade” é verdadeira?

Nietzsche – Sem dúvida alguma! A “verdade”, para o comum dos mortais, é conforme a acabei de definir.

Sócrates — Mas os critérios dessa definição de “verdade”, ¿também não se aplicam à sua “verdade”?

Nietzsche – Claro que não! Eu não sou um mortal comum: sou um super-homem.


Nota
1. Definição retirada do ensaio de Nietzsche “Da Verdade e da Mentira na acepção extra-moral”.

domingo, 17 de maio de 2015

A religião gnóstica do esquerdalho

 

“The trend of politics in the Western nations since Eric Voegelin’s death in 1986 has made his work increasingly relevant to any philosophically rigorous Conservatism or Traditionalism. In particular, Voegelin’s argument that liberalism and its Leftwing metastases constitute an evangelical religious movement, mimicking and distorting Christianity, has gained currency.

The pronounced irrational character of the “Global Warming” cult and the obvious messianism of Barack Hussein Obama’s presidency have together sharpened the perception that contemporary Leftwing politics shares with history’s specimen-type doctrinally intransigent sects an absolute intolerance for dissent, even for discussion, along with a conviction of perfect certainty in all things.

The sudden experience of Leftwing triumph attests that, indeed, utopian radicalism draws its strength from a deep well of resentment that puts it in conflict, not merely with those whom it regards as heterodox, but also with the unalterable structure of reality.”

Plotinus and Augustine on Gnosticism (Thomas F. Bertonneau )

Quando vemos e ouvimos o esquerdalho na voz, por exemplo, de Ricardo Araújo Pereira ou do Nuno Markl, ou ainda muitas das opiniões ditas “científicas” auto-contraditórias do blogue Rerum Natura — não nos devemos esquecer que essas opiniões são guiadas por uma espécie de religião cuja ortodoxia não admite qualquer dissensão; e, como diz Thomas F. Bertonneau, esse tipo de religião política traduz um ressentimento em relação à inalterável estrutura da realidade.

esquerdalho-webConforme demonstrado por Eric Voegelin, e que Thomas F. Bertonneau sublinha, a rebelião do esquerdalho — que inclui o marxismo e o nazismo — contra a realidade é uma aflição recorrente da vida civilizada, tendo embora como paradigma as seitas gnósticas anti-cósmicas da Antiguidade Tardia. Hoje, o esquerdalho reduz o universo inteiro ao mundo sub-lunar limitado pelos satélites artificiais, o que é uma característica moderna da posição anti-cósmica dos gnósticos antigos. O culto religioso do Aquecimento Global e/ou o culto neolítico moderno e ctónico da Mãe-terra traduzem a redução contemporânea do conceito de “universo” ao mundo sub-lunar.

Quando verificamos que a juventude portuguesa maioritariamente não se interessa pela política, constatamos que o que se passa é uma indiferença em relação às seitas religiosas puritanas, ortodoxas, intolerantes e contemporâneas que em conjunto coordenam a política: o esquerdalho.

É possível que surja na Europa um cepticismo profundo em relação à política, assim como aconteceu um cepticismo profundo em relação às seitas religiosas puritanas depois de Cromwell ter assumido o Poder em Inglaterra, cepticismo esse manifesto no golpe-de-estado inglês de 1688 e na posterior filosofia política de Locke.

O que está em causa hoje é a forma como a política é dogmaticamente concebida, e como o escrutínio político é realizado obedecendo sobretudo à vontade das elites gnósticas contemporâneas (o esquerdalho) através da manipulação dos me®dia e da imposição totalitária de uma espiral do silêncio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os gnósticos modernos

 

A Gnose foi um movimento religioso da Antiguidade Tardia que teve as suas raízes em uma visão dualista (dualismo ontológico, e não propriamente um dualismo cartesiano) proveniente do Oriente [por exemplo, do Parsismo e do Maniqueísmo], e de acordo com a qual existe uma contradição entre o espírito e a matéria, bem e mal, luz e trevas. Os primeiros textos gnósticos datam do século II d.C.; as suas origens são obscuras; mas, provavelmente, a Gnose desenvolveu-se, no império romano, paralelamente ao Cristianismo e como uma grandeza religiosa independente.

(texto longo, com 1900 palavras)