Quando a ciência actual recusa a categorização empírica da realidade observável, já não é ciência: em vez disso, é pura ideologia política.
“O parecer da Ordem dos Médicos, citado pela deputada, aponta falhas nos projectos de lei apresentados. O documento alerta para uma confusão entre diferentes conceitos médicos e jurídicos.
Segundo o parecer, “algumas propostas legislativas assentam em imprecisões conceptuais relativas à distinção entre identidade de género, incongruência de género e disforia de género, bem como numa compreensão simplificada da complexidade do sexo biológico, que não reflecte o conhecimento médico actual”.
→ Isabel Moreira usa parecer da Ordem dos Médicos para criticar projectos sobre identidade de género
Por absurdo, a Ordem dos Médicos poderia dizer o seguinte:
“O ser humano não é um animal bípede, reflectindo o conhecimento médico actual”.
Porém, a verdade é que todos nós verificamos que a esmagadora maioria dos seres humanos são bípedes a partir do segundo ano de vida — com excepção dos humanos com síndroma de Uner Tan.
Ou seja, a ciência propriamente dita diz que os seres humanos podem ser categorizados naqueles que têm o síndroma de Uner Tan, e por isso são quadrúpedes, por um lado, e os que não têm a síndroma de Uner Tan e por isso são bípedes, por outro lado.
No exemplo que dei, o que a Ordem dos Médicos poderia dizer é o seguinte (isto é uma metáfora):
“Há pessoas com o síndroma de Uner Tan, e por isso não podemos dizer que os seres humanos são bípedes”.
É a recusa do juízo universal. É o nominalismo (recusa da categorização) levado ao absurdo por motivação puramente ideológica, embora com a chancela de “ciência”.
Ademais, a Ordem dos Médicos não define “identidade de género”. A Wikipédia define assim “identidade de género”:
“A identidade de género é o sentido pessoal que cada um tem do seu próprio género”.
Esta “definição” é tautológica. Seria como eu definisse a “cor branca” da seguinte forma:
“A cor branca é clara.”
ou definisse a luz:
“A luz é o movimento luminoso dos corpos luminosos”.
— isto é pura tautologia.
É por demais evidente que a ciência, por sua própria natureza, não se ocupa do sujeito, ou seja, do indivíduo como ser humano. Só podemos fundamentar a noção de “sujeito” em uma forma tautológica, ou seja, baseando-a na experiência subjectiva.
O conhecimento científico só concebe acções determinadas e determinísticas; não concebe a autonomia, o sujeito, tão pouco a consciência e a responsabilidade. Esta última é não-senso e não-científica. As noções de autonomia, sujeito, consciência e responsabilidade, pertencem à ética e à metafísica — e não à ciência positiva.
A Ordem dos Médicos deveria ter só um pouquinho de vergonha — já que a Isabel Moreira nunca terá vergonha na cara.