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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Isabel Moreira e o recurso aos “técnicos” ideológicos para manipular a ciência

Quando a ciência actual recusa a categorização empírica da realidade observável, já não é ciência: em vez disso, é pura ideologia política.

“O parecer da Ordem dos Médicos, citado pela deputada, aponta falhas nos projectos de lei apresentados. O documento alerta para uma confusão entre diferentes conceitos médicos e jurídicos.

Segundo o parecer, “algumas propostas legislativas assentam em imprecisões conceptuais relativas à distinção entre identidade de género, incongruência de género e disforia de género, bem como numa compreensão simplificada da complexidade do sexo biológico, que não reflecte o conhecimento médico actual”.

Isabel Moreira usa parecer da Ordem dos Médicos para criticar projectos sobre identidade de género

Por absurdo, a Ordem dos Médicos poderia dizer o seguinte:

“O ser humano não é um animal bípede, reflectindo o conhecimento médico actual”.

Porém, a verdade é que todos nós verificamos que a esmagadora maioria dos seres humanos são bípedes a partir do segundo ano de vida — com excepção dos humanos com síndroma de Uner Tan.

Ou seja, a ciência propriamente dita diz que os seres humanos podem ser categorizados naqueles que têm o síndroma de Uner Tan, e por isso são quadrúpedes, por um lado, e os que não têm a síndroma de Uner Tan e por isso são bípedes, por outro lado.

No exemplo que dei, o que a Ordem dos Médicos poderia dizer é o seguinte (isto é uma metáfora):

“Há pessoas com o síndroma de Uner Tan, e por isso não podemos dizer que os seres humanos são bípedes”.

É a recusa do juízo universal. É o nominalismo (recusa da categorização) levado ao absurdo por motivação puramente ideológica, embora com a chancela de “ciência”.

Ademais, a Ordem dos Médicos não define “identidade de género”. A Wikipédia define assim “identidade de género”:

“A identidade de género é o sentido pessoal que cada um tem do seu próprio género”.

Esta “definição” é tautológica. Seria como eu definisse a “cor branca” da seguinte forma:

“A cor branca é clara.”

ou definisse a luz:

“A luz é o movimento luminoso dos corpos luminosos”.

— isto é pura tautologia.

É por demais evidente que a ciência, por sua própria natureza, não se ocupa do sujeito, ou seja, do indivíduo como ser humano. Só podemos fundamentar a noção de “sujeito” em uma forma tautológica, ou seja, baseando-a na experiência subjectiva.

O conhecimento científico concebe acções determinadas e determinísticas; não concebe a autonomia, o sujeito, tão pouco a consciência e a responsabilidade. Esta última é não-senso e não-científica. As noções de autonomia, sujeito, consciência e responsabilidade, pertencem à ética e à metafísicae não à ciência positiva.

A Ordem dos Médicos deveria ter só um pouquinho de vergonha — já que a Isabel Moreira nunca terá vergonha na cara.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Não se deve misturar ciência e ética


1/ O Ludwig Krippahl escreve aqui um texto em que defende a ideia segundo a qual o progresso é uma lei da natureza. Escreve (ele):

“Como é mais difícil testar hipóteses acerca de valores do que acerca de factos, a ética parece avançar menos que a ciência mas, ainda assim, tem dado bons resultados.

Houve muito progresso em questões acerca de escravatura, igualdade de direitos, legitimidade dos governos, processos judiciais e outros. É uma abordagem claramente melhor do que autos de fé, ditaduras caprichosas ou tapar a cara às mulheres só porque é costume.”

Bastaria uma geração de bárbaros actuais para botar o “progresso” do Ludwig Krippahl  pela retrete abaixo.

2/ Ademais, o Ludwig Krippahl considera o “mito” como uma espécie de “mentira”, ou Teoria da Conspiração. Porém, em filosofia, o mito é uma narrativa didáctica que exprime uma concepção ou uma ideia abstracta (por exemplo, o mito de Prometeu, na obra de Platão, é sobre a origem da civilização e sobre a condição humana). Neste caso, mito pode ser sinónimo de metáfora.

Por outras palavras: o mito é uma formação noológica, quer seja principalmente imaginária e simbólica, quer seja principalmente ideológico-abstracta, que, embora podendo ser uma construção do espírito, adquire valor de realidade e/ou verdade.

A definição de "mito" comporta várias componentes e o mito pode tomar diversas formas, desde o relato fabuloso, à ideia-força da ideologia política. Ademais, o mito não pode entrar pura e simplesmente na alternativa verdadeiro / falso. Apesar de imaginário ou ideal, o mito não pode ser reduzido à ilusão, ao erro, à mentira.

3/ Para o Ludwig Krippahl, o filósofo é avesso às matemáticas, por exemplo:

«A marca "filosofia" tornou-se propriedade das humanidades, a quem desagrada a experimentação, a matemática, a estatística e a análise de dados. Com isto ficou mais permeável a tretas como religião, floreados, demagogias pós-modernas e afins.»

Por isso é que um dos grandes professores universitários de matemática em Oxford é filosofo e católico confesso (John Lennox). Poderia dar aqui dezenas de exemplos de cientistas de nomeada que não tratam a religião como “tretas” — mas não vale a pena: o Ludwig Krippahl é duro de ouvido. Há pessoas que não gostam de música (por exemplo, Freud era duro de ouvido) porque são duros de ouvido; não têm culpa disso.

4/ O Ludwig Krippahl confunde “técnicos”, por um lado, e “cientistas”, por outro lado:

«E a ciência, para a maioria dos seus praticantes, relegou para segundo plano a compreensão da realidade e tornou-se numa linha de montagem onde cada um só conhece a sua tarefa, maximiza a "produtividade" e é avaliado por coisas como indicadores bibliométricos de desempenho.»

Em ciência, existem os trabalhadores e os pensadores.

Para os trabalhadores (os técnicos) existem “livros de receitas”: até mesmo um físico medíocre, por exemplo, pode fazer um trabalho de primeira qualidade no laboratório, aplicando fórmulas sem ter em consideração toda a problemática científica e filosófica do seu campo de trabalho.

No manual de Metodologia das Ciências da Natureza de Herbert Pietschmann, distingue-se entre o físico trabalhador, por um lado, e o físico pensador, por outro lado:


“Os físicos trabalhadores que aplicam os métodos da física não têm quaisquer dificuldades em mecânica quântica. Porém, acontece frequentemente que nem sequer têm consciência das suas consequências de longo alcance para a questão da reprodução de uma 'realidade'. Os conflitos só surgem na tentativa de interpretação da forma como o método utilizado, sem qualquer problema na prática, descreve uma 'realidade'.”

Gribbin escreveu [John Gribbin (1984) “In Search of Schrödinger's Cat: Quantum Physics And Reality”]: “

(…) é precisamente por causa do grande êxito da equação de Schrödinger, como instrumento prático, que muitas pessoas foram impedidas de reflectir [filosoficamente] profundamente sobre a forma e a razão do funcionamento desde instrumento”.

5/ Voltando ao “progresso” [da ética], segundo o Ludwig Krippahl. Escreve (ele):

«Entender a filosofia como a procura racional por respostas, e a ética e a ciência como filosofia aplicada a questões acerca de como saber e agir, não só dá uma ideia mais completa do que é procurar a sabedoria como ajuda a resistir a muitos disparates.

Entre outros, a tese de que a ciência pode substituir a ética; que afirmações acerca da realidade ficam imunes à crítica científica se as rotularmos de filosóficas, metafísicas ou teológicas; que há diferentes níveis de realidade estudados pela fé, ciências ocultas, medicinas alternativas e outras confusões. Não é defesa garantida porque temos sempre de decidir sob incerteza. Mas, perante qualquer alegação acerca do que é ou deve ser, podemos sempre questionar se foi obtida por essa via racional.»

Num artigo que escrevi há anos, destruo completamente a argumentação do Ludwig Krippahl:

« A ética e a moral não podem ser definidas ou determinadas pela ciência.

A ideia de responsabilidade moral reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas” — aqui entendidas no sentido naturalista [naturalismo ≡ cientificismo metodológico].

Para tentar contornar esta realidade objectiva e insofismável que consiste no facto de a ciência não poder determinar a ética, a ciência transformou-se, ela própria, em uma forma de metafísica pura, para assim poder obter a legitimidade para opinar sobre a ética e sobre a moral. É assim que surgem as “teorias científicas” não refutáveis na sua essência, como por exemplo, a teoria do Multiverso, ou as teorias evolucionistas em geral [por exemplo, a teoria do epifenomenalismo de Thomas Huxley, que ainda hoje subsiste entre os darwinistas, evolucionistas e naturalistas].

Entrando pela metafísica adentro, a ciência — feita por cientistas que são, eles próprios, sujeitos — pretendeu redefinir a ética e a moral segundo princípios deterministas que “varriam” o sujeito, e estabelecendo apenas determinações, leis e estruturas [estruturalismo]. Neste sentido, a ciência pretende ser uma espécie de nova religião [imanente e política], cuja classe dos novos sacerdotes é composta principalmente pela classe dos cientistas. »

Ler o resto do artigo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O Luís Osório gaba o intelecto do Galopim que diz que a célula viva surgiu de calhaus alentejanos


Podemos avaliar o estado da ciência em Portugal quando vemos o que se publica no blogue fundado pelo Carlos Fiolhais. Vemos, por exemplo, uma última ode desse tugúrio cientificista ao “cientista” Galopim de Carvalho, o tal que escreveu que a célula viva evoluiu a partir das pedras:

«O grau de complexidade da matéria a que chegámos foi crescente desde o início do tempo, isto é, nos cerca de 13 700 milhões de anos (com uma margem de erro de 200 milhões) de existência do Universo que julgamos conhecer.

Das partículas primordiais passou-se aos átomos e, só depois, às moléculas, cada vez mais complexas.

A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas, que fizeram a sua aparição na Terra há mais de 3 800 milhões de anos, através de uma cadeia, inicialmente abiótica, de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e o erro tiveram a seu favor 75% ou mais dessa enormidade de tempo.»

Em outro trecho, o referido “cientista” português escreveu:

Foram as pedras e os fósseis, que muitas delas trazem dentro, que nos deram a conhecer a origem e a evolução da Terra e da Vida, ao longo de centenas de milhões de anos (Ma). Foi nesta evolução que matéria inerte, como são os átomos de oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e outros como fósforo e enxofre, em muito menores percentagens, se combinou a ponto de gerar a vida e, através do cérebro humano, adquirir capacidade de pensar”.

Eu não tenho dúvidas nenhumas de que o pensamento do Galopim evoluiu a partir de calhaus, porque é um pensamento empedernido, cristalizado no sistema ortorrômbico ou triclínico. O que me incomoda é que o galopim, em nome da ciência, meta a humanidade inteira na sua própria categoria ontológica.

Por fim, o tom louvaminheiro do jornaleiro Luís Osório em relação às teses metafisicas de um comunista militante de 93 anos diz muito do estado da cultura em Portugal.

Estamos f*d*dos. E mal pagos.

O Aparente é uma manifestação intencional do Real


A professora Helena Serrão publica aqui um texto — de certa forma, Kantiano — da autoria de um tal Julian Baggini que não conheço. Guardei o texto aqui, em PDF.

O referido texto trata da problemática kantiana que envolve os conceitos de “númeno” (a “coisa em si”, ou a realidade propriamente dita), e o de “fenómeno” (aquilo que nos aparece proveniente do mundo, ou seja, as “aparências”).

O que Kant quis dizer (em termos práticos) com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma", a realidade propriamente dita, ou númeno — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria. Neste sentido, Baggini tem razão.

Segundo Platão, a analogia é “o mais belo de todos os nexos”, e é indispensável à ciência. Sem analogia não há ciência; e a metonímia é a forma de tradução — na linguagem (humana) — da analogia. Ora, vejamos a seguinte “analogia do sapo”:

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Galopim de Carvalho: a prova de que um cientista pode ser um imbecil


Quando lemos este texto de Galopim de Carvalho (ver ficheiro PDF), ficamos com a ideia de que poderia ter sido escrito por um idiota qualquer, aspirante a secretário-geral do Partido Comunista. Não é disto que se espera de um cientista, ou mesmo de um defensor da ciência.

A ciência não é um instrumento de ideologia política. Aliás, a ciência deve ser o oposto de uma qualquer ideologia.

O supracitado idiota vem (outra vez) com a lengalenga das “perseguições” da Igreja Católica a Giordano Bruno (um frade dominicano católico, e lunático) e a Galileu (não houve perseguição alguma a Galileu, houve problemas pessoais com o papa), mas esquece-se das perseguições do chamado “espírito científico” em relação à humanidade que matou mais de 100 milhões de seres humanos no século XX.

O galopim é um idiota chapado.

« A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição da Igreja Católica em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa. »

→ Pierre Chaunu, historiador francês

Se entendermos a ciência na perspectiva actual e actualizada, a reacção do Papa medieval às teses de Galileu foi absolutamente correcta, do ponto de vista do método científico (paradigma).

As teses de Copérnico (um Padre católico que defendeu a tese do heliocentrismo) receberam o imprimatur da Igreja Católica porque foram formuladas como hipóteses — o que não aconteceu com Galileu, que não quis formular hipóteses, mas antes pretendeu afirmar verdades absolutas. E a tentativa de afirmação das suas verdades absolutas aconteceu numa época em que a hipótese geocêntrica de Ptolomeu (um paradigma) podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

Segundo a perspectiva actual da ciência (o conceito de “paradigma” ) e, por isso, racional e científica propriamente dita, a Igreja Católica do tempo de Galileu defendeu a concepção científica mais moderna, embora tenha errado tanto quanto erra a ciência actual.

O galopim é uma besta.

Para além disso, o galopim é burro, porque a hipótese do heliocentrismo é muitíssimo anterior a Copérnico e Galileu: Aristarco de Samos, que viveu no século III a.C., foi simbolicamente condenado à morte — ou seja, não foi realmente morto — por ter dito que era a Terra que se movia em torno do Sol e que as estrelas não rodopiavam à volta da Terra; e foi simbólica- e virtualmente condenado à morte precisamente porque Aristarco colocava assim em causa a existência da morada dos deuses gregos, porque segundo a mitologia grega, era suposto que a Terra fosse o centro do universo, explicando-se assim a existência do Olimpo.

Sobre Giordano Bruno, escrevi aqui. Giordano Bruno não foi morto por serviços prestados à ciência. Bruno foi morto por razões que se misturam entre a transgressão espiritual e teológica, e questões pessoais e privadas.

O galopim é ignorante.

O galopim vive sob o jugo irracional de um paradigma, mas, simultaneamente, recusa o conceito de paradigma. A linguagem do galopim é ideológica, dogmática.

“There are two kinds of people in the world: the conscious dogmatists and unconscious dogmatists. I have always found myself that the unconscious dogmatists were by far the most dogmatic.”

→ G. K. Chesterton, ‘Generally Speaking.’

O galopim vem dizer que a ciência positivista “não impõe". Claro que impõe! E a prova disto é a imposição imbecil dele, segundo a qual a ciência positivista e a religião são oponentes. O positivismo é uma espécie de ideologia.

Comparar ciência e religião é próprio de um asno. O galopim é um asno.

sábado, 23 de março de 2024

Thomas Kuhn e a “ciência revolucionária”


A professora Helena Serrão transcreve aqui um textículo de Thomas Kuhn acerca do conceito de “anomalia” (em filosofia da ciência).

Kuhn categorizou a ciência como “normal” e como “revolucionária”. O conceito de “paradigma” aplica-se à ciência normal, em que um paradigma é aceite e aplicado a novas situações que surjam.

Porém, a presença / existência de uma anomalia (ou duas) não é suficiente para causar o abandono de um paradigma — porque, segundo Kuhn, a lógica da falsificabilidade não é aplicável no caso de rejeição de um paradigma (o paradigma não é rejeitado apenas na base de uma comparação das suas consequências e das “provas” empíricas): a rejeição de um paradigma é uma relação de três termos que envolve 1/ o paradigma estabelecido, 2/ um paradigma rival, 3/ e as “provas” resultantes da observação empírica.

Quando surge, de facto, um paradigma rival, surge um estádio da “ciência revolucionária”.



Dou o exemplo da lei de Fourier. Surge a notícia de que o paradigma subjacente à lei de Fourier sofre de (pelo menos) uma anomalia; mas ainda não existe um novo paradigma viável em competição com o anterior, e por isso é que o actual paradigma da lei de Fourier (ainda) não é colocado em causa pela anomalia recentemente descoberta.

Porém, o novo paradigma da lei de Fourier, quando surgir, representará uma mudança da percepção da realidade (Gestalt-shift): a nova lei de Fourier, a surgir em função das anomalias verificadas, pode diferir do paradigma anterior em relação ao tipo de resposta admissível aos problemas colocados pela observação — ou seja, os dois paradigmas (o velho e o novo) não poderão ser medidos / avaliados num mesmo nível / qualidade de percepção da realidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

O Ludwig Krippahl, o Galopim de Carvalho, e o Ernst Haeckel estão de acordo


O Ludwig Krippahl defende a ideia segundo a qual a evolução é um fenómeno exclusivamente materialista.

Dentro desta mesma ideia, o alemão Ernst Haeckel, no século XIX, afirmava que a célula viva era uma coisa muito simples e que surgia espontaneamente da lama depois de uma chuvada. Mas o Ernst Haeckel tinha atenuantes: no século XIX ainda não existia, por exemplo, a bioquímica.

O Ludwig Krippahl parece seguir a ideia de base de Ernst Haeckel.

Outro pensador materialista (e comunista), professor universitário (Galopim de Carvalho), pasme-se!, escreveu o seguinte:

“Foram as pedras e os fósseis, que muitas delas trazem dentro, que nos deram a conhecer a origem e a evolução da Terra e da Vida, ao longo de centenas de milhões de anos (Ma). Foi nesta evolução que matéria inerte, como são os átomos de oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e outros como fósforo e enxofre, em muito menores percentagens, se combinou a ponto de gerar a vida e, através do cérebro humano, adquirir capacidade de pensar”.

Outra pérola do galopim:

“O pensamento, não surgiu no cérebro humano da noite para o dia. É um produto imaterial da matéria”.


Só uma pessoa com neurónios enrijecidos e fossilizados, cristalizados no sistema ortorrômbico ou triclínico, pode afirmar que o cérebro humano adquiriu capacidade de pensar, a partir das pedras e da matéria inerte. O galopim, tal como o Krippahl, tem um pensamento empedernido; da mente dele já não sai nada senão ideias fossilizadas.

Um cientista deve ter a humildade de assumir que “não sabe” — em vez de afirmar, explícita- ou implicitamente que a vida surgiu da lama depois de uma chuvada.

“Evolução é uma palavra flexível. Pode ser utilizada por alguém para designar uma mudança que ocorre no tempo, ou por outra pessoa para referir a descendência de todas as formas de vida de um antepassado comum, não se especificando o mecanismo dessa mudança. No seu sentido biológico, contudo, a evolução designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica. É neste sentido que eu utilizo a palavra “evolução” ao longo deste livro.”

--- Michael Behe, in “A Caixa Negra de Darwin”, Editora Ésquilo, ISBN 978-989-8092-44-1.

Isto significa que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica, e não à ciência. Ou, se quisermos, um conceito neo-kantiano:

“O criacionismo (bíblico) é um mito, assim como o darwinismo é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”.

Eric Voegelin

Se “evolução” é um processo através do qual o Criador se apresenta no espaço-tempo, e por isso, se o conceito de “evolução” subentende que o espírito, a alma e a razão são produtos de uma evolução segundo a lei divina (e não só a lei natural, que é uma consequência da lei divina), então o termo “evolução” não representa, para mim, qualquer problema.

Mas se o termo “evolução” for entendido em termos estrita- e meramente biológicos e materialistas, então, o facto que resulta da verificação da autoconsciência, por um lado, e a possibilidade de acesso à dimensão das verdades perenes, por outro lado, destrói este quadro e esta mundividência evolucionários.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

O politicamente correcto é, na sua essência, anti-científico


Outro texto escolhido pela professora Helena Serrão, desta vez colocando sibilinamente em causa a indução (na ciência): trata-se, em boa verdade, de uma crítica à generalização.

Vivemos em uma cultura de crítica feroz à generalização, ou seja, nunca cultura estruturalmente anti-científica, por um lado, e por outro lado, numa cultura marcada por um nominalismo radical, em que as pessoas (geralmente) têm dificuldade em categorizar a realidade; uma cultura em que a noção de “juízo universal” está basicamente ausente, ou é negada.

A crítica à generalização, em favor de um nominalismo radical, não é apenas de hoje: é uma manifestação da “velhice do eterno novo” (Fernando Pessoa). Na velha Grécia, Antístenes (o Cínico) dizia que a realidade é sempre individual e que a generalização é uma ilusão.

Antístenes poderia perfeitamente ser militante do Bloco de Esquerda.

Antístenes terá dito a Platão: “Eu vejo um cavalo, mas não vejo a cavalidade”, ao que Platão respondeu: “Porque não tens olhos para vê-la...”

Quando Antístenes dizia que via “um cavalo mas não via a cavalidade”, estava a negar a noção de juízo universal. Uma das características do politicamente correcto actual é a negação radical do juízo universal. A negação do juízo universal é a negação da generalização e da indução, é a negação da ciência.

O que aconteceu, ao longo da História, foi uma sucessão de herdeiros de Antístenes que deixaram de ver a cavalidade para só enxergarem o cavalo, isto é, eles próprios. O nominalismo é o pai do relativismo.

O politicamente correcto, que nos governa actualmente, é, na sua essência, anti-científico. Pretende estupidificar orgulhosamente os povos.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O triunfo os porcos da pseudo-ciência


Na França de Macron, saiu pela calada uma nova lei que condena a três anos de prisão quem criticar publicamente as injecções de mRNA, vulgo “vacinas” do COVID-19. Assiste-se aqui a uma aliança entre a política, a pseudo-ciência e os me®dia — o triunvirato dos porcos que controlam o nosso tempo.

A política globalista trabalha progressivamente para o fim da validade do voto do cidadão, em que a expressão popular nas urnas se transforma num pró-forma — passa de símbolo da vontade popular, a um sinal público e político que pode ser alterado a bel-prazer pelas elites globalistas; a pseudo-ciência está totalmente ao serviço dos poderosos da finança globalista e da política antidemocrática; e os me®dia (órgãos de comunicação social) estão controlados pelos globalistas do Grupo dos Trezentos.

A ciência contemporânea pode ser concebida mediante dois filtros principais: a falsificabilidade, de Karl Popper, e o "Vale Tudo", de Feyerabend.

Em epistemologia, a falsificabilidade é o carácter das teorias científicas que são sempre susceptíveis de serem refutadas pela experiência, mas que nunca podem ser definitivamente confirmadas ou corroboradas.

Em contraponto, foi ao abrigo do princípio do “vale tudo” de Feyerabend que, por exemplo, Stephen Hawking afirmou num livro que “o universo surgiu do nada”; ou, que a homeopatia é considerada parte da ciência. Quando, em ciência, "Vale Tudo" — podemos até afirmar “cientificamente” que o mundo vai acabar em 10 anos por causa do CO2 na atmosfera.



Sai no jornal Púbico a notícia “científica” segundo a qual o oceano Atlântico vai acabar em 20 milhões de anos. E ¿por que razão será em 20 milhões de anos? ¿Será em 100 milhões de anos? ¿Esta teoria é falsificável? A resposta é “não”.

Seria como se eu afirmasse aqui que “todos os deuses falam grego”: ¿esta proposição é falsificável? Claro que não.

A confusão actual entre ciência, por um lado, e pseudo-ciência, por outro lado, é total; e serve sobretudo os interesses das elites globalistas e as suas organizações de caciques nacionais (os partidos políticos que se dizem “democráticos”, mas que têm práticas antidemocráticas).

Poucos meses antes de morrer, João Lobo Antunes afirmou, num programa de rádio (eu ouvi), que a ciência, até ao fim da década de 1960, dedicou-se a resolver problemas concretos da humanidade, mas que a partir dos anos 70 entrou na pseudo-ciência em que confunde ciência e filosofia.

Hoje, os “cientistas” encontraram uma forma de acabar com a filosofia: incorporaram-na na própria ciência.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

O controlo da ciência pela ideologia


“Sem a filosofia, as ciências não sabem o que sabem”.

Nicolás Gómez Dávila 



mestre medicina

Uma pessoa serve-se de uma pretensa autoridade de direito em matéria de “ciência”, para impingir uma ideologia.

A “justificação científica” é patética; por exemplo, a ideia de que “a maioria das pessoas não sabe os seus cromossomas” — como se esse conhecimento prévio (no sentido de “consciência de”), por parte do sujeito, fosse importante para a definição objectiva do sexo da pessoa em causa.

perfil-web

É verdade que cada indivíduo é irrepetível — ser “idêntico” significa ser “único” (A=A). Porém, o facto de cada ser humano ser único (é idêntico a si próprio, e por isso, tem a sua própria identidade), isso não significa que cada ser humano não caiba numa categoria  ou classe.

Uma pessoa que recusa a categorização objectiva da realidade, assume uma posição anticientífica. O alegado mestrado em medicina (da criatura em causa) é irrelevante.

domingo, 2 de julho de 2023

O Nominalismo radical da Esquerda, o José Pacheco Pereira, e o repúdio em relação à ciência


O Nominalismo, no tempo de Guilherme de Ockham, tinha como intenção o foco na realidade das coisas concretas e no experimentalismo que fundamentassem a ciência.

Hoje, o Nominalismo radical é a recusa liminar do conceito de juízo universal e da indução, ou seja, é a recusa da própria ciência.


Aquilo a que chamamos “Wokismo” é, sem dúvida uma consequência do marxismo cultural (que o José Pacheco Pereira diz que não existe), mas é também a incapacidade de discernir entre os conceitos de “indivíduo” e de “comunidade”. Para as pessoas, como o Pacheco, que dizem que “o marxismo cultural não existe”, citamos o intelectual inglês Douglas Murray :

«O marxismo cultural é geralmente concebido como “inexplicável” somente por pessoas que adoptaram esse conceito ao longo das suas vidas; e depois fazem-se de estúpidos». douglas murray-marxismo cultural web

Esta frase vai direitinha para o José Pacheco Pereira e encaixa nele como uma luva.


Mas voltando ao Nominalismo:

nominalismo-webOs esquerdistas têm hoje grande dificuldade em generalizar; em epistemologia (ciência), a indução é uma inferência conjectural ou não-demonstrativa; é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

Ora, o esquerdopata actual não consegue extrapolar para leis gerais a partir de casos particulares. É-lhe muito difícil fazer esse exercício (narcisismo exacerbado).

O “caso particular”, que o esquerdista observa, é entendido por ele como uma realidade não-extrapolável — segue, no fundo, o arquétipo mental de Antístenes, que se dirigiu criticamente ao realismo de Platão, dizendo-lhe:

“Eu vejo aqui um cavalo, mas não vejo a 'cavalaridade'”.

Antístenes não conseguia ver a classe ou a categoria dos equídeos...!
Ele só conseguia ver um cavalo de cada vez, e o conceito de “categoria de equídeos” era-lhe totalmente estranho.

Ora, é isto que se passa, em geral, com o militante de base dos partidos de esquerda — refiro-me ao militante de base da ala mais radical do Partido Socialista, e do Bloco de Esquerda em geral; mas não só: este tipo de “cegueira” em relação ao geral/universal, a recusa da indução e da inferência como forma de categorizar a realidade, começa a ser parte do arquétipo mental de uma grande parte da população.

A ideia-base das elites de Esquerda é a seguinte: “não podemos generalizar!”.

A partir daqui, qualquer tipo de generalização passa a ser proibida, e o acólito ignaro esquerdista passa a olhar a indução científica como uma Expressão do Mal.

Porém, quando a ciência corrobora a ideologia política vigente, ou quando a ciência é retorcida e manipulada para acomodar a ideologia política, então o esquerdista aceita a ciência no sentido em que esta justifique a legitimidade ideológica e existencial do “Caso A”, do “Caso B”, “C”, “E”, etc. — um caso de cada vez, porque o esquerdopata só vê um caso de cada vez.

terça-feira, 16 de maio de 2023

O método indutivo-dedutivo aristotélico aplicado à ética


Este texto de Michael Sandel, publicado pela professora Helena Serrão (ler aqui em PDF), foi (aparentemente) impresso em Portugal pela Editora Presença, de Lisboa; mas está escrito em língua brasileira; e isto preocupa-me: por exemplo, em português escreve-se “facto”, e não “fato”; e por aí fora...

Pelo facto de a Editora Presença publicar, em Portugal, livros em língua brasileira sem qualquer aviso ao comprador, deveria ser objecto de uma indemnização legal ao consumidor.


Michael Sandel faz parte de uma corrente filosófica a que se convencionou chamar de “comunitaristas”, que se opõe aos libertários (individualismo radical). Da corrente dos “comunitaristas” fazem parte, também e por exemplo, Michael Walzer, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor.

O texto de Sandel é muito interessante porque aplica, à reflexão ética, o método indutivo-dedutivo científico de Aristóteles, que encarou a investigação científica como uma progressão a partir das observações até aos princípios gerais, e destes, de novo, de volta até às observações — Aristóteles sustentou que o cientista deveria induzir princípios interpretativos a partir dos fenómenos a interpretar, e, a seguir, deduzir afirmações (proposições) sobre os fenómenos a partir de premissas que incluam estes princípios.

Observação → indução → princípios interpretativos → dedução → de volta à observação

Este modelo aristotélico foi posteriormente adoptado por Roger Bacon (não confundir com Francis Bacon), e ainda hoje é válido até certo ponto.

Na segunda parte do texto, Sandel adopta o criticismo kantiano (Kant, Karl Popper) que exige discussão pública das teorias subjectivas e individuais (tanto em ciência, como na ética).

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A ciência, a filosofia, e o gongorismo académico


Em relação a este texto no Porta da Loja:

1/ A filosofia consiste na procura da verdade, o que pressupõe que a verdade existe. Podemos dizer que a filosofia aspira a ser “a ciência dos postulados não-arbitrários”.

ortega-y-gasset-webFoi esta procura filosófica da verdade que impulsionou a ciência, o que é uma característica da civilização grega, e europeia em geral — “enquanto os gregos inventavam a Ciência, os chineses dominavam Técnica” (mutatis mutandis, Ortega y Gasset, in “¿Que es Filosofía?”).

A diferença entre a ciência e a filosofia é, basicamente, a de que as proposições da ciência são verdadeiras ou falsas — porque são juízos falsificáveis em relação a factos existentes —, ao passo que os enunciados filosóficos são autênticos ou apócrifos, porque são juízos de significação.

A verdade de uma proposição (científica) é sempre hipotética, e apenas a sua falsidade é experimentalmente constatada — ao passo que a autenticidade de um enunciado (filosófico) é passível de corroboração, mas a sua natureza apócrifa apenas é supositiva (hipotética).

O critério científico é o da experimentação, que pode falsificar, mas que não verifica; o critério da filosofia é o da experiência, que pode confirmar, mas que não refuta. Não podemos nunca garantir a eternidade de uma proposição científica, nem assegurar que um enunciado filosófico já terá perdido totalmente a sua validade.

Também porque são diferentes, a ciência e a filosofia complementam-se. São duas bases do “tripé” que procura a verdade. A terceira base do tripé é a teologia.

O erro, e o acto de errar, fazem parte da procura da verdade.

Neste sentido, uma qualquer filosofia que negue a existência da Verdade (como é o caso da teoria relativista de Nietzsche), cai em contradição — porque se a verdade não existe, a filosofia (assim como a ciência) deixam de fazer sentido lógico. Trata-se, neste caso, de uma filosofia errada.

Todas as teorias ditas “filosóficas” que não partam do princípio do reconhecimento da existência da Verdade, são falsas — assim como todas as teorias científicas procuram a verdade através de um processo de falsificação.

Similarmente, a “ciência” está cheia de erros — como é o caso, por exemplo, do Lysenkoísmo, que foi uma manipulação política da ciência por parte de Estaline, e que pode ser comparada à actual Ideologia de Género que se serve de uma “ciência anti-experimental” para prosseguir uma determinada agenda ideológica e política.


karl popper web2/ Os professores de filosofia olham para o filósofo com uma superioridade de adulto.

Em um texto/carta publicado na década de 1960, Karl Popper desanca nos académicos e nos ditos “intelectuais”.

«Aquilo que designei mais atrás por “pecados contra o espírito santo” — a arrogância dos pretensamente instruídos — é a verborreia, o pretensiosismo de uma sabedoria que não possuímos. A fórmula é a seguinte: tautologias e trivialidade condimentadas com o absurdo paradoxal. Uma outra receita é escrever em estilo empolado, dificilmente inteligível, e juntar, de quando em quando, uma ou outra banalidade: agrada ao leitor que se sente lisonjeado por encontrar, numa obra tão “profunda”, reflexões que ele próprio já tinha feito.

(…)

Quando um estudante entra na universidade, não sabe quais os critérios que deve adoptar. Assim, aceita os critérios que lhe são propostos. Uma vez que os critérios intelectuais da maior parte das escolas filosóficas (e muito em particular, na sociologia) toleram o gongorismo e a arrogância (todas essas pessoas parecem saber imenso), algumas boas cabeças são completamente afectadas. E os estudantes a quem o falso pretensiosismo da filosofia “dominante” irrita, tornam-se, com razão, detractores da filosofia. E convencem-se, sem razão, que tais pretensiosismos são próprios da classe dominante”, e que seria, então, preferível uma filosofia de influência marxista.»

Mais adiante, Karl Popper dá exemplos do gongorismo académico, como é o caso de Habermas:

«

[citação de ensaio de Habermas]

A totalidade social não tem vida própria acima do que é por ela concatenado, e de que ela própria é constituída.

Ela produz e reproduz-se através dos seus momentos singulares.

Tão pouco é de dissociar esse todo da vida, da cooperação e do antagonismo do individual (…) »

A tradução simplificada de Karl Popper:

« A sociedade é constituída por relações sociais.

As diferentes relações sociais produzem, de qualquer modo, as sociedades.

Entre essas relações encontra-se a cooperação e o antagonismo; e uma vez que (como já foi dito) a sociedade é constituída por tais relações, não pode ser dissociada delas.»

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

¿Por que razão a Esquerda ganha quase sempre as eleições? Porque mente apaixonadamente !


A Direita, em juízo universal e por motivos culturais, tem mais dificuldade em mentir (politicamente) do que a Esquerda.

A Direita (propriamente dita) não é prometaica — é esta uma das razões por que o IL (Iniciativa Liberal), sendo um partido de índole utopista e transumanista ("Os Amanhãs Que Cantam" da pseudo-ciência), não é um partido de direita.

lula vs bolsonaro web

Quando o Carlos Fiolhais (por exemplo) diz que apoia o Lula da Silva porque este defende a ciência (afirmando, pelo contrário e literalmente, que o Jair Bolsonaro não apoia a ciência), o que ele está a fazer é transformar a ciência em ideologia.

“A ciência adapta a teoria à realidade, ao passo que a ideologia adapta a realidade à teoria.” — (Mathias Desmet, "The Psychology of Totalitarianism", 2022, página 44).

carlos fiolhais a ideologia da ciencia webA partir do momento em que o Carlos Fiolhais continua a afirmar a importância das ditas “vacinas” COVID-19 (que não vacinam nada nem ninguém), quando se verificou já o descalabro que estas causaram nas sociedades ocidentais, constatamos que gente como o Carlos Fiolhais transforma a ciência em pura ideologia.

«O totalitarismo é, em última análise, o corolário lógico de uma obsessão generalizada com a ciência, a crença na criação artificial de um paraíso na Terra: “A ciência tornou-se em um ídolo que curará, magicamente, os males da existência [humana] e transformará a natureza do ser humano” ['As Origens do Totalitarismo', Hannah Arendt]» — idem, página 48.

O Carlos Fiolhais é uma vergonha. O rei vai nu.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

O cientista que acredita que o processo de Conhecimento não existia antes de o ser humano surgir na Terra

No blogue Rerum Natura, faz-se a apologia da ciência da seguinte forma:

«O livro de Gary Ferguson, “Oito grandes lições da Natureza”, publicado recentemente, é muito bom, pelas grandes ideias que contém e pela inspiração que encerra. É que “nós somos natureza,” como o autor refere. Parece óbvio, mas nem sempre é bem entendido. Eu diria mais: o que fazemos e o que produzimos é também Natureza


Pergunto: ¿O que é “Natureza”?

¿A Natureza (segundo o autor do artigo) inclui o Cosmos? ¿Ou apenas se limita ao conjunto ordenado de seres vivos, ou seja, a “natureza das coisas”, segundo o materialista Lucrécio? ¿Será, a “Natureza”, o princípio criador do universo, segundo o ateu e monista Espinoza (Deus Sive Natura)?

Para que haja ciência é necessário postular a insignificância do universo.

O problema que se coloca é o de que, para que haja ciência é necessário postular a insignificância do universo — porque a neutralidade axiológica (que a ciência diz defender) não é uma conclusão científica, mas antes é um postulado metodológico. Por isso, há que saber o que se entende por “Natureza”.

«A primeira “lição” é o mistério. Cita Albert Schweitzer: “à medida que adquirimos mais conhecimento, as coisas não se tornam mais compreensíveis mas sim mais misteriosas”».

Muito antes de Schweitzer, Nicolau de Cusa (1401 – 1464) resumiu esta ideia mediante o conceito de “Douta Ignorância”: se a verdade é do domínio do infinito, e o conhecimento humano é do domínio do finito, por mais que o Homem se aproxime do conhecimento da Verdade por graus sucessivos de conhecimento, todo o esforço de conhecer redundará em um relativo e proporcional “quase nada”.

«Embora a Natureza seja uma fonte sempre promissora de novos medicamentos, esses 60% não são sequer inspirados pelos seres vivos ou pela Natureza “clássica.” São criações humanas usando bases de dados de moléculas, computadores, conhecimentos sobre os alvos terapêuticos, síntese química, e muito mais coisas que a química medicinal inventou. Isso não é maravilhoso? Não aumenta o encanto? Eu acho que sim.»

O autor daquele texto acredita certamente que os números primos são invenções humanas: antes de o ser humano os inventar, “os números primos não existiam”.

A ideia segundo a qual “os conhecimentos sobre os alvos terapêuticos” já existiam antes de o ser humano os descobrir, é-lhe completamente estranha. Para ele, os princípios matemáticos e os axiomas da lógica não existiam antes de o ser humano os “criar”; e o universo também não!: “Afinal, ¿o que seria do universo se não existisse o ser humano?!”

Esta deificação prometaica do ser humano é a coisa mais estúpida que se aprende hoje nas universidades; e está ligada ao completo absurdo que é o materialismo.

domingo, 3 de julho de 2022

A Inteligência Artificial, e o Valor

O Ludwig Krippahl escreve aqui (ver PDF) acerca da identificação (ou negação da identificação) entre Inteligência Artificial, por um lado, e Consciência, por outro lado; e chegou a conclusões logicamente aceitáveis embora partindo de pressupostos imprecisos ou mesmo errados.

O Ludwig Krippahl parte para uma abordagem do conceito de “consciência” sem o definir — o que é extraordinário! Imaginem que alguém escreva um livro de mil páginas em letra miúda acerca da Consciência sem nunca definir o termo...


Eu tenho uma definição para “consciência”:

A consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como em termos existenciais.

O materialismo do Ludwig Krippahl impede-o de aceitar esta definição de “consciência”; e como ele não tem outra definição para “consciência”, ele omite, no texto, qualquer noção de “consciência”, por um lado, e prefere introduzir a noção de “algoritmo” para colmatar a lacuna da não-definição de “consciência”.

O Ludwig Krippahl define assim “algoritmo”:

“Um algoritmo é uma sequência abstracta de instruções que podem ser executadas de forma automática”.

Por um lado, o Ludwig Krippahl diz que “não há nada de sobrenatural ou imaterial acerca da consciência”; por outro lado, ele atira o conceito de “algoritmo” para a metafísicaquando ele diz que “a consciência não vem do algoritmo, que é abstracto, mas depende do suporte físico em que este for materializado [o cérebro]. Um algoritmo simples materializado num cérebro humano é executado de forma consciente”.

O Ludwig Krippahl reduz a consciência ao cérebro (epifenomenalismo); mas é obrigado, por obediência a princípios lógicos (os axiomas da lógica não são físicos), a remeter os “algoritmos” para o âmbito da metafísica (alegadamente, o algoritmo “materializa-se” no cérebro humano).


Diz o Ludwig Krippahl que “o algoritmo é abstracto”. Convém saber o que significa “abstracção”.

Um jardineiro só pode cuidar de cada uma das suas rosas, que ele cultiva, porque sabe — abstractamente — o que é uma rosa.

Ou seja, a “abstracção” é uma operação mental pela qual se distinguem as qualidades do seu suporte (neste caso, as qualidades da rosa) — seja este “real” ou “imaginário”, concreto ou já abstracto. Em última análise, a abstracção “ignora” (no sentido de “se abstrair”) a própria existência do suporte, para o considerar isoladamente — a abstracção aplica-se, de modo particular, à determinação dos termos de uma definição e dos quadros de classificação dos objectos da experiência. Neste sentido, o algoritmo é uma “ferramenta mental”, separada das modalidades a que se aplica, que possibilita e/ou facilita o conhecimento.


Por definição, o algoritmo é um termo matemático derivado da aglutinação entre o grego “arithmos” (que significa “número”), e o nome do cidadão persa (islâmico)  Al-Kazremi — e que designa, desde o fim da Idade Média, todo o sistema de cálculo efectuado segundo um processo uniforme com vista à solução de um tipo igualmente uniforme de problemas.

Não podemos confundir — como o Ludwig Krippahl parece fazer — o conceito de “complexidade de um processo de Inteligência Artificial”, por um lado, com o conceito de “consciência”, por outro lado. Aliás, o inglês Turing esclareceu bem este problema já em finais da década de 1940: não há como confundir as duas coisas.

Ademais, também não podemos confundir “processo de Inteligência Artificial”, por um lado, e “Valor” por outro lado — só a consciência produz uma valorização (subjectiva) da realidade, sendo que o Valor é a noção que traduz a passagem do desejo para o conjunto doutrinário e prático que constitui uma moral: toda a moral está fundada num conjunto de valores que são também abstracções representando o que se tem por desejável. Por exemplo, o Sagrado, enquanto sentimento, é a expressão suprema do Valor.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Para a Raquel Varela, “a separação entre ciências sociais e ciências exactas é fictícia”

Qualquer pessoa com um cursinho em filosofia sabe que as “ciências sociais” não são “ciências exactas”. Desde (pelo menos) David Hume que sabemos isso. Fernando Pessoa colocou esta questão de uma forma superior:

«Um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como não as conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. »

Mais adiante, escreveu:

«Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico.

Ora, em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em “ciência social” é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja uma sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantêm nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade.»

→ Fernando Pessoa, “Obras em Prosa coligidas”, 1975, Tomo III, página 22 e seguintes


A Raquel Varela considera-se intelectualmente superior não só em relação a Fernando Pessoa, mas também em relação a todos os filósofos que tenham existido, quando escreveu o seguinte:

“A separação entre ciências sociais e ciências exactas é fictícia (…)”

Ora, se duas substâncias não são separáveis, infere-se que pertencem a uma mesma categoria.


O que é profundamente lamentável é que a intelectualidade portuguesa esteja basicamente entregue a gente da laia da Raquel Varela, José Pacheco Pereira e Isabel Moreira
— gente que não distingue entre “ciências sociais”, por um lado, e “ciências naturais” e/ou “ciências exactas”, por outro lado.

Segundo a Raquel Varela, as ciências sociais e as ciências exactas (ou ciências formais) pertencem a uma mesma categoria. Aqui, a “especialista” em “ciências sociais” ambiciona, antes de mais, quantificar o óbvio; e depois diz que é uma “ciência exacta”.

Alguém que tenha compreendido uma noção específica das ciências naturais (também chamadas de “ciências experimentais ou empíricas”), percebeu tudo o que havia para perceber; mas uma pessoa que compreendeu uma noção específica as ciências sociais, percebeu o que só ela pode perceber.

Nas ciências humanas e/ou sociais, a inteligência é o único método que nos protege do erro: se entregarmos a responsabilidade das ciências sociais a uma burrinha, o resultado será catastrófico.

A História (que é uma “ciência humana”) — tal como acontece com a “sociedade”, descrita por Fernando Pessoa — contém leis, mas não se rege por leis.

A ambição de transcender as representações empíricas da consciência alheia, transforma a História em uma mera projecção do historiador. A História não tem leis científicas que permitam fazer previsões — embora tenha contextos que permitem (até certo ponto) explicar, e tendências que permitem pressentir; mas o pressentimento não é falsificável.

Se existissem leis que regessem a História, a descoberta dessas leis torná-las-iam (a si próprias) nulas.

A História não tem sentido; ou melhor: o que dá sentido à aventura humana transcende a História.

A diversidade da História é o efeito de causas sempre iguais que actuam, ao longo do tempo, sobre individualidades sempre diferentes.

O que é profundamente lamentável é que a intelectualidade portuguesa esteja basicamente entregue a gente da laia da Raquel Varela, do José Pacheco Pereira ou da Isabel Moreira — gente que não distingue entre “ciências sociais”, por um lado, e “ciências naturais” e/ou “ciências exactas”, por outro lado.

Triste sina, a nossa... estamos fodidos!


Adenda: este é o meu último escrito acerca das “ideias” da Raquel Varela.

sábado, 21 de maio de 2022

Os casos de Varíola do Macaco em Madrid, a sauna gay, e a mundividência anti-científica


Em Madrid, foram confirmados 30 casos de Varíola do Macaco, sendo que 95% dos casos tiveram origem em uma sauna gay, que entretanto foi fechada.

variola dos macacos web

Porém, a Esquerda e a "Direita Liberal" ficam escandalizados se alguém diz que “a Varíola do Macaco é uma doença propalada por gays” — e a principal razão deve-se a uma limitação cognitiva do cidadão pós-moderno, que consiste em uma extrema dificuldade em categorizar a realidade e em elaborar intelectualmente em juízo universal: a esta dificuldade cognitiva pós-moderna, chamamos de “nominalismo radical” que se traduz em uma predisposição psicológica dogmática e acientífica.

O nominalismo pós-moderno é um niilismo, que é favorável ao totalitarismo porque torna a realidade objectiva inextrincável.


A ciência necessita de categorias (necessita de categorizar a realidade), e necessita de excepções que confirmem a regra imposta pelas categorias estabelecidas. Sem excepções à regra, uma proposição não pode ser considerada “científica” (ver: falsificabilidade).

Porém, o homem pós-moderno (em geral, ou seja, em juízo universal)  é intrinsecamente acientífico (para não dizer “anti-cientifico”), porque recusa categorizar a realidade para não ter que aceitar axiomas — sejam os axiomas de ordem cultural, moral, ética, etc..

O único axioma que o homem pós-moderno aceita é o de que “não há axiomas” — assim com a única verdade aceite pelo homem pós-moderno (em juízo universal) é a de que “a verdade não existe” (relativismo axiomático) .

Esta recusa de categorizar factos da realidade concreta, transporta o homem pós-moderno (em geral, ou em juízo universal) para o tempo dos sofistas da Grécia Antiga: o novo sofismo traduz-se na recusa pós-moderna de aceitar como válido qualquer tipo de juízo universal.

sábado, 12 de março de 2022

Sempre que a Liberdade fenece, a Ciência adormece


Em um dos livros de Ortega y Gasset (não me lembro agora qual), li a seguinte frase:


“Enquanto os chineses desenvolviam a Técnica, os gregos inventavam a Ciência”.


Esta constatação de facto histórico é extremamente importante.


liberdade webNa Antiguidade Tardia, os chineses viviam “agrilhoados” (simbolicamente) pelo despotismo do seu Imperador — o que não os impediu de desenvolver a Técnica; mas, para inventar a Ciência e para a desenvolver, é necessário que exista liberdade (e a democracia grega) em circulação na sociedade.

A tradição despótica chinesa não se alterou, desde o tempo em que o Confucionismo se tornou a ideologia dos seus imperadores. Uma das razões por que o maoísmo foi tão bem aceite na China está intimamente ligada a milénios de cultura confucionista.

Ora, a Ciência necessita de criatividade e empreendimento individual para se desenvolver, e estes dependem, em muito, da liberdade política.

A recente tendência de decadência do Ocidente está relacionada com uma certa deriva para-totalitária, promovida por uma aliança contra-natura entre uma certa Esquerda Neanderthal (marxismo cultural, que o estafermo José Pacheco Pereira diz que não existe) e a plutocracia globalista.

O Poder político actual, a ocidente, é exercido por uma elite que tenta restringir claramente a liberdade política nos países ocidentais, nomeadamente através do politicamente correcto e do controlo globalista dos me®dia.

Sempre que a Liberdade fenece, a Ciência adormece.

Os Estados Unidos (e o mundo anglo-saxónico, em geral) foram o farol da Ciência no mundo — e, concomitantemente, o farol da liberdade — até há escassos 20 anos; basta vermos a lista dos prémios Nobel desde 1901.

Os russos (da União Soviética) e os chineses, com tradições milenares de tirania política, sempre foram uma espécie de “parasitas” que se aproveitavam da criatividade provida pela liberdade anglo-saxónica que naturalmente desenvolvia a Ciência, para depois aplicarem os resultados (da liberdade dos outros) no desenvolvimento das suas Técnicas nacionais.

A liberdade tradicional anglo-saxónica (que nos chegou, nomeadamente, de John Locke) foi minada por dentro nos países anglo-saxónicos (notoriamente desde o advento do pós-modernismo, mas principalmente com a eleição de Bill Clinton), por intermédio do marxismo cultural (que o burro José Pacheco Pereira diz que não existe) ou Esquerda Neanderthal, aliada à ganância descontrolada do Grupo dos Trezentos.

Esta decadência — a decadência da liberdade, e por isso, da Ciência — dos Estados Unidos tornou-se ainda mais notória e evidente com a ascensão de Barack Hussein Obama à presidência deste país.

Com a eleição de Donald Trump, parecia que os faróis da Liberdade e da Ciência voltavam a brilhar; mas foi sol de pouca dura: a aliança entre a Esquerda Neanderthal e o Grupo dos Trezentos  voltou a funcionar, pervertendo a democracia, minando profundamente o sistema político americano e a tradição anglo-saxónica de respeito pela liberdade, e cooptando ao Poder o histrião Joe Biden.