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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O paradoxo da tolerância, de Karl Popper


O paradoxo da tolerância, de Karl Popper — exposto aqui pela professora Helena Serrão — pode ser interpretado ipsis verbis como o princípio da “tolerância repressiva” do marxista Marcuse e da Escola de Frankfurt: tudo o que vem da Esquerda deve ser tolerado, e tudo o que vem da Direita não deve ser tolerado.

Por isso é que o paradoxo da tolerância de Karl Popper é extremamente perigoso, e está na génese do Wokismo actual e dos puritanos actuais.





A tolerância é um princípio da razão que assenta sobre a ideia do exame livre tendo em vista a procura da verdade.

O que acontece é que o exame livre (da realidade) tendo em vista a procura da verdade está a ser colocado em causa por uma elite, e em nome da “tolerância” — muitas vezes, os que reivindicam para si mesmos o epíteto de “tolerantes” são os que proíbem ou inibem a procura racional da verdade: são os novos puritanos.

A repressão política arbitrária em nome da “tolerância” é extremamente perigosa, e liga Karl Popper à Escola de Frankfurt e/ou a George Soros.

Isto deveria ser ensinado na disciplina de filosofia.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A ciência, a filosofia, e o gongorismo académico


Em relação a este texto no Porta da Loja:

1/ A filosofia consiste na procura da verdade, o que pressupõe que a verdade existe. Podemos dizer que a filosofia aspira a ser “a ciência dos postulados não-arbitrários”.

ortega-y-gasset-webFoi esta procura filosófica da verdade que impulsionou a ciência, o que é uma característica da civilização grega, e europeia em geral — “enquanto os gregos inventavam a Ciência, os chineses dominavam Técnica” (mutatis mutandis, Ortega y Gasset, in “¿Que es Filosofía?”).

A diferença entre a ciência e a filosofia é, basicamente, a de que as proposições da ciência são verdadeiras ou falsas — porque são juízos falsificáveis em relação a factos existentes —, ao passo que os enunciados filosóficos são autênticos ou apócrifos, porque são juízos de significação.

A verdade de uma proposição (científica) é sempre hipotética, e apenas a sua falsidade é experimentalmente constatada — ao passo que a autenticidade de um enunciado (filosófico) é passível de corroboração, mas a sua natureza apócrifa apenas é supositiva (hipotética).

O critério científico é o da experimentação, que pode falsificar, mas que não verifica; o critério da filosofia é o da experiência, que pode confirmar, mas que não refuta. Não podemos nunca garantir a eternidade de uma proposição científica, nem assegurar que um enunciado filosófico já terá perdido totalmente a sua validade.

Também porque são diferentes, a ciência e a filosofia complementam-se. São duas bases do “tripé” que procura a verdade. A terceira base do tripé é a teologia.

O erro, e o acto de errar, fazem parte da procura da verdade.

Neste sentido, uma qualquer filosofia que negue a existência da Verdade (como é o caso da teoria relativista de Nietzsche), cai em contradição — porque se a verdade não existe, a filosofia (assim como a ciência) deixam de fazer sentido lógico. Trata-se, neste caso, de uma filosofia errada.

Todas as teorias ditas “filosóficas” que não partam do princípio do reconhecimento da existência da Verdade, são falsas — assim como todas as teorias científicas procuram a verdade através de um processo de falsificação.

Similarmente, a “ciência” está cheia de erros — como é o caso, por exemplo, do Lysenkoísmo, que foi uma manipulação política da ciência por parte de Estaline, e que pode ser comparada à actual Ideologia de Género que se serve de uma “ciência anti-experimental” para prosseguir uma determinada agenda ideológica e política.


karl popper web2/ Os professores de filosofia olham para o filósofo com uma superioridade de adulto.

Em um texto/carta publicado na década de 1960, Karl Popper desanca nos académicos e nos ditos “intelectuais”.

«Aquilo que designei mais atrás por “pecados contra o espírito santo” — a arrogância dos pretensamente instruídos — é a verborreia, o pretensiosismo de uma sabedoria que não possuímos. A fórmula é a seguinte: tautologias e trivialidade condimentadas com o absurdo paradoxal. Uma outra receita é escrever em estilo empolado, dificilmente inteligível, e juntar, de quando em quando, uma ou outra banalidade: agrada ao leitor que se sente lisonjeado por encontrar, numa obra tão “profunda”, reflexões que ele próprio já tinha feito.

(…)

Quando um estudante entra na universidade, não sabe quais os critérios que deve adoptar. Assim, aceita os critérios que lhe são propostos. Uma vez que os critérios intelectuais da maior parte das escolas filosóficas (e muito em particular, na sociologia) toleram o gongorismo e a arrogância (todas essas pessoas parecem saber imenso), algumas boas cabeças são completamente afectadas. E os estudantes a quem o falso pretensiosismo da filosofia “dominante” irrita, tornam-se, com razão, detractores da filosofia. E convencem-se, sem razão, que tais pretensiosismos são próprios da classe dominante”, e que seria, então, preferível uma filosofia de influência marxista.»

Mais adiante, Karl Popper dá exemplos do gongorismo académico, como é o caso de Habermas:

«

[citação de ensaio de Habermas]

A totalidade social não tem vida própria acima do que é por ela concatenado, e de que ela própria é constituída.

Ela produz e reproduz-se através dos seus momentos singulares.

Tão pouco é de dissociar esse todo da vida, da cooperação e do antagonismo do individual (…) »

A tradução simplificada de Karl Popper:

« A sociedade é constituída por relações sociais.

As diferentes relações sociais produzem, de qualquer modo, as sociedades.

Entre essas relações encontra-se a cooperação e o antagonismo; e uma vez que (como já foi dito) a sociedade é constituída por tais relações, não pode ser dissociada delas.»

sábado, 16 de outubro de 2021

Karl Popper não tinha razão, em relação ao bi-partidarismo


Karl Popper defendeu acerrimamente o sistema bi-partidário na democracia representativa — como acontece, por exemplo, em Inglaterra, nos Estados Unidos e na Austrália. O argumento de Karl Popper era o de que o sistema de apenas dois partidos (que se alternam no Poder) dá maior estabilidade política e governabilidade — aliás, este foi um dos temas de uma conferência realizada em Lisboa por Karl Popper, a convite do então P.M. Mário Soares (não me lembro agora da data, mas foi na década de 1980).

imperio mundial do dinheiro webPorém, o sistema bi-partidário (definido pelo sistema de votação) fazia muito sentido na década de 1980, mas já não faz tanto sentido hoje, como podemos ver no que se está a passar em países como a Austrália, a Nova Zelândia, Reino Unido e mesmo nos Estados Unidos, quando os dois partidos do regime estão de acordo em relação à construção de um regime político repressivo, em que grande parte dos anseios da maioria da população são ignorados.

A aproximação do PSD de Rui Rio (e de Pacheco Pereira) ao Partido Socialista do monhé Costa está, em tudo, relacionada com uma tentativa de “australização” do regime político português; mas essa “australização” saiu “furada” com o aparecimento do partido CHEGA.
Resta agora ao Rui Rio e ao monhé alterar o sistema de votação português.

Nos países chamados de “anglo-saxónicos” (Reino Unido, Estados Unidos, Austrália, Canadá Nova Zelândia), caracterizados por sistemas de votação que favorecem o bi-partidarismo (de alternância no Poder), os dois partidos de Poder estão totalmente controlados pelos agentes do globalismo plutocrata — ou, como diz Olavo de Carvalho, pelos agentes do “império mundial do dinheiro”.

Neste sentido, Donald Trump foi considerado persona non grata pelo próprio partido republicano americano; Donald Trump ganhou as eleições com o voto do povo, mas não com o apoio das elites do seu próprio partido.
De facto, nos Estados Unidos, o partido republicano, por um lado, e o partido democrata, por outro lado, estão de acordo em quase tudo — incluindo na política de ausência de fronteiras e imigração massiva e sem qualquer controle fronteiriço.

Na Austrália, os dois partidos de alternância no Poder chegaram a um acordo, que consiste em instituir um regime orwelliano e submetido caninamente ao “império mundial do dinheiro”, em substituição da democracia representativa propriamente dita. O mesmo se passa (em graus diferentes) na Nova Zelândia, e mesmo no Reino Unido.

Depois da ditadura sanitária — ou seja, depois da ditadura do controlo sanitário covideiro —, virá o controle monetário que gerará a rarefacção ou mesmo desaparecimento do dinheiro vivo em circulação; depois virá o controlo de acesso à Internet por intermédio da identificação numérica individual. No fim da linha repressiva, só restará ao povo o recurso à violência contra a classe política, para defender a liberdade.

fosforos em cadeia web

Em Portugal, o fenómeno do “encolhimento” eleitoral do Bloco de Esquerda (e previsível “encolhimento” da facção da Isabel Moreira no Partido Socialista de Sócrates, da Fernanda Câncio, do Ascenso Simões e do monhé Costa) tem a ver com a tentativa de afastamento do Cristianismo da praça pública, para se instituir “um regime que se lambuza gostosamente na merda e no mijo” da ética e da moralidade. É a isto que chamamos (também) de “marxismo cultural”.

O método de Hondt português permite o fácil aparecimento de novos partidos que contrariem o monopólio bi-partidário do Poder , como é o caso do partido CHEGA.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Jason Brennan e o Pragmatismo, contra a democracia representativa, e a favor do fascismo chinês


Estou a acabar de ler o livro “Contra a Democracia”, do “filósofo” americano Jason Brennan, em que o referido autor pretende convencer-nos de que a democracia representativa não é o melhor dos sistemas políticos. O referido livro foi publicado em 2016 pela universidade esquerdista de Princeton, e republicada (em português) em 2017 (1ª edição) e em 2020 (2ª edição) pela editora dirigida pelo Guilherme Valente.

against_democracy-webEu não tinha percebido por que razão Karl Popper não emigrou para os Estados Unidos, depois da segunda grande guerra, em uma época em que a emigração para os Estados Unidos era a “coqueluche” mundial, e até os membros da Escola de Frankfurt emigraram para este país; Karl Popper preferiu ficar em Inglaterra. E hoje percebo por quê: a maioria dos “filósofos” americanos é fortemente influenciada pelo Pragmatismo, enquanto doutrina. E o Jason Brennan não escapa à regra.

O Pragmatismo é um utilitarismo radical, exacerbado, levado até às suas últimas consequências possíveis.

Esta doutrina (o Pragmatismo) é produto da afirmação absolutista do darwinismo na cultura intelectual e antropológica do fim do século XIX; e, por outro lado, ela é também fruto das teorias físicas do mesmo século, onde as hipóteses científicas eram apreciadas e valorizadas em função da sua comodidade e utilidade.

Segundo o Pragmatismo (em que se inclui o “filósofo” Jason Brennan), quando uma determinada ideia é útil para a acção (política) e está de acordo com a realidade, então segue-se que essa ideia é verdadeira — o que é um absurdo completo: Ortega y Gasset, desde muito cedo no século XX, “malhou” no Pragmatismo.

Ou seja: para Jason Brennan (como para os pragmaticistas, em geral), a verdade deve ser encarada ou concebida em função do nosso desejo de acção, e não em função da reprodução do “real” exterior relativamente ao ser humano. Isto significa que, segundo o Pragmatismo, se o nosso desejo de acção for em um determinado sentido, todas as ideias que fundamentem esse nosso desejo de acção estão automaticamente justificadas e podem ser consideradas verdadeiras.

É neste contexto pragmaticista que o Jason Brennan defende a ideia segundo a qual “a democracia representativa não é necessariamente o melhor sistema de organização política”.

O conceito de “filósofo americano” é um oxímoro: a esmagadora maioria dos ditos “filósofos” são influenciados pelo Pragmatismo, que é uma anti-filosofia. Nos Estados Unidos, só os pensadores influenciados por uma qualquer religião se podem considerar “filósofos”, na medida em que estendem o conceito de “universo” para além dos satélites artificiais.

São esses mesmos “filósofos” pragmaticistas (e auto-denominados “progressistas”, e “liberais de esquerda”) que defendem hoje a legitimidade do regime fascista chinês — como o faz, por exemplo, o Guilherme Valente. Para o Pragmatismo, a verdade é um programa de acção que resulta do nosso desejo: é a criação, pelo homem, de uma verdade a partir de uma razão que “cola” à experiência, e tem como critério único a sua eficácia na acção.

Ou seja: para os pragmaticistas, “se o fascismo chinês funciona bem, em termos práticos, e é eficaz na sua acção política, então segue-se que o regime fascista chinês é bom”.

sábado, 13 de março de 2021

A diferença entre o multiculturalismo, por um lado, e o interculturalismo, por outro lado


As ideias de Karl Popper têm sido (em geral) adulteradas e manipuladas, não só (malevolamente) pela Esquerda declaradamente marxista, mas também idiota- e principalmente pelos chamados “liberais”.

Por exemplo: quando Karl Popper defendeu positivamente a convivência entre culturas diferenciadas — por exemplo, a convivência entre as diferentes culturas que se cruzaram no império austro-húngaro — que se reflectiam na cultura vivaz da cidade de Viena do princípio do século XX, Karl Popper não quis defender o multiculturalismo (como é, assim, alegado pelos ditos “liberais”); e isto porque a convivência entre culturas diferentes do império austro-húngaro foi sinónimo de uma claríssima superioridade social da cultura e língua de origem alemã — de tal forma que, ainda hoje, a língua alemã é correntemente falada na Hungria.

Ou seja:

  • no império austro-húngaro, “todas as culturas eram iguais”, embora uma delas (a cultura austríaca de origem alemã) fosse “menos igual do que todas as outras”; a predominância cultural, social e civilizacional da cultura de língua alemã era por demais evidente no império austro-húngaro;
  • o multiculturalismo é o igualitarismo cultural, ou seja, a defesa do acantonamento e do isolacionismo das diversas culturas presentes em um determinado espaço político. O multiculturalismo é a antítese do fenómeno social de convivência intercultural que se verificou no império austro-húngaro.

O que se verificou no império austro-húngaro foi um interculturalismo, e não um multiculturalismo.

No interculturalismo, está sempre subjacente uma hierarquia de valores que se reflecte na predominância (comummente aceite pelos intervenientes de todas as culturas em presença) de uma certa cultura em relação às outras, com as quais convive livremente.

No multiculturalismo, as diversas culturas em presença em um mesmo espaço político, acantonam-se e isolam-se, em nome de uma putativa “igualdade” entre elas. Ora, isto (o multiculturalismo) é exactamente o oposto do que defendeu Karl Popper.


karl popperO conceito de “etnocentrismo” — de que nos fala aqui a professora Helena Serrão, citando um relativista ideológico de seu nome Augusto Mesquitela Lima — aplica-se perfeitamente a uma sociedade multiculturalista, embora no sentido negativo (porque existe um etnocentrismo positivo, que é o que promove activamente a coesão do Todo social em uma sociedade étnica- e culturalmente homogénea).

Em uma sociedade dita “multiculturalista” (que não é a mesma coisa que “sociedade multicultural” ou “interculturalista”), existe um etnocentrismo negativo acantonado em cada uma das culturas antropológicas existentes e igualitariamente consideradas em um mesmo espaço político (por exemplo naquilo a que o presidente francês Emmanuel Macron, mas também e agora a Marine Le Pen, chamam de “separatismo islâmico” em França) .

Em suma, existe uma contradição fundamental no texto do tal Augusto Mesquitela Lima citado pela professora Helena Serrão, que consiste em afirmar, por um lado, uma crítica ao etnocentrismo, e, por outro lado, a defesa do relativismo igualitarista inerente ao multiculturalismo — porque uma das características do multiculturalismo é precisamente o exacerbar do etnocentrismo enquanto recusa de incorporação de uma das culturas no Todo social e político.

Numa sociedade interculturalista (por exemplo, a do império austro-húngaro), não existe o relativismo cultural defendido pelo Mesquitela, na medida em que existe uma hierarquia nas culturas em presença. E o multiculturalismo é a recusa dessa hierarquia entre culturas.

A posição ideológica do Mesquitela reflecte a ideia grega dos sofistas, segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas”; mas, ainda assim, o Mesquitela entra em contradição fatal (passo a citar um trecho do referido texto):

“A posição relativista (cultural) não significa, de forma alguma, que todos os sistemas de valores, todos os conceitos de bem e de mal, assentem sobre areias tão movediças que não haja necessidade de uma moral, de formas de comportamento estabelecidas e aceites, de códigos éticos.

Aliás, o relativismo cultural é uma filosofia que aceita os valores estabelecidos em qualquer sociedade, acentuando a dignidade inerente a qualquer desses sistemas de valores e a necessidade de tolerância em relação a eles, embora possam diferir dos que adoptamos e pelos quais nos conduzimos. Reconhece ainda a necessidade de conformidade com normas estabelecidas, como condição necessária para a normalidade da vida em sociedade.”

Segundo o Mesquitela, por um lado existe a necessidade da existência de uma ética (que, por definição, tem que ser universal e é imposta a toda a sociedade por uma determinada cultura antropológica); mas, por outro lado, o Mesquitela defende que todas as culturas presentes na sociedade (por mais dispares que sejam, entre si) produzem éticas equivalentes e igualmente dignas de respeito. Isto é digno de um idiota.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

The Physical Determinism Nightmare

Lawrence Krauss and Richard Dawkins defend here the theory of “Epiphenomenalism” — the idea that there's no such thing as “consciousness” (and free will) that is independent from matter.

Karl Popper showed us that the theory of Epiphenomenalism makes no sense if it follows its own presuppositions: if my ideas cannot exist without a physical support, i.e., if my ideas are uniquely products of the chemistry of my brain — then it would not even be possible to discuss the issue regarding “Epiphenomenalism”: this theory (Epiphenomenalism) may not have any possibility to be true, because the eventual evidences that we make out of it are also pure chemistry; and if somebody defends a theory that is contrary to Epiphenomenalism, then he/she should also be correct, as his/her chemistry led him/her to a different conclusion.

Karl Popper calls this logical trap the “physical determinism nightmare”.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O gongorismo coimbrinha do senhor António Figueiredo e Silva


Em uma carta a um editor alemão, Karl Popper escreveu o seguinte:

(…)

«[o intelectual] tem o dever de transmitir aos seus concidadãos (ou “à sociedade”) as suas ideias de forma mais simples, mais clara e mais sóbria possível. (…) Quem não for capaz de se exprimir de forma clara e simples, deve permanecer calado e continuar a trabalhar até conseguir a clareza de expressão.

(…)

a arrogância dos pretensamente instruídos é a verborreia, o pretensiosismo de uma sabedoria que não possuímos. (…) Uma outra receita é escrever em estilo empolado dificilmente inteligível, e juntar de quando em quando uma ou outra banalidade: agrada ao leitor, que se sente lisonjeado por encontrar, numa obra tão “profunda”, reflexões que ele próprio já tinha feito.

(…)

Quando um estudante entra na universidade, não sabe quais os critérios que deve adoptar. Assim, aceita os critérios que lhe são propostos. Uma vez que os critérios intelectuais (…) toleram o gongorismo e a arrogância (todas essas pessoas [universitárias] parecem saber imenso), algumas boas cabeças são completamente afectadas. »

Se lermos os textos do senhor António Figueiredo e Silva, em geral, e este texto em particular, verificamos a presença da linguagem gongórica que é própria da universidade coimbrinha.

Em confronto com o gongorismo coimbrinha, a linguagem vernácula popular — a linguagem dos “impropérios” do povo que o senhor António Figueiredo e Silva critica — tem, pelo menos, a virtude de ser facilmente entendível pelos cidadãos em geral, e de não pretender parecer um “saber imenso”.

domingo, 30 de abril de 2017

As vacinas, e a indução na ciência

 

Quando eu era menino, tive o sarampo, e o povo dizia: “Sarampo sarampelo, sete vezes no pêlo!”. Também apanhei a varicela, mas era só uma vez; e a papeira, que é aquela maleita que incha o pescoço. E como eu, a maioria das crianças teve sarampo, varicela e papeira; e, que eu saiba, ninguém da minha infância morreu por isso.

Quando eu era bebé, as vacinas eram: a BCG (tuberculose), a poliomielite, e a varíola. Ponto final. E a vacina não era tríplice: eram tomadas uma de cada vez, em separado e em tempos diferentes. Naquela época não havia vacina contra o “sarampo sarampelo, sete vezes no pêlo”.

Noutro dia fui ao Centro de Saúde aqui da zona, e o enfermeiro queria dar-me uma vacina contra o tétano; mandei-o dar uma volta ao bilhar grande.

Pode dar-nos a ideia de que determinadas pessoas, colocadas em altas posições sociais, estão convencidas de que as vacinas substituem o sistema imunitário, ou que impedem definitivamente o desenvolvimento de doenças — como é o caso da vacina contra o HPV (Human Papiloma virus) nas adolescentes, vacina essa que não impede a manifestação dessa doença. Mas segundo um vídeo que me enviaram, essa ideia pode estar errada: o que se passa é que há interesses financeiros por detrás da obrigatoriedade da toma de determinadas vacinas.

 


francisco-george-webMas vamos partir do princípio de que o senhor Francisco George, Director Geral de Saúde, é uma pessoa impoluta e que não cede aos interesses das multinacionais do medicamento. É apenas uma pessoa bem intencionada que acredita piamente na ciência.

Em ciência (ou em epistemologia), a indução é uma inferência  conjectural ou não-demonstrativa; ou seja, é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

Ao contrário do que acontece na dedução — na indução, as conclusões de um raciocínio não são logicamente necessárias. Na sequência de David Hume, filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução.

David Hume rejeitou o princípio da indução, que, aplicado à questão causal, diz que

  • se A foi frequentemente acompanhado ou seguido de B, e se não se conhece nenhum caso em que A não seja acompanhado ou seguido de B, então é provável que na próxima ocasião em que A seja observado, seja acompanhado ou seguido por B.

Se o princípio é adequado, um número suficiente de exemplos dá uma probabilidade vizinha da certeza, e as inferências causais rejeitadas por Hume são válidas, não decerto para nos dar certeza, mas probabilidade praticamente suficiente.

Mas, se não é verdadeiro, todo o esforço de obter leis científicas a partir de observações particulares é falaz, e o cepticismo de Hume é irrefutável para um empirista. O princípio não pode inferir-se sem circularidade (como Karl Popper também afirmou) de umas uniformidades observadas, desde que por ele se justificam essas inferências. Deve, portanto, ser — ou ser deduzido de um princípio independente e não baseado na experiência. Nesta extensão, Hume provou que o empirismo puro não é base suficiente da ciência.

Para contrariar Hume, podemos nós dizer que a indução é princípio lógico independente, impossível de inferir da experiência ou de outros princípios lógicos, e que, sem esse princípio, a ciência é impossível.

O que eu pretendo dizer — com este relambório acerca da indução e da ciência — ao senhor Francisco George é o seguinte: as vacinas podem resultar bem, provavelmente em 99% dos casos, porque o critério da utilização da vacina segue o princípio da indução. Mas, provavelmente, existe 1% dos casos (por exemplo, mas podem ser mais) em que determinada vacina pode causar mais danos do que benefícios.

O problema do senhor Francisco George é o utilitarismo que predomina na nossa sociedade: “a maior felicidade para o maior número possível de pessoas”; e a quem não pertence ao “maior número”, diz o senhor Francisco George: “fodei-vos!”.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Karl Popper, acerca do Estado-providência

 

“A luta contra a pobreza deu origem, em alguns países, a um Estado-providência com uma enorme burocracia na assistência social e uma burocratização quase grotesca do sector médico e hospitalar, tendo como resultado evidente que apenas uma fracção das quantias afectadas à previdência social reverte a favor dos que dela necessitam.

Porém, ao criticarmos o Estado-providência — e devemos e temos de o criticar —, não podemos esquecer nunca que ele tem origem num pressuposto extremamente humanitário, e que uma sociedade disposta a fazer pesados sacrifícios materiais (e alguns sacrifícios inúteis) demonstra ter assumido com seriedade este princípio.

Uma sociedade disposta a fazer tais sacrifícios em nome de uma convicção moral tem também o direito de concretizar as suas ideias. A nossa crítica ao Estado-providência deve, pois, apontar o modo como essas ideias poderiam ser melhor executadas”.

→ Karl Popper, em uma conferência em Zurique, 1958

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Karl Popper e a tradição

 

“A tradição constitui, sem sombra de dúvida, a fonte mais importante do nosso saber — abstraindo daquele saber que nos é inato”.

→ Karl Popper

domingo, 16 de novembro de 2014

Karl Popper e o relativismo

 

« O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais. É uma traição à razão e à humanidade. »

— Karl Popper

sábado, 25 de janeiro de 2014

A pobreza da Ética de Karl Popper

 

“Antes de mais, uma observação sobre a ambiguidade da palavra “sentido” na expressão “sentido da vida”. Esta expressão é usada muitas vezes como se com ela se pretendesse falar de um sentido interior oculto, um pouco como se pode falar do sentido oculto de um anagrama ou de um epigrama ou do sentido do Chorus Mysticus no Fausto de Goethe.

Porém, a filosofia dos poetas e dos filósofos ensinou-nos que a expressão “o sentido da vida” deve ser entendida de outro modo: que o sentido da vida não é algo de oculto, que podemos encontrar ou descobrir na própria vida, mas algo a nós próprios podemos dar à nossa vida. Podemos conferir um sentido à nossa vida através das nossas acções, do nosso comportamento, da nossa atitude perante a vida, perante os outros e perante o mundo.”

— Karl Popper, trecho da conferência proferida na Rádio da Baviera em 1961 (Der Sinn der Geschichte, Munique, 1974)

Em primeiro lugar, convém dizer que os poetas, enquanto tal, não são filósofos. Por exemplo, Fernando Pessoa foi filósofo mas não enquanto poeta: ora foi uma coisa, ora foi outra, mas não ao mesmo tempo — porque a poesia é filosofia sem a Lógica. Ou seja, se retirarmos a lógica à filosofia, temos poesia.

Karl Popper foi muito fraco em ética; muito fraco, mesmo! Não é exagero meu. Em metafísica também não foi grande coisa. Na História das Ideias foi sofrível. A única área em Karl Popper se afirmou de facto, e até não lhe foi reconhecido devidamente o mérito, foi em epistemologia (no sentido europeu continental de “história da ciência”).

Karl Popper, no trecho citado, atribui o sentido da vida à acção, tomando o efeito pela causa: segundo ele, não precisamos de descobrir o sentido da vida para depois agir em conformidade com essa descoberta: pelo contrário, agimos, primeiro e antes de mais nada, para podermos depois, e em função da acção, dar sentido à vida. Esta visão do “sentido da vida” está muito próxima do Pragmatismo americano de princípios do século XX.

Seria como se nós disséssemos que “a visão dá sentido ao olho”, em vez de dizer que “o olho dá sentido à visão”. Ou que disséssemos que “o andar dá sentido à perna”, em vez de dizer que “a perna dá sentido ao andar”. Karl Popper inverte o nexo causal entre o “sentido” e a “acção”. Para ele, é a acção que define o sentido da vida (o que é uma impossibilidade), e não o sentido da vida que define a acção (como seria lógico).

Aquilo que um qualquer ser humano deseja, não é ser feliz, mas antes é uma razão para (tentar) ser feliz. E essa razão para (tentar) ser feliz não depende da acção, mas cada um tem que descobri-la antes da acção: é a própria razão para ser feliz — o sentido da vida — que determina depois a acção.

Aquilo que preenche o ser humano (que não seja neurótico) não é a vontade de Poder nem a vontade de prazer, mas antes é a vontade de sentido, porque esta oferece uma razão para o Poder e para o prazer. Em um ser humano normal, o Poder e o prazer são efeitos secundários do sentido realizado. Porém, se o prazer se torna no objectivo primeiro de uma intenção, como acontece com o neurótico, o ser humano perde de vista a razão do prazer, e o efeito “prazer” deixa de fazer sentido.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O conceito de “sociobiologia”, segundo Karl Popper

 

«A ideologia darwinista contém uma tese muito importante: a de que a adaptação da vida ao meio ambiente (…), que a vida vai fazendo ao longo de biliões de anos (…), não constituem quaisquer invenções, mas são o resultado de mero acaso. Dir-se-á que a vida não fez qualquer invenção, que tudo é mecanismo de mutações puramente fortuitas e da selecção natural; que a pressão interior da vida mais não é do que um processo de reprodução. Tudo o resto resulta de um combate que travamos uns com os outros e com a Natureza, na realidade um combate às cegas 1. E o resultado do acaso seriam coisas (no mesmo entender, coisas grandiosas) como seja a utilização da luz solar como alimento.

Eu afirmo que isto é uma vez mais uma ideologia: na realidade, uma parte da antiga ideologia darwinista, a que aliás pertence também o mito do gene egoísta 1 (os genes só podem actuar e sobreviver através da cooperação) e o social-darwinismo ressurgido que se apresenta agora, renovada e ingénuo-deterministicamente, como “sociobiologia”.»2

Notas
1. referência a Richard Dawkins
2. trecho extraído do texto da conferência proferida por Karl Popper em Alpbach, em Agosto de 1982

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Desmascarar a falsa ciência com Karl Popper

 

Para o cidadão comum é muito importante ter uma noção do princípio da falsificabilidade de Karl Popper, que define aquilo que pode ser objecto da ciência, por um lado, e aquilo que é cientismo, por outro lado. Mediante a colaboração activa dos me®dia com o cientismo, o cidadão é hoje todos os dias enganado por uma falsa ciência que nada mais é do que política pura e dura.

Por exemplo, se alguém afirma o seguinte: Todos os cisnes são brancos.” Será que esta proposição poderá ser objecto de investigação científica? A resposta é não — porque a proposição não pode ser contraditada, ou seja, a proposição não é falsificável.

Mas se alguém disser: “Está ali um cisne negro!”. Então já existe aqui uma evidência ou prova empírica segundo a qual a proposição todos os cisnes são brancos” pode ser refutada. O mais que pode acontecer é que, do ponto de vista estatístico, a esmagadora maioria dos cisnes sejam brancos, o que pode constituir um juízo universal. E é só perante a possibilidade de refutação de uma proposição (ou teoria), que essa proposição pode ser considerada objecto de investigação da ciência.

Se considerarmos a seguinte proposição politicamente correcta: “Os homossexuais já nascem homossexuais”.

Esta proposição é hoje considerada um dogma pelo cientismo político acolitado pelos me®dia (e por Júlio Machado Vaz): não há nenhum estudo científico credível que demonstre que “os gays nasceram assim”. Portanto, a proposição “os gays nasceram assim” não é refutável (não é falsificável). Não estamos aqui em presença de ciência, mas de cientismo.

Por outro lado, a seguinte proposição politicamente correcta: “O embrião não é um ser humano”.

Embora esta proposição seja refutável porque o embrião tem um ADN único e irrepetível, a falsificabilidade da proposição não é considerada pelos me®dia e pelas ideologias políticas que controlam a ciência e a transformam em cientismo — porque a característica fundamental do ser humano é a sua irrepetibilidade genética que se traduz na sua irrepetibilidade enquanto pessoa.

Sempre que os me®dia publicarem uma teoria politicamente correcta — por exemplo, a teoria do “aquecimento global” que provoca o frio que temos hoje nos Estados Unidos —, devemos questionarmo-nos: essa teoria é falsificável? Existem indícios, inferências, evidências ou provas empíricas, segundo os quais possamos elaborar um juízo universal acerca dessa tese?

Se as evidências apresentadas pela teoria fazem parte da “prova” da tese da própria teoria, e se as refutações servem para reforçar a própria teoria, então estamos em presença de um pensamento circular ou de uma tautologia, e não de ciência. Se uma teoria não pode ser refutada por evidências que sejam contrárias às suas premissas, então não estamos em presença de ciência, mas antes de um dogma e de cientismo.

Não nos deixemos enganar pelo fanatismo político.