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quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O paradoxo da tolerância, de Karl Popper


O paradoxo da tolerância, de Karl Popper — exposto aqui pela professora Helena Serrão — pode ser interpretado ipsis verbis como o princípio da “tolerância repressiva” do marxista Marcuse e da Escola de Frankfurt: tudo o que vem da Esquerda deve ser tolerado, e tudo o que vem da Direita não deve ser tolerado.

Por isso é que o paradoxo da tolerância de Karl Popper é extremamente perigoso, e está na génese do Wokismo actual e dos puritanos actuais.





A tolerância é um princípio da razão que assenta sobre a ideia do exame livre tendo em vista a procura da verdade.

O que acontece é que o exame livre (da realidade) tendo em vista a procura da verdade está a ser colocado em causa por uma elite, e em nome da “tolerância” — muitas vezes, os que reivindicam para si mesmos o epíteto de “tolerantes” são os que proíbem ou inibem a procura racional da verdade: são os novos puritanos.

A repressão política arbitrária em nome da “tolerância” é extremamente perigosa, e liga Karl Popper à Escola de Frankfurt e/ou a George Soros.

Isto deveria ser ensinado na disciplina de filosofia.

sábado, 11 de maio de 2024

A Esquerda puritana, progressista e igualitarista, e o Princípio de Pareto

O Princípio de Pareto, baseado na observação empírica da realidade, constata que (mutatis mutandis) 80% dos efeitos derivam de 20% de causas. Wilfredo Pareto constatou, por exemplo, que 80% das terras em Itália pertenciam a 20% da população; ou que apenas 20% das ervilheiras do seu jardim continham 80% das ervilhas.
Hoje sabemos empiricamente, por exemplo, que 80% das vendas de uma empresa são realizadas em cerca de 20% dos clientes. Ou que 80% das reclamações recebidas em um empresa vêm de 20% dos clientes; ou que 80% dos lucros de uma empresa têm origem em 20% dos empregados; ou que 80% das vendas de uma empresa são realizadas por apenas 20% dos vendedores.

Portanto, a diferenciação produtiva é inerente à própria realidade empiricamente verificável.

A elite progressista e igualitarista de Esquerda (passo a redundância), não nega explicitamente a realidade constatada empiricamente pelo Princípio de Pareto: estes aspirantes à elite apenas pretendem ocupar o lugar social dos privilegiados (pretendem ser eles os privilegiados, e não os que são garantidos pela Lei Natural e pelo Princípio de Pareto)— não por mérito próprio, mas por usurpação de direitos alheios; pretendem criar uma elite alternativa à existente, que se baseie, não nos méritos próprios, mas na legitimidade do uso da força bruta do Estado para o exercício de uma tirania anti-natura e puritana.

“Um direito digno desse nome não pode ser um direito que caduca quando a força bruta do Estado acaba” [Rousseau].

O que a Esquerda progressista e igualitarista pretende é a instituição e legitimação de uma força bruta do Estado que lhes garanta um estatuto de privilégio que escape à lei natural e, neste caso, ao Princípio de Pareto. São os herdeiros do narcisismo exacerbado dos puritanos do século XVII e dos gnósticos da Antiguidade Tardia: assumem, para si próprios, um estatuto divino, consideram-se (a si mesmos) uma espécie de semi-deuses.

“O gnosticismo é um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, particularmente a realidade da natureza humana, e substitui-as por um mundo imaginário construído por intelectuais gnósticos e controlado por activistas gnósticos.”

— Eric Voegelin, “A Nova Ciência da Política”, 1952




Tal como aconteceu com os puritanos [principalmente os calvinistas e derivados] do século XVII, os puritanos actuais (a Esquerda progressista e igualitarista) assumem que:

1/ a imperfeição da Natureza Humana (e de todas as criações humanas) resultam de uma sociedade injusta e imperfeita [“a culpa é da sociedade”];

2/ o mundo é defeituoso e falho, mas o Homem pode torná-lo perfeito ou, pelo menos, impôr um “mundo melhor” contra, ou apesar da Natureza Humana;

3/ o puritano exige, de si mesmo, um auto-julgamento elitista e uma abnegação própria de uma religião política (ideologia);

4/ o puritano é um individualista que despreza a individualidade — na medida em que a soteriologia puritana depende ou da sua relação directa com Deus (no caso dos puritanos do século XVII), ou do seu estatuto auto-assumido de privilegiado ontológico (a auto-assumida “elite da sociedade”, cuja salvação hic et nunc, imanente e histórica, está ontologicamente garantida). O novo puritano não padece de sentimento de culpa, porque “está salvo” (soteriologia) em função da auto-assunção do seu próprio estatuto salvífico.

5/ a experiência da conversão à doutrinaideologia) e consequente salvação imanente (soteriologia histórica) deu — ao puritano progressista e esquerdista militante — privilégios especiais, mas exige obrigações especiais.

6/ As obrigações especiais incluem a imposição (à sociedade inteira), por parte dos puritanos, de uma nova moral que exige uma obediência política rígida, mesmo tirânica.



As leis proibicionistas, próprias dos puritanos e dos progressistas actuais, resultam da auto-presunção de superioridade moral dos puritanos (os do século XVII e os do século XXI).

No século XVII, os puritanos invocavam o Livro do Apocalipse para anunciar o fim do mundo. Os puritanos actuais, por exemplo com a profetisa Greta Thunberg e os seus milhões de acólitos, invocam a “ciência das certezas absolutas” (cientismo) para anunciar o fim dos nossos dias devido às “filhas e filhos da perdição” (a Direita).

Os puritanos [os da Antiguidade Tardia, do século XVII e do século XXI (estes últimos, os puritanos secularistas)] são predestinados, receberam os “frutos do espírito”.

O puritanismo, no seu sentido negativo, é, hoje, menos comum entre os calvinistas do que entre os progressistas esquerdistas (passo a redundância) que transportam a tradição puritana de forma inconsciente: os puritanos contemporâneos (o esquerdopatas) emulam as características emocionais e emotivas dos seus precursores do século XVII: um moralismo novo e considerado “superior” (o Wokismo que, por exemplo. legaliza o aborto generalizado de seres humanos mas proíbe as touradas), e o prazer imenso em apontar os pecados aos outros (os de quem discordam), e o amor dedicado à “caça às bruxas” (Cancel Culture).

Os puritanos progressistas e secularistas actuais têm os defeitos dos puritanos do século XVII, mas não têm as suas virtudes.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Eu não sei qual é a mais “inculta”: se a cultura que tolera o aborto e a eutanásia , se a cultura que permite as touradas


Uma tal Isabel A. Ferreira — que tem uma série de licenciaturas e PhD's (no nosso tempo, qualquer burra consegue um qualquer alvará de inteligente) — escreve o seguinte acerca da posição de Caiado Guerreiro no que diz respeito às touradas:


« Qual "cultura"? Está a falar de qual "cultura": a CULTA ou a INCULTA?

Sim, porque as touradas pertencem ao rol das "culturas incultas" que, à medida que a civilização avança, vão sendo abandonadas. »


Eu nunca paguei bilhete para ver uma tourada; mas não admito que a Esquerda (que inclui o PSD de Rui Rio e de José Pacheco Pereira: os mesmos que apoiam a legalização do aborto e da eutanásia em hospitais públicos e pagos com os meus impostos) pretenda proibir o espectáculo público da tauromaquia.


Caiado-Guerreiro-touradas


A “cultura culta”, a que se refere aquela troglodita titulada, é a cultura puritana que aborta à fartazana, pressiona os velhos fragilizados para o suicídio legalizado em hospitais públicos … mas pretende proibir a tourada!.

É com esta cambada de indigentes intelectuais que estamos a lidar.

Hoje, o “pecado” dos puritanos secularistas modernos já não é de natureza sexual (como acontecia com os puritanos dos séculos XVI e XVII) : em vez disso, o “pecado” dos puritanos actuais é a “pegada ecológica”, por um lado, e por outro lado é tudo o que negue as teses animalistas de Peter Singer que equipara os animais ditos “sensientes” em geral, por um lado, ao ser humano, por outro lado.

Uma das características dos puritanos secularistas (tal como aconteceu com os puritanos do século XVII) é a tentação de proibir tudo com que não concordem.

Tudo aquilo com que aquela pobre criatura não concorde é considerado por ela como sendo passível de proibição através da força bruta do Estado — com excepção do aborto e da eutanásia, como é evidente, que, segundo os puritanos secularistas, devem ser liberalizados o mais possível.

Os puritanos secularistas têm características emocionais semelhantes às dos puritanos no tempo de Cromwell: o farisaísmo em relação à imposição coerciva da lei, o moralismo exacerbado e exclusivista, e sobretudo o prazer mórbido de apontar os “pecados” àqueles com quem eles não concordam. Ou seja, os puritanos secularistas têm os vícios dos puritanos do século XVII, mas não têm as suas virtudes.

Eu prefiro viver numa cultura com touradas permitidas por lei, mas que respeite a dignidade da vida humana desde a concepção até à morte, do que viver numa cultura que fomente o aborto e a eutanásia ao mesmo tempo que proíbe as touradas.

Eu não sei qual é a mais “inculta”: se a cultura antropológica  que tolera o aborto e a eutanásia (a tal cultura que aquela criatura defende como sendo legítima), se a cultura antropológica que permite as touradas. [não confundir “cultura intelectual” com “cultura antropológica”].

Claro que o argumento de determinados puritanos secularistas espertalhões (como é o caso do José Pacheco Pereira) é (grosso modo) o seguinte:

“Eu também sou contra o aborto: quero construir uma sociedade perfeita, com uma cultura perfeita. À medida em que a civilização avança, o ser humano caminha para a perfeição, transformando-se em deus”.

Este tipo de argumento historicista, vindo do puritanismo secularista actual, é extremamente perigoso porque legitima a censura política sistémica, por um lado, e por outro lado pretende (hoje) justificar assim a limitação drástica da liberdade de expressão.

cultura-sem-tabus-web


A irracionalidade volta a estar na moda; o Iluminismo está defunto e enterrado.

Hoje, as “elites” (da trampa) são absolutamente irracionais; colocam sistematicamente as emoções acima da racionalidade— só que é um tipo de irracionalismo cujos dogmas não têm qualquer autoridade que lhes assista: os dogmas do puritanismo secularista irracional actual não respeitam qualquer autoridade de direito e/ou de facto.