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terça-feira, 13 de abril de 2021

Jason Brennan e o Pragmatismo, contra a democracia representativa, e a favor do fascismo chinês


Estou a acabar de ler o livro “Contra a Democracia”, do “filósofo” americano Jason Brennan, em que o referido autor pretende convencer-nos de que a democracia representativa não é o melhor dos sistemas políticos. O referido livro foi publicado em 2016 pela universidade esquerdista de Princeton, e republicada (em português) em 2017 (1ª edição) e em 2020 (2ª edição) pela editora dirigida pelo Guilherme Valente.

against_democracy-webEu não tinha percebido por que razão Karl Popper não emigrou para os Estados Unidos, depois da segunda grande guerra, em uma época em que a emigração para os Estados Unidos era a “coqueluche” mundial, e até os membros da Escola de Frankfurt emigraram para este país; Karl Popper preferiu ficar em Inglaterra. E hoje percebo por quê: a maioria dos “filósofos” americanos é fortemente influenciada pelo Pragmatismo, enquanto doutrina. E o Jason Brennan não escapa à regra.

O Pragmatismo é um utilitarismo radical, exacerbado, levado até às suas últimas consequências possíveis.

Esta doutrina (o Pragmatismo) é produto da afirmação absolutista do darwinismo na cultura intelectual e antropológica do fim do século XIX; e, por outro lado, ela é também fruto das teorias físicas do mesmo século, onde as hipóteses científicas eram apreciadas e valorizadas em função da sua comodidade e utilidade.

Segundo o Pragmatismo (em que se inclui o “filósofo” Jason Brennan), quando uma determinada ideia é útil para a acção (política) e está de acordo com a realidade, então segue-se que essa ideia é verdadeira — o que é um absurdo completo: Ortega y Gasset, desde muito cedo no século XX, “malhou” no Pragmatismo.

Ou seja: para Jason Brennan (como para os pragmaticistas, em geral), a verdade deve ser encarada ou concebida em função do nosso desejo de acção, e não em função da reprodução do “real” exterior relativamente ao ser humano. Isto significa que, segundo o Pragmatismo, se o nosso desejo de acção for em um determinado sentido, todas as ideias que fundamentem esse nosso desejo de acção estão automaticamente justificadas e podem ser consideradas verdadeiras.

É neste contexto pragmaticista que o Jason Brennan defende a ideia segundo a qual “a democracia representativa não é necessariamente o melhor sistema de organização política”.

O conceito de “filósofo americano” é um oxímoro: a esmagadora maioria dos ditos “filósofos” são influenciados pelo Pragmatismo, que é uma anti-filosofia. Nos Estados Unidos, só os pensadores influenciados por uma qualquer religião se podem considerar “filósofos”, na medida em que estendem o conceito de “universo” para além dos satélites artificiais.

São esses mesmos “filósofos” pragmaticistas (e auto-denominados “progressistas”, e “liberais de esquerda”) que defendem hoje a legitimidade do regime fascista chinês — como o faz, por exemplo, o Guilherme Valente. Para o Pragmatismo, a verdade é um programa de acção que resulta do nosso desejo: é a criação, pelo homem, de uma verdade a partir de uma razão que “cola” à experiência, e tem como critério único a sua eficácia na acção.

Ou seja: para os pragmaticistas, “se o fascismo chinês funciona bem, em termos práticos, e é eficaz na sua acção política, então segue-se que o regime fascista chinês é bom”.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Pragmatismo é, mais ou menos, como o cardeal Bergoglio

 

O Pragmatismo é uma doutrina do “óbvio aparente”. Por exemplo, é próprio de um pragmatista a seguinte proposição: “as coisas existem porque existem”; ou ainda: “se um diamante não fosse lapidado não seria diamante” 1.

A principal característica do Pragmatismo é ser pragmatista; e as outras características do Pragmatismo, também; por isso é que é surpreendente que o Pragmatismo tenha sequer concebido a ideia de Pragmatismo, o que só se pode explicar porque se trata de uma metafísica que nega qualquer metafísica.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O actual poder político (de Passos Coelho) conhece o futuro

 

“Colocar novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos, reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de legitimação.

Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências” interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projecções sobre o “futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros factores que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o “futuro”.

À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os “ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade” das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o “economês”, que é má economia, não compreende.”

--- 2014, O COMBATE PELAS PALAVRAS

Passos Coelho (e os seus acólitos) é tão revolucionário quanto é um qualquer radical primário porque pretende submeter o real ao racional, como se o universo inteiro pudesse caber dentro de um laboratório. Para ele, é a realidade que se tem que submeter à ideologia, e não as ideias que têm que se submeter ao real.

Não se trata de empirismo, em que os factos são analisados cientificamente (sem qualquer consideração a priori), mas antes de uma forma de pensamento circular, em que as premissas do raciocínio são as que permitam chegar às conclusões que se pretendiam antecipadamente, e por forma a que toda a sociedade possa caber dentro de uma folha de Excel. É uma espécie de Pragmatismo, em que a acção se justifica eticamente pelo desejo subjectivo.

A certeza do futuro é a cereja no topo do bolo passista e uma das características da mente revolucionária do actual poder 1 : um determinado futuro é uma certeza e o passado pode ser mudado (desconstrução).

Outra característica da mente revolucionária é a inversão dos valores da ética e da moral:

Em função da crença num futuro dado como certo e determinado, em direcção ao qual a sociedade caminha sem qualquer possibilidade de desvio, a mente revolucionária passista acredita que esse futuro inexorável será isento dos erros do passado. Por isso, em função desse futuro certo e dado como adquirido, todos os meios utilizados para o atingir estão, à partida, justificados. Trata-se de uma ética teleológica: os fins justificam todos os meios possíveis.

E, finalmente a inversão do sujeito e do objecto: a culpa dos actos de punição austeritária é das próprias vítimas (os reformados, por exemplo), porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído dos erros do passado. A culpa dos cortes nas pensões de reforma é dos próprios reformados, e Passos Coelho é apenas um executor providencial da construção desse futuro do “melhor Portugal que está para vir”.

Nota
1. segundo Olavo de Carvalho