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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Kant foi o último filósofo do Iluminismo


A professora Helena Serrão publica aqui um texto “filosófico”, escrito por uma novelista de seu nome Muriel Barbery, que confunde os conceitos de “literatura” e de “filosofia”.

O texto de Muriel Barbery incorre em um erro comum, que consiste em classificar Kant como membro da corrente filosófica idealista (idealismo). Olavo de Carvalho cometeu esse mesmo erro, e a Wikipédia também.

“Kant foi o último filósofo iluminista” (palavras de Bertrand Russell corroboradas por Nicola Abbagnano).

O equivoco do referido texto vai mais longe: também classifica Husserl de “idealista”.

Quando temos dificuldade em entender um sistema filosófico, dizemos dele que é “idealista”. É assim que Husserl e Lavelle, por exemplo, são também classificados de “idealistas” por muita gente, porque são filósofos muito difíceis de compreender.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O Aparente é uma manifestação intencional do Real


A professora Helena Serrão publica aqui um texto — de certa forma, Kantiano — da autoria de um tal Julian Baggini que não conheço. Guardei o texto aqui, em PDF.

O referido texto trata da problemática kantiana que envolve os conceitos de “númeno” (a “coisa em si”, ou a realidade propriamente dita), e o de “fenómeno” (aquilo que nos aparece proveniente do mundo, ou seja, as “aparências”).

O que Kant quis dizer (em termos práticos) com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma", a realidade propriamente dita, ou númeno — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria. Neste sentido, Baggini tem razão.

Segundo Platão, a analogia é “o mais belo de todos os nexos”, e é indispensável à ciência. Sem analogia não há ciência; e a metonímia é a forma de tradução — na linguagem (humana) — da analogia. Ora, vejamos a seguinte “analogia do sapo”:

sábado, 4 de maio de 2024

O cepticismo, e o império do subjectivismo pós-moderno


“Não seria irracional que um homem preferisse a destruição do mundo, a uma esfoladela no seu dedo.”

→ David Hume



Eu estudei a História da Filosofia Ocidental, da autoria de Bertrand Russell. Sublinho: estudei; e há muito tempo. Estudar um livro é diferente de lê-lo. Tenho duas edições do dito livro: uma, para colocar na estante, impecável, sem pó; e outra, para rabiscar e sublinhar, desconjuntado. Normalmente é assim que faço: compro dois exemplares dos livros de filosofia.

A minha grande divergência em relação a Bertrand Russell não é apenas na ética, em geral, mas principalmente nos fundamentos da ética. Bertrand Russell — assim como Richard Dawkins — não consegue fundamentar a ética senão nos costumes que podem mudar a cada geração. Mas, em relação à Razão (racionalidade) e à Lógica, é difícil estar em desacordo com ele.

A ética, ou seja, os valores morais, devem ser 1/ universais, 2/ fundamentados racionalmente, 3/ ter uma validade intemporal e 4/ serem identificáveis nas suas características principais.

Ora, nestes quatro requisitos da ética, Bertrand Russell falha sistematicamente.

Neste texto de Bertrand Russell, transcrito pela professora Helena Serrão, um céptico (Bertrand Russell) critica outro céptico (David Hume). Porém, e daquilo que li de Bertrand Russell, o cepticismo deste é diferente do cepticismo de David Hume.

O cepticismo de Bertrand Russell é mais parecido com o da doutrina do grego Pirron de Élis (cepticismo pirrónico) que afirma que não podemos ter a certeza de alcançar a Verdade — mas que não nega a possibilidade da existência da Verdade.

Não devemos confundir a “dúvida céptica”, que tem por objectivo uma suspensão definitiva da opinião (David Hume), por um lado, e, por outro lado, a “dúvida metódica” (praticada por Descartes) que é provisória e estabelecida visando a descoberta da Verdade.

O referido texto é paradigmático desta diferença entre estes dois tipos de cepticismo. Porém, o cepticismo de Hume (ao contrário do que diz Bertrand Russell) não foi precedido por Kant e Hegel, quanto mais não seja por esta ideia ser anacrónica: o cepticismo de Hume já advém (evoluiu de) de Montaigne, e depois de Hobbes.


«Segundo este cepticismo muito moderno [de Hume], a faculdade humana do conhecimento é uma coisa que contém conceitos, e já que ela não tem senão conceitos, não pode atingir as coisas que estão fora [desses conceitos].

(…)

Nenhum ser racional iria imaginar que pelo facto de “possuir” a ideia de uma coisa, ele possui igualmente essa coisa. Portanto, este cepticismo não é bastante consequente para mostrar, ao mesmo tempo, que nenhum ser racional não deva imaginar que possui uma ideia.

Com efeito, a ideia é também qualquer coisa; portanto, o ser racional não pode ter senão a ideia da ideia, e não a própria ideia; nem mesmo a ideia da ideia, porque esta ideia na segunda potência seria, portanto, a ideia da ideia, até ao infinito.»

[Hegel, “A Ciência da Lógica”]


A ideia de Russell segundo a qual “Kant e Hegel podem ser refutados com argumentos humeanos” é, ela mesma, irracional. Bertrand Russell “embarra” sistematicamente com as tautologias próprias da Existência — a começar pelo empirismo que ele tanto defende.

Eu também defendo a racionalidade do empirismo, mas este entendido como uma dimensão necessária da existência que não elimina, per se, a necessidade de outras dimensões da existência — ao passo que Russell pretendia reduzir a realidade inteira ao empirismo — incluindo a dimensão da matemática (dedução), através da teoria do Logicismo (de Russell e Whitehead).

Porém, o texto referido de Bertrand Russell tem o condão de explicar o Império do Subjectivismo (e da irracionalidade, que volta a estar na moda) que governa a nossa actual cultura pós-moderna.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

A Helena Damião utiliza Kant para negar Kant


Dois dos paradoxos do Pós-modernismo são a legitimação racional da Contradição (Estimulação Contraditória e Compartimentação), por um lado, e a redução de toda a realidade a “construções sociais”, por outro lado.

Dou um exemplo: em Espanha, um vasto grupo de jornalistas, afectos ao Partido Socialista espanhol, publica um manifesto contra a liberdade de imprensa... mas, alegadamente, em nome da defesa liberdade de imprensa! É a legitimação racional da Contradição (Estimulação Contraditória e Compartimentação) como estratégia política.

Outro exemplo da cultura pós-modernista é o da Helena Damião, que defende aqui, alegadamente, o conceito de Liberdade e de Educação, segundo Kant, mas ocultando dos leitores a importância do indivíduo na filosofia de Kant, por um lado, e a importância da disciplina no conceito de Educação de Kant, por outro lado.

Para Kant, a disciplina é a parte negativa da educação ; e a instrução é a parte positiva da Educação.

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo, tal como a do pai para com os filhos, quer dizer, uma governo paternal (imperium paternale), no qual, por consequência, os súbditos, quais filhos menores, incapazes de decidir do que para eles é verdadeiramente útil ou prejudicial, são obrigados a comporta-se de maneira unicamente passiva, a fim de esperar apenas do juízo do Chefe de Estado o modo como devem ser felizes, e apenas da sua bondade que ele igualmente o queira — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber ”.

→ Kant, “Teoria e Prática”, 1793, II, p. 31


Ora, o socialismo (a Esquerda em geral) que a Helena Damião defende é a antítese do conceito de “liberdade” e de “educação” defendida por Kant. Para a Esquerda, a escola pública deve “educar” as crianças, substituindo-se aos pais. Ora, é este tipo de escola pública que a Helena Damião chama de “instituição maravilhosa”.

A partir de Rousseau, “a educação transformou-se num instrumento da política, e a própria actividade política foi concebida como uma forma de educação”.

→ Hannah Arendt, “Entre o Passado e o Futuro”, 2006, pág. 186).

“Porque a criança tem necessidade de ser protegida contra o mundo, o seu lugar tradicional é no seio da família.”

(idem, pág. 196)

(…)

“A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume, implica, como é óbvio, uma atitude conservadora.”

(ibidem, pág. 202)


Chegou o momento de substituir o conceito de Ministério da Educação pelo de Ministério da Instrução, como aconteceu na Primeira República (Leonardo Coimbra foi ministro da Instrução).

A educação é competência dos pais e/ou família; a instrução é competência da escola pública — sendo que “escola pública” não tem que ser necessariamente “escola estatal”: as escolas privadas também são públicas.

segunda-feira, 18 de março de 2024

O conceito pós-modernista e bergogliano de “respeito” do Anselmo Borges


Posso estar de acordo com quase tudo o que o Anselmo Borges escreveu aqui (ver ficheiro PDF), com uma excepção: o respeito pelo outro não é “incondicional”, como ele alude. Antes de mais, vamos falar sobre o que significa “respeito pelo outro”, para que não haja mal-entendidos.

S. Tomás de Aquino escreveu que “não devemos respeitar quem não merece respeito”. E, que eu saiba, S. Tomás de Aquino não era menos santo do que o Anselmo Borges.

S. Tomás de Aquino referia-se ao “comportamento do outro” (juízo moral, racionalmente fundamentado), e não ao “desrespeito em relação ao outro enquanto ser humano” (respeito ontológico). Anselmo Borges mete estes dois conceitos no mesmo saco — como é característica do Pós-modernismo.

Uma coisa é o respeito pelo outro enquanto ser humano (respeito ontológico); outra coisa, bem diferente, é o “respeito” que sanciona, ou tolera, ou até aceita, qualquer tipo de comportamento em nome de um putativo “respeito pelo outro”. É neste segundo sentido que se insere o conceito de “respeito” adoptado pelo papa Chico e seus acólitos (como é o caso do Anselmo Borges), na linha ideológica do Pós-modernismo.

Porém, o este segundo conceito de “respeito pelo outro” é ambíguo — como em quase tudo o que prevalece na Igreja Católica do papa Chico: a ambiguidade é chave-mestra da mundividência bergogliana (pós-modernista) —, porque só se aplica em alguns casos politicamente motivados.



É claro que Anselmo Borges invoca Kant para fundamentar o conceito pós-modernista de “respeito”; mas esqueceu-se do conceito kantiano de “autonomia” (que é também da razão prática). A ambiguidade bergogliana pós-modernista (que caracteriza o Anselmo Borges) faz com que se escondam os conceitos que não interessam ou que incomodam a narrativa politicamente correcta, mesmo sendo da mesma fonte autoral.

O conceito de “autonomia”, de Kant, dá razão a S. Tomás de Aquino: a “autonomia”, segundo Kant, pode definir-se 1/ como liberdade no sentido negativo, isto é, como independência do cidadão em relação a qualquer coacção exterior (ou seja, o cidadão, enquanto indivíduo), 2/ mas também no sentido positivo, como legislação da própria Razão pura prática (o cidadão, enquanto legislador).

Ou seja, para Kant, a autonomia consiste em ser simultaneamente “cidadão e legislador”: a vontade do Bem é ela própria uma criação livre.

A radicalização do princípio da “autonomia” de Kant, que ocorre na contemporaneidade pós-modernista (e, por maioria de razão, na Igreja Católica bergogliana defendida pelo Anselmo Borges), consiste grosso modo em adoptar a liberdade em sentido negativo (o “cidadão”) e excluir o sentido positivo da função da Razão no papel do “legislador”, transformando a autonomia em subjectivismo puro e não passível de universalidade, levando à atomização da sociedade.

É isto que a actual Igreja Católica do Bergoglio defende.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

A felicidade do Joaquim, segundo Kant


O Joaquim aborda aqui o tema da “felicidade”, desde logo assumindo a felicidade como algo possível de alcançar (não confundir “felicidade” e “alegria”).

Ao contrário dele, eu sou um céptico em relação à Natureza Humana;  sou mais apologista de Kant:

1. O desejo humano em relação aos objectos do mundo (o tal “direito à felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2. O “direito à felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada. Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado. Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que ser Deus — o que é uma impossibilidade objectiva.


Os homens querem ser felizes, mas não sabem exactamente o que querem, para serem felizes.


Uma vez que a ética deve ser universal (a ética é para todos), e que o Direito não deve reduzir a norma ao facto, o “direito subjectivo à felicidade” de cada ser humano não pode fundamentar uma regra ética (ou parte dela) nem uma lei positiva.

O “direito subjectivo à felicidade” é um ideal de imaginação (de cada indivíduo), e não um ideal da razão.

O “direito à felicidade da sociedade” é uma ficção. Uma regra moral é apenas objectivamente válida na ordem prática, da mesma forma que uma lei positiva é válida na ordem teórica — na medida em que uma regra moral se impõe sem condições contingentes e subjectivas (ou seja, uma regra moral, sendo universal, não pode depender da experiência isolada, das ficções e dos ideias de imaginação dos indivíduos).

O que está a acontecer na sociedade europeia (e não só) é uma tentativa de destruição do Estado de Direito através da pulverização das normas legais, reduzindo-as a factos mais ou menos isolados. E é sobretudo uma tentativa de destruição da ética através de uma atomização da sociedade, traduzida na recusa da universalidade da ética sob pretexto de que “cada indivíduo tem o direito” de ver o seu “direito à felicidade” traduzido nas regras morais, transformando a ética exactamente no seu contrário. E quem está por detrás desta tentativa da destruição do direito e da ética, são os promotores dos novos totalitarismos que se anunciam.


É um erro pensar que por detrás das descobertas da ciência está “o desejo de felicidade”.

Quem estudou alguma coisa da filosofia da ciência (epistemologia) sabe que o avanço da ciência se deve à imaginação como faculdade do espírito (e que é independente do “desejo de felicidade”) — a imaginação não é simples imitação do real por imagens: consiste em produzir representações e, por isso, pressupõe uma actividade do espírito. Esta actividade não consiste apenas no facto de se representar objectos ou seres ausentes: consiste também na possibilidade de combinar as ideias ou de antecipar acontecimentos, e mesmo na faculdade de nos fazermos representar no que não existe (ou ainda não existe), ou seja, na imaginação criadora.

Podemos dizer, contudo, que a imaginação não cria verdadeiramente, mas antes que ela inventa combinações novas com elementos dados. No entanto, é necessário que as combinações sejam completamente livres. A imaginação criadora manifesta a liberdade do espírito que se confunde com a faculdade humana que “ir para lá” do dado, de pensar o ausente, o passado, o futuro e o possível — independentemente do desejo de felicidade.

sábado, 30 de setembro de 2023

Uma crítica sucinta ao livro "The Psychology of Totalitarianism" de Mathias Desmet


Na sequência do descalabro da “pandemia do COVID-19” e dos confinamentos promovidos por uma classe política sem escrúpulos, Mathias Desmet lançou em 2022 o livro em epígrafe cuja leitura recomendo vivamente.

Contudo, na sua crítica ao “materialismo mecanicista” (Diderot, D'Holbach, La Mettrie, etc.) em todo o livro 1/ Desmet confunde “racionalidade” e “racionalismo”; e 2/ mistura “Iluminismo” e “Criticismo”, por um lado, com positivismo e cientismo, por outro lado.

terça-feira, 9 de maio de 2023

“Racionalidade” não é a mesma coisa que “racionalismo”

O que é racional (racionalidade) é fundamentado na Razão, em conformidade com as suas exigências e os seus princípios — sendo que “razão” é a faculdade de conhecer, de julgar (juízo), e a faculdade de combinar juízos.

karl popper webA Razão — a racionalidade — inclui nela o cepticismo em relação à própria capacidade humana de julgar bem, em oposição a um certo racionalismo monista e imanente (Hegel) que afirma o carácter racional da realidade no sentido da História (um absurdo!), e que o pensamento racional é capaz de atingir a verdade absoluta (outro absurdo!), porque (alegadamente, diz ele) as próprias leis do pensamento racional são também as leis dos objectos do próprio conhecimento (e este é o maior absurdo de Hegel);

Ou de um outro tipo de racionalismo cientificista que atribui à razão humana a capacidade de conhecer a Verdade (por exemplo, os positivistas, o Carlos Fiolhais e o cientismo moderno).

Existe outro tipo de racionalismo, mais aceitável racionalmente (Platão, Descartes, Leibniz), que entende a Razão como um meio de conhecimento seguro e independente da experiência sensível, em oposição ao empirismo. A minha divergência com este grupo de filósofos é a de que o conhecimento pode ser independente da experiência sensível (como é óbvio), mas não é garantidamente seguro; não temos qualquer tipo de garantia racional de que esse conhecimento adquirido seja seguro.

Eu “alinho” com Kant — e por isso é que alguns católicos e muitos evangélicos que lêem este blogue, não gostam do que escrevo. Lêem, mas calam; e às vezes há sinais de desagrado, que são injustificados. A corrente filosófica de Kant é conhecida como “Criticismo”. Um bom exemplo de um discípulo de Kant é Karl Popper.

Muitos desses católicos e evangélicos, que visitam este blogue, pensam que o cepticismo em relação ao conhecimento da Realidade é sinónimo de cepticismo em relação a Deus. Pensam de forma absurda, irracional. Confundem (quiçá sem o saberem) Kant com Espinosa: este último, sim, privilegia a razão como princípio de explicação do universo, e em oposição à metafísica, não se dando conta de que qualquer negação de uma determinada metafísica é. em si mesma, uma outra metafísica.

Kant reconheceu a interdependência entre a Razão e a Sensibilidade, atribuindo à Razão o poder de fundamentar o conhecimento, mas divergindo dos outros filósofos citados porque admite que as formas a priori de todo o conhecimento limitam à partida as possibilidades da Razão. É nesta linha kantiana que Karl Popper desenvolveu a sua doutrina filosófica.

terça-feira, 8 de março de 2022

Não confundir Iluminismo e Positivismo

Vemos aqui um texto de Kant — talvez o último filósofo iluminista.

Um dos grandes erros de alguns académicos em filosofia é confundir o Iluminismo (por exemplo, Kant), por um lado, com o denominado “Idealismo” (por exemplo, Hegel, que nada tem a ver com o Idealismo/Realismo de Platão). O Idealismo de Hegel, ou de Fichte, são derivas do Romantismo.

As principais conquistas intelectuais dos últimos dois mil anos foram 1/ o Cristianismo e popularização da ideia de “Criação”, 2/ o princípio da inércia, 3/ o Criticismo (Kant), 4/ a noção de “selecção natural”, e 5/ o conceito de “historicidade” — porém, isto não significa que Kant não seja criticável; mas Hegel não passou de um bom jurista.

Conforme podemos verificar no referido texto de Kant — e ao contrário do que preconizava o Idealismo, que foi um monismo determinista —, o Iluminismo adoptou a defesa do livre-arbítrio no ser humano.


Vejamos a frase que abriu o referido trecho:

«O dever é a necessidade de cumprir uma acção por respeito à lei

Está subentendida, ali, a “lei dos homens”; mas não só: está implícito o respeito pela Lei Natural (não confundir com Leis da Natureza, ou leis científicas) — as leis naturais são de explicação irredutível, como qualquer mistério — e pelo tabu que decorre da violação da Lei Natural, sendo que o tabu é o pilar de um sistema moral viável.

A “lei dos homens” (o Direito) deve ser baseada na Lei Natural (são os chamados “princípios metajurídicos” necessários a um Direito coerente, que a jurista Isabel Moreira tanto despreza).

Princípios metajurídicos = princípios que estão para além (ou antes de) do jurídico.

Sem este “para além do jurídico”, o Direito torna-se aleatório e sujeito à vontade arbitrária de uma elite composta de gente desligada da realidade, neognóstica, decadente, mimada e mesmo pueril, como é por exemplo a Isabel Moreira.

isabel moreira antinatural web


É verdade que a Lei Natural descreve meramente o comportamento de um sistema definido; na Lei Natural não há necessidade, nem finalidade. Na Lei Natural, a necessidade é metáfora lógica, e a finalidade é metáfora mental. Com a defesa do livre-arbítrio no ser humano (a “vontade”, de Kant), a liberdade individual instala uma necessidade no seio de uma contingência: um valor estético na pintura, por exemplo, é uma configuração de pigmentos. Ou o Pártenon, assente na sua rocha, é uma necessidade levantada por um acto livre sobre um facto bruto; mas este “facto bruto” não deixa de ser um princípio subjacente à liberdade humana.

A Lei Natural é o facto bruto sobre o qual o ser humano assenta o Direito Positivo.

A negação da influência do Direito Natural no Direito Positivo (defendido pela Isabel Moreira, por exemplo) implica a transformação dos membros da elite social em espécie de deuses. E isto já não tem nada a ver com o Iluminismo de Kant (livre-arbítrio), mas antes tem a ver com o Positivismo (determinista, não para ela, mas sim para os outros) que é o Romantismo na ciência.

sábado, 5 de junho de 2021

Kant é essencial para salvar a ciência e a ética, em relação ao niilismo do pós-modernismo


O Ludwig Krippahl escreve aqui um texto que rebate (ou contradiz) a ideia segundo a qual

“a ética é uma palhaçada, porque, enquanto os objectos de estudo [da ciência] continuariam a existir quer existissem humanos ou não, os valores morais não existem sem sujeitos”.

Ora, o que o Ludwig Krippahl está a contraditar, são exactamente os princípios filosóficos que regeram o advento da modernidade — Francis Bacon, Hobbes (principalmente), e Descartes.

quarta-feira, 31 de março de 2021

A filosofia continua agarrada ao passado epistemológico, por pura conveniência egológica dos “filósofos”


Eu entendo por que razão o ensino da filosofia continua a fazer, de Kant ou de Russell, paradigmas que orientam a mundividência intelectual. Mas a verdade é que Kant e Russell estão (em grande parte) obsoletos, porque o primeiro viveu antes de Einstein, e o segundo assumiu claramente que a teoria dos quanta era “coisa de malucos”.

Para um empiricista radical como era Russell, a teoria dos quanta não passava disso mesmo: uma teoria.

Escreve-se aqui, no Porta da Loja:

“É aqui que se explica a ideia de Kant sobre a existência de Deus, arrasando toda a tentativa intelectual de comprovar a Sua existência e reservando para a Crítica da Razão Prática os motivos pelos quais acredita que são diversos.”


Aconselho a leitura de uma série de apostilas:


A fenomenologia (Husserl) surgiu também depois de Kant e foi literalmente ignorada por Russell.

Partindo da noção medieval de “intencionalidade” (Brentano), segundo a qual “a consciência psicológica nunca está vazia e é sempre consciência de alguma coisa exterior a si”, Husserl estabeleceu que a consciência lógica não age a partir de dados empíricos, mas antes a partir de certas “essências” ou “objectos ideais”.

Por exemplo: se segurarmos esta mão cheia de fósforos, não podemos imaginar “claramente” os quarenta fósforos que ela contém, pois que nos servimos correntemente do número 40. Transpondo os “objectos ideais” para a lógica, Husserl infere que a consciência, munida de intencionalidade, abarca e cativa esses “objectos ideais”.


A ideia segundo a qual “Deus existe” é obsoleta; desde Karl Jaspers que sabemos isso. Deus não “existe” da mesma maneira ou forma que existe uma pedra, o meu vizinho ou o presidente da república.

“Existência é algo que nunca se tornará um objecto, é a origem, a partir da qual eu penso e actuo — existência é aquilo que apenas posso ser, mas que não posso ver ou saber”.

(Karl Jaspers, Von der Wahrheit, 1958).

Existência não significa um simples existir, mas sim uma categoria contraposta aos objectos.

A existência não é uma coisa do mundo, se se entende por mundo os objectos que nos rodeiam. Para a razão humana, a existência é um domínio que ela não pode alcançar através do pensamento, e que permanece totalmente remoto. A razão não encontra nada na procura da existência. A existência escapa ao pensamento que transforma tudo o que apanha em uma qualquer coisa objectiva. Tal como o ser humano não pode alcançar a sua própria sombra, o pensamento não pode alcançar a existência daquele que pensa.

Do ponto de vista do pensamento objectivo, a existência é um Nada da perspectiva do ser humano vivo, é a raiz absolutamente indubitável da qual o seu estar nasce a cada segundo.

Dizer que “Deus existe” é apenas uma força de expressão. Mas para Kant, a “existência de Deus” era um fenómeno literal, era uma “personagem” que existia em coadjuvação com o universo.


“É nesta parte que Russell escreve que Kant entende que a lei moral exige justiça i.e. felicidade proporcional à virtude e por isso só a Providência o poderá garantir. E é também aqui que se explica o conceito de imperativo categórico”.

¿Por que razão “a lei moral exige justiça”?! E que “justiça”? O que é a “justiça”?

Nem Russell nem Kant dizem por quê. Kant e Russell partem de um postulado, segundo o qual “a lei moral exige justiça”. Mas, por exemplo, para Hitler, a lei moral não exigia o mesmo tipo de “justiça” advogado por Kant e Russell. Este argumento de Russell e de Kant é muito fraco.

Ademais, o imperativo categórico pode ser explicado, grosso modo, da seguinte forma: segundo Kant, não é permitido mentir, por exemplo, porque a mentira considerada como uma lei geral — “todos podem mentir” — significaria o fim de qualquer comunicação humana.

Se o meu comportamento se orientasse por uma norma que me permitisse mentir sempre que quisesse, então todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer. No entanto, se todos podem mentir, não se acredita em ninguém e nenhum mentiroso alcança o seu objectivo.

Até aqui, Kant está correcto. Aplicada a todos os seres humanos de uma forma consequente, a máxima da mentira permitida, anula-se a si própria.

Porém, eu não sou — de modo algum — inconsequente se prefiro que os outros sigam as regras que eu próprio não gostaria de seguir. Se eu minto sempre que me apetece, mas desejo que todos os outros digam sempre a verdade, na minha qualidade de grande oportunista, sou, em certa medida, perfeitamente consequente com a aplicação do imperativo categórico de Kant.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Devemos e podemos criticar Kant, mas não exageremos

 

Diz a professora Helena Serrão :

“Já indiquei que aceito o primeiro ponto, o de que a ética implica a universalidade. O segundo ponto também é indesmentível. A razão tem de ser universal”.

Ou seja, segundo ela, 1/ a ética implica a universalidade, e 2/ a Razão tem que ser universal. O que ela diz também é que não existe uma relação de nexo causal entre a Razão e a ética.


Antes de mais, temos que saber o que significa “Razão”, por um lado, e “universalidade” (intersubjectividade), por outro lado.

A universalidade (em ética) diz respeito a um valor superior (ou um sistema de valores) ou a uma perspectiva susceptível de orientar a sociedade no seu todo. Neste sentido, a universalidade (valor intersubjectivo) de uma proposição (por exemplo, “Todos os homens são mortais”) deduz-se do raciocínio, por um lado, e da experiência, por outro lado. A universalidade de um determinado valor só pode ser um postulado, mas é requerida pela coerência de uma doutrina filosófica — essa coerência não é sinónimo, em si mesma, de “verdade”: apenas significa a coerência de um determinado discurso.

Kant adoptou a “lei de ouro” (imperativo categórico) : “Age unicamente segundo a máxima que permite que possas querer ao mesmo tempo o que se torne em uma lei universal” (Fundamentação da Metafísica dos Costumes); ou seja, a lei moral implica a sua universalidade.

Ou seja: não é porque um determinado discurso é coerente, ou porque um determinado valor é universal, que o primeiro é necessariamente verdadeiro e que o segundo é positivo. A universalidade de um valor ou de um sistema de valores, só por si, não determinam a racionalidade dos mesmos.

A Razão, neste contexto, é a faculdade de julgar bem — neste sentido, a Razão opõe-se à loucura e à paixão descontrolada, e é simultaneamente a priori, por um lado, e baseada na experiência, por outro lado. A Razão é universal.


Segundo o “imperativo categórico” de Kant, por exemplo, não é permitido mentir porque a mentira, entendida como uma lei geral (universal) significaria o fim de qualquer comunicação válida entre seres humanos — se o meu comportamento se pautasse por uma norma que me permitisse mentir sempre que eu quisesse, então seguir-se-ia que todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer. Porém, se todos podem mentir, ninguém acreditaria em ninguém, e nenhum mentiroso conseguiria o seu objectivo. Neste aspecto, Kant tem razão: aplicada consequentemente a todos os seres humanos, a máxima da “mentira permitida” anula-se a si mesma.

Contudo, ninguém me obriga a ser consequente com o imperativo categórico,  se eu prefiro que os outros sigam normas que não se apliquem a mim próprio. Se eu minto sempre que me apetece, mas simultaneamente desejo que todos digam sempre a verdade, sou perfeitamente consequente com o meu estatuto de oportunista que aplica o imperativo categórico.

¿Quem (ou o que) me impede de colocar o meu bem pessoal acima do bem comum?

Considerar-me a mim próprio uma excepção à norma ética, é uma aplicação consequente e útil do imperativo categórico de Kant. Aqui, a crítica da professora Helena Serrão ao imperativo categórico  de Kant tem alguma razão de ser:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente”.

Porém, no seu (dela) raciocínio, a professora Helena Serrão parte do princípio de que é legítimo que alguém considere o seu interesse próprio mais valioso do que o interesse do bem comum:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente. Vejamos a questão de mais perto.

Temos de conceder que há um sentido em que um agente racional puramente egoísta -- chamemos-lhe Jack -- não podia aceitar os juízos práticos de outro agente puramente egoísta -- chamemos-lhe Jill”.

Tal como acontece com a “mentira permitida” e generalizada, o egoísmo generalizado anula-se a si próprio: se toda a gente é exclusivamente egoísta, o egoísmo deixa de existir, enquanto tal, em termos práticos, porque o egoísmo só resulta quando alguém “descuidado” não é egoísta.

Ou seja, ao contrário do que diz a professora, o egoísmo puro generalizado (assim como a “mentira permitida”) não pode ser aceite como uma base racional da acção de todos os agentes racionais — exactamente porque o egoísmo puro generalizado anula-se a si próprio.

Desde Sócrates que sabemos que ninguém faz o mal pelo mal: as pessoas querem sempre um qualquer bem, nem que seja o seu bem exclusivo e egoísta “contra tudo e contra todos”, que não deixa de ser um bem mitigado que, muitas vezes, se opõe ao bem comum.

Mas a Razão (a faculdade de julgar bem, baseando-nos na intemporalidade dos valores racionalmente fundamentados e na experiência humana) impede-nos de aceitar o “egoísmo puro generalizado” como base racional de acção ética — quanto mais não seja porque se anula a si próprio.

Não é racional que eu defenda um tipo de ética que se anula a si própria.

O argumento da professora Helena Serrão (ou de Peter Singer, ou de Desidério Murcho) não serve. 

A irracionalidade voltou a estar na moda.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

As mulheres deveriam circunscrever-se à poesia

 

A professora Helena Serrão publica um excerto de uma tal Stéphane Ferret que eu não sei quem é nem quero saber. Só sei que — à semelhança do paralamento português – ela descobriu que “a Terra é redonda”.

O problema é que a Terra não é exactamente redonda; é achatada nos pólos. É aqui que a Stéphane Ferret “se ferra”.

“Contrariamente a uma longa tradição filosófica que reserva a intencionalidade para o homem, parece ser um dado adquirido que também os animais (pelo menos alguns) são entidades capazes de acção. Aos olhos da maioria dos homens, parece não restarem dúvidas de que também os símios, os burros ou as girafas são criaturas agentes”.

Ao ler esta passagem do texto, por um segundo quase acreditei que a Stéphane Ferret tinha razão.


É isto o que acontece quando as fêmeas se põem a filosofar: por exemplo, Hannah Arendt sempre afirmou dela própria que não era filósofa — o que revela grande inteligência da sua parte.

¿A Stéphane Ferret age porque é livre? Ou ¿é livre porque age?

Quando ela se compara aos animais, sou induzido a pensar que ela é livre porque age. É este o grande problema da modernidade: as pessoas consideram-se livres porque agem.

Eu prefiro dizer de mim mesmo que ajo porque sou livre — e é na liberdade que reside o busílis da questão: se considerarmos que a burra é livre, então podemos equiparar a sua acção à do vulgar ser humano.

A liberdade na acção pressupõe autoconsciência!.


Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”.
Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano.

No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o “eu penso” do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento.

Na linguagem de Kant: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, segundo Kant, é o “X” da condição humana.

Não é possível reconhecer este “X”, porque qualquer acto de pensamento já o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento — e por isso é que nenhum computador (ou nenhuma burra!) tem ou alguma vez terá este X. A comparação que os naturalistas fazem entre os símios, os burros ou as girafas, por um lado, e um ser humano, por outro lado (sociobiologia), é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita.

sábado, 6 de outubro de 2018

A física e a metafísica pertencem à mesma realidade


Temos aqui um texto da professora de filosofia Helena Serrão: « ¿Será possível o conhecimento "a priori"? »


O referido texto explica o que significa o “a priori”, segundo Kant. Mas a concepção da diferença entre o “a priori” (o conceito de “relação de ideias”, de Hume), por um lado, e o “empírico” (o conceito de “questões de facto”, de Hume), por outro lado, é anterior a Kant e pertence a David Hume (a Helena Serrão não referiu este facto que é muito importante para a epistemologia).

O que é novo em Kant (em relação a David Hume) é o conceito de “interpretação da realidade” por parte do ser humano, conceito que é compatível com a filosofia quântica. Segundo Kant, as impressões dos sentidos (empirismo) fornecem a matéria bruta do conhecimento (empírico), mas o sujeito (humano) é pensante e responsável pela organização estrutural e relacional dessa matéria bruta.

“O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da Natureza, mas impõe-lhe-as” → Kant (Crítica da Razão Pura).

Com esta frase de Kant se resume o conceito de “a priori”, que tem como base o conceito de “interpretação da realidade”. Exactamente por isso é que Karl Popper tem razão quando diz que “a ciência é composta por conjecturas”, porque até as próprias leis da natureza verificadas empiricamente foram verificadas (estatisticamente) no passado, e não há (racionalmente e em bom rigor) uma certeza de elas sejam exactamente as mesmas no futuro.


O que eu não concordo, nem com a Helena Serrão, nem com Kant ou Hume, nem mesmo com Aristóteles, é com a diferenciação entre “física”, por um lado, e “metafísica”, por outro lado (seja o que for que estes dois termos signifiquem). É esta a razão por que escrevo este verbete.

Se existisse uma diferenciação real entre a física e a metafísica, a ciência não teria avançado ou progredido (o único “progresso” que existe de facto é na ciência) — porque muita coisa que pertencia à metafísica, em um determinado momento, passou pertencer a física noutro momento (como podemos constatar actualmente com a física quântica).

Por exemplo, o conceito científico de “não-localidade” ainda há pouco tempo pertencia à metafísica.

Aliás, Kant entra em contradição quando, por um lado, diferencia a física e a metafísica, e por outro lado introduz o “princípio da intencionalidade da Natureza” (Crítica da Razão Pura, 1790).

Kant insistiu que embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (de uma determinada forma), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada intencionalmente — o que é uma forma metafísica de conceber a Natureza.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A mecânica quântica defende a incognoscibilidade da "coisa-em-si-mesma" de Kant

 

1/ Segundo Kant, a "coisa-em-si", — ou seja, “a realidade tal como é”, é incognoscível, por oposição ao “fenómeno” — se não pode ser concebida, pode ser no entanto ser pensada.

Olavo de Carvalho (tal qual Hegel) diz que a "coisa-em-si" (ou o númeno) e o fenómeno não se opõem : “mostrar-se como 'fenómeno' é uma característica das coisas em si mesmas” e “não uma limitação do nosso aparato cognitivo, como ele pretendia” (sic).

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2/ convém dizer que o conceito de "coisa-em-si" de Kant pode ter várias interpretações, e ele próprio utiliza o conceito de "coisa-em-si" ou “númeno” em situações diferentes e mesmo aparentemente contraditórias. Os idealistas (Hegel, por aí fora, até Heidegger) negaram o conceito de númeno ("coisa-em-si") pelas mesmas razões invocadas por Olavo de Carvalho: segundo os idealistas, a presença da "coisa-em-si" em um pensamento que não a pode conhecer, é um paradoxo, o que levou a Hegel a negar a especificidade da "coisa-em-si".

3/ temos que saber se o conceito de "coisa-em-si-mesma" tem alguma pertinência segundo os conhecimentos científicos actuais.

O que Kant quis dizer com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma" — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria.

Por isso é que a "coisa-em-si-mesma" (ou seja, a verdadeira natureza da matéria) é (segundo Kant) incognoscível, por oposição (segundo Kant) ao “fenómeno” que é aquilo que aparece à nossa percepção proveniente das manifestações “individuais” da matéria.

Este problema da "coisa-em-si-mesma" de Kant (assim como o problema de “mónada”, de Leibniz) é hoje reflectido de forma similar pela física quântica: por exemplo, não se pode atribuir directamente qualquer propriedade (característica) a um vector de estado (estado físico) representado por um feixe de fotões em um Espaço de Hilbert.

Baseando-nos nos conhecimentos da ciência física, Kant tinha razão: a "coisa-em-si-mesma" continua a ser incognoscível (obviamente devido à “limitação do aparato cognitivo” humano); e provavelmente não existe nenhuma substância a que possamos chamar de “espaço-tempo”.

Convém dizer o seguinte: para Kant, a Física (o estudo da matéria) tem que ser puramente fenomenológica (tal como é hoje a Física Clássica).

4/ DxDp≥ћ=h/2π

Esta é a conhecida fórmula de Heisenberg (ou princípio da incerteza de Heisenberg), escrita em 1925, em que Dx é a incerteza da posição de um electrão em determinado momento, e em que Dp é a incerteza do próprio momento. A constante h é a “constante de Max Planck”, e ћ é a “constante reduzida” de Planck. Naturalmente que π=3,141618....

Esta fórmula escandalizou a comunidade científica da altura, porque simplesmente defendia a ideia de que a “causalidade não era possível de uma forma consistente”, isto é, a causalidade rigorosa não existe. Como resultado prático da fórmula de Heisenberg, é teoricamente impossível fazer a observação de um electrão (ou outra partícula elementar) e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço) ― isto é, numa observação de um electrão, ou se define o tempo, ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente (princípio da incerteza de Heisenberg).

5/ nós não observamos as trajectórias das partículas elementares (também chamadas de “acontecimentos”); podemos definir a posição de uma partícula no espaço, ou a sua velocidade no tempo, mas não podemos observar / verificar a trajectória dessa partícula (ou das partículas elementares em geral).

Isto significa que nós identificamos os corpos físicos como “aparências” interpretadas pelo “software” do nosso cérebro, e não como um conjunto de vectores de estado de partículas elementares.

O vector de estadoou “amplitude de probabilidade de função de onda”, ou "função de onda quântica" — é a "coisa-em-si-mesma" de Kant.

O nosso conhecimento físico fenomenológico (em relação à matéria) não é objectivo senão no sentido em que é intersubjectivo: é (apenas e só) porque é intersubjectivo, que o nosso conhecimento fenomenológico é objectivo. É no sentido em que o nosso conhecimento subjectivo das aparências é válido do ponto de vista intersubjectivo que podemos afirmar a objectividade desse conhecimento.

Isto não significa que as coisas não existam senão dentro dos parâmetros da nossa interpretação subjectivista. Kant não é idealista nem solipsista.

Dando o exemplo de uma rã. Ela não vê nada senão aquilo que se mexe. O seu olho é constituído de tal modo que tudo o que é imóvel lhe está inacessível. A rã vê a borboleta que voa, mas não vê a flor onde esta pousa. De modo semelhante, os seres humanos reconhecem aquilo que constitui para nós objecto do nosso pensamento ou da nossa percepção — até a nós próprios só nos conhecemos na medida em que nos podemos “objectivar de forma intersubjectiva”.

6/ A velocidade máxima no universo deixou de ser aquela que Einstein especificou na sua teoria. O conceito de “não-localidade” rebentou com a Relatividade de Einstein.

O espaço e o tempo são formas ou produtos da nossa intuição — ou aquilo a que Kant também chamou de “númeno em sentido positivo”, na medida em que se tratam de “conceitos” de “intuição não-sensível” (intelectual, espiritual) → em contraposição ao “númeno em sentido negativo”, que é algo que não é objecto da nossa “intuição sensível” e que depende da abstracção para a possibilidade de intuição.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

¿O que é a “felicidade”?

 

“Penso que o ser humano é um eterno insatisfeito. Isto porque é habitual ele ambicionar tudo o que possa dar-lhe algum prazer na vida; só que depois de ter conseguindo adquirir o que no seu querer estava traçado, decorrido algum tempo inventa ou cria uma nova necessidade que o vai levar a um novo objectivo, que no fim também o não irá satisfazer cabalmente; então, prosseguirá nesta condição sedenta até que a senilidade, a loucura ou a morte, lhe batam à porta”.

UMA BOA QUESTÃO...


Se perguntarmos a uma pessoa (qualquer que seja) ¿o que é a felicidade?, ela não saberá dizer o que é. A felicidade não tem uma definição: nem colectiva, nem individual (assim como não podemos definir “realidade”).

O “direito à felicidade”, como justificação para as engenharias sociais (que o papa Chico aprova) que têm a ilusória pretensão de alterar a natureza humana, é uma das maiores fraudes éticas, ideológicas e políticas da modernidade.

Toda a ética que inclui na sua teoria o “direito à felicidade” (seja a felicidade individual, seja colectiva), é uma ética falsa e absurda. E toda lei positiva que preveja o “direito à felicidade” como seu fundamento, é um contra-senso que tem a sua origem em um sistema ético absurdo.

Santo Agostinho observou (e bem!) que todos os homens desejam ser felizes, e a felicidade define-se (no sentido comum) pela obtenção do maior prazer. Porém, a diversidade de objectos que os homens têm em vista no sentido de atingirem a mais elevada satisfação, revela bem que este desejo existe sem que o seu verdadeiro objecto, útil, utilitarista e prático [de felicidade], lhe seja claramente dado: “Todos querem ser felizes, mas nem todos procuram viver do único modo que permite viver feliz” através do amor a Deus: “quem sabe amar-se, ama a Deus”.

Kant pegou nesta ideia de Santo Agostinho e desenvolveu-a com requinte.

1. O desejo humano em relação aos objectos do mundo (o tal “direito à felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2. O “direito à felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada.

Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais, é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado.

Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que ser Deus — o que é uma impossibilidade objectiva.

Os homens querem ser felizes, mas não sabem exactamente o que querem para ser felizes — Kant corrobora Santo Agostinho —, exigência que apenas a religião, mesmo nos limites da razão, pode satisfazer.

Uma vez que a ética deve ser universal (a ética é para todos), e que o Direito não deve reduzir a norma ao facto, o “direito subjectivo à felicidade” de cada ser humano não pode fundamentar uma regra ética (ou parte dela) nem uma lei positiva.

O “direito subjectivo à felicidade” é um ideal de imaginação (de cada indivíduo), e não um ideal da razão.

O “direito à felicidade da sociedade” é uma ficção. Uma regra moral é apenas objectivamente válida na ordem prática, da mesma forma que uma lei positiva é válida na ordem teórica — na medida em que uma regra moral se impõe sem condições contingentes e subjectivas (ou seja, uma regra moral, sendo universal, não pode depender da experiência isolada, das ficções e dos ideias de imaginação dos indivíduos).

O que está a acontecer na sociedade europeia (e não só) é uma tentativa de destruição do Estado de Direito através da pulverização das normas legais, reduzindo-as aos factos. E é sobretudo uma tentativa de destruição da ética através de uma atomização da sociedade, traduzida na recusa da universalidade da ética sob pretexto de que “cada indivíduo tem o direito” de ver o seu “direito à felicidade” traduzido nas regras morais, transformando a ética exactamente no seu contrário. E quem está por detrás desta tentativa da destruição do direito e da ética, são os promotores dos novos totalitarismos que se anunciam.


“No entanto, a insatisfação do ser humano é a força motriz que o impulsiona para os complicados meandros da ciência, com vista a reduzir o seu esforço físico e intelectual e encarrilar pelo itinerário materialista com vista à supremacia; no fundo, a sua verdadeira paixão.

A insatisfação obriga à invenção, seja do que for. Esse descontentamento é, indubitavelmente, a alma da criatividade e do talento que constituem o cadinho de onde é derramado todo o progresso até hoje conhecido.”

ibidem

É um erro pensar que por detrás das descobertas da ciência está “o desejo de felicidade”.

Quem estudou alguma coisa da filosofia da ciência (epistemologia) sabe que o avanço da ciência se deve à imaginação como faculdade do espírito (e que é independente do “desejo de felicidade”) — a imaginação não é simples imitação do real por imagens: consiste em produzir representações e, por isso, pressupõe uma actividade do espírito. Esta actividade não consiste apenas no facto de se representar objectos ou seres ausentes: consiste também na possibilidade de combinar as ideias ou de antecipar acontecimentos, e mesmo na faculdade de nos fazermos representar no que não existe (ou ainda não existe), ou seja, na imaginação criadora.

Podemos dizer, contudo, que a imaginação não cria verdadeiramente, mas antes que ela inventa combinações novas com elementos dados. No entanto, é necessário que as combinações sejam completamente livres. A imaginação criadora manifesta a liberdade do espírito que se confunde com a faculdade humana que “ir para lá” do dado, de pensar o ausente, o passado, o futuro e o possível — independentemente do desejo de felicidade.

sábado, 13 de maio de 2017

Jordan B. Peterson, Kant, e o Princípio da Intencionalidade da Natureza

 

Jordan B. Peterson é professor de psicologia da universidade de Toronto, Canadá. É um nome a reter na nossa memória, por razões que irei descrevendo aqui. Perante a pergunta: “¿você acredita em Deus?”, Peterson responde:

 

 

De certa forma, Jordan B. Peterson dá uma determinada resposta a este texto do Alberto Gonçalves, por um lado. E por outro lado, Peterson segue o pensamento de Kant que dizia que, em ciência, devemos investigar e basear racionalmente as teorias científicas como se Deus existisse.

Kant chamou-lhe Princípio da Intencionalidade da Natureza, que nos convida a investigar a Natureza como se as leis que nós descobrimos fossem parte de um conjunto de leis organizadas por um “entendimento” diferente de nós próprios — uma inteligência diferente da inteligência humana. Se procedermos desta forma — segundo Kant — somos obrigados a investigar o lugar das leis particulares no conjunto da Natureza como um todo (a procura da explicação teleológica: “¿por que existe esta lei da Natureza?”).

Na “Crítica do Juízo” (1790), Kant escreveu:

“O juízo reflectivo, que é obrigado a ascender do particular ao universal [indução], exige nesta relação um princípio que não pode extrair da experiência, uma vez que a sua função é estabelecer a unidade de todos os princípios empíricos em princípios mais elevados e, assim, estabelecer a possibilidade da sua subordinação sistemática. De um tal princípio transcendente, o juízo reflectivo poderá apenas fazer-se em forma da lei dele e para ele”.

O princípio regulador que o juízo reflectivo (juízo científico) estabelece para si próprio é a intenção da Natureza. Embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (ou seja, não podemos provar que o Criador da Natureza existe), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada por uma entidade exterior ao ser humano — acreditando que a sistematização do conhecimento empírico é apenas possível se agirmos com base no pressuposto de que uma compreensão, para além da nossa, nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A eutanásia e a autonomia do indivíduo

 

Um artigo escrito por um Diogo Costa Gonçalves, acerca da eutanásia e com o título “Eutanásia e o 'mito da autonomia'”:

“Sucede, porém, que a autonomia é um mito: um novo dogma moderno com pouco sustentação na realidade. Não, não somos autónomos!”


“Autonomia” é também, e em primeiro lugar, o livre-arbítrio de S. Tomás de Aquino. Em segundo lugar, é sobretudo a “autonomia” segundo Kant que resume o conceito de livre-arbítrio de S. Tomás de Aquino.

No sentido comum ou vulgar, autonomia é a capacidade de um indivíduo ou de um grupo de determinar ele próprio o seu modo de organização e as regras em relação às quais se submete.

Mas, no sentido filosófico (ética) e moral, a autonomia pode ser uma de duas coisas:

1/ Em Kant, é a característica da vontade que se submeteu livremente à lei moral sancionada pela razão pura prática, por respeito a essa lei, e excluindo qualquer outro móbil.

2/ liberdade moral do sujeito que age de acordo com o que a sua razão lhe dita e não por simples obediência às suas paixões.


Em Kant, a autonomia é simultaneamente liberdade negativa e liberdade positiva.

A liberdade negativa é aquela que consiste em não ser impedido de agir — a de não ser impedido por outrem naquilo que desejamos fazer, ou a liberdade de se exprimir sem censura.

Em contraponto, a liberdade positiva é a liberdade do cidadão-legislador, segundo o princípio de autonomia de Kant, que consiste em tomar parte nas decisões políticas e públicas, e de co-exercer a autoridade em geral.

Segundo Kant, uma acção não pode ser verdadeiramente moral se não obedece a razões sensíveis, exteriores à razão legislativa. Por exemplo, segundo Kant, se ajo por amor à Humanidade, não ajo por dever, mas por sentimento. Ora, uma acção cuja máxima se baseia num sentimento não pode aspirar à universalidade e servir de lei a todo o ser racional.

Em contrapartida, e seja qual for o meu sentimento em relação à Humanidade, “tratar a Humanidade na minha pessoa e na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como um fim, e não simplesmente como um meio”, é a máxima exigível universalmente, um dever para todos; a vontade que determina a sua acção a partir dela, é uma vontade autónoma, na medida em que se submete livremente à lei da razão pura prática.


Os que defendem a legalização da eutanásia e afins (que são todos de esquerda, mesmo que digam que não são de esquerda) utilizam o conceito de “autonomia” de forma abusiva e falaciosa, porque não cabe em nenhuma das duas noções de “autonomia” supracitadas. É neste sentido que o Diogo Costa Gonçalves tem razão: em nome da “autonomia” (vista apenas como liberdade negativa), negam-se deveres (liberdade positiva), por exemplo, o dever de solidariedade.

Ou seja: a autonomia (enquanto livre-arbítrio) não é um mito, como diz o Diogo Costa Gonçalves. O que que esquerda faz (por exemplo, Rui Rio, que diz que não é de esquerda) é interpretar erroneamente o conceito de “autonomia”; é ver só uma parte do conceito de “autonomia”, ou seja, vê-lo à luz das paixões (sentimentalismo), e não à luz da razão que universaliza a vontade e a lei moral. De resto, o Diogo Costa Gonçalves tem razão:

“Se a dependência é vista como um fardo, como um indignidade, o direito a uma morte rápida e indolor transforma-se facilmente num dever de morrer dignamente, de não ser pesado, de não onerar o outro com a minha existência.

Não tenhamos dúvidas: é isto o que está em debate na eutanásia. O sofrimento do outro – por quem, infelizmente, poucos realmente se interessam – é apenas um pretexto emocional para a discussão… tudo mais (menos cuidados paliativos, mais consentimento informado, etc.) são minudências de uma discussão que só não vê quem não quer.”

 

O utilitarismo da esquerda contemporânea

domingo, 25 de setembro de 2016

Estou um pouco surpreso com a evolução da Raquel Varela

 

“(…) nada disto autoriza é que o Estado passe a regulamentar o que se veste, porque isso seria tornar o republicanismo francês em ideologia de Estado e acabar com o princípio do laicismo que diz o seguinte: todas as religiões (e os ateus) têm que ter condições, dadas pelos Estados, para ser praticadas. É no terreno político e social que se combate o obscurantismo, e o relativismo cultural pós-moderno, não é no terreno da concentração de poder no Estado”.

Raquel Varela

Naturalmente que ela fala da polémica das burkas e burkinis em França.


1/ Vemos aqui em baixo um exemplo de uma apresentadora italiana de televisão: chama-se Marina Nalesso e apresenta os telejornais com um crucifixo ao peito e com duas medalhas católicas (uma delas de Nossa Senhora de Fátima). A cruz e as medalhas são símbolos. 1

marina-nalesso

Vemos aqui uma outra mulher, Fatma Nabil, da televisão egípcia (¿ou será “egícia”?, ¿segundo o Acordo Ortográfico?), desta vez, islâmica. Os símbolos são diferentes; é a própria indumentária que é simbólica do estatuto da mulher islâmica. Se os símbolos são diferentes, as religiões são diferentes, e as culturas também são diferentes. Portanto, já chegamos à conclusão de que as religiões (e as culturas) são diferentes; o que falta saber é se são equivalentes, ou seja, se podem ser valorizadas de forma igual ou semelhante.

fatma-nabil

2/ naturalmente que se pode dizer que “os gostos não se discutem”; está na moda dizer-se. Kant não concordava: dizia ele que os gostos devem ser discutidos (o racionalista Kant deixou de estar na moda: hoje é mais o romântico Rousseau) — não porque Kant tivesse grande apetência pela estética, mas porque se preocupava com a política. A verdade é que a estética (o belo) e a ética (o bom) estão intimamente ligadas, e a discussão do “belo” e do “bom” é também uma discussão política.

mulher-romana3/ também se pode dizer que “a mulher tem todo o direito de se tapar” — o mesmo soe dizer-se que a mulher tem o direito de não andar com as mamas à mostra e a exibir publicamente o pernão. Este argumento é pertinente e deve ser acolhido como racional. De facto, a mulher tem esse direito.

Mas — ao contrário do que se passa no Islamismo —, no Cristianismo o recato feminino e a indumentária “pudica”, por assim dizer, nunca foram símbolos religiosos em si mesmos, mas antes foram heranças de uma cultura anterior ao Cristianismo (por exemplo, a cultura romana ou grega). Em contraponto, no Islamismo, essa cultura mais antiga da indumentária feminina “pudica” foi integrada na cultura antropológica islâmica como um símbolo religioso entendido em si mesmo.

Teresa-de-AvilaVemos, por exemplo, a monja medieval Teresa de Ávila: a base da indumentária das monjas era (e é ainda hoje) uma herança de uma cultura anterior ao Cristianismo, e não um símbolo religioso entendido em si mesmo. Hoje, a indumentária das monjas segue uma tradição que não se constitui em si mesma como um símbolo religioso — e tanto assim é, que uma qualquer mulher católica não é coagida pelo Vaticano a vestir-se de freira.

Assim como não podemos confundir ou misturar a arte (a estética), por um lado, e a política, por outro lado — assim não podemos confundir a religião e a cultura de um determinado tempo, a não ser que a religião não passe de um princípio de ordem política que se aplica de forma intemporal, como é o caso do Islamismo.

freiras-carmelitas-usa

4/ quando o modo de vestir (a indumentária) se transforma (em si mesma) em um símbolo religioso (e deixa de ser apenas uma manifestação cultural ou uma tradição, como aconteceu ao longo da história do Cristianismo e da Europa), já não estamos na esfera da liberdade moral individual e/ou colectiva, mas antes em uma forma mais ou menos evidente de coerção social e cultural (negação da liberdade). É evidente que o Islamismo é um princípio de ordem política totalitária.

Neste sentido, é um erro afirmar que “todas as religiões são iguais e têm que ser tratadas da mesma forma pelo Estado”. Um erro crasso da Raquel Varela — porque “os gostos devem ser discutidos”, como afirmou Kant.


Nota
1. Os símbolos são claros, são reconhecidos socialmente, têm um poder imanente de convencimento e participam espiritualmente naquilo que simbolizam. Porém, não devemos confundir símbolos com sinais. Os sinais também são claros e reconhecidos: no entanto, falta-lhes a participação no conteúdo do representado/simbolizado, porque, em regra, os sinais são escolhidos arbitrariamente (por exemplo, os sinais de trânsito). Por isso não é possível comparar, por exemplo, um sinal de trânsito com o símbolo de um Deus pessoal, ou mesmo com o símbolo de uma equação matemática.

O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Kant e a beleza

 

“Silvana Lima é a melhor surfista do Brasil e foi duas vezes vice-campeã do mundo. Apesar disso, como não é “bonitinha”, não consegue patrocínios.

A sexualização feminina é muito comum. Enfatiza-se atributos que estimulam a atracção sexual no sexo oposto e usa-se esses atributos para avaliar as mulheres. As mini-saias das jogadoras de ténis, as poses sugestivas das raparigas nos anúncios e a atenção dispensada à roupa da ministra ilustram esta prática que muitos dizem ser machista. Ironicamente, o machismo está no diagnóstico”.

Ludwig Krippahl

Kant define o “belo” como “o que agrada universalmente, sem conceito (“Crítica do Juízo”, §9); e, por isso, distingue a beleza livre (por exemplo, a beleza de uma flor), que não pressupõe nenhum conceito, e a beleza aderente (por exemplo, a de uma mulher ou de um edifício) que pressupõe o conceito daquilo que a coisa deve ser. A beleza aderente não é um juízo de gosto propriamente dito, porque supõe o conceito daquele gosto que deve ser válido: é, em vez disso, um conceito de gosto construído por critérios intelectuais (me®dia, elite intelectual e as elites em geral, etc.).

Por isso, Kant diz que “a beleza é a forma da finalidade de um objecto, na medida em que é nele (no objecto) percebida (a beleza) sem a representação de uma finalidade”.

Ou seja, a beleza não se identifica necessariamente com o útil (a finalidade), embora o útil esteja já incluído na beleza em situação valorativa subalterna. Toda a gente (ou quase toda a gente) está de acordo sobre a validade do juízo aderente ou juízo intelectual acerca da beleza, mas o juízo do gosto ou beleza livre não tem necessidade do juízo intelectual. O senso comum acerca da beleza é apenas uma norma ideal que depende da cultura intelectual de cada época: em uma época de cultura intelectual miserável, como é a nossa, o senso comum acerca da beleza também é miserável.


Há que distinguir entre a intuição da beleza, por um lado, e o instinto sexual (masculino, por exemplo), por outro lado.

Intuição (que é uma forma de inteligência) e instinto não são a mesma coisa. O Ludwig Krippahl confunde as duas coisas. A intuição do belo não pressupõe a sua finalidade e utilidade; mas o instinto sexual não pressupõe outra coisa; a intuição do belo não pode ser manipulada pelas elites: ou é clara na consciência do Homem, ou está obnubilada pela cultura intelectual através do belo aderente do “deve ser assim e não de outra forma”.

O Ludwig Krippahl diz que a Silvana Lima “apesar de ser campeã (ou por causa disso), é sexualmente menos atraente do que uma rapariga bonitinha que não faça nada de jeito”.

Mas o juízo de beleza a que se refere o Ludwig Krippahl é o da beleza aderente, e não a da beleza livre; ele refere-se a um padrão de beleza “que deve ser”, fabricada pelas elites intelectuais do nosso tempo. A beleza aderente é determinada pela cultura antropológica imposta, pela propaganda persuasiva dos me®dia, pelas elites em relação às massas.

silvana-lima

Podemos ver na Silvana Lima a beleza livre (uma beleza exótica, até!) de que nos fala Kant. É a simetria e a harmonia das formas que define a beleza, e não os elementos e detalhes secundários do corpo. É evidente que a atracção sexual (o instinto) é, em grande parte, determinada pela beleza aderente (a da cultura antropológica imposta pelas elites) que é aquela que “deve ser válida”; mas qualquer pessoa com intuição mínima sabe imediatamente que a Silvana Lima é bela.