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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A aleatoriedade, entendida estritamente enquanto tal, é uma forma de determinismo


Niels Bohr afirmou que “quem não desespera com a teoria quântica, não a entendeu” [“Atomic Physics and Human Knowledge”, 1958, pág. 56]. Ou seja: qualquer abordagem à teoria quântica, do ponto de vista filosófico, é muito difícil (e do ponto de vista lógico-matemático, também).

Lendo este texto publicado pela professora Helena Serrão, estava eu a concordar com ele quando passei a discordar (passo o truísmo) a partir do ponto em que o respectivo autor nos diz que “o que a indeterminação (quântica) nos dá, é aleatoriedade”. O autor diz-nos que, na realidade quântica, as coisas acontecem de forma aleatória, ou seja, sem que exista uma ordem racional intrínseca e/ou definível pelo observador humano.

Porém, em boa verdade, a casualidade e a-casualidade (aleatoriedade), no domínio atómico, não são a expressão dos nossos conhecimentos humanos limitados, mas antes são constitutivas desse domínio da realidade. Por isso, falamos em “probabilidade objectiva”, em contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva (aleatoriedade) baseada apenas no nosso desconhecimento das razões causais dos fenómenos.

Ou seja: não se trata de “indeterminação quântica => aleatoriedade”: trata-se, em vez disso, da expressão, por assim dizer, de uma vontade objectiva que é, na sua acção, independente da vontade do ser humano, e que tem as suas próprias razões que são independentes do nosso conhecimento ou desconhecimento circunstancial destas.

A tendência para uma ocorrência / acontecimento, no espaço-tempo, decorre de uma probabilidade (ou possibilidade) objectiva que é independente da vontade do observador humano — embora não possamos separar a matéria, por um lado, da pessoa ou do modo como a pessoa observa, por outro lado, na medida em que a observação é uma forma de medição, e a medição perturba e/ou revela o resultado da acção objectiva das “possibilidades quânticas” [Wheeler].

Por esta razão é que, por exemplo, as câmaras nocturnas de vigilância em vídeo, providas com feixes de infra-vermelhos, conseguem detectar e gravar a chamada “actividade paranormal” (observar é medir, e medir é perturbar o comportamento das partículas elementares = princípio de Heisenberg).


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Os factos são intersubjectivos, e não propriamente “objectivos”


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto que é uma logomaquia, ou, melhor dizendo talvez, um texto que pretende negar tudo, afirmando contudo o que se pretende.

No referido texto (da autoria de um tal David Wootton, ver em PDF), tergiversa-se sobre o conceito de “facto”.


A palavra “facto” vem do latim factum, que significa “aquilo que está feito” — o que contradiz (pelo menos, em parte) a noção expressa no referido texto segundo a qual não existia, no advento da modernidade e no latim, uma palavra que significasse “facto”. O que não existia, na Idade Média, era o conceito  enviesado de “facto” que existe hoje — senão vejamos o que pensa o Fernando Pessoa acerca do conceito de “facto”:

«Narrar é enganar-se, porque narrar repousa sobre factos; e não há factos, mas apenas impressões. Certos argumentos são bem feitos; é isso que é verdade.

Não há factos, só interpretações de factos. Quem narra factos, só pode ter a certeza de que corre o risco de errar nos casos, no que narrou, e na maneira de o narrar. Quem só interpreta, dispensa um dos riscos. Certos argumentos são bem feitos, porque os factos são apenas os argumentos.»

→ Fernando Pessoa (“O Sentido do Sidonismo”)

Quando Fernando Pessoa diz que “não há factos, só interpretações de factos”, entra em um circulo vicioso “contraditório” (o que é próprio do poeta: a poesia é filosofia desprovida de lógica) — porque se não há factos, não podem existir “interpretações de factos” (interpretações daquilo que não existe).


A definição comum de “facto” é a seguinte: “um facto é um dado da experiência, com o qual o pensamento pode contar”.



1/ A ideia de “facto” como “um dado da experiência” corrobora a ideia de Fernando Pessoa segundo a qual “o facto é uma impressão”.

olhos-de-sapo-webSenão, vejamos qual é a experiência, por exemplo, de um sapo face à realidade dele: este batráquio só come uma mosca (que esteja ao seu alcance físico) se esta estiver em movimento: se a mosca estiver imóvel, o sapo não a vê, e por isso não a pode comer. O mundo do sapo está limitado àquilo que mexe; e tudo que está imóvel faz parte de uma realidade que é indistinta para ele.

O ser humano moderno, adepto incondicional da ciência, afirma que o ser humano é diferente do sapo — no sentido em que as percepções humanas (ao contrário do que acontece com o sapo) são absolutas, na medida em que (alegadamente) as percepções humanas (os tais dados da experiência) abrangem a realidade inteira: para o ser humano moderno, não existe uma realidade indistinta (à semelhança do sapo), que seja inacessível ao ser humano, alegadamente porque “a ciência baseia-se em factos”.

Para o ser humano moderno, os factos que ele constata e/ou verifica (factos entendidos como alegados “dados da experiência”) formam a única realidade concebível — tal como os objectos em movimento fazem parte da única realidade concebível pelo sapo.

 Em bom rigor, o ser humano moderno em pouco se diferencia do sapo.

Na tradição de Kant, Karl Popper denunciou o culto empiricista da ciência. Não cabe agora aqui falar da oposição de Kant ao empirismo de Hume.

2/ Os professores de filosofia (como é o caso da Helena Serrão) ignoram completamente a filosofia quântica —, talvez por conveniência ideológica. Ignoram porque não sabem, ou ignoram porque não querem que se saiba.

Se tivermos em consideração a mecânica quântica, o “facto” — o da Helena Serrão e o do tal David Wootton — torna-se translúcido.

Ora, a mecânica quântica faz parte da ciência: ou seja, é a própria a ciência que coloca hoje em causa a suprema importância do “facto” como “dado da experiência”; e nunca vi um professor de filosofia mencionar este facto.

Os “factos” (como “dados da experiência”) são importantes para a nossa orientação e para o nosso comportamento saudável em um universo que resulta da entropia da gravidade (o universo que experimentamos é o produto de duas grandes forças: a força quântica e força da gravidade).

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste universo, mas não substitui a filosofia ou/e a teologia.

A ideia — implícita no texto da Helena Serrão — segundo a qual a ciência pode substituir a religião por um saber inequívoco, está ultrapassada. Só os professores de filosofia ainda não se deram conta disso.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

O Logos olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir

 

1/ O Domingos Faria cita alguns teóricos a propósito do conceito cristão de “milagre”. Com todo o respeito, pelo menos um dos teóricos citados está errado.

“Ou, como defende Timothy McGrew (2016), se as leis da natureza são simples afirmações de regularidades naturais, então uma suposta “violação” seria mais naturalmente uma indicação de que aquilo que pensávamos que fosse uma lei, afinal não é realmente uma lei”.

¿Como definir “milagre”?

Uma “regularidade natural” não é “inviolável”; aliás, em princípio, não há nenhuma lei da natureza (do ponto de vista da ciência) que não admita a priori uma possível excepção, e essa possível excepção não a invalida só porque existe como tal (falsificabilidade) — desde logo porque as leis da natureza são verificadas no passado (estatística, observação, verificação e confirmação) e não há nenhuma garantia absoluta (certeza) de que manterão as mesmas características no futuro.

Não é porque uma determinada lei da natureza seja eventualmente “violada” que deixa de ser válida. Normalmente, os cientistas falam em “anomalia”; mas as “anomalias”, só por si, não invalidam as leis da natureza. Aliás, as “anomalias” (verificadas empiricamente) até corroboram as leis da natureza.

2/ Há que fazer a distinção clara entre o microcosmo (realidade quântica) e o macrocosmo (este último é o objecto da ciência experimental propriamente dita).

A força entrópica da gravidade, actuando na realidade quântica primordial, “está na origem” do macrocosmo (por assim dizer). Mas o macrocosmo tem leis objectivas que admitem (a priori) excepções. Por exemplo, a lei da gravidade é suposta actuar da mesma forma em qualquer ponto do universo; mas recentemente descobriu-se que as ondas sonoras têm uma massa negativa, ou seja, as ondas sonoras são uma forma de anti-gravidade: por outras palavras, “o som flutua para cima e não cai para baixo” — mas nem por isso a lei da gravidade deixa de ser válida.

3/ A ideia de que “o microcosmo é o veículo do milagre” não é nova: John Eccles já defendia essa tese há mais de 40 anos, quando aplicou o primeiro princípio da termodinâmica (Carnot-Clausius) a todo o universo (“o universo não é um sistema fechado”). E eu, há cerca de 10 anos, escrevi neste blogue um artigo acerca desse assunto.

O microcosmo (com a sua "função de onda quântica") é a “fronteira” entre a imanência e a transcendência.

Como defendeu Newton, e com toda a pertinência, o Criador actua constantemente no universo; ou como escreveu Orígenes, “o Logos olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir”.

Essa acção do Logos ou do Criador sobre o macrocosmo é realizada através do microcosmo, sem perturbar o determinismo “relativo” das leis da natureza — é um determinismo “relativo” porque (obviamente) não é um determinismo absoluto: por exemplo, não devemos afirmar que “é impossível que a Terra deixe o movimento em torno do Sol e se passe a movimentar em torno de uma outra estrela qualquer”: o que podemos dizer é que a probabilidade de isso acontecer ser muito próxima de zero (quase nula).

4/ não é possível definir “milagre”, da mesma forma que não é possível definir “realidade”. O podemos ter é um conceito de “milagre”.


A nossa simples existência como um Eu consciente é um milagre. Dado que as propostas de solução materialistas não permitem explicar a nossa singularidade, da qual fazemos experiência, sinto-me obrigado a deduzir a singularidade do Eu, ou da alma, de uma criação espiritual sobrenatural. Para exprimi-lo em termos teológicos: cada alma é uma criação divina.”

John Eccles [1989, Evolution Of The Brain : Creation Of The Self.]

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A mecânica quântica defende a incognoscibilidade da "coisa-em-si-mesma" de Kant

 

1/ Segundo Kant, a "coisa-em-si", — ou seja, “a realidade tal como é”, é incognoscível, por oposição ao “fenómeno” — se não pode ser concebida, pode ser no entanto ser pensada.

Olavo de Carvalho (tal qual Hegel) diz que a "coisa-em-si" (ou o númeno) e o fenómeno não se opõem : “mostrar-se como 'fenómeno' é uma característica das coisas em si mesmas” e “não uma limitação do nosso aparato cognitivo, como ele pretendia” (sic).

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2/ convém dizer que o conceito de "coisa-em-si" de Kant pode ter várias interpretações, e ele próprio utiliza o conceito de "coisa-em-si" ou “númeno” em situações diferentes e mesmo aparentemente contraditórias. Os idealistas (Hegel, por aí fora, até Heidegger) negaram o conceito de númeno ("coisa-em-si") pelas mesmas razões invocadas por Olavo de Carvalho: segundo os idealistas, a presença da "coisa-em-si" em um pensamento que não a pode conhecer, é um paradoxo, o que levou a Hegel a negar a especificidade da "coisa-em-si".

3/ temos que saber se o conceito de "coisa-em-si-mesma" tem alguma pertinência segundo os conhecimentos científicos actuais.

O que Kant quis dizer com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma" — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria.

Por isso é que a "coisa-em-si-mesma" (ou seja, a verdadeira natureza da matéria) é (segundo Kant) incognoscível, por oposição (segundo Kant) ao “fenómeno” que é aquilo que aparece à nossa percepção proveniente das manifestações “individuais” da matéria.

Este problema da "coisa-em-si-mesma" de Kant (assim como o problema de “mónada”, de Leibniz) é hoje reflectido de forma similar pela física quântica: por exemplo, não se pode atribuir directamente qualquer propriedade (característica) a um vector de estado (estado físico) representado por um feixe de fotões em um Espaço de Hilbert.

Baseando-nos nos conhecimentos da ciência física, Kant tinha razão: a "coisa-em-si-mesma" continua a ser incognoscível (obviamente devido à “limitação do aparato cognitivo” humano); e provavelmente não existe nenhuma substância a que possamos chamar de “espaço-tempo”.

Convém dizer o seguinte: para Kant, a Física (o estudo da matéria) tem que ser puramente fenomenológica (tal como é hoje a Física Clássica).

4/ DxDp≥ћ=h/2π

Esta é a conhecida fórmula de Heisenberg (ou princípio da incerteza de Heisenberg), escrita em 1925, em que Dx é a incerteza da posição de um electrão em determinado momento, e em que Dp é a incerteza do próprio momento. A constante h é a “constante de Max Planck”, e ћ é a “constante reduzida” de Planck. Naturalmente que π=3,141618....

Esta fórmula escandalizou a comunidade científica da altura, porque simplesmente defendia a ideia de que a “causalidade não era possível de uma forma consistente”, isto é, a causalidade rigorosa não existe. Como resultado prático da fórmula de Heisenberg, é teoricamente impossível fazer a observação de um electrão (ou outra partícula elementar) e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço) ― isto é, numa observação de um electrão, ou se define o tempo, ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente (princípio da incerteza de Heisenberg).

5/ nós não observamos as trajectórias das partículas elementares (também chamadas de “acontecimentos”); podemos definir a posição de uma partícula no espaço, ou a sua velocidade no tempo, mas não podemos observar / verificar a trajectória dessa partícula (ou das partículas elementares em geral).

Isto significa que nós identificamos os corpos físicos como “aparências” interpretadas pelo “software” do nosso cérebro, e não como um conjunto de vectores de estado de partículas elementares.

O vector de estadoou “amplitude de probabilidade de função de onda”, ou "função de onda quântica" — é a "coisa-em-si-mesma" de Kant.

O nosso conhecimento físico fenomenológico (em relação à matéria) não é objectivo senão no sentido em que é intersubjectivo: é (apenas e só) porque é intersubjectivo, que o nosso conhecimento fenomenológico é objectivo. É no sentido em que o nosso conhecimento subjectivo das aparências é válido do ponto de vista intersubjectivo que podemos afirmar a objectividade desse conhecimento.

Isto não significa que as coisas não existam senão dentro dos parâmetros da nossa interpretação subjectivista. Kant não é idealista nem solipsista.

Dando o exemplo de uma rã. Ela não vê nada senão aquilo que se mexe. O seu olho é constituído de tal modo que tudo o que é imóvel lhe está inacessível. A rã vê a borboleta que voa, mas não vê a flor onde esta pousa. De modo semelhante, os seres humanos reconhecem aquilo que constitui para nós objecto do nosso pensamento ou da nossa percepção — até a nós próprios só nos conhecemos na medida em que nos podemos “objectivar de forma intersubjectiva”.

6/ A velocidade máxima no universo deixou de ser aquela que Einstein especificou na sua teoria. O conceito de “não-localidade” rebentou com a Relatividade de Einstein.

O espaço e o tempo são formas ou produtos da nossa intuição — ou aquilo a que Kant também chamou de “númeno em sentido positivo”, na medida em que se tratam de “conceitos” de “intuição não-sensível” (intelectual, espiritual) → em contraposição ao “númeno em sentido negativo”, que é algo que não é objecto da nossa “intuição sensível” e que depende da abstracção para a possibilidade de intuição.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A medição transforma a onda quântica em partícula elementar

 

A medição através de um dispositivo — neste caso, uma câmara de vídeo como dispositivo de medição — pode transformar a onda quântica em partícula elementar que, por sua vez, pode agir facilmente sobre a matéria.

 

 

A medição através de um dispositivo electrónico não é exactamente a mesma coisa que a normal observação a olho nu — porque o dispositivo de medição produz radiação electrónica que interfere com o sistema quântico em presença. É essa interferência ou medição do dispositivo electrónico que torna possível que uma força espiritual (sem massa) possa facilmente actuar na realidade física.

Este tipo de fenómenos ocorre com mais frequência e facilidade em ambientes com pouca luz (escassez de fotões) e com câmaras de vídeo de medição em infravermelhos; mas também podem ocorrer em ambientes específicos que tenham sido sujeitos, no passado, a fortes traumas emocionais — como por exemplo, casas, quartos de hotéis, templos, cemitérios, etc..

Em casos extremos, a manifestação espiritual é tão traumática e elementar (emocionalmente básica) que pode ocorrer em qualquer situação que não podemos controlar, e pode colocar em sério risco a integridade física de pessoas.

domingo, 22 de maio de 2016

A Santíssima Trindade e a dificuldade da Lógica

 

A Lógica macroscópica, tal como a conhecemos depois de Aristóteles, aplica-se (obviamente) na realidade macroscópica; ou então (em alternativa), teremos que basear a Lógica na unidade do Todo (existe uma Lógica mais abrangente, que não renega a de Aristóteles, mas que a inclui) — Santo Agostinho dizia que “quando começamos a contar, começamos a errar”; um dias destes, a Física ainda vai chegar à conclusão de que Santo Agostinho tinha razão.

O Domingos Faria escreve aqui acerca do “problema lógico” do dogma da Trindade na Igreja Católica. Em analogia, vou falar aqui do problema lógico das partículas elementares e das ondas subatómicas, segundo a Física mais actual. Ou seja, se existe um problema lógico no conceito de Santíssima Trindade, também existe um problema lógico na ciência actual.


1/ As partículas elementares a que hoje chamamos de “fotões” são partículas sem massa e que viajam no espaço sempre à velocidade da luz.

2/ Na medida em que toda a matéria tem massa — ou, utilizando a terminologia de Kant: na medida em que a massa é a condição da matéria —, os fotões (a luz) não são matéria. Ou seja, existe uma realidade “material”, e uma outra “não material”.

3/ Mas os fotões (luz), e as ondas de probabilidade, são simultaneamente partículas elementares subatómicas e ondas de probabilidade (sem massa). À luz da Lógica macroscópica, esta contradição é insanável, porque atenta contra os princípios lógicos do pensamento. O estudante de Física que diga que percebeu a quântica, não percebeu nada — a não ser que dispa a Lógica macroscópica e vista uma outra Lógica, mais abrangente.

4/ As partículas elementares (que têm massa) podem ser ondas (que não têm massa) ao mesmo tempo. Se o leitor ou o Domingos Faria têm dúvidas acerca do que afirmo, perguntem ao Carlos Fiolhais, por exemplo. As “ondas”, a que me referi, e segundo a física quântica, não são, porém, autênticas ondas tridimensionais, como são as ondas do som ou da água.

5/ Perante a dificuldade lógica de definir o conceito daquilo que não é matéria (a onda de probabilidade quântica), a física quântica recorre à noção de “abstracto”: segundo a física quântica, as ondas de probabilidade quânticas são “quantidades matemáticas abstractas” com todas as propriedades características das ondas,  que estão relacionadas com as probabilidades de encontrar as partículas elementares em pontos particulares do espaço e em um tempo determinados.

6/ A noção de “quantidades matemáticas abstractas” é uma forma que a ciência, escorada na Lógica, encontrou para conceber aquilo que não é lógico (que é contraditório) do ponto de vista macroscópico. Ou seja, a matemática, não só penetrou na imanência, mas também dá-nos um vislumbre da transcendência através do conceito de “infinito” onde todas as leis da Física se anulam (por exemplo, na noção de “singularidade”). Para o cidadão comum, a noção quântica de “quantidades matemáticas abstractas” pode ser considerada um dogma ou uma “invenção humana”.

7/ A noção de “Santíssima Trindade” é uma noção constante da noção de “Deus para mim”, ou seja, das propriedades que Deus possui no “encontro comigo” e às quais me revela.

Por outro lado, a interpretação (humana) do Todo não é um trabalho conceptual (elaboração de conceitos) que um ser humano tenha que levar a cabo, mas também não é um trabalho em relação ao qual tenha que desistir (como defende o Positivismo). A interpretação do Todo (da Realidade) há muito que faz parte da existência humana, antes de serem colocadas questões filosóficas e metafisicas.

Mas, sendo que a razão se baseia na construção de conceitos, se a interpretação significasse apenas algo como uma dedução conceptual de novos conceitos a partir de conceitos anteriores (modus ponens), então qualquer tentativa de interpretar o Todo seria inútil. A física quântica, através do conceito de “quantidades matemáticas abstractas” e da complementaridade  onda/partícula, (por exemplo), colocou em causa a Lógica clássica e desvendou uma Nova Lógica que abrange a Lógica aristotélica.

8/ Nas “Confissões”, Santo Agostinho utiliza símbolos — tal como a física quântica utiliza símbolos para exprimir a contradição lógica do subatómico — para exprimir a significação do conceito de Santíssima Trindade: a realidade do ser humano também deve ser encarada como uma realidade trinitária; nós somos (Deus Pai), nós amamos (o Filho ou Logos), e nós conhecemos (Espírito Santo); nós experimentamo-nos a nós próprios e ao mundo da perspectiva da primeira pessoa (eu sou), na perspectiva da segunda pessoa (eu amo um tu), e da perspectiva da terceira pessoa (eu conheço um ele, uma ela ou uma coisa).

Pode-se dizer que, para nós, a Realidade é uma espécie de tripé. O nosso mundo constrói-se a partir do eu (a consciência), do tu, e das coisas. Estas três categorias são como uns “óculos” que eu coloco para poder “ver” a Realidade; e sem esses “óculos”, não vejo nada; e a Realidade aparece-me nesta trindade: é sempre o mesmo mundo, que é único, mas eu tenho uma tríplice relação com ele.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Prémio Unicórnio Natural para o António Piedade

 

Para António Gomes da Costa, presidente da SciCom Pt – Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia, “a COMCEPT desenvolve um trabalho essencial: exigir que as afirmações, julgamentos e decisões que fazemos requeiram sempre uma grande e salutar dose de lógica e de razão e, sobretudo, que se baseiem em factos concretos e bem demonstrados. Tudo o que assim não for não passa de uma opinião ou de uma crença e deve ser encarado com todas as reservas.”

António Piedade

unicornio-natural

1/ ¿O que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

2/ Em ciência, os factos são intersubjectivos (ou seja, objectivos), por um lado, e sujeitos a verificação estatística, por outro lado.

3/ ¿O que é “verificação”? É o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

4/ ¿O que é “consciência”? É uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

5/ As estatísticas pertencem sempre ao passado (não existe tal coisa como “estatísticas feitas no futuro”); e não há qualquer garantia absoluta de que os fenómenos estatísticos, demonstrados por indução, se repitam exactamente no futuro.

6/ ¿O que é “indução”? Chama-se indução ao argumento em que, se as premissas forem verdadeiras, isto é, tiverem valor lógico de verdade, a conclusão não é necessariamente verdadeira, mas apenas provavelmente verdadeira. Em epistemologia, a indução é a inferência conjectural ou não-demonstrativa; é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

7/ A indução, a verificação, e os “factos” a que se refere o António Piedade, pertencem à realidade macroscópica determinada pela força entrópica da gravidade. Ou seja, na realidade quântica não existe lógica (tal qual a concebemos na realidade macroscópica), não existem “factos” mas apenas relações; e a verificação, na realidade quântica, só pode ser feita por aproximação grosseira. E apesar disso, a física quântica também pertence à ciência.

8/ O António Piedade parece dizer que a física quântica não pertence à ciência; e as ciências formais (que não necessitam de verificação empírica) também não: para o António Piedade, a ciência é confinada às ciências experimentais ou empíricas.

Ou seja, para o António Piedade “o critério da verdade científica é a verificação empírica”; mas esta proposição não é, ela mesma, verificável.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O Anselmo Borges e Bertrand Russell

 

Eu gostaria de ter estudado fundamente teologia. Aliás, a teologia faz parte da Física, ou vice-versa; isto significa que, à medida que a Física progride (o único progresso real que existe está na ciência; o resto é “conversa para boi dormir”), a teologia progride com ela. Por isso é que eu já aconselhei o Anselmo Borges a conversar mais vezes com o Carlos Fiolhais, porque me parece que a teologia do Anselmo Borges ainda é newtoniana.

O Anselmo Borges faz referência aqui a um conto de Bertrand Russell segundo o qual o ser humano é reduzido a uma insignificância no contexto do universo julgado (por Bertrand Russell) infinito.

Bertrand Russell é um exemplo daquelas inteligências raras mal-aproveitadas, porque o seu cepticismo era de tal forma agudo que ele suspeitava da existência da sua própria sombra. Existem outros casos, como por exemplo Laplace ou Ernst Haeckel que diziam que a célula viva surgia espontaneamente da lama depois de uma chuvada. Hoje sabemos o suficiente da complexidade da célula para nos rirmos de Haeckel.

De modo semelhante, hoje sabemos um pouco mais acerca do universo e o suficiente para nos rirmos do conto de Bertrand Russell que o Anselmo Borges levou a sério.


1/ Hoje sabemos, por inferência, que o universo é finito (teve um princípio, e por isso é finito, mesmo que não tenha um fim); o Big Bang decorre da observação empírica de dois fenómenos: o primeiro, a descoberta do movimento de expansão das galáxias por intermédio do telescópio Hubble; e o segundo, mediante a constatação empírica da existência da radiação isotrópica que sugere (por inferência) uma espécie de resíduo fóssil proveniente de uma explosão inicial. Portanto, a tese do Big Bang é bastante sólida. O universo é finito, ao contrário do que Bertrand Russell pensava quando escreveu o seu conto.

2/ O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para o facto de a densidade média da matéria no universo ser calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas elementares no universo.

Se multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa pelo símbolo Λ).

Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.

Portanto, podemos dizer que Λ é o "máximo excogitável" do universo (Nicolau de Cusa tinha razão!), como é também o máximo da realidade da existência do universo ― nada é possível, em termos do espaço-tempo, acima de Λ.

Assim, a teoria do conhecimento finística de Gierer refere que, do número máximo de operações realizáveis no cosmo (porque o cosmo ou universo, é finito), resulta como consequência para a teoria do conhecimento o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos de processamento de informações através de um super-computador. Sobretudo é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação. Gierer refere-se aqui estritamente ao Homem inserido no universo ou mundo do senso-comum, como é óbvio. Gierer estabelece o limite máximo do conhecimento possível no mundo macroscópico na constante cosmológica do universo: 10^120.

3/ Por puro acidente, dizem, (terá sido?!), descobriu-se na década de 1960 o princípio da não-localidade (que Bertrand Russell desconhecia) que, grosso modo, significa que uma partícula elementar ou mesmo um átomo pode estar aqui neste momento, e no momento cósmico seguinte pode estar a 10 mil milhões de anos-luz de distância — ou seja, a distância do universo já não se mede em termos da Física newtoniana e nem mesmo segundo os paradigmas de Einstein.


Em suma, à luz da física e da teologia actuais — ambas fazem parte da mesma disciplina —, seria impossível que, no Céu do conto de Bertrand Russell, não se soubesse que o ser humano existe.

sábado, 14 de novembro de 2015

Os dados da experiência vão além da “utilidade prática”

 

O Domingos Faria conclui aqui que é possível que se obtenha conhecimento a partir de falsidades; e deu como exemplo as horas de um relógio, que é um instrumento de medição (neste caso, medição do tempo).

1/ É claro que podemos obter conhecimento a partir de “falsidades”, mas apenas se entendermos “falsidade” como sinónimo de “verdade parcial”. Uma verdade parcial não é a verdade absoluta mas também não é erro absoluto. Por exemplo, a dinâmica de Newton era em grande parte falsa, o que não significa que fosse totalmente falsa. Ou seja, a ciência adquiriu conhecimento a partir da teoria (parcialmente) falsa de Newton.

2/ Uma teoria que consideremos falsa pode ser verdadeira; e uma outra que consideremos verdadeira pode ser falsa.

3/ Mas, do conhecimento a partir de uma falsidade a que se refere o Domingos Faria no caso do relógio, resulta uma “verdade” que só é aplicável no sentido prático, ou seja, no sentido de uma utilidade prática (aplicável à nossa realidade macroscópica). Todos os instrumentos de medição — incluindo o relógio do Domingos Faria — são falíveis (dão-nos sempre apenas uma aproximação à verdade) fora da utilidade prática que caracteriza a chamada “física clássica”.

4/ Nada, na realidade do infinitamente pequeno, obedece às leis ordinárias da física clássica — incluindo as leis que medem o tempo e o relógio do Domingos Faria. A medição define literalmente o sistema medido.

Não podemos afirmar que uma partícula elementar já tinha uma determinada característica, antes e/ou independentemente da observação ou medição da dita através de um instrumento. Se utilizarmos um instrumento para medir um sistema microscópico, por exemplo, uma medição da sua energia, produz-se uma redução brutal do seu vector de estado: apenas um dos termos da soma do "vector de estado" subsiste: aquele que corresponde ao valor da energia que foi efectivamente medida.

5/ E se o relógio do Domingos Faria fosse colocado na estratosfera, “andaria” mais depressa, e provavelmente induziria em erro o seu proprietário: poderia ele julgar que já estaria atrasado para a conferência das 17 horas quando, na “verdade horária” da crusta terrestre, ainda eram 16:59 horas. Os próprios relógios andam mais depressa ou mais lentamente dependendo do local terrestre em que se encontrem.

6/ A física mais actual demonstrou que o ser humano está confrontado com uma eterna (“eterno” no sentido do “tempo”, que é finito) “aproximação à verdade”, porque os seus instrumentos de medição da realidade são falíveis e têm apenas uma utilidade prática.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Complementando Feynman

 

«O que não está rodeado de incerteza não pode ser verdade.» — Feynman.

Mas isso não significa que a verdade se identifique (seja idêntica à) com a incerteza: significa apenas que há uma verdade na incerteza que o ser humano não controlará jamais.

domingo, 4 de outubro de 2015

A ciência demonstrou e verificou a necessidade da identidade

 

“Uma afirmação de identidade é qualquer afirmação segundo a qual um objecto A é numericamente idêntico a um objecto B. Por exemplo, a afirmação de que Bernardo Soares é idêntico a Fernando Pessoa é uma afirmação de identidade deste género, tal como sucede com Túlio e Cícero, Véspero e Fósforo, Miguel Torga e Adolfo Correia da Rocha, ou água e H2O, etc.”

Domingos Faria

Bernardo Soares não é idêntico a Fernando Pessoa, como é evidente; embora H2O seja idêntico à água, assim como o vitríolo é idêntico ao ácido sulfúrico concentrado. Para serem idênticas, duas coisas devem ser indiscerníveis. Não devemos confundir identidade, por um lado, e semelhança, por outro lado; nem devemos confundir identidade e igualdade: o facto de um conjunto de pessoas ser tratado da mesma maneira não significa que essas pessoas sejam idênticas.

A identidade é o carácter do que é completamente semelhante a qualquer coisa, ou do que permanece o mesmo através do tempo.

Na física quântica, uma partícula elementar é idêntica a outra partícula elementar. Por exemplo, um electrão é (rigorosamente) idêntico a outro electrão. De certa forma, Leibniz tinha razão quando se referiu à “identidade dos indiscerníveis”. A identidade tem maior dificuldade em se manifestar, aos nossos olhos, na realidade macroscópica em que existe o ser humano, mas isso não significa que o conceito de identidade seja uma abstracção.

Não é necessário recorrer à lógica de Kripke para justificar a tese da necessidade da identidade: basta falar com o Carlos Fiolhais . Ele explicaria, melhor do que eu (obviamente), que a identidade entre partículas elementares é um facto necessário. E sem partículas elementares não há força entrópica da gravidade, nem o universo conforme se nos apresenta aos sentidos.

domingo, 5 de julho de 2015

A primeira lei da termodinâmica e o dualismo metafísico

 

Em metafísica, “dualismo metafísico” é a teoria segundo a qual a realidade é formada de (pelo menos) duas substâncias independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente: o espírito e a matéria, ou, como em Descartes, a alma e o corpo.

Não confundir com “dualismo ontológico” de diferentes sistemas religiosos que admitem, para o universo, não apenas um, mas dois princípios de explicação ou de origem (por exemplo, o maniqueísmo , ou a gnose).

“Dualismo” é, neste verbete, entendido como “dualismo metafísico”.


A grande dificuldade da afirmação do dualismo é a primeira lei da termodinâmica:

Primeiro princípio ou axioma da termodinâmica: princípio da equivalência (ou conservação de energia): a energia não pode ser nem criada nem destruída, mas apenas transformada. Num sistema fechado, a sua energia total permanece constante e representa o “equivalente mecânico” do calor.

A primeira lei da termodinâmica é equivalente, por assim dizer, à lei de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, e tudo se transforma.

Portanto, o actual raciocínio científico “politicamente correcto” (paradigma) é o seguinte:

  • se o universo é um sistema fechado e é constituído por matéria (seja o que for o que se entenda por “matéria”), então não pode haver lugar para o espírito, nem pode haver qualquer influência do espírito sobre a matéria (o cérebro). Se o espírito quiser actuar sobre a matéria do cérebro a partir do exterior, tem que desrespeitar a primeira lei da termodinâmica — ou seja, seria necessária uma energia material exterior ao sistema físico para influenciar a matéria.

Em última análise, para que a primeira lei da termodinâmica fosse respeitada (porque a energia no universo tem de permanecer constante, segundo a primeira lei da termodinâmica), o espírito também seria uma qualquer forma de matéria, e, neste caso, deixaria de fazer sentido o conceito de “dualismo”.

Portanto, a ciência clássica parte do princípio de que o universo é um sistema fechado, e só em um sistema fechado a primeira lei da termodinâmica faz sentido e pode ser aplicável.

E se a primeira lei da termodinâmica é válida, então segue-se que não pode existir espírito e/ou alma, e as ideias e os pensamentos não passam de epifenómenos da actividade química do cérebro1 . Paul Churchland, por exemplo, supõe que é possível substituir a frase: “O senhor Manuel pensa que...”, pela afirmação: “No cérebro do senhor Manuel disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo X, desta e daquela maneira”.

Portanto, ser cientista, segundo o paradigma clássico, significa não só a negação do espírito ou/e alma, mas também significa literalmente ser ateu. Surge então a Teoria da Identidade. 2


 
A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

human-spiritA “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou "função de onda quântica", ou ainda, na terminologia mais recente, "vector de estado"), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares.

Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não são produto da evolução (“evolução” entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.


Notas
1. por exemplo, segundo Susan Blackmore, Rodolfo Llinas, Paul e Patrícia Churchland.

2. Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria (da Identidade) não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

sábado, 25 de abril de 2015

A fotografia mais inteligente alguma vez tirada

 

the solvay conference 1927 web

Conferência de Solvay, Bélgica, sobre Mecânica Quântica, 1927


Na primeira fila, em baixo, da esquerda para a direita (como convém):

Irving Langmuir, Max Planck, Marie Curie, Hendrik Lorentz, Albert Einstein, Paul Langevin, Charles-Eugène Guye, C.T.R Wilson, Owen Richardson.

Na segunda fila, no meio:

Peter Debye, Martin Knudsen, William Lawrence Bragg, Hendrik Anthony Kramers, Paul Dirac, Arthur Compton, Louis de Broglie, Max Born, Niels Bohr.

Na terceira fila, em cima:

Auguste Piccard, Émile Henriot, Paul Ehrenfest, Édouard Herzen, Théophile de Donder, Erwin Schrödinger, JE Verschaffelt, Wolfgang Pauli, Werner Heisenberg, Ralph Fowler, Léon Brillouin.

(fonte)

sexta-feira, 20 de março de 2015

A negação da a-causalidade objectiva da realidade quântica

Para se compreender este verbete, convém ver este vídeo.

Vamos passar adiante pelos modos efeminados do filósofo; parece que está na moda a ideia segundo a qual  o efeminado convence melhor.

Em resumo, temos aqui o problema da reversibilidade do tempo a nível quântico (aquilo a que se chama “simetria temporal” — e a irreversibilidade do tempo a nível macroscópico (“assimetria temporal”).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Uma abordagem ao dualismo

 

Quando falamos de “ser humano único e irrepetível”, devemos ter atenção, para além do espírito ou daquilo a que o Domingos Faria chama aqui de “alma”, os seguintes factores:

1/ a genética;
2/ a epigenética;
3/ a posição do universo (leis da Natureza) no momento sideral da concepção uterina e/ou do nascimento;
4/ a transformação biológica do ser humano desde que é concebido no útero até que morre;
5/ o meio-ambiente em vive o ser humano a cada momento da sua vida (educação, cultura, religião, etc.).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

¿A lógica é uma batata?

 

A lógica formal trata das formas dos raciocínios, independentemente do seu conteúdo ou dos objectos aos quais se referem. Por exemplo, a seguinte proposição ou silogismo:

1/ Todos os tubarões são pássaros;
2/ o meu peixe vermelho é um tubarão;
3/ então, segue-se o meu peixe vermelho é um pássaro.

Nenhuma das duas premissas é verdadeira “materialmente”, ou seja, nenhuma delas corresponde à realidade. Mas o encadeamento que as une umas às outras é válido na sua forma: a conclusão do silogismo é a consequência formal necessária das duas premissas. Por isso é que se diz que “a lógica é uma batata”.

É assim que o Domingos Faria coloca o problema da possibilidade lógica dos zômbis contra o materialismo. Se a premissa 1 é, de facto, verdadeira, a premissa 2 é verdadeira se considerarmos que existe consciência humana em todo o universo com milhões de galáxias. E aqui colocam-se quatro hipóteses:

a/ não é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
b/ é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
c/ é verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
d/ é provável que exista outra consciência que não a humana em todo o universo.

Eu diria que é, pelo menos, verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo. Mas podemos acreditar naquilo que quisermos.

Naturalmente que podemos dizer que “não há provas de que exista consciência no universo que não seja a humana”, mas também podemos dizer que “não há provas de que existam zômbis”. Podemos afirmar com certeza que uma coisa existe, mas já não podemos ter a certeza de que uma coisa não existe. Porém, podemos ter uma certeza: os axiomas da lógica não são físicos.

Porém, se o David Chalmers se interessasse pela ciência, e para além da Lógica, poderia ter em consideração a Interpretação de Copenhaga da Teoria Quântica: a observação da função de onda quântica (“não-matéria”, porque não tem massa) causa o seu colapso e transforma-a em partícula elementar (matéria, porque tem massa).

O físico francês Bernard D’Espagnat chegou mesmo a escrever:

«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da Consciência revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»

Mesmo que a observação da função de onda quântica — que provoca o seu colapso — seja feita através de um dispositivo construído pelo Homem, esse dispositivo foi construído por um ser com consciência (o Homem). Por isso, não podemos separar o colapso da função de onda quântica, por um lado, da consciência que observa, por outro  lado. Poderíamos ir mais longe neste raciocínio, e colocar na equação a consciência de Deus.

A Física moderna e teoria quântica destruíram brutalmente o materialismo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

As três dimensões da Realidade

 

“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

→ Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Temos que compreender alguns conceitos exarados no texto supracitado, como por exemplo, os conceitos de “nada”, “vazio”, “partícula virtual”. E temos também que perceber a linguagem metafórica e anti-positivista não só de Fritjof Fritjof Capra, mas também a da maior parte dos físicos actuais.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O “Tao da Física”, de Fritjof Capra

 

“Quando a natureza essencial das coisas é analisada pelo intelecto tem que parecer absurda ou paradoxal” — Fritjof Capra, “O Tao da Física”, página 47, 1989 (Editorial Presença, Lisboa)

Fritjof Capra referia-se à dualidade da natureza das partículas elementares subatómicas. As partículas elementares manifestam-se, ora em forma de partículas, ora em forma de ondas. E conclui ele que, à luz do nosso intelecto, essa dualidade tem que parecer absurda e paradoxal.

Só uma pessoa formatada por uma cultura cientificista poderia pensar desta maneira. Ou seja, só um homem moderno pensaria assim. O homem moderno pensa que “a lógica evolui”: não lhe passa pela cabeça que o Homem descobriu apenas uma parte da lógica e que continua a descobri-la. Há mesmo quem diga que os números primos, por exemplo, foram inventados pelo ser humano, e que a própria lógica é uma invenção humana. Assim não admira que “quando a natureza essencial das coisas é analisada pelo intelecto tem que parecer absurda ou paradoxal”.

Nós passamos de um intuicionismo primordial e medieval para um racionalismo moderno e actual. Não encontramos um meio-termo. Não encontramos uma justa medida. Ainda não aprendemos a diferença entre “racionalismo”, por um lado, e “racionalidade”, por outro lado — e ainda não aprendemos que a intuição propriamente dita é racional.

Quando nós não compreendemos um fenómeno (seja natural ou cultural) dizemos que é “absurdo”.

Mas aqui, a classificação de “absurdo” não decorre de uma análise do fenómeno, mas antes da forma ou da posição a priori a partir da qual observamos o fenómeno. Existem duas grandes forças da natureza: a força quântica e a força entrópica da gravidade; e cada uma dessas forças tem a sua própria lógica, o que significa que quando analisamos a lógica da força quântica temos que, em primeiro lugar, “mudar o chip com que vemos a realidade; e partir da “mudança de software” cerebral, deixamos de dizer que “quando a natureza essencial das coisas é analisada pelo intelecto tem que parecer absurda ou paradoxal”.

Depois, existe aqui um problema complicado: não é possível entender a imanência da força quântica sem conceber uma realidade transcendente apodíctica. Portanto, já não é suficiente “mudar o “chip” da lógica da Física clássica para a lógica da Física quântica (aliás, a matemática formal estabelece uma ligação clara entre os dois tipos de lógica).

Uma partícula elementar pode existir na natureza durante milhões de anos, ou pode “desaparecer misteriosamente” em um milionésimo de segundo do nosso tempo. As partículas elementares “aparecem” e “desaparecem” continuamente, como que por “magia”. Quem as faz aparecer e desaparecer, ninguém sabe; mas tem que haver uma razão pela qual elas aparecem e desaparecem: as coisas não acontecem por “acaso”.

Por exemplo, a ciência pode prever que ½ de grama de urânio se decompõe em 4,5 milhões de anos; porém, à ciência não é possível dizer quando apenas um só átomo de urânio se decompõe: pode levar muitos milhões de anos ou pode decompor-se imediatamente (em termos do nosso tempo). Isto é um facto. O que ninguém sabe — nem o blogue Rerum Natura sabe! — é por que razão existe, em potência, uma discrepância temporal tão grande na decomposição de um átomo de urânio.

Ademais, na lógica da realidade quântica, o tempo e o espaço, ou não existem, ou então existem de uma forma insipiente (ou seja, existem de uma forma aproximada em relação à realidade criada pela lógica da Força Entrópica da Gravidade).

Essa não-existência do tempo e do espaço (parcial ou total) na realidade lógica da força quântica foi demonstrada através do fenómeno de “entrelaçamento quântico”, em que duas partículas elementares podem comunicar entre si simultaneamente (tempo anulado) a grandes distâncias (espaço anulado). Quando o tempo e o espaço são parcial ou totalmente anulados, temos que conceber logicamente uma realidade transcendente — uma realidade que transcende não só a força quântica como também a Força Entrópica da Gravidade.

“Pesquisadores da Universidade de Jerusalém usaram um fenómeno da mecânica quântica chamada entrelaçamento quântico para provar que fotões, que não existem no mesmo período de tempo, podem comunicar entre si. Por outras palavras, um fotão do presente pode comunicar com um fotão do 'Além'.”

Fotões conseguem comunicar do “Além”

sábado, 20 de setembro de 2014

“O Relojoeiro Cego” de Richard Dawkins

 

“É imoral permitir o nascimento de crianças com síndroma de Down.”Richard Dawkins, no Twitter

“Na minha vida particular, estou pronto a exaltar-me com pessoas que cozem as lagostas vivas” — Richard Dawkins, “O Relojoeiro Cego”, 1986


“A biologia é o estudo de coisas complicadas, que aparentam terem sido concebidas com uma finalidade. A física é o estudo de coisas simples, que não nos tentam a invocar a concepção”. — Richard Dawkins, ibidem

“A física parece ser um tema complicado, porque nos é difícil entender as ideias da física.

(…)

O comportamento dos objectos físicos, não biológicos, é tão simples que é viável utilizar uma linguagem matemática conhecida para o descrever, razão por que os livros de física estão cheios de matemática.

Os livros de física podem ser complicados, mas os livros de física, tal como os automóveis e os computadores, são produto de um objecto biológico — a inteligência humana. Os objectos e os fenómenos que um livro de física descreve são mais simples do que uma única célula do corpo do seu autor”. Richard Dawkins, ibidem


Eu já pensei em criar um blogue com o título “O Relojoeiro Cego”, para ir refutando sistematicamente o livro. Mas depois pensei que seria uma tarefa inglória, porque seria lutar contra o paradigma científico de Richard Dawkins que marca, por exemplo, o blogue Rerum Natura. Talvez seja mais eficaz o que Passos Coelho está a fazer: “corta-se” neste tipo de “ciência”, e já está!

Eu acho inacreditável como um professor universitário de Oxford tenha escrito dislates deste calibre. Mas isto é só uma pequena amostra (se calha, escrevo mesmo o blogue!). Por exemplo, sem a força entrópica da gravidade — que a física estuda — não seria possível que da realidade das partículas elementares pudessem surgir os aminoácidos que, através daquilo a que Richard Dawkins chama de “acaso cumulativo”, “aparecem espontaneamente” na natureza na sequência correcta para formar uma proteína.

Ou seja, a “inteligência humana”, a se refere Richard Dawkins, só se tornou possível porque existe uma área da Realidade primordial e muito complexa que a física estuda; e a biologia vem depois.

Afirmar que a interligação entre a força quântica, por um lado, e a força entrópica da gravidade, por outro lado, — interligação essa que está na base da teoria atómica e da física molecular que, por sua vez, estão na base do “surgimento” das moléculas, ácidos nucleicos, enzimas, etc.) — são “fenómenos simples de descrever”, é absolutamente inacreditável vindo de um professor universitário da área das ciências.

O sofisma de Richard Dawkins, tal como o dos darwinistas primevos (que diziam que “a célula viva surge espontaneamente da lama”), corresponde a uma certa ideia errada de Hegel, por um lado, e de Spencer, por outro lado, segundo a qual “o progresso é uma lei da natureza” e que “a evolução se processa necessariamente do mais simples em direcção ao mais complexo”. Como não se conhece empiricamente aquilo a que se chama de “simples”, então diz-se que “não é complexo”.

Como é evidente que Richard Dawkins tem uma enorme dificuldade de abstracção, afirma ele que “os livros de física estão cheios de matemática”, como se a matemática fosse a tal coisa “simples” que — na opinião dele — não se compara com a “complexidade da biologia”.

Eu não acho que cozer uma lagosta viva seja um acto de bom gosto; mas também não acho que seja imoral deixar nascer uma criança com síndroma de Down.

O que é anormal no tipo de “ciência” e de “cientistas” que temos hoje, é que se defenda a pertinência da primeira posição e a impertinencia da segunda posição. Mas é este tipo de “ciência” que é defendido, por exemplo, no blogue Rerum Natura. É este tipo de gente que tem que ser combatido sem quartel. Bem haja Passos Coelho, neste particular.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O homem moderno chama “Acaso” a Deus

 

“A investigação da Física provou claramente que, pelo menos para a esmagadora maioria do desenrolar dos fenómenos cuja regularidade e constância levaram à formulação do postulado da causalidade universal, a raiz comum da rigorosa regularidade observada é o acaso.”

→ Erwin Schrödingen, Nobel da Física, durante uma lição inaugural na Universidade de Zurique em 1922 1

Ou seja, segundo Schrödinger, os processos que são orientados por leis da natureza surgem de estados que, anteriormente, não estavam sujeitos a regras e eram aleatórios. No referido livro 1 de Manfred Eigen e Ruthild Winkler podemos ler na página 35:

“Designamos como microcosmos o mundo das partículas elementares, dos átomos e das moléculas. Os processos físicos elementares ocorrem todos neste mundo 2. O Acaso tem a sua origem na indeterminação destas ocorrências elementares.”

A regularidade das leis da natureza não é desrespeitada quando Deus intervém no macrocosmos ou no mundo humano/universo. Quando Deus quer intervir num processo natural, fá-lo através do microcosmos e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da natureza. E a própria intervenção de Deus no nosso mundo através do microcosmos surge-nos conforme o princípio da causalidade.

Notas
1. citado por Manfred Eigen e Ruthild Winkler no livro “The Laws of the Game: How The Principles of Nature Govern Chance”, 1987, p. 15
2. mundo do microcosmos