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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Domingos Faria e a Isabel Moreira: les bons esprits se rencontrent...

Uma certa casta de “iluminados” — que inclui a Isabel Moreira — lançaram uma Fatwa à “moral sexual” da Igreja Católica que, segundo ela, é a causa da pedofilia na Igreja Católica.


Há um livro com o título “Goodbye, Good Men: How Liberals Brought Corruption into the Catholic Church”, do autor Michael S. Rose, que não foi publicado em Portugal porque vai contra a narrativa da Esquerda protagonizada pelas editoras como a Gradiva (por exemplo), por um lado, e, por outro lado, porque é interpretada fielmente por “liberais” e radicais de esquerda como o Domingos Faria e a Isabel Moreira, que controlam os me®dia — o mesmo Domingos Faria que escreveu que o aborto e a eutanásia são perfeitamente compagináveis com a ética da Igreja Católica, e que seria mesmo normal e positivo que os sacerdotes católicos pregassem a sodomia, o aborto e a eutanásia do alto do púlpito.


politicamente-correcto-grc3a1fico-webO problema, aqui, é o de gente (como a Isabel Moreira e o Domingos Faria) que acredita que a Natureza Humana pode ser mudada através de legislação — porque, como bons progressistas, a culpa é sempre dos outros, ou da sociedade.

Porém, mais grave: acreditam que a aplicação da lei é um caminho ou um meio para o gradual aperfeiçoamento (prometaico) da humanidade (para se atingir a perfeição do colectivo humano).

O problema da Isabel Moreira e do Domingos Faria não é apenas um anti-catolicismo primário: eles acreditam mesmo que a Natureza Humana poder ser mudada; mas quando vemos a reacção da população autóctone aos recentes sismos na Turquia, por exemplo, compreendemos que a reacção humana aos fenómenos da Natureza não mudou uma vírgula desde que apareceu o primeiro homo sapiens.

A Natureza Humana é imutável, no sentido em que não há leis humanas que a mudem.

E quem pensa o contrario disso padece de um delírio interpretativo (a Isabel Moreira é um caso patológico de interpretação delirante).

O caso de Domingos Faria é mais grave (do que o da Isabel Moreira), porque ele tem formação em filosofia, por um lado, e por outro lado porque as suas teses abstrusas são oficialmente reconhecidas por uma universidade de Lisboa.

Reparem na minha seguinte proposição hipotética:

“Eu sou um genuíno militante do partido IL (Iniciativa Liberal), mas não me identifico com a actual ética política propugnada pelo partido IL (Iniciativa Liberal)”.

Agora vejamos a seguinte proposição do Domingos Faria:


“Há um número bem significativo de pessoas genuinamente católicas que não se identifica com a actual ética sexual da Igreja Católica”.

É assim que o Domingos Faria inicia a sua logomaquia. E ¿é isto um “doutorado em filosofia”?! Estamos f*didos!

¿Como é que eu posso ser um “genuíno” militante de um partido se eu não me identifico com o ideário fundamental desse partido?!

Posso ser oposição interna a esse partido; mas se a oposição interna colocar em causa os princípios fundamentais e basilares desse partido, então deixa de ser uma oposição interna para passar a ser uma forma de pressão para transformar esse partido em outra coisa completamente diferente do que é hoje.


Uma coisa devemos afirmar peremptoriamente ao Domingos Faria, para que ele entenda, sem sofismas:

Meter um pau no ânus, para alegada satisfação própria, é um acto sexual intrinsecamente desordenado; não é preciso ser católico para entender isto.

Ora, ele diz que os católicos são contra o acto sexual de meter um pau no ânus — o que é uma falácia. Todas as religiões, incluindo o Budismo e/ou as religiões animistas africanas, e mesmo muitos ateus, não concordam com o acto sexual de meter um pau no ânus — até porque está cientificamente provado de que é prejudicial à saúde.

Escreve, o animal:

“A actual ética sexual da Igreja Católica está assente no seguinte princípio central: um acto é moralmente lícito se com esse acto se pretende ou se visa realizar os propósitos naturais ou biológicos dos órgãos (ditados por Deus).”

O que o Domingos Faria faz, ali, é misturar o conceito de “acto sexual do casal (natural) que tem por fim o acasalamento mas não a fertilização necessária para a procriação”, por um lado, com o conceito de “meter o pau no ânus”, por outro lado — ou seja, o Domingos Faria pretende que os actos sexuais do casal (homem + mulher) que não tenham por fim a reprodução, sejam equiparados eticamente aos actos de “meter o pau no ânus” de um par de gays.

Para o Domingos Faria, o Coitus Interruptus, praticado eventualmente por um casal católico com 5 filhos, é moralmente equivalente a um acto masturbatório praticado em uma suruba gay.

Ora, o Domingos Faria deveria ler Santo Agostinho, por um lado, e S. Tomás de Aquino, por outro lado. S. Tomás de Aquino defendeu o princípio da “autorização divina” de actos sexuais não reprodutivos em casais com filhos.

Santo Agostinho não condenou as práticas sexuais (no âmbito de um casal católico com filhos) que não tenham por fim exclusivista a reprodução; mais: Santo Agostinho defendeu que, em determinados casos, o divórcio é justificado eticamente — esta corrente agostiniana e tomista foi parcialmente alterada pela contra-reforma católica que nada mais fez, basicamente, do que adoptar parcialmente a moral protestante e burguesa de Lutero.

É falso que a moral católica esteja assente no princípio segundo o qual “um acto é moralmente lícito só se com esse acto se pretende ou se visa realizar os propósitos naturais ou biológicos dos órgãos”.

Aliás, no catecismo da Igreja Católica, no seu artigo 2370, está escrito:

“(…) os métodos de regulação da natalidade baseados na auto-observação e no recurso aos períodos infecundos estão de acordo com os critérios objectivos da moralidade.”

É isto que repugna o Domingos Faria: meter um pau no cu de um gay é, para o Domingos Faria, tão belo eticamente como uma cópula interrompida em um casal filhento.

Portanto, o Domingos Faria mente quando diz que, na moral católica, “um acto é moralmente lícito só se com esse acto se pretende ou se visa realizar os propósitos naturais ou biológicos dos órgãos”. O animal mente. Mas é douto em filosofia, embora não tenha lido Santo Agostinho. E o Observador estende-lhe o tapete vermelho.

O que o catecismo faz é tornar moralmente ilícito o uso da pílula contraceptiva, por exemplo — aliás, já se comprovou cientificamente que a pílula prejudica a saúde da mulher.

Tudo o que seja a banalização do acto sexual é condenado pela Igreja Católica — e é isto que repugna o Domingos Faria: meter um pau no cu de um gay é, para o Domingos Faria, tão belo eticamente como uma cópula interrompida em um casal filhento.


Portanto, o postulado da tese do Domingos Faria é falso; e, como como defendeu Aristóteles, se um princípio é falso, toda a teoria que parte desse princípio é igualmente falsa.

Finalmente, é ignóbil que se estabeleça uma equivalência entre os actos sexuais entre insectos ou entre peixes, ou entre bonobos, por exemplo e por um lado, e o acto sexual entre seres humanos, por outro lado.

Este tipo de comparação ou equivalência (próprias da sociobiologia liberal) incorre em um sofisma naturalista [não é possível deduzir valores e normas a partir de factos! Porra! (George Edward Moore)] — porque a situação da natureza não pode ser transposta, sem reservas, para o mundo dos seres humanos: é preciso fornecer uma fundamentação para as normas, o que a ciência não pode fazer.

Portanto, os factos não fundamentam quaisquer normas, embora as normas possam criar factos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

O Domingos Faria, o sofista


pass-auf-ao-burro-webO Domingos Faria agarra-se a dois autores de tradição cultural britânica, e tira deles a ilação segundo a qual “quer se seja consequencialista quer se seja deontológico, não parece haver bons obstáculos morais para a eutanásia”.

E depois ele cita o “teólogo” Hans Küng para dizer que até mesmo o Cristianismo pode defender a legalização eutanásia — só lhe falta dizer que o Anselmo Borges, que defendeu a legalização do aborto, também é “teólogo”; e que, por isso, também é possível ao Cristianismo defender o aborto.

Ver o texto dele aqui.


A filosofia é entendida pelo Domingos Faria como os sofistas a entendiam no tempo de Sócrates: a filosofia é reduzida à capacidade de retórica, e não existe uma verdade objectiva intrínseca à Realidade.

utilitarismo-web

Ademais, o Domingos Faria (tal como a Isabel Moreira, por exemplo) acredita que é possível que a lei portuguesa da eutanásia seja melhor do a que lei belga, holandesa, ou canadiana — talvez porque ele pense que os legisladores portugueses pertençam a uma casta superior.

Porém, e mesmo que a lei “perfeita” da eutanásia não seja cumprida num ou noutro caso, serão esses casos os danos colaterais característicos do utilitarismo que o Domingos Faria defende.

E quem não pertença ao “maior número”, que se foda!


«HOY, el anciano es tan inútil como el animal viejo. Donde no hay alma que los años tal vez ennoblezcan, sólo queda un cuerpo fatalmente envilecido.» — Nicolás Gómez Dávila

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Domingos Faria sabe mais de ética católica do que o S. Tomás de Aquino

 

Aristóteles dizia que quando partimos de um princípio errado, todo o nosso raciocínio consequente (por mais “lógico” que seja) está errado. É o caso do Domingos Faria: parte de um princípio errado e por isso incorre (através da lógica mesma) em uma interpretação delirante dos factos.

O primeiro princípio errado é o seguinte: não são os “católicos mais conservadores” ou “mais tradicionalistas” que defendem a ideia segundo a qual o adultério é um pecado mortal: é o próprio Chico a quem chamam de "papa" que defende essa ideia — a não ser que o Domingos Faria venha agora com a ideia peregrina segundo a qual o Chico é um “radical ortodoxo”...!

O adultério é um pecado grave ou mortal na exacta medida em que viola o 9º Mandamento.

O segundo princípio errado do Domingos Faria é o seguinte: ele parte do princípio de que a moral católica se aplica, hoje e necessariamente, a toda a sociedade — o que é falso. A moral católica, hoje como era no tempo de Santo Agostinho, aplica-se aos católicos. Não se deve exigir coercivamente de um pagão moderno que siga a moral católica.

Ademais, o Domingos Faria abusa do conceito de “intenção” (de boas intenções está o inferno cheio) ou de “intencionalidade”. Uma boa intenção pode atenuar um erro, mas não o elimina (S. Tomás de Aquino): o Domingos Faria pensa como um luterano, com a teoria da justificação, em que a moral não é objectiva.

O protestantismo transformou a interiorização do Cristianismo em simples idiossincrasia que permite que perguntemos ao indivíduo pela sua religião, depois de lhe termos perguntado qual a sua côr preferida e qual o seu clube de futebol.


O Domingos Faria deveria saber que a ética católica se distingue, em muito, da ética de Kant, e muito mais da ética intencionalista de Abelardo.

Para o católico, a boa intenção (ou a falta de consciência) é apenas e só uma atenuante — assim como Jesus Cristo disse à mulher adúltera: Vai à tua vida, mas não voltes a pecar!, ou seja, tens atenuantes mas não repitas a receita. Existe em Jesus Cristo uma reprimenda implícita em relação ao comportamento da mulher adúltera. Podemos constatar isto mesmo na ética de S. Tomás de Aquino:

1/ o ser humano tende necessariamente para o seu fim; como todos os seres vivos, tem um arbítrio: move-se por si mesmo e escolhe certos actos entre outros; mas, diferentemente dos outros seres vivos, o Homem é capaz de se representar o objecto do seu desejo na ausência deste, porque pode tornar, ou não, presente um objecto como desejável — e por isso, o arbítrio do Homem é livre (Suma Teológica, I, 59,3);

2/ no Homem, a vontade é um desejo informado pelo intelecto (idem);

3/ a contingência da escolha releva dos juízos racionais que propõem a alternativa dos actos possíveis. Mas, a partir do momento em que o Bem se apresenta ao intelecto, este deseja-o naturalmente — mesmo se mantém a capacidade de se abster! A falta consiste em querer um bem particular que não é o bem devido, e explica-se pela mediação do intelecto: este pode apresentar ao desejo um objecto menos perfeito do que o Bem, e arrastar então o homem para uma escolha desviante (para uma falta). A raiz do pecado reside no intelecto e a liberdade humana consiste em querer o que é racional (o que corresponde a uma ordem cósmica!) — quando o intelecto apresenta ao apetite o Bem verdadeiro e não um bem aparente;

4/ a lei (ética) é uma “ordenação da razão” que tem “em vista o bem comum” para “aquele que tem o encargo de velar pela comunidade”, e “exige promulgação” (Suma Teológica, I,II,90,4). De Deus ao mais humilde homem, passando pelo príncipe, escalona-se toda uma hierarquia de legisladores: cada homem é livre, dotado de uma razão autónoma e legisladora, mas submetida à razão do Legislador Supremo — uma vez que toda a lei exprime a razão divina!;

5/ a lei manifesta-se em três graus: a lei divina, que é sabedoria eterna de Deus; a lei natural, que é a tradução da lei divina na ordem natural; e a lei humana, que é a sua formulação positiva e particular. Neste edifício insere-se a doutrina da virtude: um acto é moralmente bom quando é virtuoso: o vício é contra a natureza. Ora, como o ser humano é racional, o bem moral é aquilo que está de acordo com a razão (Ibidem, I,II,71,2): como em Aristóteles, S. Tomás de Aquino demonstra que a virtude consiste em ordenar as nossas paixões segundo a razão e não em suprimi-las (como defendeu o estoicismo).

6/ cada ser humano está condicionado pelo seu próprio intelecto. Neste contexto, um acto apenas é moral se se conforma com o ditame da consciência. O acto cometido por uma consciência errónea continua a ser mau em si mesmo e distinto daquele que obrigaria uma consciência bem informada. E obedecer à sua consciência errada nada retira à falta prévia de não ter informado a sua consciência: se apenas podemos obedecer à nossa má natureza, temos o dever de a substituir por uma melhor sempre que pudermos.


O exemplo da “provável viúva”, dado pelo Domingos Faria, não “cola”. A lei do Direito Positivo dos “cinco anos de espera da viúva” (ou viúvo) tem origem na tradição católica que seguiu a tradição do Direito romano do tempo de espera do cônjuge provavelmente morto na guerra. Portanto, não se coloca o problema da “presumível viúva que comete adultério”. Na lei católica medieval, um cruzado desaparecido em combate, por exemplo, obrigava a sua esposa a uma espera de cinco anos — salvo se houvesse testemunho fidedigno de que o marido se encontrava cativo dos mouros; de outro modo, ao fim do tempo de espera, a viúva estava livre para casar novamente porque o marido era suposto morto pela própria comunidade.

Quem estudou filosofia, sabe que a tese do Domingos Faria é idiota. Ele pode até perceber muito de lógica, mas contradiz-se quando nega a lógica através de uma defesa da casuística.

O problema da Igreja Católica actual é que gente como o Domingos Faria ou o Anselmo Borges pretende saber mais de ética católica do que S. Tomás de Aquino, por exemplo.


Finalmente: Santo Agostinho não era contra o divórcio e/ou contra o segundo casamento.

Segundo Santo Agostinho:

1/ o divórcio de mulher e homem cristãos (católicos) não é tolerável nem permitido pela Igreja Católica. Mas se um dos cônjuges não for católico e pretender o divórcio do outro cônjuge que é católico (ou vice-versa), a Igreja Católica deve aceitar esse divórcio, por um lado, e permitir que o cônjuge católico divorciado volte a casar, desta vez pela Igreja Católica, com um novo cônjuge católico.

2/ a união sexual do homem e da mulher é natural e é boa. O bem do casamento não é somente a procriação (procriação = colaboração com a obra do Criador), mas é também a união indissolúvel (figura simbólica da união de Jesus Cristo com a Igreja).

3/ a virgindade antes do casamento não é um bem absoluto, mas é “a melhor das coisas boas”: a virgindade é preferível, mas não condição necessária do casamento. O que é um bem em si é o casamento.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

A confusão epistemológica pós-moderna

 

“O tonto consegue captar o subtil, mas não vê o óbvio.” — Nicolás Gómez Dávila


Este postal do Domingos Faria é o exemplo de como as “Humanidades” chegaram a um ponto de tal decadência que podemos dizer que já não existem.

« Um dos paradoxos mais interessantes em lógica epistémica é o paradoxo da cognoscibilidade. Esse paradoxo resulta da prova de Frederic Fitch (1963) de acordo com a qual um princípio aparentemente modesto da cognoscibilidade (PC), de que cada verdade é em princípio conhecível, implica uma alegação absurda de que somos omniscientes (O), de que de facto sabemos todas as verdades. Ou seja, o paradoxo da cognoscibilidade mostra que se segue da afirmação de que “todas as verdades são cognoscíveis”, que todas as verdades são conhecidas”. »

Paradoxo da Cognoscibilidade e a Doutrina da Encarnação

Mais adiante:

“Para escapar a essa conclusão absurda em vez de se negar ¬O pode-se negar PC, defendendo-se que não é o caso que todas as verdades sejam cognoscíveis ou possíveis de conhecer. Um dos problemas é que o Cristão tradicional em princípio não poderá enveredar por essa manobra, tal como defendido por Jonathan Kvanvig (2010), dado que entra em conflito com a doutrina da encarnação.”

ibidem


Em primeiro lugar, devemos saber o que significa “verdade”, neste contexto: “verdade” é a verdade positivista, ou seja, a verdade da ciência clássica segundo a qual as propriedades e o comportamento das partes determinam o comportamento do todo.

Dentro deste conceito de “verdade”, o Princípio da Cognoscibilidade é absurdo:

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecerem para sempre conjecturas ou hipóteses.”

→ Karl Popper, em conferência proferida em 8 de Junho de 1979 no Salão Nobre da Universidade de Frankfurt , por ocasião da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa.

O absurdo foi inventado de uma vez para sempre; mas as ideias absurdas, como por exemplo o Princípio da Cognoscibilidade, são inventadas a cada época. Karl Popper concluiu que “cada verdade (científica) não é, em princípio, cognoscível”; e só um burro (como o Frederic Fitch) pensaria o contrário disso.


Mas se a “verdade” da ciência clássica implica que as propriedades e o comportamento das partes determinam o comportamento do todo, na “verdade” da física quântica passa-se precisamente o contrário: é a totalidade que determina o comportamento das partes. Portanto, temos aqui dois conceitos diferentes de “verdade”; mas o Domingos Faria misturou tudo no mesmo saco.

O holismo significa a visão da totalidade de um sistema. As partes estão, em certo sentido, em contacto com a totalidade. Se tudo aquilo que, no Big Bang esteve numa acção recíproca, permanece ligado, então todas as partículas elementares em todas as estrelas e em todas as galáxias “sabem” da existência de todas as restantes partículas elementares.

Assim, os componentes da matéria não devem ser vistos como unidades isoladas, mas sim como partes integradas na totalidade do universo. Naturalmente que o Domingos Faria deve pensar que eu sou maluco; por isso vamos ver o que o maluco Niels Bohr, que foi Nobel da Física, escreveu:

“O Universo pode assumir a organização dos seus componentes (…) porque a totalidade, por princípio, é constituída de tal modo que organiza as partes... Tudo está ligado entre si através de conjunções invisíveis”.

O holismo quântico também é uma “teoria humana” que se enquadra na citação supra de Karl Popper; mas pelo menos tem a virtude de conceber a “verdade” de um modo totalmente diferente da “verdade” da ciência clássica — porque não é, por si, evidente que possamos extrair convenientemente objectos da totalidade do mundo (conforme o conceito de “verdade positivista” do burro Fitch): esta extracção implica sempre um erro, visto que, na realidade, tudo está ligado com tudo.


Em 1982, Alain Aspect, da universidade de Paris, preparou uma experiência na qual um fotão (uma partícula elementar de onda luminosa), após a sua saída de uma fonte central, tinha a possibilidade de se afastar desta fonte cerca de seis metros antes de ser conduzido através de uma espécie de eclusa da luz.

Este aparelho, semelhante a um comutador basculante, conduziu o fotão num dos dois sentidos possíveis. O fotão deparou-se, em ambos os percursos, com um filtro de polarização. Aspect utilizou um truque para obrigar os fotões a revelar se se comunicam, de facto, entre si, e em que medida se realizam contactos deste tipo.

As eclusas foram concebidas de moda a mudarem periodicamente de sentido cerca de 100 milhões de vezes por segundo. Deste modo, o percurso definitivo dos fotões foi determinado acidentalmente.

Por conseguinte, um fotão não podia “saber” de antemão em que sentido se iria mover: só podia conhecer o seu percurso definitivo depois da passagem através de um dos filtros. No entanto, naquele momento, já era demasiado tarde para o respectivo fotão informar ainda o parceiro em movimento no sentido oposto sobre aquilo que lhe tinha acontecido — porque Aspect providenciou para que, nesse momento, os fotões estivessem tão afastados entre si que não houvesse tempo para a comunicação com o parceiro, nem sequer para um estabelecimento de contacto à velocidade da luz.

Alain Aspect fez uma descoberta surpreendente. Os fotões eram capazes de comunicar entre si e de informar o outro fotão sobre o filtro por onde tinham acabado de ser conduzidos.

Portanto, parecia que as partículas elementares são, de facto, capazes de comunicar entre si a uma velocidade superior à velocidade da luz — o que destruiu parcialmente a teoria de Einstein. As partículas elementares permanecem partes de um único sistema que reage, na sua totalidade, às acções recíprocas seguintes.

Na prática, tudo aquilo que podemos ver e tocar é constituído pela acumulação de partículas elementares que se encontraram, alguma vez, em uma acção recíproca com outras partículas elementares, até ao Big Bang, com o qual surgiu o universo. Os átomos no meu corpo são constituídos por partículas elementares que já estiveram concentradas no aerólito cósmico, juntamente com outras partículas elementares que são agora componentes de uma estrela afastada ou de um outro corpo humano.


alain-aspect-web

A experiência de Alain Aspect teve o condão de demonstrar como leis que são válidas para aspectos físicos parciais (a “verdade cognoscível” do burro Fitch) foram anuladas num determinado ponto. Porém, o saber como a totalidade organiza estes aspectos parciais escapa ao nosso conhecimento positivista, dado que não podemos forçar a totalidade do universo a entrar dentro de uma experiência de laboratório (do Fitch).

A ideia segundo a qual “todos os seres humanos penetram nas 'verdades holísticas' da mesma forma”, é outro absurdo, porque parte do princípio de que o ser humano é uma espécie de autómato fabricado em série. É neste sentido que não existe nenhuma contradição entre Jesus Cristo, por um lado, e o conhecimento da verdade holística, por outro lado — verdade esta que não é a verdade positivista da ciência clássica a que se refere o Fitch.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A lógica é imanente, e Causa Primeira é transcendente

 

O Domingos Faria invoca um burro com um alvará de inteligente que escreveu um livro, para citar um argumento que coloca em causa o princípio da razão suficiente de Leibniz (e não de Espinoza, como escreveu o Domingos Faria) que reza assim:

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”


Há vários erros no raciocínio do burro letrado, mas talvez o principal seja o exarado no ponto 5:

“Se S é necessária, então P é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]”

Acontece que se uma Causa Primeira é necessária, não se segue que um determinado efeito (dessa causa) seja necessário— desde logo porque a Causa não se confunde (como seria lógico) com um qualquer seu efeito.

A proposição supra só teria alguma legitimidade “lógica” se a Causa Primeira fosse imanente, ou seja, se ela pertencesse à mesma Realidade dos seus possíveis efeitos (possibilidade ou probabilidade) segundo o princípio da causalidade — mas então teríamos que explicar, por exemplo, por que razão as partículas elementares (que são efeitos de uma Causa, ou seja, existem por uma qualquer razão suficiente) aparecem e desaparecem do universo como que por magia, vindas do Nada e para o Nada.

¿De onde vêm, e para onde vão, essas partículas elementares que aparecem e desaparecem continuamente no universo?

Para qualquer pessoa “inteligente” é difícil aceitar que no centro da Física, que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o universo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas.

E isto porque, ao contrário do que defendeu Einstein, “Deus lança mesmo os dados” — no sentido em que os efeitos enquanto factos têm uma probabilidade objectiva (e não uma probabilidade subjectiva humana, devida à falta de conhecimento científico): a “casualidade” (os acontecimentos “por acaso”) e a “a-causalidade” (aquilo que parece não ter causa) não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas da própria Realidade.

É neste sentido que se fala em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva, baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais.

Ou seja, o princípio da causalidade (que é exclusivamente imanente) foi refutado pela própria ciência atómica.

Mas essa refutação não significa que, 1/ não exista uma Causa primeira que determina a existência de uma probabilidade objectiva que pode ser contingente na sua condição de causa segunda, e por isso, 2/ não significa que essa probabilidade objectiva, enquanto efeito, seja necessária. Aqui, David Hume tem razão.

Ademais, o raciocínio do lógico em causa é uma tautologia— a inferência pretende ser sempre verdadeira quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos a priori às proposições.

A lógica não se pode fechar em si mesma e fazer de conta que a ciência não existe. Quando isso acontece, aparecem lógicos burros que escrevem livros. Hoje, vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa estúpida uma resposta estúpida em relação a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

domingo, 7 de maio de 2017

C'a ganda treta : “Lógica Epistémica”

 

“A lógica epistémica é o ramo da lógica filosófica em que se procura formalizar a lógica do discurso sobre o conhecimento proposicional (“sabe que”) e da crença (“acredita que”). O seu objectivo é articular e clarificar os princípios gerais do raciocínio sobre afirmações e atribuições de conhecimento e de crença, elucidando as suas implicações inferenciais e consequências.”

Domingos Faria

A crença é, por princípio imposto pelo senso-comum (mas não é necessariamente de bom-senso), uma adesão incerta, por oposição ao saber ou à fé.

Mas, em rigor, a crença é adesão a uma ideia, um pensamento, uma afirmação, uma teoria, um dogma… Nesse sentido, a ingenuidade, o preconceito, o erro, a fé, a opinião, assim como o Saber, são diferentes formas de crença.

O “problema” dos professores de filosofia é o de que, na sua imensa maioria, não são filósofos mas reclamam-se como tal.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Domingos Faria e a confusão do amor politicamente correcto

 

O conceito de “amor” tem sido a ser prostituído por ditos “intelectuais”, e parece que o Domingos Faria embarca no sofisma.

“(...) quando se diz que os homossexuais são incapazes de ter crianças que são o fruto dos seus actos de amor, o Swinburne parece estar a fundir os conceitos de amor e de sexo/procriação. Todavia, tais conceitos não são coextensionais; pois, há muitos actos sexuais que não são actos de amor, bem como há actos de amor que não são actos sexuais. Por exemplo, as carícias, olhares, ou até a partilha das tarefas domésticas não são afinal "actos de amor"? Mas terão esses actos de estar fundidos ou ligados com actos sexuais? Parece óbvio que não”.


Tradicionalmente, faz-se a distinção entre espécies diferentes de “amor”:
  • libido (o amor pelo prazer e o sexo)
  • eros (o amor pelo belo, o deixar-se comover pela sedução do sedutor)
  • filia (o amor entre os corações que não podem viver um sem o outro)
  • ágape (o amor imanente pela comunidade, o amor pelo “outro” em abstracto, o amor pela sociedade, o amor pela continuidade e futuro da pólis)

O amor propriamente dito é a aspiração à unidade daquilo que se completa (também na Natureza). Aquilo que, por princípio, não se completa (naturalmente), também não pode constituir uma unidade. Neste sentido, o amor entre seres humanos é constituído pela libido, eros, filia e ágape.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A confusão ateísta entre o infinito e o finito

 

O Domingos Faria elabora aqui um arrevesado lógico para chegar à conclusão de que Deus permite o Mal. O problema é o de que os ateus dizem que “se Deus é Bom, não deveria permitir o Mal” — ou seja, os ateus acham-se no direito de impôr a Deus aquilo que Ele deveria ou não permitir.

“Se existisse um Deus bom e omnipotente — dizem os ateístas — teria necessariamente que intervir contra os males. Porém, dado que existem os males, resulta daí — continua o argumento ateísta — que ou Deus não quer ajudar, e neste caso não é bom; ou não pode ajudar, e neste caso não é omnipotente.

Este argumento ateísta é completamente incongruente, porque quem afirma que a existência dos males no mundo é a prova da inexistência de Deus, parte do princípio de que tem o direito natural de viver em um mundo absolutamente positivo; o ateísta vê o problema da seguinte maneira: o bem entende-se por si mesmo; só o mal constitui problema.”

A negação ateísta de Deus mediante a existência do Mal

Este argumento ateísta afirmou-se, na cultura, com o Romantismo, com a sua tendência para identificar o finito com infinito (imanência, monismo). Trata-se de um erro de palmatória. Nicola Abbagnano faz a crítica ao romantismo de Hegel e Croce (§719):

“Mas como pode um espírito infinito (Deus), ou seja, por definição auto-suficiente, numa categoria sua (por definição, universal) ser necessidade, paixão, individualidade, etc., que são características constitutivas do finito como tal e elementos ou manifestações da sua natureza, é um problema que Croce (como Hegel) nunca considerou”.

Na literatura romântica portuguesa surge, por exemplo, “A Velhice do Pai Eterno” de Guerra Junqueiro, em que Deus é considerado “eterno”, ou seja, em que o “infinito” é traduzido por “eterno”.

Porém, o infinito não se confunde com o eterno: podemos dizer que o infinito concebe tudo o que está para além do espaço-tempo, sendo que, neste sentido, o infinito é “detectado” (por assim dizer) de uma forma objectiva pela Razão, pela Lógica, e pela matemática.

Na realidade subjectiva, o infinito também é "detectado" através da intuição do “ilimitado”, e também através do testemunho da interioridade que inspira o infinito que contém o finito (quando se fala do “Ser em Si”).

sábado, 14 de novembro de 2015

Os dados da experiência vão além da “utilidade prática”

 

O Domingos Faria conclui aqui que é possível que se obtenha conhecimento a partir de falsidades; e deu como exemplo as horas de um relógio, que é um instrumento de medição (neste caso, medição do tempo).

1/ É claro que podemos obter conhecimento a partir de “falsidades”, mas apenas se entendermos “falsidade” como sinónimo de “verdade parcial”. Uma verdade parcial não é a verdade absoluta mas também não é erro absoluto. Por exemplo, a dinâmica de Newton era em grande parte falsa, o que não significa que fosse totalmente falsa. Ou seja, a ciência adquiriu conhecimento a partir da teoria (parcialmente) falsa de Newton.

2/ Uma teoria que consideremos falsa pode ser verdadeira; e uma outra que consideremos verdadeira pode ser falsa.

3/ Mas, do conhecimento a partir de uma falsidade a que se refere o Domingos Faria no caso do relógio, resulta uma “verdade” que só é aplicável no sentido prático, ou seja, no sentido de uma utilidade prática (aplicável à nossa realidade macroscópica). Todos os instrumentos de medição — incluindo o relógio do Domingos Faria — são falíveis (dão-nos sempre apenas uma aproximação à verdade) fora da utilidade prática que caracteriza a chamada “física clássica”.

4/ Nada, na realidade do infinitamente pequeno, obedece às leis ordinárias da física clássica — incluindo as leis que medem o tempo e o relógio do Domingos Faria. A medição define literalmente o sistema medido.

Não podemos afirmar que uma partícula elementar já tinha uma determinada característica, antes e/ou independentemente da observação ou medição da dita através de um instrumento. Se utilizarmos um instrumento para medir um sistema microscópico, por exemplo, uma medição da sua energia, produz-se uma redução brutal do seu vector de estado: apenas um dos termos da soma do "vector de estado" subsiste: aquele que corresponde ao valor da energia que foi efectivamente medida.

5/ E se o relógio do Domingos Faria fosse colocado na estratosfera, “andaria” mais depressa, e provavelmente induziria em erro o seu proprietário: poderia ele julgar que já estaria atrasado para a conferência das 17 horas quando, na “verdade horária” da crusta terrestre, ainda eram 16:59 horas. Os próprios relógios andam mais depressa ou mais lentamente dependendo do local terrestre em que se encontrem.

6/ A física mais actual demonstrou que o ser humano está confrontado com uma eterna (“eterno” no sentido do “tempo”, que é finito) “aproximação à verdade”, porque os seus instrumentos de medição da realidade são falíveis e têm apenas uma utilidade prática.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

¿A lógica é uma batata?

 

A lógica formal trata das formas dos raciocínios, independentemente do seu conteúdo ou dos objectos aos quais se referem. Por exemplo, a seguinte proposição ou silogismo:

1/ Todos os tubarões são pássaros;
2/ o meu peixe vermelho é um tubarão;
3/ então, segue-se o meu peixe vermelho é um pássaro.

Nenhuma das duas premissas é verdadeira “materialmente”, ou seja, nenhuma delas corresponde à realidade. Mas o encadeamento que as une umas às outras é válido na sua forma: a conclusão do silogismo é a consequência formal necessária das duas premissas. Por isso é que se diz que “a lógica é uma batata”.

É assim que o Domingos Faria coloca o problema da possibilidade lógica dos zômbis contra o materialismo. Se a premissa 1 é, de facto, verdadeira, a premissa 2 é verdadeira se considerarmos que existe consciência humana em todo o universo com milhões de galáxias. E aqui colocam-se quatro hipóteses:

a/ não é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
b/ é possível que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
c/ é verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo;
d/ é provável que exista outra consciência que não a humana em todo o universo.

Eu diria que é, pelo menos, verosímil que exista outra consciência que não a humana em todo o universo. Mas podemos acreditar naquilo que quisermos.

Naturalmente que podemos dizer que “não há provas de que exista consciência no universo que não seja a humana”, mas também podemos dizer que “não há provas de que existam zômbis”. Podemos afirmar com certeza que uma coisa existe, mas já não podemos ter a certeza de que uma coisa não existe. Porém, podemos ter uma certeza: os axiomas da lógica não são físicos.

Porém, se o David Chalmers se interessasse pela ciência, e para além da Lógica, poderia ter em consideração a Interpretação de Copenhaga da Teoria Quântica: a observação da função de onda quântica (“não-matéria”, porque não tem massa) causa o seu colapso e transforma-a em partícula elementar (matéria, porque tem massa).

O físico francês Bernard D’Espagnat chegou mesmo a escrever:

«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da Consciência revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»

Mesmo que a observação da função de onda quântica — que provoca o seu colapso — seja feita através de um dispositivo construído pelo Homem, esse dispositivo foi construído por um ser com consciência (o Homem). Por isso, não podemos separar o colapso da função de onda quântica, por um lado, da consciência que observa, por outro  lado. Poderíamos ir mais longe neste raciocínio, e colocar na equação a consciência de Deus.

A Física moderna e teoria quântica destruíram brutalmente o materialismo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O “filósofo” Domingos Faria incorre no erro da Vulgata externalista

 

O primeiro erro de Domingos Faria é o de afirmar que, segundo a Igreja Católica, o acto sexual serve para procriar — quando a Igreja Católica diz que a procriação é o “fim último” do acto sexual, e não o “fim único”. E isto é tão verdade que a Igreja Católica aceita — sempre aceitou, desde o tempo de S. Paulo! — perfeitamente a contracepção através de métodos naturais.

Portanto, o primeiro sofisma do “filósofo” Domingos Faria está desmontado.

Um segundo erro de Domingos Faria é o de referir-se à filosofia natural de S. Tomás de Aquino (e da Igreja Católica) à luz de conceitos da actual sociobiologia. S. Tomás de Aquino fez a distinção clara entre o Homem e os outros animais. Domingos Faria reinterpreta S. Tomás de Aquino à luz da sociobiologia.

Portanto, Domingos Faria parte de pressupostos errados, e por isso todo o seu desenvolvimento ideológico está inquinado. Mesmo assim, vamos ver os seguintes argumentos dele.

A posição de Domingos Faria é externalista: diz ele — quando fala do “ser” e do “dever ser” — que pelo facto de uma pessoa ter uma obrigação moral para realizar um acto, essa obrigação não consiste, em si mesma, uma razão para realizar esse acto. Domingos Faria considera que as razões para considerar uma coisa como boa não são razões para escolher essa coisa.

Ora, não é porque uma coisa é desejada e/ou desejável que ela é boa! Podemos desejar uma coisa má. O desejo em si mesmo não define a bondade da coisa, mas antes é a bondade da coisa que pode determinar o desejo (em uma mente bem formada) que, no limite, se orienta para um “fim último” (e não um “fim único”, como pretende dizer Domingos Faria).

Portanto, Domingos Faria está errado: quando decidimos sobre o que queremos fazer, a nossa vontade (desejo) discricionária e arbitrária não faz parte das razões para agir. Foi isto que S. Tomás de Aquino quis dizer — antes que Domingos Faria metesse conceitos científicos modernos de permeio com a ética.

zoofiliaPor fim, em uma contradição inaceitável em um “filósofo” (porque ele valorizou a força do desejo anteriormente), Domingos Faria passa a desvalorizar o desejo (que é uma componente psicológica do ser humano) quando compara (ou coloca em um mesmo plano de análise) o uso do pénis, por exemplo, com o uso dos pés para chutar uma bola.

Segundo o “raciocínio” do “filósofo” Domingos Faria, o sexo com animais, por exemplo, pode ser legítima-, ética- e racionalmente defensável — porque o factor psicológico do desejo é por ele (por Domingos Faria) desvalorizado, e o uso dos órgãos sexuais é reduzido a uma qualquer função mecânica de um outro órgão qualquer do corpo, como por exemplo um pé que chuta uma bola.

Nós desejamos jogar futebol; o chuto na bola não é uma causa, mas antes é um efeito do desejo de jogar futebol.

Portanto, é a bondade do desejo que devemos analisar, e as consequências do desejo podem ser melhores ou piores, mais ou menos positivas — porque desde Sócrates que sabemos que ninguém faz o mal pelo mal: as pessoas querem sempre um qualquer bem, nem que seja o seu bem exclusivo e egoísta, que não deixa de ser um bem, embora um bem menor que não tem em conta o “fim último” defendido pela Igreja Católica.