Depois de Christopher Hitchens, morreu ontem Daniel Dennett. Para que a obra de Deus fique completa, neste particular, falta que “batam a bota” Richard Dawkins e Sam Harris.
Que a terra lhe pese como chumbo.
Depois de Christopher Hitchens, morreu ontem Daniel Dennett. Para que a obra de Deus fique completa, neste particular, falta que “batam a bota” Richard Dawkins e Sam Harris.
Que a terra lhe pese como chumbo.
O Ludwig Krippahl defende a ideia segundo a qual a evolução é um fenómeno exclusivamente materialista.
Dentro desta mesma ideia, o alemão Ernst Haeckel, no século XIX, afirmava que a célula viva era uma coisa muito simples e que surgia espontaneamente da lama depois de uma chuvada. Mas o Ernst Haeckel tinha atenuantes: no século XIX ainda não existia, por exemplo, a bioquímica.
O Ludwig Krippahl parece seguir a ideia de base de Ernst Haeckel.
Outro pensador materialista (e comunista), professor universitário (Galopim de Carvalho), pasme-se!, escreveu o seguinte:
“Foram as pedras e os fósseis, que muitas delas trazem dentro, que nos deram a conhecer a origem e a evolução da Terra e da Vida, ao longo de centenas de milhões de anos (Ma). Foi nesta evolução que matéria inerte, como são os átomos de oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto e outros como fósforo e enxofre, em muito menores percentagens, se combinou a ponto de gerar a vida e, através do cérebro humano, adquirir capacidade de pensar”.
Outra pérola do galopim:
“O pensamento, não surgiu no cérebro humano da noite para o dia. É um produto imaterial da matéria”.
Só uma pessoa com neurónios enrijecidos e fossilizados, cristalizados no sistema ortorrômbico ou triclínico, pode afirmar que o cérebro humano adquiriu capacidade de pensar, a partir das pedras e da matéria inerte. O galopim, tal como o Krippahl, tem um pensamento empedernido; da mente dele já não sai nada senão ideias fossilizadas.
Um cientista deve ter a humildade de assumir que “não sabe” — em vez de afirmar, explícita- ou implicitamente que a vida surgiu da lama depois de uma chuvada.
“Evolução é uma palavra flexível. Pode ser utilizada por alguém para designar uma mudança que ocorre no tempo, ou por outra pessoa para referir a descendência de todas as formas de vida de um antepassado comum, não se especificando o mecanismo dessa mudança. No seu sentido biológico, contudo, a evolução designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica. É neste sentido que eu utilizo a palavra “evolução” ao longo deste livro.”
--- Michael Behe, in “A Caixa Negra de Darwin”, Editora Ésquilo, ISBN 978-989-8092-44-1.
Isto significa que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica, e não à ciência. Ou, se quisermos, um conceito neo-kantiano:
“O criacionismo (bíblico) é um mito, assim como o darwinismo é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”.
Se “evolução” é um processo através do qual o Criador se apresenta no espaço-tempo, e por isso, se o conceito de “evolução” subentende que o espírito, a alma e a razão são produtos de uma evolução segundo a lei divina (e não só a lei natural, que é uma consequência da lei divina), então o termo “evolução” não representa, para mim, qualquer problema.
Mas se o termo “evolução” for entendido em termos estrita- e meramente biológicos e materialistas, então, o facto que resulta da verificação da autoconsciência, por um lado, e a possibilidade de acesso à dimensão das verdades perenes, por outro lado, destrói este quadro e esta mundividência evolucionários.
É curioso o facto de os ateístas (em geral) se preocuparem (pelo menos) tanto com Deus quanto os católicos.
O essencial das ideologias de Richard Dawkins e/ou de Peter Singer encontrava-se já em Espinoza.
Por isso é que Espinoza é adulado por ideólogos de Esquerda: Espinoza é ensinado nas escolas e nas universidades assim como uma espécie de “introdução ao ateísmo” que é determinista por natureza; os comunistas apreciam muito Espinoza.
Mas quando analisamos uma teoria ou uma doutrina de um determinada época, temos também que a avaliar em função dos conhecimentos que temos hoje.
Espinoza partiu do princípio de que o universo é eterno; e a não ser que a Física actual esteja errada, o universo que temos teve um princípio (Big Bang), e por isso, teve um início no tempo. Portanto, se o princípio de que parte Espinoza está errado, toda a teoria dele está errada. Além disso a Física actual chegou à conclusão que a natureza não é determinista (como defende Espinoza e o ateísmo), por um lado, e por outro lado que o nexo causal que existe na leis da natureza macroscópica se deve à entropia da gravidade, mas as leis da natureza não são 100% infalíveis — por exemplo, e por mais estranho que nos possa parecer, a ideia segundo a qual “o Sol nascerá amanhã” não é garantida a 100%.
Espinoza esteve errado em quase tudo o que defendeu; até a sua ética é inconsequente porque não tem uma relação coerente com a sua (dele) metafísica: não se pode defender a liberdade do ser humano, ao mesmo tempo que se defende que o ser humano obedece ao mesmo princípio totalmente determinístico das leis da natureza.
Espinoza deve ensinado aos estudantes de filosofia no sentido de lhes transmitir um exemplo de uma teoria e doutrina erradas.
Em muitas discussões metafísicas, era normal que os ateístas invocassem o argumento do “mito de Deus”, afirmando que “os unicórnios não existem”; e eu respondia que é impossível à ciência afirmar que os unicórnios não existem — porque a ciência não pode provar que uma determinada coisa não existe.
Pois bem: os unicórnios existem. Ou já existiram. Mais um argumento ateísta e cientificista que vai pela pia abaixo.
« Segundo o modelo cosmológico padrão, vivemos num universo que se produziu no big bang e terminará numa morte energética futura: "um universo que nasce a partir de um "fundo" desconhecido no qual será reabsorvido".»
Sabemos, por inferência, que o universo teve um princípio; mas é abusivo dizer — como diz o Anselmo Borges ou qualquer outra pessoa — que o universo vai ter este ou aquele fim. A ciência é uma muleta para a filosofia, mas não podemos misturar ciência e filosofia, como faz o Anselmo Borges.
Do ponto de vista macroscópico — que é o ponto em que nos encontramos, na nossa realidade — não é possível conhecer o futuro. Mesmo as leis da física que conhecemos são revogáveis, por exemplo, face à singularidade.
Parece que o Anselmo Borges parte do princípio da filosofia gnóstica indiana do YUGA das elites secularizadas a partir do hinduísmo, que aliás influenciou Nietzsche na sua teoria do Eterno Retorno.
Um ciclo cósmico completo, um mahâyuga, compreende doze mil anos e termina com uma “dissolução” (pralaya) que se repete de uma maneira mais radical (mahâpralaya, a Grande Dissolução) no fim do milésimo ciclo. Assim, o esquema exemplar da “criação ― destruição ― criação” reproduz-se até ao infinito.
A Causa Primeira (Deus) já não é acessível ao Homem não-religioso através dos ritmos cósmicos.
A significação religiosa da repetição dos “gestos” cósmicos é esquecida; e a partir daqui, a repetição da natureza esvaziada do seu conteúdo religioso conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência. Para o Homem não-religioso, o Tempo cíclico torna-se insuportavelmente terrível na medida em que se revela como um círculo rodando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até ao infinito.
« O ateísmo seria outra conjectura metafísica, também filosófica: no pressuposto das teorias especulativas de multiversos ou múltiplos universos e de supercordas, essa meta-realidade apresentar-se-ia como "uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo".»
O que o Anselmo Borges diz é que a teoria do Multiverso pode justificar racionalmente a ausência de uma Causa Primeira (Deus). A afirmação de Anselmo Borges não é crítica: é corroborativa. Portanto, segundo esse argumento, existirá um número infinito de Multiversos que justifica alegadamente a ausência de uma Causa Primeira (Deus) : é uma regressão infinita da existência e do Ser, em um mundo que o Anselmo Borges reconhece ser finito. Eu admito que um ateu ignaro coloque a hipótese desta tese; mas vinda de um professor universitário de filosofia ou teologia, acho muito estranha.
“Por isso falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam” (Job, 42,2)
A imagem que o Anselmo Borges traça de Deus é a do “Deus absconditus” — o Deus oculto — que se mantém em silêncio:
“Teísmo e ateísmo são confrontados com o silêncio de Deus. Este silêncio manifesta-se num duplo plano: no plano cósmico, porque Deus não se revela de modo evidente enquanto criador do universo. O outro é o silêncio de Deus "perante o drama da história, devido ao sofrimento humano pessoal e colectivo e ao mal natural cego e à perversidade humana".”
Ou seja, o Deus de Anselmo Borges não é o Deus de Jesus Cristo. Por isso, é abusivo que ele relacione o Deus silencioso, por um lado, com o Deus cristão, por outro lado. É evidente que o Anselmo Borges volta ao problema da Teodiceia para justificar a irracionalidade ateísta; neste sentido, recordemos as palavras do filósofo Eric Voegelin:
« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.
É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.
Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.
Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »
O Domingos Faria elabora aqui um arrevesado lógico para chegar à conclusão de que Deus permite o Mal. O problema é o de que os ateus dizem que “se Deus é Bom, não deveria permitir o Mal” — ou seja, os ateus acham-se no direito de impôr a Deus aquilo que Ele deveria ou não permitir.
“Se existisse um Deus bom e omnipotente — dizem os ateístas — teria necessariamente que intervir contra os males. Porém, dado que existem os males, resulta daí — continua o argumento ateísta — que ou Deus não quer ajudar, e neste caso não é bom; ou não pode ajudar, e neste caso não é omnipotente.
Este argumento ateísta é completamente incongruente, porque quem afirma que a existência dos males no mundo é a prova da inexistência de Deus, parte do princípio de que tem o direito natural de viver em um mundo absolutamente positivo; o ateísta vê o problema da seguinte maneira: o bem entende-se por si mesmo; só o mal constitui problema.”
Este argumento ateísta afirmou-se, na cultura, com o Romantismo, com a sua tendência para identificar o finito com infinito (imanência, monismo). Trata-se de um erro de palmatória. Nicola Abbagnano faz a crítica ao romantismo de Hegel e Croce (§719):
“Mas como pode um espírito infinito (Deus), ou seja, por definição auto-suficiente, numa categoria sua (por definição, universal) ser necessidade, paixão, individualidade, etc., que são características constitutivas do finito como tal e elementos ou manifestações da sua natureza, é um problema que Croce (como Hegel) nunca considerou”.
Na literatura romântica portuguesa surge, por exemplo, “A Velhice do Pai Eterno” de Guerra Junqueiro, em que Deus é considerado “eterno”, ou seja, em que o “infinito” é traduzido por “eterno”.
Porém, o infinito não se confunde com o eterno: podemos dizer que o infinito concebe tudo o que está para além do espaço-tempo, sendo que, neste sentido, o infinito é “detectado” (por assim dizer) de uma forma objectiva pela Razão, pela Lógica, e pela matemática.
Na realidade subjectiva, o infinito também é "detectado" através da intuição do “ilimitado”, e também através do testemunho da interioridade que inspira o infinito que contém o finito (quando se fala do “Ser em Si”).
O Domingos Faria escreveu aqui um artigo de que podemos resumidamente retirar duas conclusões:
1/ para se poder negar um conceito, esse conceito tem que existir previamente; para se poder negar o Ser, o Ser tem que existir.
2/ qualquer negação da Metafísica é uma forma de metafísica.
Estes dois pontos são logicamente indiscutíveis; só um estúpido os colocaria em causa.
Convém, no entanto, sublinhar o facto de Deus não “existir” da mesma forma que existe o Domingos Faria, porque o Ser de Deus não existe no espaço-tempo. Em verdade, será mais correcto dizer que “Deus É”, em vez de dizer que “Deus existe”. 1
É evidente que o ateísmo (seja o que for o que isso signifique) é uma crença metafísica — porque qualquer negação da Metafísica é uma forma de metafísica — como bem demonstrou o Domingos Faria.
O Ludwig Krippahl vem a terreiro bradar contra a lógica. Aliás, uma das características dos chamados “ateus” é uma certa tendência para a negação da lógica e uma certa animosidade em relação à matemática, dando preferência às chamadas “ciências naturais” (o evolucionismo combinado com o monismo).
Ludwig Krippahl começa o seu discurso com um sofisma: mistura o “naturalismo”, por um lado, com “ateísmo”, por outro lado. Por exemplo, Espinoza foi um naturalista (“Deus sive Natura”) mas não foi propriamente um ateísta (o panteísmo é uma forma de naturalismo). Lamarck era um católico praticante. O próprio Darwin nunca se deu como ateu, mas antes como agnóstico. O Budismo é, de certa forma, naturalista. Portanto, não devemos confundir naturalismo e ateísmo.
A seguir, o Ludwig Krippahl desvia o foco da matéria, dado pelo Domingos Faria, através de uma narrativa que remete até para uma comparação entre um papagaio e o ser humano. Mas a conclusão da narrativa do Ludwig Krippahl vai de encontro à tese do Domingos Faria: “o ser humano tem uma capacidade cognitiva fiável para formar crenças verdadeiras”; e por isso é que o ateísmo é contraditório nos seus próprios termos.
Por exemplo, até há bem pouco tempo, nenhum ateu admitiria como crença verdadeira o conceito de "função de onda quântica"; e muito menos aceitaria o facto de a onda quântica não ser propriamente matéria, porque não tem massa. Hoje, qualquer pessoa que não admita o conceito de "função de onda quântica", não é só ateu: é burro!
A maior crença falsa e irracional que pode existir é a do ateu, porque acreditando na lei da causalidade, acredita contudo que não há uma causa para o universo. E, neste sentido, todas as religiões ou teorias filosóficas que defendem uma causa para o universo, são racionais.
Finalmente, uma citação do Ludwig Krippahl :
“Finalmente, o Domingos ignora o trabalho que se faz em ciência para ultrapassar as limitações das nossas capacidades naturais. A evolução não nos dotou de mecanismos fiáveis para detectar bandas de absorção nos espectros de estrelas ou modelar reacções enzimáticas. Nós é que construímos, passo a passo e peça a peça, instrumentos de medição, métodos, sistemas de representação quantitativa e imensas outras coisas para colmatar as lacunas que a biologia deixou”.
Este trecho é extraordinário porque concebe que existe uma evolução humana sui generis dentro da própria evolução geral: ou seja, “o Homem evolui-se a si mesmo”; o Homem é capaz de determinar a sua própria evolução — o que coloca em causa, por exemplo, o teorema de Gödel. Mas admito que, para o Ludwig Krippahl, contrariar o teorema de Gödel faça parte da genialidade dele.
Nota
1. “Eu Sou Aquele que Sou” – Êxodo, 3 – 14
Os ateus são pessoas que se reúnem — na Internet, em fóruns, em blogues, em colóquios, em conferências, etc. — para protestar contra Aquele (Deus) que eles dizem que não existe.
O Ludwig Krippahl escolhe bem as suas “vítimas”. Tentou “discutir” comigo acerca de religião, e cedo se deu conta de que mais valia procurar “vítimas” mais fáceis de “caçar”. A estratégia retórica do Ludwig Krippahl é a amálgama: mistura, em um mesmo texto, alhos com bugalhos, na esperança de que, através da ciência, se opere um milagre e os alhos se transformem em bugalhos (ou vice-versa). Olhem para este texto verifiquem a amálgama. Olavo de Carvalho tinha razão quando escreveu o seguinte:
“A mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.”
Refutar aquele texto do Ludwig Krippahl daria um ensaio de muitas páginas. A única forma de denunciar a erística dos argumentos-cacete do Ludwig Krippahl sem escrever um ensaio, é focalizando a nossa atenção em alguns argumentos-chave do referido texto: por exemplo, “verificação”, “crença”, “verdade”, “autoridade”, e obviamente “ciência” que, alegadamente, se opõe à religião.
Comecemos pela alegada oposição entre ciência e religião. “Oposição”, aqui, deve ser entendida no sentido dialéctico: “Não nos devemos cansar de estudar os extremos opostos das coisas. O mais importante não é encontrar o ponto comum, mas deduzi-lo dos contrários; é este o segredo e o triunfo da arte” (Giordano Bruno). Invoco aqui Bruno para que não se diga que estou a utilizar uma autoridade eclesiástica católica qualquer.
Mesmo que a religião e a ciência estivessem em oposição, não nos deveríamos cansar de estudá-las — embora o mais importante não seja encontrar o ponto comum, mas antes deduzir esse ponto comum dos dois contrários. Desprezar os contrários ou um dos contrários, significa estupidez.
Mas a verdade é que a ciência e a religião não se encontram em oposição.
Perante as descobertas científicas da física quântica, o materialismo ateísta é a maior estupidez que pode existir no século XXI. Ser materialista, no sentido ateísta, é a negação da ciência. O antagonismo clássico “ciência contra a religião” já não existe actualmente: foi a própria ciência que o eliminou, ao alterar a sua auto-concepção e a sua exigência de validade. Não é de admirar que, no fim da investigação das partículas elementares (física quântica), surja nos ateus materialistas um grande silêncio: pelo menos, o disparate do século XX seria perfeito.
Nas ciências empíricas, é discutível falar de "verificação". Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). A “verificação” do Ludwig Krippahl é isto: pode-se dizer que uma coisa é falsa, mas não se pode dizer que outra coisa é verdadeira. E ele sente-se superior às pessoas religiosas apenas e só por isto…!
Dizer que “apenas a religião se baseia em crenças”, é ser intelectualmente míope. Duma maneira geral, a crença é adesão a uma ideia, um pensamento, uma afirmação, uma teoria, um dogma… Nesse sentido, a ingenuidade, o preconceito, o erro, a fé, a opinião, assim como o saber científico, são diferentes formas de crença.
Por último, afirmar que “na ciência não há autoridade de direito”, é tentar enganar os pacóvios. Basta que na ciência existam paradigmas para que prevaleça sempre a autoridade dos que seguem o paradigma vigente.
“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.” — Leibniz
No seu livro “Filosofia Quântica” (edição americana, páginas 191/192), o físico francês Roland Omnès fala-nos do “efeito de túnel” ou “salto quântico” (tradução livre):
“Mesmo um objecto do tamanho da Terra pode estar sujeito a um efeito de túnel, pelo menos em princípio. Enquanto a força gravitacional do Sol impede a Terra de se afastar através de um movimento contínuo, contudo o nosso planeta poderia subitamente encontrar-se na órbita da estrela Sírio mediante um efeito de túnel.
(…)
Felizmente, mesmo que o determinismo não seja absoluto, a probabilidade da sua violação é extremamente pequena. Neste caso, a probabilidade da Terra se afastar do Sol é tão pequena quanto a de 10^200 (1 seguido de 200 zeros). (…) Em termos práticos, é um acontecimento que não terá lugar.
(…)
Uma característica destas flutuações quânticas [o efeito de túnel] que violam o determinismo [das leis da física clássica], é a de que não podem ser replicadas (repetidas).
Imaginemos que um efeito de túnel foi observado por muitas pessoas: elas vêem uma pequena pedra subitamente aparecer em um lugar diferente do que estava há milésimos de segundo. Essas pessoas realmente viram o fenómeno, mas nunca serão capazes de convencer mais alguém; nunca poderão demonstrar de forma irrefutável que o fenómeno se possa repetir. Tudo o que essas pessoas podem fazer é jurar: “Juro que a pedra estava ali, à minha esquerda, e que subitamente apareceu à minha direita!”. Em resposta, as pessoas que não assistiram ao fenómeno atribuirão esse juramento a gin ou whisky em demasia, outras dirão que aquela gente está maluca, e as pessoas que assistiram ao fenómeno acabarão por se convencer de que foram vítimas de uma alucinação.”
O Ludwig Krippahl escreve o seguinte:
“Hipóteses acerca de milagres ou magia devem ser relegadas ao fim da lista porque não as conseguimos testar. É sempre melhor optar por hipóteses testáveis pois só essas permitem corrigir erros.”
Por exemplo, um efeito de túnel pode ser possível em pequenos objectos — a probabilidade de efeito de túnel aumenta na proporção inversa da massa de um objecto. O efeito de túnel em uma onda quântica é coisa corriqueira. O efeito de túnel em um átomo é coisa vulgar. O efeito de túnel em uma molécula é altamente provável. À medida em que a massa de um objecto aumenta, diminui a probabilidade de efeito de túnel — o que não significa que o efeito de túnel em uma pequena pedra, por exemplo, seja improvável ou inverosímil.
Se é praticamente impossível que a Terra saia da sua órbita por efeito de túnel, a probabilidade de efeito de túnel aumenta muitíssimo quando se trata de uma pequena pedra, por exemplo. No entanto, o efeito de túnel não é um milagre no sentido teológico do termo; mas, se acontecesse um fenómeno destes visto por um grupo de pessoas, o Ludwig Krippahl iria dizer que “milagres ou magia devem ser relegadas ao fim da lista porque não as conseguimos testar” — e com alguma razão diz ele o que diz, porque como escreveu Roland Omnès, o fenómeno de efeito de túnel de uma pequena pedra visto por aquele grupo de pessoas seria praticamente irrepetível e, portanto, não seria “testável”.
E continua o Ludwig Krippahl:
“Portanto, a forma racional de concluir acerca do que existe não é escolhendo boas razões. É organizando a informação relevante numa interpretação consistente que dependa o menos possível de premissas gratuitas e assente o mais possível em hipóteses testáveis e informativas.”
Confunde-se aqui “boas razões”, por um lado, com as “razões suficientes” de que nos falava Leibniz. Quando se diz “boas razões”, quer-se dizer “razões suficientes”.
Por outro lado, um fenómeno como o efeito de túnel não é “testável” estatisticamente, mas nem por isso é impossível — a não ser que o Ludwig Krippahl, do alto da sua sabedoria ateísta, considere o físico Roland Omnès como um idiota ignorante (eu não ficaria espantado se tal acontecesse). Aliás, note-se que Roland Omnès é agnóstico, mas mais humilde do que o Ludwig Krippahl.
Outra burrice do Ludwig Krippahl é falar em “vários deuses propostos por aí”, em vez de se ater à possibilidade de um princípio causal do universo a que o Cristianismo chama de Deus, o Taoísmo de Tau, o Judaísmo chama de Yahweh, o Islamismo chama de Alá, etc.. — o que apenas revela, da parte dele, uma total ignorância da história das religiões, e, portanto, ele fala daquilo que absolutamente desconhece, o que é lamentável.
O que o Ludwig Krippahl pretende dizer, em resumo, com aquele relambório contra as “crenças religiosas”, é o seguinte:
“O critério da verdade é a verificação 1. Tudo o que não é verificável é de verdade duvidosa”.
Por um lado, o fenómeno relatado por Roland Omnès do efeito de túnel de uma pequena pedra, sendo possível, não seria nunca, jamais, verificável. Portanto, mesmo que o dito fenómeno seja visto por um grupo de pessoas, é considerado pelo Ludwig Krippahl como uma falsa crença talvez devido a uma alucinação daquelas pessoas (ou muito vinho à mistura).
Mas, por outro lado, essa proposição (“o critério da verdade é a verificação”) não é, ela própria, verificável! — o que significa que a ciência parte do mesmíssimo princípio metafísico que fundamenta as religiões; mas duvido que alguma vez o Ludwig Krippahl derreta o alcatrão que tem no cocuruto da sua (dele) cabeça para perceber uma coisa tão simples.
Nota
1. Processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição. A verificação demonstrativa pertence à ordem do cálculo, no que diz respeito às ciências formais.
Nas ciências empíricas, é discutível falar de "verificação". Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). Quando a hipótese passa com sucesso um controlo que a poderia ter “falseado”, é melhor falar, em vez de “verificação”, de confirmação ou de corroboração, que são sempre “até prova em contrário”.
O filósofo ateu John Gray publica um texto que deve ser lido nomeadamente por ateus e naturalistas como por exemplo os inquilinos do Rerum Natura. Duvido que compreendam o conteúdo do texto, mas aqui fica a dica.
“In fact there are no reliable connections – whether in logic or history – between atheism, science and liberal values. When organised as a movement and backed by the power of the state, atheist ideologies have been an integral part of despotic regimes that also claimed to be based in science, such as the former Soviet Union. Many rival moralities and political systems – most of them, to date, illiberal – have attempted to assert a basis in science. All have been fraudulent and ephemeral. Yet the attempt continues in atheist movements today, which claim that liberal values can be scientifically validated and are therefore humanly universal…
(…)
Evangelical atheists today view liberal values as part of an emerging global civilisation; but not all atheists, even when they have been committed liberals, have shared this comforting conviction. Atheism comes in many irreducibly different forms, among which the variety being promoted at the present time looks strikingly banal and parochial…
(…)
The predominant varieties of atheist thinking, in the 19th and early 20th centuries, aimed to show that the secular west is the model for a universal civilisation. The missionary atheism of the present time is a replay of this theme; but the west is in retreat today, and beneath the fervour with which this atheism assaults religion there is an unmistakable mood of fear and anxiety. To a significant extent, the new atheism is the expression of a liberal moral panic.
(…)
Sam Harris, … who was arguably the first of the “new atheists”, illustrates this point. Following many earlier atheist ideologues, he wants a “scientific morality”; but whereas earlier exponents of this sort of atheism used science to prop up values everyone would now agree were illiberal, Harris takes for granted that what he calls a “science of good and evil” cannot be other than liberal in content.
(…)
Today, it’s clear that no grand march is under way… But the ongoing reversal in secularisation is not a peculiarly Islamic phenomenon.
(…)
The resurgence of religion is a worldwide development. Russian Orthodoxy is stronger than it has been for over a century, while China is the scene of a reawakening of its indigenous faiths and of underground movements that could make it the largest Christian country in the world by the end of this century. Despite tentative shifts in opinion that have been hailed as evidence it is becoming less pious, the US remains massively and pervasively religious – it’s inconceivable that a professed unbeliever could become president, for example.”
Embora existam vários modelos de ateísmo1, podemos conceber genericamente o ateísmo como a consequência de uma explicação materialista da origem e da evolução do universo e do homem. Ora, se tomarmos em consideração as recentes descobertas da Física, alguém que tenha uma visão materialista do mundo — que inclui o universo e o homem — só pode ser um estúpido, porque nega a própria ciência. O ateísmo é sinónimo de materialismo.
Não devemos confundir ateísmo, por um lado, com agnosticismo, por outro. Com as descobertas recentes da Física, um filósofo ateu (materialista) é uma aberração intelectual; mas um filósofo agnóstico já é intelectualmente tolerável.
Quando falamos em “religiões”, não devemos meter todas no mesmo saco, como se faz aqui — porque, por exemplo, os princípios e valores éticos que norteiam o Cristianismo são diferentes dos princípios e valores que norteiam a religião dos habitantes canibais das montanhas da Papua-Nova Guiné. Meter as religiões todas no mesmo saco revela estupidez.
Um ateu moderno, por mais que o negue, está eivado de cultura cristã, seja através da cultura antropológica, seja através do legado histórico da Europa. Em princípio, um ateu moderno europeu assimilou alguns valores cristãos através da cultura antropológica em que está inserido.
Quando se diz que “um ateu não é mais propenso à imoralidade do que um católico”, por exemplo, joga-se com a ignorância (politicamente correcta) do conceito de juízo universal: pelo facto de conhecermos um ateu moralmente íntegro, isso não significa necessariamente que a moralidade dos ateus, em geral, seja equivalente ou superior à dos católicos. Por outro lado, há muita gente que se diz “católica” mas que não respeita os valores da ética cristã (na prática, são ateus).
A ética ateísta é responsável pelo maior morticínio de que alguma vez rezou a História: o holocausto silencioso de milhares de milhões de seres humanos, ou seja, o aborto.
Quando se invoca um texto de S. Tomás de Aquino em que ele diz que a pena de morte aplicada a um herege é executada pelo poder político e secular, e ao mesmo tempo se invoca um pretensa superioridade da ética ateísta que legitima o aborto como um valor ético — estamos em presença da indigência intelectual e moral da actual Academia.
Nota
1. o materialismo dito “científico”, ou marxismo; o neopositivismo; Nietzsche e os seus seguidores; o Existencialismo ateu.
O Dr. Ricardo Castañón Gómez não consta na Wikipédia: para além de ser uma pessoa inconveniente, é politicamente incorrecta. Tal como ele diz, 50% dos cientistas não acreditam que o ser humano tenha espírito; pensam que o Homem é uma espécie de macaco.
Portanto, o sistema cientificista e empirista impõe as suas regras na cultura antropológica, uma vez que o cientismo tende a substituir a religião e a transformar-se, ele próprio, em uma religião.
O Dr. Ricardo Castañón Gómez é um neurologista boliviano e foi, até há poucos anos, um ateu convicto. No seguimento de investigações científicas, mudou de ideias.
Não me queria referir a este assunto, porque o estado de saúde de Stephen Hawking merece misericórdia e respeito. Mas já que Carlos Fiolhais se referiu ao assunto, aqui vai.
O pensamento de Hawking é a negação do nexo causal, portanto, na prática, acientífico. A ideia de “um universo que se pode criar do Nada, por geração espontânea”, é acreditar num milagre. É evidente que existe aqui implícita a ideia de um “milagre”, e essa ideia de milagre (entendido em si mesmo) é de origem cristã (no caso de Hawking).
Quando Stephen Hawking fala em “mente de Deus” e “mente humana” (em inglês: “mind”, que significa também “espírito”), está a utilizar conceitos cristãos.
Por exemplo, um ateu propriamente dito e coerente, em vez de dizer à sua mulher “Amo-te de corpo e alma”, diria o seguinte: “Querida! A dopamina tomou conta do meu bolbo caudal raquidiano!”
Para um ateu não pode, em coerência, existir “mente” ou espírito”: antes existe uma caixa craniana com um montão de moléculas em constantes reacções químicas; também não pode existir “verdade”, porque o montão de moléculas em reacções químicas pode induzir tipos de verdades diferentes dependendo dos indivíduos. A minha química pode chegar a uma conclusão diferente da tua; por isso a verdade não existe e a ciência também não.
Há uma coisa que eu admiro em Stephen Hawking: tem uma vontade estóica. Qualquer pessoa na situação dele já tinha defendido a eutanásia. E essa qualidade de Stephen Hawking não pode ser escamoteada.
O argumento clássico do ateísmo — talvez o único argumento racional ateísta — contra o Ser de Deus — e não contra a “existência” de Deus, porque Deus não existe da mesma forma que um objecto na nossa realidade de sujeito/objecto — é a chamada de atenção para a existência de sofrimento, mal e dores absurdas. É o caso deste texto de Michael Tooley (dica daqui e daqui).
“Se existisse um Deus bom e omnipotente” — dizem os ateístas — “teria necessariamente que intervir contra os males. Porém, dado que existem os males, resulta daí” — continua o argumento — “que ou Deus não quer ajudar, e neste caso não é bom, ou não pode ajudar, e neste caso não é omnipotente”. Esta é a questão da Teodiceia que foi abordada, nomeadamente, por Leibniz.
Este argumento ateísta é completamente incongruente, porque quem afirma que a existência dos males no mundo é a prova da inexistência de Deus, parte do princípio de que tem o direito natural de viver em um mundo absolutamente positivo: como escrevi em um verbete anterior, o ateísta vê o problema da seguinte maneira: o bem entende-se por si mesmo; só o mal constitui problema.
Mas o ateísta que vê assim o problema pressupõe que o Ser é indiscutível, evidente e, em princípio, positivo. Ou seja: quem argumenta contra a ideia de Deus, invocando os males do mundo, só pode fazê-lo se já aceitou previamente o conteúdo da concepção de Deus. Por outro lado, também seria pertinente que os ateístas perguntassem ¿por que existe o Bem?, se o mundo e o Ser não passam de produtos de um Nada absurdo. ¿Por que existe o Bem? Por que são possíveis a felicidade e a satisfação?, se seria mais previsível — segundo a ideia ateísta — esperar um mundo completamente caótico que não teria de criar ordem e leis da natureza.
Há que distinguir entre “mal moral”, por um lado, e “mal físico”, por outro lado. Os males morais são os que decorrem de acções imorais, por exemplo, assassinatos, desprezo pela dignidade humana. Os males físicos decorrem de processos naturais pelos quais o ser humano não é responsável, por exemplo, catástrofes naturais, doenças.
Os males morais resultam do livre-arbítrio concedido por Deus ao ser humano. Sem a liberdade de escolha, não existe qualquer “Eu” nem qualquer autoconsciência. Deus não quis robôs, mas sim seres humanos responsáveis. Se não é possível nenhum acto mau, também não é possível um acto bom. As possibilidades do bem e do mal são constitutivas para o ser humano.
Se não existisse uma regularidade das leis da natureza, o ser humano não poderia ter livre-arbítrio: a constância do mundo e das leis da natureza são o fundamento da liberdade moral. Se Deus criou o ser humano com livre-arbítrio e responsabilidade, então também Ele tem que querer que o mundo e as leis da natureza sejam constantes e minimamente previsíveis. Em um mundo caótico não existe qualquer responsabilidade. Em suma: a regularidade das leis da natureza faz parte dos pressupostos da acção moral.
¿Por que razão Deus não planeou o mundo sem catástrofes naturais? As catástrofes naturais são consequências das leis da natureza e têm como fundamento a regularidade das leis da natureza.
Os males físicos permitem a concretização de valores humanos, por exemplo, a compaixão e a solicitude: o preço a pagar por um mundo sem qualquer mal físico seria um mundo no qual não seriam possíveis nem responsabilidade, nem livre-arbítrio, nem qualquer concretização de valores humanos.
Uma outra questão é a de saber se Deus pode ajudar; mas essa dava um outro verbete.
“¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno? Na realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade, de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma ordem elevada do mundo objectivo, que, objectivamente, não se podia esperar, de maneira alguma.
Aqui está o “milagre” que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.”
(Albert Einstein — “Worte in Zeit und Raum”)
“A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo do existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda. É possível exprimir o estado das coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega” (ibidem)
Há três tipos de ateu: o “ateu racionalista”, o “ateu místico”, e o ateu propriamente dito.
Um exemplo de um ateu racionalista foi Espinoza: na sua Ética referiu-se sistematicamente a Deus porque a Razão era vista por ele como um dom divino e, por isso, uma característica do ser humano que não só se identificava com Deus, mas que era (o homem) também parte integrante de Deus (Deus sive Natura). Este tipo de ateu vive ofuscado pela imagem do Todo e perde o sentido utilitarista da vida: na maior parte dos casos assume uma ética não-utilitarista e é capaz de grandes gestos humanitários.
O ateu místico pode ser representado, por exemplo, por Albert Camus. É o ateu que faz a crítica do racionalismo, acusando-o de tentar submeter o Real ao domínio da Razão. Para ele, a submissão do Real ao Racional é a causa das hecatombes humanitárias do século XX, dos morticínios em massa que têm a sua origem numa falsa escolástica (a ideologia política) que justifica racionalmente os assassínios sacrificiais da modernidade. Este tipo de ateu também não é utilitarista e tem uma sensibilidade ética apurada.
Finalmente, temos o ateu propriamente dito, que pode ser representado por Peter Singer ou pelo Daniel Oliveira. O ateu propriamente dito é aquele que tenta submeter o Real ao Racional, embora o racionalismo deles não passe de uma falsa escolástica afinada para matar em massa: são eles os responsáveis pelos milhões de vítimas inocentes abortadas pela tentativa de submissão do Real à Razão deificada.