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terça-feira, 22 de julho de 2025

O José Pacheco Pereira, e o maniqueísmo Marcuseano do “mundo dos brutos” que não são de Esquerda


O José Pacheco Pereira escreveu um artigo no jornal Púbico com o título “O mundo é dos brutos — a ascensão da violência e a queda da empatia”. A crítica do José Pacheco Pereira resume-se, mutatis mutandis, a um tipo de sociedade que institucionaliza “a pena de morte, a tortura, censura, ausência de direitos, em que todos são indefesos face aos mais fortes” (sic).


Ora, aquela elite que trabalha afanosamente para a “queda da empatia” (atomização da sociedade) é a mesma que se assume como concordante com o artigo do José Pacheco Pereira: é isto o que os anglo-saxónicos chamam de “SPIN”.

Por exemplo, a pena-de-morte, entendida como a legitimação da afirmação cultural de um acto gratuito, é hoje praticada mediante o aborto “a pedido da freguesa”, o que revela de facto uma “queda de empatia” na cultura antropológica do Ocidente; mas não tenho dúvidas de que o José Pacheco Pereira, como bom esquerdista, é a favor da prática social e cultural do aborto.

Ou seja, a Esquerda pratica o crime cultural procurando não deixar impressões digitais, e acusando os outros daquilo que ela própria faz.

O mesmo se passa com a eutanásia “a pedido do freguês” (defendida pela Esquerda), que rapidamente se transforma em uma pena-de-morte utilitarista e prescritiva. Porém, as mesmas pessoas que defendem a eutanásia são as que vêm a terreiro dizer que “os brutos são os outros que não concordam connosco”.

O maniqueísmo da Esquerda não é baseado em factos (intersubjectividade): em vez disso, é baseado em sentimentos, em subjectividade e mundividência (muitas vezes psicóticas ou fundamentadas por uma Fé Metastática) circunscritas a um determinado grupo cultural elitista.

O maniqueísmo da Esquerda é uma transposição do maniqueísmo gnóstico da Antiguidade Tardia, em que os Pneumáticos iluminados (de Esquerda) “se salvam”, ao passo que os Hílicos (os brutos, que não alinham ideologicamente com os iluminados) se perdem no curso da História, e deveriam ser mesmo eliminados.

Por exemplo, o José Pacheco Pereira critica Comte e as consequências do Positivismo; a Esquerda racionalista (Carlos Fiolhais, e quejandos) venera o Positivismo de Comte; e, no entanto, esta Esquerda afirma que concorda com o Pacheco Pereira. É um SPIN vergonhoso.

O texto do Pacheco Pereira é “reaccionário”, entendido no sentido da filosofia comunitarista; poderia ter sido escrito por A. MacIntyre, Michael Walzer, ou Charles Taylor — o que está nos antípodas do que pensam os compagnons de route do Carlos Fiolhais.

No blogue Rerum Natura não há outra coisa senão “deslumbramento tecnológico” e científico positivista (por exemplo, o Galopim e o Eugénio Lisboa), e anti-religião. O impacto da ciência sobre a religião aconteceu no século XIX; o que acontece hoje é o impacto da técnica sobre a imaginação dos imbecis elitistas que pretendem construir um putativo Mundo Novo nietzscheano que tenta transformar a Natureza Humana — porque as opiniões mudam, a elite esquerdista, relativista e imbecil crê que as verdades mudam também.

Para não pensar no mundo que a ciência descreve, a elite positivista esquerdista embriaga-se de técnica. O técnico crê-se superior aos demais porque sabe o que, por definição, qualquer pessoa pode aprender. Esperar que a vulnerabilidade crescente de um mundo exponencialmente integrado pela técnica não exija um despotismo total, é mera estupidez.

terça-feira, 8 de março de 2022

Não confundir Iluminismo e Positivismo

Vemos aqui um texto de Kant — talvez o último filósofo iluminista.

Um dos grandes erros de alguns académicos em filosofia é confundir o Iluminismo (por exemplo, Kant), por um lado, com o denominado “Idealismo” (por exemplo, Hegel, que nada tem a ver com o Idealismo/Realismo de Platão). O Idealismo de Hegel, ou de Fichte, são derivas do Romantismo.

As principais conquistas intelectuais dos últimos dois mil anos foram 1/ o Cristianismo e popularização da ideia de “Criação”, 2/ o princípio da inércia, 3/ o Criticismo (Kant), 4/ a noção de “selecção natural”, e 5/ o conceito de “historicidade” — porém, isto não significa que Kant não seja criticável; mas Hegel não passou de um bom jurista.

Conforme podemos verificar no referido texto de Kant — e ao contrário do que preconizava o Idealismo, que foi um monismo determinista —, o Iluminismo adoptou a defesa do livre-arbítrio no ser humano.


Vejamos a frase que abriu o referido trecho:

«O dever é a necessidade de cumprir uma acção por respeito à lei.»

Está subentendida, ali, a “lei dos homens”; mas não só: está implícito o respeito pela Lei Natural (não confundir com Leis da Natureza, ou leis científicas) — as leis naturais são de explicação irredutível, como qualquer mistério — e pelo tabu que decorre da violação da Lei Natural, sendo que o tabu é o pilar de um sistema moral viável.

A “lei dos homens” (o Direito) deve ser baseada na Lei Natural (são os chamados “princípios metajurídicos” necessários a um Direito coerente, que a jurista Isabel Moreira tanto despreza).

Princípios metajurídicos = princípios que estão para além (ou antes de) do jurídico.

Sem este “para além do jurídico”, o Direito torna-se aleatório e sujeito à vontade arbitrária de uma elite composta de gente desligada da realidade, neognóstica, decadente, mimada e mesmo pueril, como é por exemplo a Isabel Moreira.

isabel moreira antinatural web


É verdade que a Lei Natural descreve meramente o comportamento de um sistema definido; na Lei Natural não há necessidade, nem finalidade. Na Lei Natural, a necessidade é metáfora lógica, e a finalidade é metáfora mental. Com a defesa do livre-arbítrio no ser humano (a “vontade”, de Kant), a liberdade individual instala uma necessidade no seio de uma contingência: um valor estético na pintura, por exemplo, é uma configuração de pigmentos. Ou o Pártenon, assente na sua rocha, é uma necessidade levantada por um acto livre sobre um facto bruto; mas este “facto bruto” não deixa de ser um princípio subjacente à liberdade humana.

A Lei Natural é o facto bruto sobre o qual o ser humano assenta o Direito Positivo.

A negação da influência do Direito Natural no Direito Positivo (defendido pela Isabel Moreira, por exemplo) implica a transformação dos membros da elite social em espécie de deuses. E isto já não tem nada a ver com o Iluminismo de Kant (livre-arbítrio), mas antes tem a ver com o Positivismo (determinista, não para ela, mas sim para os outros) que é o Romantismo na ciência.

domingo, 11 de novembro de 2018

¿Quem te manda a ti, sapateiro, tocar tão mal rabecão?

 

O Carlos Fiolhais escreveu o seguinte (ver ficheiro PDF):

“Já está nas bancas o novo livro de Peter Atkins, químico e escritor de ciência que estará em Lisboa no Auditório do Oceanário na próxima sexta-feira para fazer uma conferência a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O livro, uma edição apoiada por aquela Fundação, intitula-se "Como surgiu o Universo" (colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, excelente tradução de Fátima Carmo) e subintitula-se "As origens das leis naturais".

Para Atkins o Universo surgiu espontaneamente, sem necessidade de intervenção de um criador.”


Longe vão os tempos em que Einstein dizia que “Deus não joga aos dados”; hoje, os palhaços que mandam na ciência transformam Einstein num palhaço.

¿Por que razão um químico se aventura na metafísica, em vez de se concentrar nas retortas de alquimista? E ¿por que razão o Carlos Fiolhais escreve sistemicamente asneiras?

O discurso do referido químico é anti-realista (contra o realismo filosófico) quando revela a habitual hostilidade empiricista em relação à matemática, por um lado, e é positivista, por outro lado. Continuamos com a mania da predominância do positivismo na cultura “intelectual” — eu, que pensava que o positivismo tinha sido metido no seu lugar próprio.


atkins

Num outro postal, o Carlos Fiolhais continua com a saga do referido químico (ver ficheiro PDF):

"Gostaria de afirmar que não aconteceu nada de extraordinário na Criação” — escreveu o químico. Naturalmente que o Carlos Fiolhais, com o seu cérebro de galináceo, subscreve esta teoria segundo a qual “não aconteceu nada de extraordinário na Criação”; porque, caso contrário, o Carlos Fiolhais teria escrito qualquer coisa em contraditório.

Escreve o químico retardado:

«Não aconteceu nada de extraordinário? Sim, é um grande passo pensar em toda essa hiper-actividade, energia e emergência [do Big Bang] da matéria fundamental em geral como não sendo nada de extraordinário.»

naturalismo_darwinO químico retardado classifica o início do universo como um “enigma”; ora, um enigma tem resolução. O que ao tem resolução científica, nem terá, é um “mistério”. Podemos inferir a forma do fenómeno do Big Bang, mas nunca saberemos exactamente o seu conteúdo. Por isso trata-se de um mistério, e não de um enigma. Mas falar disto ao Carlos Fiolhais é perder tempo com alguém que utiliza sistematicamente o argumento Ad Verecundiam nos seus textos → não é por que um homem é químico que tem autoridade em metafísica, ou mesmo na física.

O texto do químico é histriónico. A ideia-base do químico é a seguinte: se nós dissermos, por exemplo, que “o sistema imunitário animal é um sistema muito simples e de fácil construção”, então torna-se provável que a ciência consiga explicar a construção do sistema imunitário.

Estamos em presença da invasão da ciência por parte do subjectivismo pós-modernista que caracteriza a politização da ciência pelo marxismo cultural. Ou seja: para o referido químico, as coisas não são o que são: em vez disso, as coisas são aquilo que nós quisermos que sejam. Não tarda nada veremos o químico mudar de sexo.

Mais tarde, no texto, o químico rectificou a teoria e diz que “o universo surgiu do nada” (plagiou a tese do paraplégico Hawking) . Naturalmente que teríamos que definir “nada”. Mas, para estes “cientistas” da treta, as definições contam pouco: o que interessa é a prestidigitação das palavras para enganar os incautos — a “traição dos intelectuais”, de acordo com Julian Benda.

A partir deste livro (o do referido químico e endossado pelo Carlos Fiolhais) ficou demonstrado que “a ciência pode provar que uma coisa não existe” — o que revela um avanço metafísico enorme na ciência marxista cultural.


Repare bem, caro leitor, em um par de pérolas do químico endossado pelo Carlos Fiolhais :

“a eliminação de uma pergunta pode ser uma forma legítima de lhe responder”

“Sem actividade, não é necessário agente.”

Coloco aqui, por exemplo, a pergunta de Leibniz: “¿por que razão existe algo, em vez de nada?”. Segundo o referido químico e o galináceo cerebral Carlos Fiolhais, basta eliminar a pergunta de Leibniz e fica o problema resolvido. “Prontos! Negamos a pregunta e tomaticamente ficou respondida a pregunta!”

A ideia do químico é a de que o estado actual do conhecimento científico é suficiente e bastante (presentismo epistemológico); a dinâmica da epistemologia é negada em função de uma obsessão anti-metafisica (esquecendo-se que a negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica) — assim como Galileu errou a sua teoria das marés por ter subestimado a influência da Lua nas marés, devido à sua (dele) obsessão contra a astrologia.


¿Quem te manda a ti, Carlos Fiolhais, tocar tão mal rabecão? Dedica-te à pesca!

sábado, 14 de julho de 2018

O Positivismo foi a origem da desgraça moderna portuguesa

 

“O país [Portugal], por essa época [princípio do século XIX], conhecia e lia Blackstone, Smith, Locke, Hume, Tocqueville, Ricardo, o constitucionalismo histórico inglês, a Revolução Gloriosa e a Americana e, ainda assim, preferiu a Enciclopédia e 1789. ¿Porquê?”

→ ainda vão a tempo


A principal causa dessa opção “afrancesada” é a oposição radical do Positivismo (francês de gema) em relação à Igreja Católica — o mesmo Positivismo que influenciou determinantemente o liberalismo do imperador/rei maçon D. Pedro, e de tal forma que o império brasileiro foi marcado pelo Positivismo, e mesmo a actual república federativa brasileira tem (ainda!) bem marcado o Positivismo na sua própria bandeira.

Em Inglaterra, e na cultura anglo-saxónica em geral, o Positivismo não pegou de estaca — o Positivismo é uma manifestação do Romantismo. Por exemplo, John Stuart Mill teve correspondência com Augusto Comte, e criticou-lhe o dogmatismo. Os ingleses preferiram (por uma questão de cultura antropológica e tradição) o empirismo ao romantismo do continente europeu, então muito na moda.

Em Portugal, as elites revolucionárias anticatólicas (maçonaria) serviram-se do Positivismo para tentar destruir a Igreja Católica e a religião, e para espoliar as terras dos mosteiros da Igreja Católica semeando a fome e a guerra civil que durou décadas.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Quem escreve o que o professor Galopim de Carvalho escreve, só pode ser burro

 

“À ciência se pode objectar a facilidade com que cai em mãos de imbecis — se o caso da religião não fosse igualmente grave”.

→ Nicolás Gómez Dávila


Desde que o professor Galopim de Carvalho escreveu que a vida surgiu da evolução da matéria inerte, deixei dar valor ao que ele escreve; até ontem, quando li uma nova pérola do professor:

“O pensamento, não surgiu no cérebro humano da noite para o dia. É um produto imaterial da matéria”.

Perante isto, gostaria que o professor nos dissesse ¿o que é a “matéria”? E se ele não souber o que é a “matéria”, que pergunte ao Carlos Fiolhais que é o génio que nos pode ajudar a definir “matéria”.


atenc3a7c3a3o-ao-burroO professor Galopim é um burro que escreve para o comum dos burros; cumpre a sua missão de abrutar o mundo; tal como os cientistas do século XIX, acredita que a vida surge da lama depois da chuva. E o pessoal do Rerum Natura bate palmas.

O blogue Rerum Natura  é um exemplo do Imbecil Colectivo .

O arquétipo mental do professor é o do século XIX: segue o positivismo, e o cientismo  — que é a ideia segundo a qual a ciência resolverá progressivamente todos os problemas dos seres humanos. Só um burro pensa assim.

A partir das bases ideológicas do positivismo e do cientismo, o professor constrói uma estória (uma narrativa) da carochinha (era uma vez...). O professor Galopim será, talvez, umas das poucas pessoas, em todo o mundo, que consegue definir “realidade” — os burros, na sua simplicidade, conseguem definir o que quiserem. E a acromania dá licença para tudo.


Albert Einstein ( que dizem que era ateu ou agnóstico) escreveu no seu livro “Worte in Zeit und Raum” (1992, Bonn):

“Mesmo que os axiomas de uma teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo, o que não se poderia esperar de maneira alguma”.

Ou seja, mesmo os ateus inteligentes têm a humildade e a sabedoria necessárias para não dizer asneiras. A vanguarda da ciência é cautelosa. Mas quando topamos com um ateu burro, lidamos com a plebe profissional que segue a vanguarda científica de uma forma presunçosa.

O professor Galopim de Carvalho não tem capacidade para falar de assuntos que extravasem a sua especialidade técnica. Melhor fora (para ele e para todos) ficar calado.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Quem não concorda com a metafísica do Carlos Fiolhais, é ignorante

 

“Donald Trump não será um ditador, embora tenha tiques ditatoriais. É simplesmente um ignorante que desvaloriza o conhecimento científico para impor a sua agenda unilateral e egoísta”.

→ Rerum Natura : “a ciência e os seus inimigos”


É muito difícil aturar gente como o Carlos Fiolhais — desde logo porque assumem uma condição de superioridade moral e exibem o monopólio da virtude. Naturalmente ao Carlos Fiolhais diz que o Donald Trump é “ignorante” porque este duvida da teoria  do Aquecimento Global Antropogénico (sublinho: é uma teoria, porra!).

Quem não acredita na fé do Aquecimento Global Antropogénico é um relapso que tem que ser castigado.

É óbvio que o Carlos Fiolhais é como uma melancia: vermelho por dentro e verde por fora. Os novos malthusianos são comunistas disfarçados de humanistas. O Carlos Fiolhais faz parte daquela “ciência” que pretende 1/ reduzir a taxa de natalidade das mulheres; 2/ elaborar um modelo de população humana “cientificamente defensável” tendo em vista a redução da natalidade humana.

O Carlos Fiolhais é uma contradição com pernas: diz ele que, “em ciência, tem razão quem tem provas” (falta saber o que é uma “prova”); mas quando alguém lhe diz que “não há provas de que exista um Aquecimento Global Antropogénico”, o Carlos Fiolhais chama-o de “ignorante”, fazendo uso de uma putativa autoridade de direito que lhe permite escrever livros autoritaristas acerca da ciência.

Para o Carlos Fiolhais, “a ciência precisa da liberdade de pensamento” — excepto aquela liberdade do pensamento em relação ao qual ele não concorda. Tudo o que vá contra a fé cientificista do Carlos Fiolhais é “ignorância”.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Síntese crítica da teoria subjectivista niilista de Peter Singer (parte 1)

 

Um dos problemas do consequencialismo (em ética), é a certeza do futuro. O consequencialista puro tem a certeza do futuro.

Por exemplo: se eu vejo um automóvel a uma velocidade de 150 quilómetros / hora dentro da cidade, posso afirmar o seguinte:

“É provável que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Se o automóvel vai a 80 quilómetros / hora, posso dizer:

“É verosímil que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Se o automóvel vai a 40 quilómetros / hora, posso afirmar:

“É possível que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Mas em nenhum caso posso ter a certeza, porque ninguém conhece o futuro. Mas o consequencialista conhece o futuro: senão vejamos o que diz o Peter Singer:

“On absolute moral standards: There are still absolutists. Some are proponents of the “new natural law” tradition, which has its roots in Catholic moral theology, even though it is presented as a secular position. Others are Kantians, many of them outside English-speaking philosophy. In Germany, for example, you would find wide support for the idea that we should not torture a child, even if (as in Dostoevsky’s example in The Brothers Karamazov) that would produce peace on earth forever. To me it seems obvious that if by torturing one child you could prevent a vast number of children (and adults) suffering as much or more than the child you have to torture, it would be wrong not to torture that child.”

Peter Singer diz que torturar uma criança não é mau, se a tortura dessa criança evitar que um vasto número de crianças e adultos venham a sofrer também (o nazi Josef Mengele pensava da mesma forma, quando fazia experiências médicas com crianças judias).

Há aqui uma certeza, da parte de Peter Singer: a de que a consequência do sofrimento (causado propositadamente) dessa criança aliviará, no futuro, o sofrimento de muitas outras crianças e de adultos. E por isso, diz Peter Singer, a tortura dessa criança até é coisa muito boa de se fazer; porque ele tem a certeza do futuro, tal como Mengele tinha.

Mas se a tortura for aplicada em um porco ou num cão, Peter Singer já não concorda com o seu próprio consequencialismo, porque ele considera que um porco ou um cão é um animal superior a uma criança. Mas deixemos esta incongruência para um outro verbete.

Não sei se Peter Singer tem filhos, mas se torturassem um filho dele para “bem da humanidade”, talvez ele não ficasse feliz. Talvez ele não tenha filhos para poder defender a tese da “tortura racional de uma criança”. (Por outro lado, Peter Singer é contra a tortura de terroristas islâmicos no GITMO; porque um terrorista islâmico é um adulto, e não uma criança: para Peter Singer, uma criança tem um valor ontológico inferior a um adulto).

O problema do consequencialismo puro é que não distingue o racionalmente impossível, o possível, o verosímil, o provável, e a certeza.

Para o consequencialista puro, o futuro é sempre uma certeza subjectiva, ou intersubjectiva de uma elite. E como o futuro é sempre uma certeza da elite, a sua moral é teleológica: os fins justificam quaisquer meios, porque se tem a certeza de que os fins se realizarão exactamente conforme o pressuposto.

No consequencialista puro coexiste um romântico e um positivista (porque o positivismo é o romantismo da ciência).

Mas mesmo que tivéssemos a certeza do futuro, segundo o qual a tortura de uma criança beneficiaria muitas outras crianças e adultos, essa tortura seria barbárie, do ponto de vista ético — porque nem todos os fins justificam quaisquer meios; há limites.

E aqui o limite é o do ADN da criança que é um ADN humano, único e irrepetível.

O que nos separa irredutivelmente de Peter Singer é o valor do ser humano: para ele, o ser humano tem um determinado valor, dependendo se é uma criança, um adulto ou um velho. Porém, o problema de Peter Singer é que não existe um consenso universal e geral sobre quanto vale um ser humano; e portanto, o valor que ele dá ao ser humano é um valor subjectivo que, ipso facto, não pode ser universal e, por isso, não se pode transformar em uma teoria ética propriamente dita.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O “eunuco espiritual”, segundo Eric Voegelin

 

Na sua obra “História das Ideias Políticas”, Eric Voegelin explica-nos aquilo que ele chama de “eunucoidismo espiritual”. Vou tentar traduzir aqui esse conceito, segundo Eric Voegelin. Os trechos a itálico reflectem a terminologia do próprio Eric Voegelin.

Com o positivismo, a ciência adquiriu a característica de um pathos (do grego, “paixão”) de autonomia e auto-confiança (ou pathos cientificista), que deriva da verificação da causalidade empírica dos fenómenos. Se uma determinada relação causal fenoménica é constatada pela ciência, esta adquire essa auto-confiança que não existe naturalmente na condição existencial do ser humano.

A condição existencial, natural e normal do ser humano, é a da incerteza; em contraponto, a condição normal da ciência positivista é da “certeza” em função da verificação  empírica  da causalidade de parte dos fenómenos , e de uma auto-confiança que essa “certeza” lhe dá ― pelo menos é assim que a “verdade” da ciência é interpretada pelo eunuco espiritual.

Contudo, o que a ciência e o método positivista não fazem é a pesquisa sobre as “causas primeiras”, ou seja, aquelas causas em relação às quais não existem verificações empíricas de causalidade; essa pesquisa pertence exclusivamente à filosofia. Por exemplo, quando dizemos que “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre de 180 graus”, a ciência apenas se limita a constatar o axioma (ou a intuição) tal qual ele se nos apresenta (“axioma” ≡ “a causa primeira”), sem poder explicar por que é que o axioma existe (a ciência não pode explicar a causa do axioma).

O axioma é assim, por que é ― existe porque existe, e sem qualquer outra explicação de índole causal.

Sem poder explicar as causas primeiras, a ciência transfere a sua precária auto-confiança ― que lhe advém da verificação empírica da causalidade de uma parte dos fenómenos ― para a dimensão existencial do Homem. Assim, o Homem substitui a sua natural e normal condição de incerteza existencial pela “certeza” que alegadamente a ciência lhe traz. Trata-se de uma crença. Através das “certezas” da ciência, o Homem passa a acreditar que a sua existência deixou a incerteza primordial e natural, e passou ela própria (existência decorrente da vida humana) a fazer parte das “certezas” e das “verdades” da ciência.

Esta é a origem do novo ateísmo de Richard Dawkins e do eunucoidismo espiritual do Homem moderno.

eric_voegelinOs eunucos espirituais pensam que, na medida em que a ciência parte de um princípio metodológico acerca das “certezas” já por si adquiridas ― por exemplo, da lei da gravidade ―, esse princípio metodológico científico (a causalidade empírica) pode ser aplicado, de igual modo, no âmbito dos problemas da existência individual e colectiva humanas. A verdade é que muitos cientistas pensam desta mesma maneira, o que faz com que o eunucoidismo espiritual não seja uma característica de uma determinada classe social, mas antes é uma força social.

Esse pathos cientificista assumiu-se como uma força social que atravessa todas as classes sociais, penetrou nas instituições educacionais da sociedade, e não pode ser quebrada facilmente ― se é que pode ser quebrada. O problema já não é, portanto, uma questão de simples ignorância. Se a crença em uma auto-suficiente ordem da existência realizada através da ciência se entrincheirou na sociedade, essa crença transforma-se numa força que evita e nega o cultivo da substância humana e corrói ainda mais os elementos sobreviventes da tradição cultural.

Em consequência do pathos cientificista, a preocupação com a ciência e a posse do conhecimento científico transformaram-se num processo de legitimar a ignorância no que respeita a todos os problemas que jazem para além da ciência dos fenómenos. Assim, em paralelo com as descobertas da ciência, aumenta a ignorância das massas em relação aos problemas da existência humana.

O pathos cientificista traduz-se em um desastre civilizacional, porque na realidade, o conhecimento sobre o ordenamento da existência não pode ser adquirido através da aquisição do conhecimento no sentido fenomenológico ― antes, a compreensão do ordenamento da existência exige uma formação da personalidade através de um processo de educação através das instituições que se criem (ou que já existam) para o efeito.

Os portadores activos do pathos cientificista serão homens deficientes no que respeita aos dons da substância espiritual humana, e a penetração na sociedade do pathos cientificista cria um ambiente que favorece o sucesso social do eunuco espiritual.

Assim, o avanço da ciência e o crescimento do factor racional-utilitarista são acompanhados por uma re-estratificação da sociedade que não pode já ser expressa em termos de classes sociais. Esta re-estratificação da sociedade através do pathos cientificista gera os seus próprios mecanismos de valoração, de prestígio e de sucesso social que alcandora o eunuco espiritual ao estatuto de paradigma cultural.

« Sem o efeito de prestígio do cientificismo, os grandes escândalos intelectuais que decorrem de fenómenos de sucesso social como o positivismo, o evolucionismo darwinista, ou o marxismo, seriam impensáveis. »

― Eric Voegelin

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vozes de burros não chegam ao Céu

 

Richard Dawkins escreveu algures que “se uma estátua de uma santa saísse pelo seu próprio pé da igreja onde estaria exposta, esse fenómeno teria uma explicação natural”.

Ou poderíamos imaginar outro cenário de Richard Dawkins : o Cristo-Rei, cansado de estar de pé em Almada, um dia põe-se a caminhar, mergulha no Tejo para uma banhoca, e depois vai deitar-se a apanhar sol na Costa da Caparica: segundo Richard Dawkins — e o Ludwig Krippahl — se isso acontecesse, não se trataria de um milagre, mas antes teria uma explicação perfeitamente natural.

¿O que é que une o Richard Dawkins ao Ludwig Krippahl? É a burrice. São ambos burrinhos. Mas escrevem “coisas”.

É claro que, se o Cristo-Rei fosse, por sua alta recreação, tostar o lombo para a Costa da Caparica, o fenómeno teria que ter uma explicação natural.

O problema aqui é definir “natural” — é saber o que significa “natural”. Quando burrinhos como o Ludwig Krippahl ainda não sabem definir “matéria” (ainda não sabem o que é a “matéria”) , consideram que tudo é natural sem saber o que significa “natural”.

É fácil dizer o seguinte: “ainda não existe uma lei da natureza inventada pelo ser humano que regule o fenómeno dos banhos de sol do Cristo-Rei na Costa da Caparica; mas dentro de dois mil milhões de anos, o ser humano encontrará um explicação para esse caso”. É assim que os porcos cientificistas se refastelam na merda ideológica onde se sentem bem. E depois dizem que as suas crenças são racionais, ao passo que as dos outros são irracionais.

“O determinismo universal seria concebível se não existisse a sua noção” — Nicolás Gómez Dávila

A ciência sabe, por exemplo, que meio grama de urânio se decompõe em 4,5 milhões de anos; mas a ciência não sabe, nem poderá nunca — jamais! — saber, em quanto tempo se decompõe um átomo de urânio: pode ser decomposto imediatamente ou daqui a milhões de anos! É neste sentido que podemos dizer que a ciência do Ludwig Krippahl e do Richard Dawkins não faz a puta da ideia do que é a matéria!

A a-causalidade também é natural. A casualidade e a a-causalidade não são a expressão dos nossos conhecimentos limitados actuais, mas sim são constitutivas da realidade. Por isso, os físicos falam em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade subjectiva baseada apenas em uma falta de conhecimento actual e temporário das razões causais.

Para qualquer pessoa inteligente, é difícil aceitar que, no centro da Física que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o mundo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas. Mas do ponto de vista da física, a realidade é resistente à análise. Mas para o Ludwig Krippahl, a coisa é fácil: basta dizer que os outros são irracionais, e o problema está resolvido.

Eu não estive em Fátima em 1917, e o Ludwig Krippahl e o Domingos Faria também não. Ora, segundo o Ludwig Krippahl, Richard Dawkins e o Domingos Faria, se o Sol “dançou em Fátima”, foi devido a fenómenos naturais. Eu também penso o mesmo: tratou-se certamente de um fenómeno natural, assim como são fenómenos naturais, por exemplo, o “efeito de túnel” ou a-causalidade dos fenómenos. Mas as milhares de pessoas que estavam em Fátima em 1917 testemunharam um fenómeno ou/e têm a crença de que viram um fenómeno anormal (uma anomalia).

Vejamos o que escreveu o físico francês Roland Omnès no seu livro “Filosofia Quântica” (edição americana, páginas 191/192):

“Mesmo um objecto do tamanho da Terra pode estar sujeito a um efeito de túnel, pelo menos em princípio. Enquanto a força gravitacional do Sol impede a Terra de se afastar através de um movimento contínuo, contudo o nosso planeta poderia subitamente encontrar-se na órbita da estrela Sírio mediante um efeito de túnel.

(…)

Felizmente, mesmo que o determinismo não seja absoluto, a probabilidade da sua violação é extremamente pequena. Neste caso, a probabilidade da Terra se afastar do Sol é tão pequena quanto a de 10^200 (1 seguido de 200 zeros). (…) Em termos práticos, é um acontecimento que não terá lugar.

(…)

Uma característica destas flutuações quânticas [o efeito de túnel] que violam o determinismo [das leis da física clássica], é a de que não podem ser replicadas (repetidas).

Imaginemos que um efeito de túnel foi observado por muitas pessoas: elas vêem uma pequena pedra subitamente aparecer em um lugar diferente do que estava há milésimos de segundo. Essas pessoas realmente viram o fenómeno, mas nunca serão capazes de convencer mais alguém; nunca poderão demonstrar de forma irrefutável que o fenómeno se possa repetir. Tudo o que essas pessoas podem fazer é jurar: “Juro que a pedra estava ali, à minha esquerda, e que subitamente apareceu à minha direita!”. Em resposta, as pessoas que não assistiram ao fenómeno atribuirão esse juramento a gin ou whisky em demasia, outras dirão que aquela gente está maluca, e as pessoas que assistiram ao fenómeno acabarão por se convencer de que foram vítimas de uma alucinação.”

Ora, parece evidente que o físico Roland Omnès - quando comparado com o Domingos Faria ou com o Ludwig Krippahl – parece ser burro todos os dias.

A verdade do experimentalismo — por exemplo, com Roger Bacon — é sustentada pela indução por enumeração simples.

Stuart Mill formulou quatro regras de método indutivo, mas essas regras só são úteis se aceitarmos a lei da causalidade [“Todo o fenómeno tem uma causa”]; mas esta lei tem como base a indução por enumeração simples e ignora a a-causalidade : ou seja, Stuart Mill pouco adiantou em relação ao método indutivo de Bacon.

Filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução. Portanto, o experimentalismo do Ludwig Krippahl, do Domingos Faria e o Richard Dawkins, por si só, não é suficiente para determinar qualquer “verdade objectiva”, embora a “verdade científica” seja uma crença de grau superior.

E, entretanto, e apesar dos factos, o Ludwig Krippahl e o Domingos Faria continuam a zurrar.

sábado, 5 de novembro de 2016

A burrice da ciência, ou a ciência da burrice

 

Não é preciso ser cientista para desconfiar da homeopatia; mas é preciso ser cientificamente burro para mencionar Santo Agostinho acerca da astrologia sem se dar conta de que o Santo criticou o alegado desígnio divinatório da astrologia: quando se acredita que a astrologia prevê o futuro, também devemos desconfiar dela, como fez Santo Agostinho. Mas a astrologia não é a adivinhação do futuro; ou não devia ser assim interpretada.

É um erro argumentar contra a homeopatia utilizando a lógica (como faz o homúnculo); assim como é um erro, por exemplo, utilizar a lógica formal para tentar justificar o princípio da complementaridade (onda/partícula). O único argumento válido contra a homeopatia é o da verificação, ou falta dela (as estatísticas, a indução) — assim como um argumento válido contra a astrologia (enquanto entendido como um instrumento de previsão do futuro) é a verificação, uma vez que qualquer ciência positivista se baseia nos factos do passado.

Se a validação de um facto científico positivista dependesse apenas da lógica, não faria falta a verificação. E, neste contexto, comparar a homeopatia com a astrologia (ou meter as duas coisas no mesmo saco) só pode vir de uma mente obtusa.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O salafismo positivista do David Marçal

 

O David Marçal escreveu o seguinte:

“Significa isto que [as medicinas alternativas] não conseguem provar a sua eficácia e segurança através dos métodos exigidos à medicina convencional. Têm na sua essência conceitos pré-científicos, como o vitalismo, a ideia de que há uma dimensão não material do corpo humano, com a qual se consegue interagir, de forma a curar as doenças. Como as pessoas têm a ciência em boa conta (e por bons motivos) o misticismo é embrulhado com um jargão científico da moda”.


cientismoA ideia de um conhecimento seguro do mundo, mesmo que se trate apenas das noções fundamentais mais genéricas, é hoje considerada como fracassada. Por isso é que o David Marçal, o Carlos Fiolhais etc., esperneiam sistematicamente em nome da “ciência”.

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste mundo, mas não pode substituir outras áreas da realidade humana, como pretende o David Marçal e os camaradas do Rerum Natura.

A medicina não cura doenças — no sentido em que as doenças não desaparecem. As doenças podem sempre voltar a qualquer momento, seja no indivíduo, seja no colectivo. A medicina trata as doenças.

O David Marçal fala em “dimensão não material do corpo humano”; mas a ciência não sabe o que é “matéria” — excepto o David Marçal, que parece que sabe mais do que os cientistas sérios de todo o mundo. É este tipo de posições que faz com que o David Marçal perca alguma razão que possa ter. O David Marçal fala em “matéria” como eu poderia falar em “gambozinos” ou em “unicórnio voador”: entidades abstractas que não têm definição operacional. ¿O que é a matéria?

A ideia segundo a qual “a medicina convencional consegue provar a sua eficácia e segurança através do método indutivo” (indução ), é uma verdade adquirida, ou seja, uma crença do David Marçal. E, desde logo, os instrumentos a prova também devem estar sujeitos ao escrutínio da prova.

“A tentativa e erro não são indução, mas precisamente presunção e selecção” (Karl Popper). “Os indutivistas interpretaram mal a forma lógica interna da tentativa e erro. Não viram que a tentativa é sempre uma presunção e o erro é sempre uma selecção”.

Ou, como escreveu Thomas Kuhn: “Os teóricos das ciências mostraram repetidamente que a um conjunto de dados pode sempre corresponder a mais do que apenas uma construção teórica”.

É um absurdo que se diga que os factos (“facto” entendido como “verificação intersubjectiva de um evento”) podem ser pressupostos indiscutivelmente como pontos de partida da ciência — porque qualquer percepção ou observação já está (previamente) impregnada de teoria através das categorias presentes no nosso cérebro, ou da nossa linguagem, visto que estas também estruturam as nossas actividades intelectuais.

É evidente (ou seja, é verificável intersubjectivamente) que a descoberta da penicilina, por exemplo, foi importante para combater determinadas doenças; mas isso não significa que a penicilina seja necessariamente a única forma de as combater. É certo que devemos ser cépticos em relação a determinado tipo de crenças miraculosas, mas o radicalismo do David Marçal transforma-se em uma crença em relação à qual devemos ser cépticos também.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A arte é incompatível com ciência (do Iluminismo)

 

“O Real nunca é belo” — Jean-Paul Sartre

Se partirmos dos princípios fundamentais do Iluminismo, arte e ciência são inconciliáveis — ao contrário do que defende o Carlos Fiolhais ; ou então, ele coloca em causa o próprio Iluminismo, o que eu não acredito que seja verdade. Defender a conciliação entre a arte e a ciência é colocar em causa não só o Positivismo mas também o Iluminismo que está na sua origem.

“A estética não existe” — Paul Valéry

Segundo o Iluminismo, a ética, a estética e a metafísica são subjectivas, e alegadamente não fazem parte da experiência (empirismo) que legitima a ciência. Segundo o Iluminismo, a razão opõe-se à tradição; e não é possível ética, estética, e mesmo ciência, sem tradição.

O problema fundamental escora-se na lógica do Iluminismo: a ciência não explica nada, não explica as causas dos fenómenos naturais: apenas descreve os fenómenos; vem daqui a frase célebre de Newton: Hypotheses non fingo — ao passo que a obra-de-arte pretende explicar a realidade de um só golpe: uma obra-de-arte não é uma descrição da natureza: antes, é (pelo menos) uma tentativa de a explicar.

A estética, como a ética, pertence ao domínio da metafísica, ao passo que a ciência iluminista é uma metafísica que nega a metafísica (é uma metafísica negativa).

terça-feira, 17 de maio de 2016

O David Marçal, a mecânica de Newton e a astrologia (parte II)

 

(em continuação do verbete anterior)

Pessoas como o David Marçal ganharam notoriedade pública devido ao politicamente correcto, e por isso têm acesso livre aos me®dia. O politicamente correcto é o “bom gosto” actual; e aquilo a que (sempre) se considerou de “bom gosto”, ao longo da História moderna da Europa, fez mais vítimas inocentes, só nos últimos 200 anos, do que a Igreja Católica desde a Antiguidade Tardia (incluindo as cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas na Europa, a colonização, etc.).

No verbete anterior abordamos o anacronismo da lei gravitacional de Newton na medida em que serve de fundamento à principal crítica dita “científica” do David Marçal em relação à astrologia. Hoje temos a Teoria da Relatividade e a física quântica (embora não compatíveis entre si), que fazem com que a mecânica de Newton se remeta à utilidade do ensino secundário. O David Marçal parece ter parado no tempo; não há Zodíaco que o valha.


É conhecida a teoria das marés de Galileu, que se demonstrou errada porque ele baseou a sua teoria apenas no movimento de rotação da Terra, e propositadamente não tomou em consideração a influência da Lua no movimento das marés. Galileu não colocou a hipótese da influência lunar no movimento das marés porque tinha um preconceito negativo — normal entre os naturalistas daquela época — em relação à astrologia.

Recorde-se o principal argumento do David Marçal contra a astrologia:

“De todas as implausibilidades, a menos implausível é a gravidade. Mas a força gravítica é proporcional à massa dos corpos (o Sol é gigante e determina o movimento dos planetas no sistema solar) mas diminui com o quadrado da distância. Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra). Como afirmou o astrónomo e divulgador de ciência Carl Sagan: «Marte tem muito mais massa, mas o obstetra está muito mais próximo.» E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

Tal como Galileu, o David Marçal faz de conta que a Lua não existe.

“Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra)”.

Só a Terra existe — tal como raciocinou Galileu na sua teoria das marés; para o David Marçal, a Lua não existe. E ele chama à sua tese de “científica”; ele fala em nome da ciência, e até invoca o argumento de autoridade de Carl Sagan. Basta só o facto de o David Marçal se ter esquecido da Lua, para que o seu principal argumento contra a astrologia ir pela pia abaixo.

Quando, em um manicómio, existirem perturbações comportamentais entre os doentes mentais durante a Lua Cheia, o David Marçal irá chamar uma catrafada de obstetras para acudir à crise.


O segundo argumento do David Marçal contra a astrologia é o seguinte:

“Por causa do movimento de precessão do eixo da Terra, as zonas do céu em que vemos as constelações ao longo do ano não são as mesmas de quando a astrologia foi inventada.”

Em primeiro lugar, parece que o David Marçal acredita que qualquer tipo de experiência indutiva (ciência de qualquer espécie) é uma invenção humana — o que é típico do positivismo. A experiência humana face aos factos e aos fenómenos é considerada uma “invenção humana”. Os números primos, por exemplo, também são considerados como uma “invenção humana”, por um lado; e por outro lado, “a lógica evolui”.

Perante o arquétipo mental do David Marçal, só nos resta sorrir...

Em segundo lugar, a tese do “movimento de precessão do eixo da Terra” confunde “signos do Zodíaco”, por um lado, com “constelações do Zodíaco”, por outro lado. Ou seja, o David Marçal confunde a “estrada da Beira” com a “beira da estrada”.

A astrologia ocidental — dita “Tropical” — é baseada na posição dos planetas calculada em função do “trânsito” do Sol conforme visto da Terra, em vez dos padrões aparentes das estrelas mais distantes — como invoca o David Marçal.

Ptolomeu instituiu um sistema em função da chamada “Precessão dos Equinócios” (detectado pelo grego Hiparco), fazendo com que o Zodíaco se iniciasse em Carneiro com a posição do Sol no equinócio da Primavera. Ou seja, o Zodíaco (tropical) é estático e não é afectado pelas mudanças do eixo da Terra. No entanto, Ptolomeu manteve os nomes antigos dos signos no seu sistema actualizado, nomes esses que eram os mesmos das constelações artificiais antigas desde o tempo da Babilónia e da Mesopotâmia — e foi isso que causou a confusão do David Marçal.

Ou seja, o Zodíaco (Tropical) mantém-se inalterado desde há cerca de 2.200 anos.

Mesmo os astrónomos modernos utilizam ainda o sistema do Zodíaco de Ptolomeu naquilo a que chamam de Sistema de Coordenadas Eclípticas, que corresponde exactamente aos signos do Zodíaco Tropical.

Com Ptolomeu, a astrologia ocidental (Tropical) passou a reger-se pelo Tempo, e não pelo espaço exterior ao sistema solar.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Prémio Unicórnio Natural para o David Marçal

 

O blogue Rerum Natura tem feito alarde do prémio unicórnio voador. Uma vez que o unicórnio existe, de facto — e por isso não é um mito cientificista e positivista —, decidimos criar o Prémio Unicórnio Natural, dedicado a personalidades cépticas que não acreditam na existência da sua própria sombra mas que acreditam que a ciência nunca erra.

unicornio-natural

No caso vertente, citamos o David Marçal, eminente objecto do Prémio Unicórnio Natural:

“Vacinar [os seus filhos] não é uma decisão sua”.

Em vez de a ciência ser concebida em um contexto de persuasão do cidadão, é entendida pelo David Marçal em forma de dogma: tudo o que é endossado pela ciência oficial do Zeitgeist é dogmático e inquisitorial.

É falso que o Dr. Andrew Wakefield tenha assumido uma posição anti-vacinas — como afirma, dogmática- e religiosamente, o David Marçal. O Dr. Andrew Wakefield foi contra a vacina tríplice (contra o sarampo, a rubéola e a papeira), mas era de opinião que se deviam tomar essas vacinas separadamente. Mas o dogmatismo cientificista transformou a ciência em uma certeza absoluta; e qualquer pessoa que coloque em causa essa certeza absoluta é sacrificado em auto-de-fé na nova Inquisição positivista.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de "verificação". Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). Por isso é que não pode existir uma verdade absoluta em ciência.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O positivismo contribuiu decisivamente para a decadência da civilização europeia

 

Este texto do Ludwig Krippahl é patético. Ou melhor, é digno de um analfabeto funcional; e o problema é o de que ele o entende como parte de uma “filosofia”. O Ludwig Krippahl pretende “filosofar”, o que é normal; toda a gente “filosofa”, de uma maneira ou doutra, mas nem toda a gente o faz com método. O texto do Ludwig Krippahl é uma logomaquia.

Ao longo da História, o Absoluto foi interpretado como espírito (Platão), como vontade (Schopenhauer), como alma (Giordano Bruno), como Eu (Fichte) como matéria (Helvécio) ou como História (Karl Marx) — para referir apenas alguns filósofos. Sempre se declarou apenas um aspecto do nosso mundo como fundamento da Totalidade. E na medida em que a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria, surgiram sempre dificuldades com as várias tentativas de solução do problema do Absoluto. Ou seja, tornou-se evidente que a Totalidade é mais do que a soma das suas partes, ou que não era possível incluir um importante aspecto parcial do mundo na respectiva definição da Totalidade.

Ora, o Ludwig Krippahl — seguindo a linha ideológica do Positivismo — transforma a ciência empirista em mais um conceito de Absoluto. Pergunta-me o leitor: ¿será que ele percebe isto? Penso que não percebe, porque ele teria que ter uma ideia aprofundada dos vários conceitos de Absoluto ao longo da História; e a julgar pelo texto dele, ele não conhece Platão e os outros referidos, senão de nome. Ou seja, parece-me que o Ludwig Krippahl não tem autoridade de facto para discutir filosofia com o Domingos Faria.


Temos o caso do pensador alemão Hans Blumenberg que, quando morreu em 1966, revelou ao mundo, em um trabalho hercúleo, que todas as “narrativas” perderam o seu valor, que não existe nenhuma verdade filosófica ou religiosa para os seres humanos, e que o ser humano tem que aprender a morrer resignado. O niilismo e o desespero como último conhecimento — esta é maneira de pensar que está hoje muito difundida.

Para não caírem no absurdo total, os positivistas — como por exemplo Carnap, a quem o Ludwig Krippahl obedece —, em vez de reconhecerem que o mundo teve a sua origem no Absoluto (a que se convencionou chamar “Deus”), declararam que a questão do Absoluto é apenas “aparente”. Segundo o positivismo, seria melhor nem sequer nos ocuparmos com questões desse tipo: pelo contrário, a filosofia deveria limitar-se àquilo que se pode perceber através dos sentidos, pois (alegadamente) só isso é seguro, mensurável e objectivo (só o que se pode medir é seguro).

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a leitura de um ponteiro em um instrumento de medição representa o único método defensável para responder às questões filosóficas.

Poincaré defendeu a seguinte tese: imaginemos que, na noite passada, enquanto todos (incluindo o Ludwig Krippahl) dormíamos, tudo no universo aumentou para o dobro do seu tamanho. Obviamente que a placa de platina e de irídio de Paris também aumentou para o dobro; 1 metro passou a ser 2; as trajectórias dos electrões aumentaram, assim como a órbita da Lua. Resultado: o Ludwig Krippahl não registaria qualquer aumento das dimensões; mas Carnap e o Ludwig Krippahl continuariam a afirmar que as suas medições descrevem e sondam a realidade de maneira suficiente.

Mas a verdade é que as medições, por si sós, não constituem a chave suficiente para a realidade. Por muito que a posição do Ludwig Krippahl seja “esclarecida”, ele tem que se confrontar com outro problema difícil que resulta da sua (dele) forma de pensar: ele próprio, como um ser consciente de si mesmo, como um Eu muito particular, nem sequer pode aparecer no mundo que ele próprio definiu — porque o Ludwig Krippahl não pode ser medido.

Santo Agostinho (¿será que o Ludwig Krippahl já leu alguma coisa de Santo Agostinho? Duvido!, porque se trata de um santo da Igreja Católica) dizia que eu sou sempre eu a pensar alguma coisa acerca de mim mesmo. Por isso, sou logicamente sempre mais do que aquilo que penso de mim mesmo, uma vez que me dividi. Por um lado, sou aquilo que penso sobre mim, ou seja, sou o conteúdo do meu pensamento. Mas, por outro lado, sou aquele que pensa este conteúdo. O conteúdo do pensamento é uma coisa; mas o pensamento activo desse conteúdo não é uma coisa. Por um lado, sou objecto sobre o qual penso, mas por outro lado sou sujeito que pensa sobre si próprio. O conteúdo do pensamento que penso sobre mim é incompleto e, por isso, não me abrange suficientemente — sou sempre mais do que aquilo que penso sobre mim. E dado que o mesmo se passa com Carnap e com o Ludwig Krippahl, também eles não se podem medir a si próprios de forma exaustiva.

A comparação entre a forma de pensar de Carnap e de Santo Agostinho revela como a civilização europeia entrou em decadência com a modernidade, com a elevação da ciência empirista a uma metafísica que nega a Metafísica. E o Ludwig Krippahl (entre muitos outros) personifica essa decadência intelectual.

sábado, 31 de outubro de 2015

O positivismo é o romantismo das ciências (para memória futura)

 

« O positivismo é o romantismo das ciências. A tendência própria do romantismo para identificar o finito com o infinito1 para considerar o finito como a revelação, e a realização progressiva do infinito é transferida e realizada pelo positivismo no seio da ciência.

Com o positivismo, a ciência exalta-se, apresenta-se como a única manifestação legítima do infinito e, assim, assume um carácter religioso, prendendo suplantar as religiões tradicionais.

O positivismo é parte integrante do movimento romântico do século XIX. Que o positivismo seja incapaz de fundar os valores morais e religiosos e, especialmente, o próprio princípio de que dependem, a liberdade humana, é um ponto de vista polémico, que a reacção anti-positivista, espiritualista e idealista da segunda metade do século XIX fez prevalecer na historiografia filosófica. Assim se pode considerar justificado, no todo ou em parte, este ponto de vista.

Mas é fora de dúvida que, nos seus fundadores, e nos seus epígonos, o positivismo se apresenta como a exaltação romântica da ciência, como infinitização, como pretensão a valer de única religião autêntica, e por conseguinte, como único fundamento possível da vida humana individual e social.

O positivismo acompanha e promove o nascimento e a afirmação da organização técnico-industrial da sociedade, fundada e condicionada pela ciência. Exprime as esperanças, os ideais e a exaltação optimista que provocaram e acompanharam esta fase da sociedade moderna. O Homem, nesta época, julgou ter encontrado na ciência a garantia infalível do seu próprio destino. Por isso rejeitou, considerando-a inútil e supersticiosa, toda a garantia sobrenatural e pôs o infinito na ciência, encerrando nas formas desta, a moral, a religião, a política – a totalidade da sua existência.

(…)

O materialismo, que alguns epígonos deduzem do positivismo evolucionista, é, ele próprio, uma metafísica romântica: a deificação da matéria e o culto religioso da ciência. »

→ “História da Filosofia”, de Nicola Abbagnano, Tomo X, §629, Editorial Presença, Lisboa, 1970


Nota
1. A imanência

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A matemática e os órgãos dos sentidos

 


“Quando vão entender que qualquer expressão matemática só corresponde a uma realidade analogicamente, e que em última instância o único juiz dessa correspondência é o testemunho dos tão desprezados órgãos dos sentidos?”

→ Olavo de Carvalho

É verdade a que matemática parte de postulados — e não de evidências —, mas também é verdade que os órgãos dos sentidos fundamentam-se em crenças; e o problema é o de saber quando e se essas crenças (e não me refiro a fé religiosa, que é outra coisa) ditadas pelos órgãos dos sentidos são verdadeiras ou falsas.

Por exemplo, se os órgãos dos sentidos são o único juiz da realidade, então o darwinismo está correcto — até porque o darwinismo é fortemente intuitivo e não propriamente atreito a formalismos matemáticos. Ora, a principal objecção em relação ao darwinismo é que se baseia quase exclusivamente nos órgãos do sentidos (por exemplo, a comparação visual de Ernst Haeckel entre um feto de um peixe e um feto humano). É mesmo contraditório que um cientista aceite simultaneamente e sem reservas o darwinismo e a física quântica. Nenhum biólogo darwinista (passo a redundância), digno desse nome, deixa de ser fortemente céptico em relação a qualquer aspecto da física quântica, porque a biologia tem como fundamento os órgãos dos sentidos, a categorização da informação que recebe dos órgãos dos sentidos, e a intuição sensível.

Do empirismo só podemos esperar soluções empíricas.

Eu estou de acordo com Olavo de Carvalho quando ele separa a matemática, por um lado, do testemunho dos órgãos dos sentidos, por outro  lado. Mas já não estou tão certo sobre se o único juiz da realidade é o testemunho dos órgãos dos sentidos (ver teoria do balde).

Penso mesmo que este problema é insolúvel — refiro-me ao problema do juízo sobre a realidade ou sobre partes dela — se não seguirmos S. Tomás de Aquino: “A verdade é a adequação do intelecto à  realidade”. S. Tomás de Aquino falou em “intelecto”, e não em “órgãos dos sentidos”.

É claro que o intelecto interpreta a informação que nos chega dos órgãos dos sentidos, mas também  coloca em causa essa informação; o intelecto questiona os órgãos dos sentidos. Portanto, os órgãos dos sentidos não podem ser o único avalizador da realidade.

Os órgãos dos sentidos são imprescindíveis para a sobrevivência do ser humano em um mundo com determinadas características. Mas, ao contrário do que defendeu Bergson ou Husserl (cada um à  sua maneira), é a inteligência e não só a intuição que permite construir conceitos capazes de descrever partes da realidade.

A intuição leva a dizer que a Terra é plana e/ou que o homo sapiens é descendente do macaco segundo um processo aleatório de evolução. A intuição salva as aparências. A intuição é necessária, mas já verificámos o facto do recuo da intuição sensível em favor da inteligência (do “intelecto”, de S. Tomás de Aquino). É o intelecto (que inclui a matemática) e não a intuição que nos diz que, mesmo que seja verdade que o homem descenda do macaco, isso não poderá ter acontecido através de “um processo aleatório de evolução mediante pequenos passos”.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

As três dimensões da Realidade

 

“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

→ Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Temos que compreender alguns conceitos exarados no texto supracitado, como por exemplo, os conceitos de “nada”, “vazio”, “partícula virtual”. E temos também que perceber a linguagem metafórica e anti-positivista não só de Fritjof Fritjof Capra, mas também a da maior parte dos físicos actuais.


domingo, 17 de agosto de 2014

Carl Schmitt, o liberalismo político e o Estado-providência

 

Eu não posso concordar, de modo nenhum, com o postulado decisionista de Carl Schmitt segundo o qual a ordem jurídica assenta em uma decisão primeira, juridicamente independente, deduzida de coisa nenhuma. Carl Schmitt faz a crítica ao positivismo jurídico para depois partir de um postulado exclusivamente humano para fundamentar a sua concepção do Direito; ou seja, Carl Schmitt comete basicamente o mesmo erro de Kelsen (o do Direito Positivo) no que diz respeito à fundamentação do Direito.

Se o Direito Positivo pode ser arbitrário, o decisionismo de Carl Schmitt também o é. Carl Schmitt foi aluno de Max Weber, e é neste último que se encontra a verdadeira crítica ao Direito Positivo. Carl Schmitt apenas se serviu das ideias de Max Weber para tentar fundamentar o decisionismo cujo corolário entra em contradição com a crítica de Max Weber ao Direito Positivo.


Mas há alguns aspectos das ideias de Carl Schmitt que merecem atenção; por exemplo, quando ele demonstrou que o Estado-providência é um produto inexorável e necessário da evolução liberalismo político. O liberalismo político não poderia levar a outro lado senão ao Estado-providência (como se verá adiante). Quando os liberais do blogue Blasfémias, por exemplo, vociferam contra o Estado-providência, não se apercebem de que as suas ideias estão na génese do próprio Estado-providência.

Os primeiros liberais, os da escola escocesa por exemplo, começaram por adoptar o jusnaturalismo (Direito Natural) como fundamento da construção do Direito Positivo. Para os primeiros liberais, o primado da lei exprime — contra o arbítrio e contra o despotismo — o valor supremo do bem comum, o único a poder garantir um acto jurídico dotado de algumas características essenciais, como por exemplo a impessoalidade, a generalidade, a equidade, etc.. A noção de “bem comum” é uma das principais características do Direito Natural.

Mas a influência do Direito Natural no Direito Positivo foi sendo afastada ao longo do tempo através do reforço da convergência entre o positivismo jurídico, por um lado, e o utilitarismo, por outro lado. E com esta convergência entre utilitarismo e o direito, o Direito Natural foi sendo afastado da construção jurídica e com o decorrer do tempo. Segundo Carl Schmitt, e com verdade, o liberalismo político assenta em dois princípios: a lei baseada na existência do “legislador impecável”, e na vontade geral baseada na “discussão pública”.

Ora, acontece que a figura do “legislador impecável” é praticamente uma utopia, simplesmente não existe senão com venerandas excepções; e a “discussão pública”, levada ao seu limite existencial, conduz ao afastamento do Direito Positivo em relação ao Direito Natural na medida em que a construção do Direito passa a ser baseada nas opiniões (doxa) e em postulados desfasados dos elementos metajurídicos (episteme) próprios do jusnaturalismo (Direito Natural). Portanto, nem o legislador é impecável, nem a vontade geral é sinónimo de justiça propriamente dita.

A partir do momento em que o povo verifique que “o rei vai nu” — como acontece hoje em Portugal, por exemplo —, a figura do “legislador impecável” desvanece-se, o que leva a colocar em causa a democracia e a classe política que a sustenta. Desde que se perca o ideal racional da lei, a democracia fica ameaçada pela decadência do sistema, por um lado, e por outro lado, o racionalismo característico do Direito Positivo — destituído dos factores metajurídicos do jusnaturalismo — volta-se contra o próprio sistema democrático.

Por outro lado, o Direito Positivo arroga uma neutralidade axiológica (neutralidade em relação a quaisquer valores metajurídicos) que não existe de facto, porque o positivismo é o utilitarismo, e nada mais do que isso. Sem o apoio do jusnaturalismo, o Direito fica totalmente entregue a uma ética utilitarista, e neste sentido é absurdo que se diga que o Direito Positivo é “axiologicamente neutro”.

Quando o Positivismo “toma conta” do Direito, e afasta qualquer sequela do jusnaturalismo, estamos em presença da primazia do “legal” sobre o “legítimo” (a legalidade substitui a legitimidade) que nada mais é do que a expressão do relativismo político que se caracteriza por uma completa indiferença em relação a todos os valores que não sejam materialmente “úteis”, pelo desprezo pela verdade, e por uma metafísica da indecisão — por exemplo, é essa “metafísica da indecisão” que permite hoje a paulatina desnacionalização de Portugal.

Quando o Direito Positivo afasta o jusnaturalismo, e ao tornar possível ao Direito adoptar qualquer conteúdo baseado em postulados e alguns deles irracionais — por exemplo, o postulado irracional da “igualdade no casamento” que subjaz à legalização do "casamento" gay —, favorece-se o interesse do cálculo e da utilidade; e a partir do momento em que o Estado e a sociedade se misturam e se confundem (por intermédio da própria essência do Direito Positivo desprovido de qualquer referência metajurídica jusnaturalista), acontece então que todos os problemas económicos e sociais se tornam “problemas do Estado” — o que significa que o liberalismo político aliado ao “Direito Positivo dos postulados exclusivamente humanos” está na base do Estado-providência que os liberais tanto criticam.

Segue-se que a Fátima Bonifácio, por exemplo, ou é estúpida ou é ignorante; ou as duas coisas juntas. E que o blogue Blasfémias está em sistemática contradição quando critica o Estado-providência.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

António de Sousa Lara e o multiculturalismo em Portugal

 

Um facto é algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência e, por isso, é um dado da experiência (que pode ser subjectiva) com o qual o pensamento pode contar. Ou seja, um facto pode ser subjectivo e/ou intersubjectivo. Um “facto intersubjectivo” é o que normalmente se chama de “facto objectivo” — que não é uma redundância, ao contrário do que pensa.