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sábado, 5 de novembro de 2016

A burrice da ciência, ou a ciência da burrice

 

Não é preciso ser cientista para desconfiar da homeopatia; mas é preciso ser cientificamente burro para mencionar Santo Agostinho acerca da astrologia sem se dar conta de que o Santo criticou o alegado desígnio divinatório da astrologia: quando se acredita que a astrologia prevê o futuro, também devemos desconfiar dela, como fez Santo Agostinho. Mas a astrologia não é a adivinhação do futuro; ou não devia ser assim interpretada.

É um erro argumentar contra a homeopatia utilizando a lógica (como faz o homúnculo); assim como é um erro, por exemplo, utilizar a lógica formal para tentar justificar o princípio da complementaridade (onda/partícula). O único argumento válido contra a homeopatia é o da verificação, ou falta dela (as estatísticas, a indução) — assim como um argumento válido contra a astrologia (enquanto entendido como um instrumento de previsão do futuro) é a verificação, uma vez que qualquer ciência positivista se baseia nos factos do passado.

Se a validação de um facto científico positivista dependesse apenas da lógica, não faria falta a verificação. E, neste contexto, comparar a homeopatia com a astrologia (ou meter as duas coisas no mesmo saco) só pode vir de uma mente obtusa.

domingo, 2 de agosto de 2015

A homeopatia não faz parte das Ciências da Natureza. Ponto final.

 

Um leitor deixou-me ficar a seguinte mensagem:

“Junto, em anexo, um artigo que vem na Revista nº161 da Ordem dos Médicos de Julho (…) Pelo que pude deduzir, parece que a Ordem dos Médicos só poderá aceitar o carácter científico da homeopatia baseando-se no efeito placebo e num conceito de interacção mente-matéria de intenção terapêutica.

Ora, este conceito parece-me ser um ressuscitar do epifenomenalismo do séc. XIX, com 'ar fresco' do séc. XXI, misturando tudo com a douta sapiência de António Damásio e o Erro de Descartes, até que a massa fique com a consistência necessária”.


1/ A homeopatia não faz parte das Ciências da Natureza porque não se verificou — pelo menos até agora — uma regularidade estatística universal do seu método. Isto não significa que o princípio da indução, que caracteriza a ciência, seja indubitavelmente válido 1 : significa apenas que não existe (ainda, pelo menos) um qualquer nexo causal, universal e abstracto, dos fenómenos homeopáticos que lhe possa conferir a classificação de “ciência”.

A homeopatia não é refutável. Portanto, e pelo menos por agora, não pode pertencer às Ciências da Natureza. Dizer que “a homeopatia é ciência” (no sentido das Ciências da Natureza), é falso.

2/ É falsa a ideia segundo a qual “um cientista tem que ser materialista” e, por isso, tem que assumir o epifenomenalismo. O epifenomenalismo é uma extrapolação metafísica (filosófica) a partir de factos, e por isso não é ciência. A ciência baseia-se na regularidade dos factos indutivamente abstraídos em leis gerais; mas a interpretação metafísica dos factos é teoria, e por isso faz parte da filosofia (e não da ciência propriamente dita).

3/ Os epicuristas da antiga Grécia, por exemplo, eram epifenomenalistas; Demócrito também tinha uma certa tendência para o epifenomenalismo. O epifenomenalismo não é uma teoria do século XIX.


Nota
1. porque o princípio da regularidade dos fenómenos naturais é em si mesmo um princípio geral (axiomático) e, por isso, não pode ser estabelecido indutivamente

domingo, 7 de junho de 2015

O pragmatismo da homeopatia

 

A homeopatia, entendida segundo o conceito “efeito rebound”, é a negação da ciência na medida em que o que é considerado importante não é a medicina (a ciência) em si mesma, mas aquilo que se acredite (crença) que é a ciência.

Neste sentido, a homeopatia segue os princípios da filosofia pragmatista de Williams James (Pragmatismo): toda a crença, se considerada boa e útil para a sociedade e/ou para o indivíduo, é considerada verdadeira. Não é a verdade da crença, considerada em si mesma, que é importante: em vez disso, é a putativa bondade e utilidade da crença que faz com que ela seja verdadeira.

A ciência — neste caso, a medicina — é concebida pela homeopatia como um fenómeno humano, com fraco interesse pelos objectos que a ciência contempla. Deseja-se a felicidade do Homem, e se uma determinada crença promove essa felicidade, então essa crença, para além de boa e útil, é necessariamente verdadeira. Neste sentido do “efeito rebound”, a homeopatia é uma tentativa de construir uma superstrutura da crença em alicerces de cepticismo (neste caso, em relação à ciência), e depende de falácias na medida em que ignora todos os factos extra-humanos.

sábado, 31 de janeiro de 2015

A “não-fundamentação científica da homeopatia”, segundo o David Marçal


Um estudo científico realizado nos Estados Unidos revelou que o “efeito placebo” — ou seja, a homeopatia — resulta melhor ou mais quando os medicamentos químicos da medicina convencional são mais caros.

Los medicamentos crean expectativas de curación en los pacientes. En numerosas ocasiones, estas esperanzas producen una mejoría similar o mayor a la que producen los fármacos, lo que se conoce como efecto placebo.

Un nuevo estudio, llevado a cabo por investigadores de la Academia Estadounidense de Neurología en enfermos con Parkinson, indica que este efecto es mayor cuando el precio de los remedios es elevado. El artículo ha sido publicado en la revista de la academia, American Academy of Neurology.”

El efecto placebo funciona mejor si el fármaco es caro


Entretanto, o David Marçal diz que “a homeopatia não tem qualquer fundamentação científica”: depende do que se entende por “ciência”.

O facto de os medicamentos criarem expectativas de cura é um facto fundamentado pela ciência ; que o efeito placebo é real, é um facto fundamentado pela ciência. Ou seja, o efeito placebo cura: o resultado da homeopatia nos doentes é um facto fundamentado pela ciência — ao contrário do que defende David Marçal.

domingo, 9 de novembro de 2014

O Carlos Fiolhais e a homeopatia

 

O Carlos Fiolhais e o David Marçal por um lado, e o Paulo Varela Gomes, por outro lado, andam de candeias às avessas por causa da homeopatia. Eu penso que todos radicalizam as suas posições.

cientismoDo ponto de vista da ciência positivista, e nomeadamente da bioquímica, a homeopatia não é credível. E aqui o Carlos Fiolhais e o David Marçal, têm razão. Se existe uma lógica na homeopatia, essa lógica não obedece aos princípios de nexo causal estritos e deterministas da ciência positivista. Ou seja, a homeopatia não permite que se façam estatísticas em relação a experiências do passado que permitam prever o futuro com uma grande percentagem de fiabilidade — que é o que a ciência positivista faz.

Mas, por outro lado, não podemos reduzir a realidade inteira à ciência positivista: quem faz isso é adepto do cientismo. Por exemplo, quando o David Marçal mete no mesmo saco a acupunctura e a homeopatia, revela um pensamento dogmático que valida absolutamente a ciência positivista.

Claramente, na homeopatia existe um factor de acção subjectiva da consciência da pessoa sobre a sua doença; e é isto que o positivismo não entende nem nunca entenderá. Assim como a maior fé que existe é a do cientista positivista porque é uma fé inconfessável, assim o doente que recorre à homeopatia fá-lo em um contexto de uma fé quasi-religiosa. São fés diferentes, mas não deixam por isso de ser fés.

Faz falta ao Carlos Fiolhais e ao David Marçal ler alguma coisa de Willard Van Orman Quine.