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sexta-feira, 26 de abril de 2024

A Helena Damião utiliza Kant para negar Kant


Dois dos paradoxos do Pós-modernismo são a legitimação racional da Contradição (Estimulação Contraditória e Compartimentação), por um lado, e a redução de toda a realidade a “construções sociais”, por outro lado.

Dou um exemplo: em Espanha, um vasto grupo de jornalistas, afectos ao Partido Socialista espanhol, publica um manifesto contra a liberdade de imprensa... mas, alegadamente, em nome da defesa liberdade de imprensa! É a legitimação racional da Contradição (Estimulação Contraditória e Compartimentação) como estratégia política.

Outro exemplo da cultura pós-modernista é o da Helena Damião, que defende aqui, alegadamente, o conceito de Liberdade e de Educação, segundo Kant, mas ocultando dos leitores a importância do indivíduo na filosofia de Kant, por um lado, e a importância da disciplina no conceito de Educação de Kant, por outro lado.

Para Kant, a disciplina é a parte negativa da educação ; e a instrução é a parte positiva da Educação.

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo, tal como a do pai para com os filhos, quer dizer, uma governo paternal (imperium paternale), no qual, por consequência, os súbditos, quais filhos menores, incapazes de decidir do que para eles é verdadeiramente útil ou prejudicial, são obrigados a comporta-se de maneira unicamente passiva, a fim de esperar apenas do juízo do Chefe de Estado o modo como devem ser felizes, e apenas da sua bondade que ele igualmente o queira — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber ”.

→ Kant, “Teoria e Prática”, 1793, II, p. 31


Ora, o socialismo (a Esquerda em geral) que a Helena Damião defende é a antítese do conceito de “liberdade” e de “educação” defendida por Kant. Para a Esquerda, a escola pública deve “educar” as crianças, substituindo-se aos pais. Ora, é este tipo de escola pública que a Helena Damião chama de “instituição maravilhosa”.

A partir de Rousseau, “a educação transformou-se num instrumento da política, e a própria actividade política foi concebida como uma forma de educação”.

→ Hannah Arendt, “Entre o Passado e o Futuro”, 2006, pág. 186).

“Porque a criança tem necessidade de ser protegida contra o mundo, o seu lugar tradicional é no seio da família.”

(idem, pág. 196)

(…)

“A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume, implica, como é óbvio, uma atitude conservadora.”

(ibidem, pág. 202)


Chegou o momento de substituir o conceito de Ministério da Educação pelo de Ministério da Instrução, como aconteceu na Primeira República (Leonardo Coimbra foi ministro da Instrução).

A educação é competência dos pais e/ou família; a instrução é competência da escola pública — sendo que “escola pública” não tem que ser necessariamente “escola estatal”: as escolas privadas também são públicas.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Um “refugiado” não é exactamente o mesmo que um “fugitivo”

A professora Helena Serrão publica aqui um texto de Hannah Arendt (aqui, em PDF), não sobre filosofia propriamente dita, mas sobre o estatuto de “refugiado” que a Hannah Arendt nega ser aplicável a si mesma. Trata-se, portanto de política, e não propriamente de filosofia. Aliás, Hannah Arendt não foi uma filósofa, porque não criou doutrina e/ou sistema: o mais que podemos dizer dela é que foi uma “filósofa política” — a não ser que se defenda a ideia de que todo o ser humano é filósofo.

refugee webHannah Arendt estudou os grandes filósofos desde os primórdios da História (por exemplo, estudou profundamente Santo Agostinho), mas estudar filosofia não faz de ti (ou dela) necessariamente um filósofo.

A palavra “refugiado” vem do latim “refugiu”, que significa “lugar onde alguém se abriga para fugir a um perigo”; ou, no sentido figurado, “refúgio” significa “auxílio”, “meio de escapar a”, “recurso”, “amparo” [Texto Editora].

Já na língua alemã (que é a língua materna de Hannah Arendt), “refugiado” traduz-se para “Flüchtling” que tem uma conotação diferente da de origem latina: “Flüchtling” (masculino), traduzido à letra para as línguas latinas, significa também “fugitivo”; não tem exclusivamente a conotação de “refugiado”.

Ora, na tradição semântica latina, um “refugiado” não é exactamente a mesma coisa que um “fugitivo”.

No mesmo dicionário, “fugitivo” significa “que fugiu”, “falaz”, “indeciso”, “que desertou”, “um indivíduo que foge”, “desertor”, “evadido”. Um “refugiado” não pode ser um criminoso evadido, mas um “fugitivo” pode ser.

fugitive webUm indivíduo que foge da justiça do seu país porque cometeu um crime manifesto, emigrando para outro país, não é um refugiado: é um fugitivo. Ora, a língua alemã não faz a diferença entre os dois termos: no alemão, um “refugiado” de uma guerra e um “fugitivo” criminoso são ambos “Flüchtlinge” (masculino, plural).

Com alguma ironia, diria eu que a professora Helena Serrão teve azar em dar comigo sobre este assunto porque eu estudei a língua alemã durante anos.

Um individuo que escolhe Portugal para se abrigar da guerra que assola o seu país, é um “refugiado”; outro indivíduo que escolhe Portugal para se esconder da polícia criminal do seu país, é um “fugitivo”.

Por exemplo, não é legítimo que se diga que “um assassino sírio procurou refúgio em Portugal”. Refúgio tem conotação de “abrigo”, “protecção” no sentido humanista; é um absurdo que se diga que “um Estado de Direito deu protecção a um criminoso” (fugitivo) — com excepção do Brasil de Lula da Silva, que vai paulatinamente deixando de ser um Estado de Direito.

Os acordos de extradição entre países existem para extraditar “fugitivos”, e não para extraditar “refugiados”.

Atendendo à conotação pejorativa que pode acontecer ao estatuto de “Flüchtling” em língua alemã, compreendo a ideia de Hannah Arendt. Mas, na nossa língua e na nossa cultura, fazemos bem a diferença entre um refugiado e um fugitivo. Por isso, o argumento da professora Helena Serrão, utilizando Hannah Arendt, não é válido.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Só é possível ser reaccionário dentro de parâmetros católicos tradicionalistas


Devo dizer que eu não concordo, em muita coisa, com as ideias de António José de Brito — nomeadamente com o hegelianismo (de Direita) que ele apostolou. Durante toda a primeira metade do século XX, Hegel esteve na moda na Europa; e até uma certa Esquerda actual (por exemplo, com José Pacheco Pereira) foi influenciada por Hegel.

O monismo de Hegel é veneno ideológico. Ademais, a única forma de ser (realmente) “reaccionário” traduz-se na adopção de determinadas premissas católicas fundamentais e tradicionais.

Acerca deste texto de António José de Brito: naturalmente que ele tem razão quando critica a censura da opinião — o que não significa que todas as opiniões devam ou possam ser ensinadas ou divulgadas nos estabelecimentos de ensino pré-universitários — como escreveu Hannah Arendt (e eu concordo), a educação das crianças deve ser conservadora (no Ocidente, no sentido cristão):


“Porque a criança tem necessidade de ser protegida contra o mundo, o seu lugar tradicional é no seio da família.” (Hannah Arendt, Entre o Passado e o Futuro, 2006, pág. 196)

(…)

“A própria responsabilidade alargada pelo mundo que a educação assume, implica, como é óbvio, uma atitude conservadora.” (idem, pág. 202)


O professor António José de Brito escreve:

“Em nome da liberdade de opinião numerosas opiniões são banidas, sob o pretexto que não são opiniões. O monolitismo doutrinário instala-se sob a égide da luta contra o monolitismo doutrinário.”

Porém, o argumento do António José de Brito é o de Reductio ad Absurdum em relação ao conceito de “liberdade de opinião”; o raciocínio dele, mutatis mutandis, é o seguinte: “se a liberdade de opinião não existe de facto, fica então justificada a defesa da censura da opinião defendida pela ultra-direita”. Em António José de Brito, a crítica à “liberdade de opinião que não existe” é uma crítica determinista.

Uma das características principais do hegelianismo, é o determinismo. Uma das características principais do Cristianismo é o livre-arbítrio (liberdade).

O determinismo é a ideologia das perversões humanas: para poder abusar da sua liberdade, o ser humano necessita de se converter a doutrinas deterministas. O determinismo é invocado para exorcizar a Graça: com a ideia absolutista de “causa/efeito”, abafamos o nosso medo e emudecemos a nossa culpa. O determinismo histórico é ideologia de doutrinas que recusam a paternidade dos seus crimes.

O determinismo hegeliano, universal, seria concebível se não existisse a sua noção.

sábado, 2 de abril de 2022

A ideologia e os seus lugares-comuns


Um “cliché”, ou “lugar-comum” em bom português, é uma expressão linguística que foi — outrora — inovadora, mas que perdeu a sua novidade e originalidade devido a um excesso de uso.

Um “slogan” publicitário também pode ser considerado um “lugar-comum”, por exemplo: por exemplo, a frase de Fernando Pessoa, referindo-se à Coca-cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Os slogans políticos (os clichés ideológicos) também são “lugares-comuns” cunhados originalmente por ideólogos, mas que são repetidos ad Nauseam pelos seguidores da ideologia.

A forma de pensar através de clichés (ou de “lugares-comuns”) é característica de pessoas que seguem fielmente uma determinada ideologia — sendo que uma ideologia é uma redução e/ou simplificação de uma determinada corrente filosófica que, não tendo o estatuto de ciência, também não é possível decidir da sua exclusão do domínio dos conhecimentos regidos pela relação entre a teoria e a prática.


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto de Hannah Arendt acerca do nazi Eichmann que, segundo esta, se expressava constantemente através de lugares-comuns (ou clichés). A expressão sistemática através de clichés revela, por um lado, uma mente com limitações cognitivas, e por outro lado revela o espírito de um burocrata — o que vai dar no mesmo: um burocrata é quase sempre (em juízo universal) limitado no que diz respeito ao Coeficiente de Inteligência.


Porém, convém dizer que nem sempre o uso de lugares-comuns é negativo; por exemplo, é positivo quando são utilizados pontualmente para estabelecer uma sincronização comunicacional imediata com uma plateia ou com os leitores.


O que a Hannah Arendt se refere, no texto, é ao uso sistemático dos lugares-comuns, que é característica do espírito do burocrata (neste caso, do burocrata nazi Eichmann).

Segundo Hannah Arendt, todo o pensamento ideológico (as ideologias políticas) contém três elementos de natureza totalitária:

1/ a pretensão de explicar tudo;
2/ dentro desta pretensão, está a capacidade de se afastar de toda a experiência;
3/ a capacidade de construir raciocínios lógicos e coerentes (clichés) que permitem crer em uma realidade fictícia a partir dos resultados esperados por via desses raciocínios — e não a partir da experiência.

Por exemplo, a ideia de “transformar o mundo” (Karl Marx), que é um cliché progressista e revolucionário de tipo “Pacheco Pereira”, significa ultimamente, de facto, burocratizar o Homem. Não tenho dúvidas que este cliché poderia ter sido utilizado por Eichmann. Por exemplo, o marxismo cultural (ou politicamente correcto que o Pacheco Pereira nega que exista) é a burocratização do espírito do nosso tempo.

Quando uma burocracia cativa ou controla um sistema político — que é o que está acontecer hoje, por exemplo, na União Europeia —, seguem-se as revoluções que são os seus partos sangrentos. Eichmann já era um burocrata do sistema político alemão, antes da revolução nazi de 1933.

Uma situação semelhante acontece com a democracia portuguesa: está a burocratizar-se rapidamente.

Por exemplo, o espírito da Constituição portuguesa já perdeu o seu valor simbólico (por exemplo, com a legalização da eutanásia), e foi substituído pelos clichés anónimos e anódinos de uma classe de burocratas politicamente instalada, que custa muitíssimo mais ao povo português do que custaria uma aristocracia (entendida enquanto escol).

As decisões despóticas do Estado socialista português são finalmente tomadas por um burocrata anónimo, subalterno, pusilânime, e provavelmente cornudo.


Hannah Arendt lies web

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Hannah Arendt e o Islamismo

 

O Paulo Tunhas escreveu um artigo acerca do xeique Munir (ou xeque Munir) que eu considero (o artigo) benevolente. É compreensível que assim seja, porque ele (o Paulo) não é um bloguista e, portanto, não tem a liberdade que nós temos em dizer a verdade acerca do Islamismo e do xeique de Lisboa.

MAOMERDAS-RADICAL-web

Hannah Arendt escreveu o seguinte (os sublinhados são meus):

«Em oposição quer aos regimes tirânicos quer autoritários, a imagem mais adequada do governo e organização totalitários parece-me ser a estrutura de uma cebola, em cujo centro, numa espécie de espaço vazio, está situado o líder; o que quer que este faça — quer integre o corpo político como numa hierarquia autoritária, quer oprima os seus súbditos à maneira de um tirano — fá-lo a partir de dentro, e não de cima ou de fora.

Toda a extraordinária diversidade de partes deste movimento — as organizações e as várias agremiações profissionais, os membros do partido e a burocracia do mesmo, as formações de elite e os grupos de polícia — estão relacionadas de tal como que cada uma forma uma fachada numa direcção e o centro noutra, ou seja, desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces, e o de um radicalismo extremo noutra. A grande vantagem deste sistema é que, mesmo numa situação de governo totalitário, o movimento fornece a cada uma das suas camadas a ficção de um mundo normal e, ao mesmo tempo, consciência de ser diferente dele e mais radical.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações de fachada, cujas convicções só em intensidade diferem das dos membros do partido, rodeiam todo o movimento e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.

A estrutura em forma de cebola faz com que , do ponto de vista da organização, todo este sistema seja invulnerável à factualidade do mundo real. »

(“Entre o Passado e O Futuro”, 2006, página 113)


 


No Islamismo, o “líder”, por assim dizer, é o Alcorão, os Hadith e a Sira (a estória da vida do Maomerdas), por um lado, e, por outro lado, o Islamismo dito “radical” que está no “centro da cebola” da religião política totalitária.

O xeque munir desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces da cebola, ao passo que o radicalismo extremo desempenha outro papel.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações islâmicas de fachada (a que pertence o xeque Munir), cujas convicções só em intensidade diferem das dos radicais islâmicos, rodeiam todo o movimento islâmico e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário islamita, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.


sábado, 10 de setembro de 2016

Roger Scruton está errado

 

“A Idade Moderna, com a sua crescente alienação do mundo, conduziu a uma situação em que o homem, onde quer que vá, apenas se encontra a si mesmo. Todos os processos da Terra e do Universo revelaram-se a si mesmos como feitos-pelo-homem ou como potencialmente feitos-pelo-homem.

Depois de terem devorado, por assim dizer, a sólida objectividade do dado, esses processos [científicos e históricos] acabaram por esvaziar de sentido o processo global único (que originalmente fôra concebido para conferir sentido ao particular), comportando-se, digamos, como um eterno espaço-tempo onde aqueles [os processos] podem evoluir sem conflitos nem tentativas de exclusão mútua. Foi isto o que aconteceu com o nosso conceito de História, tal como com o nosso conceito de Natureza.

Nesta situação de radical alienação do mundo, a Natureza e a História são de todo inconcebíveis. Esta dupla perda do mundo — a perda da Natureza e a perda do artifício humano no seu sentido mais lato, que inclui toda a História — deixou atrás de si uma sociedade de homens que, privados de um mundo comum que os relacionaria e separaria ao mesmo tempo, vivem ora num desesperado e solitário isolamento, ora comprimidos numa massa.

De facto, uma sociedade de massas não é mais do que o tipo de organização que se estabelece automaticamente entre os seres humanos quando estes ainda têm relações que os unem, mas perderam já o mundo que outrora era comum a todos eles”.

Hannah Arendt (“Entre o Passado e o Futuro”, página 103)


Roger Scruton é de opinião de que a herança cultural intelectual vai salvar o Ocidente da decadência, mesmo quando a religião cristã já não exista na cultura antropológica. É também contra este tipo de conservadores (como Roger Scruton) que se ergue a Direita Alternativa (AltRigt).

Num dos seus livros, Eric Voegelin dizia que Heródoto não compreendeu Homero; bastaram 300 anos para que Homero se tornasse incompreensível ao historiador grego; lá se foi a herança cultural pela pia abaixo.

No meu tempo de liceu, estudei “Os Lusíadas”, de Luiz de Camões, no 5º ano; hoje, “Os Lusíadas” foram eliminados do ensino secundário. E, com o novo Acordo Ortográfico, torna-se mais difícil aos alunos compreender Camões. Lá se foi a herança cultural pela pia abaixo.

A perda da religião cristã na cultura antropológica europeia levará a uma de duas hipóteses: ou à arbitrariedade do Poder político (laicismo radical e totalitário), ou ao Islão.


 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A casca da cebolinha que se chama Raquel Varela

 

A cabeça de cebola Raquel Varela publicou aqui um textículo com o título “Mataram o Rei, e?”, em que escreve o seguinte:

“Há pouco mais de 100 anos os homens – Buiça e Costa – que mataram o rei tiveram direito a um funeral popular, um dos maiores da história do país, que reuniu mais gente que o funeral do rei morto, conta-se. Os poucos que tinham enlutado as casas desistiram de o fazer tal era a sensação geral de alivio e de respeito aos «beneméritos da pátria», cito jornais de então. 100 anos depois uma piada de uns humoristas faz cair o Carmo e a Trindade. Não sei explicar se é porque os valores democráticos das liberdades e protecção jurídica se reforçaram – o que é bom – se é porque o povo perdeu de vez a noção de conflito colectivo – o que é mau.”

O blogue Insurgente escreveu o seguinte acerca da Raquel Varela:

“Se alguma coisa a distingue, não será o ser mais radical, mas antes o ter um discurso mais articulado e publicamente apresentável do que muitos dos seus pares que, pensando basicamente o mesmo, são ainda assim incapazes de o transmitir de uma forma minimamente compreensível e persuasiva.”

Hannah Arendt escreveu o seguinte1 (os sublinhados são meus):

raquel varela«Em oposição quer aos regimes tirânicos quer autoritários, a imagem mais adequada do governo e organização totalitários parece-me ser a estrutura de uma cebola, em cujo centro, numa espécie de espaço vazio, está situado o líder; o que quer que este faça — quer integre o corpo político como numa hierarquia autoritária, quer oprima os seus súbditos à maneira de um tirano — fá-lo a partir de dentro, e não de cima ou de fora.

Toda a extraordinária diversidade de partes deste movimento — as organizações e as várias agremiações profissionais, os membros do partido e a burocracia do mesmo, as formações de elite e os grupos de polícia — estão relacionadas de tal modo que cada uma forma uma fachada numa direcção e o centro noutra, ou seja, desempenha o papel de um mundo normal exterior numa das faces, e o de um radicalismo extremo noutra. A grande vantagem deste sistema é que, mesmo numa situação de governo totalitário, o movimento fornece a cada uma das suas camadas a ficção de um mundo normal e, ao mesmo tempo, consciência de ser diferente dele e mais radical.

Assim, os simpatizantes nas chamadas organizações de fachada, cujas convicções só em intensidade diferem das dos membros do partido, rodeiam todo o movimento e providenciam uma enganadora fachada de normalidade para o mundo exterior devido à sua ausência de fanatismo e de extremismo, ao mesmo tempo que representam o mundo normal para o movimento totalitário, cujos membros acabam por acreditar que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, nunca precisam de ser conscientes do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia.

A estrutura em forma de cebola faz com que , do ponto de vista da organização, todo este sistema seja invulnerável à factualidade do mundo real. »

Nota
1. “Entre o Passado e O Futuro”, 2006, página 113