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quarta-feira, 6 de abril de 2016

As cartas deuteropaulinas

 

Um leitor fez a seguinte pergunta:

« Por que “autêntico S. Paulo”? Há um falso? »


As chamadas epístolas “deuteropaulinas” não foram escritas por S. Paulo, a ver:

Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito.

As que não fazem parte desta lista foram mesmo escritas por S. Paulo. Porém, mesmo nas que se demonstrou terem sido escritas por S. Paulo, existem as chamadas “interpolações”, como por exemplo em 1 COR 14, 34-35 — ou seja, esta passagem de Coríntios 1 não é de S. Paulo.

As interpolações têm origem em notas marginais que os escribas mais tarde incorporaram no próprio texto, inserindo-as em alguns casos em um determinado lugar, e noutros casos, noutro lugar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Desta vez não critico o cardeal Bergoglio

 

Tem havido muita crítica por parte dos ditos “tradicionalistas” católicos — os "católicos fervorosos" — contra o facto de o cardeal Bergoglio ter presidido a um casamento católico colectivo de 20 casais no Vaticano, sendo que parte dos nubentes já coabitavam e tinham filhos (esta é uma das críticas). Outra crítica é a de que as noivas iam vestidas de branco, quando — diz-se — não eram “puras e virgens”.

Desta vez não estou de acordo com as críticas: não por minha subjectividade, mas porque li as epístolas de S. Paulo e algumas obras de Santo Agostinho. Devemos criticar o cardeal Bergoglio naquilo em que ele é criticável, e não transformá-lo no “bombo da festa”, a “torto e a direito”.

casamento colectivo

No tempo de S. Paulo, era vulgar que as comunidades cristãs — a Igreja Católica primordial — celebrassem o matrimónio (muitas vezes casamentos colectivos eram prática comum entre as primeiras comunidades de cristãos) de gentios pagãos que coabitavam e tinham já filhos. Por isso é que, para a Igreja Católica, o casamento é um sacramento; aliás: basta que um casal seja baptizado para que a sua coabitação seja sacramentada — como diz aqui o Padre Paulo Ricardo: o casamento de baptizados é mais uma confirmação do próprio baptismo, por um lado, e por outro lado é mais um sacramento que confirma o baptismo.

Para além de S. Paulo, outra figura incontornável da Igreja Católica é Santo Agostinho.

Para além das suas obras “Confissões” e da “Cidade de Deus”, que ainda existem em algumas livrarias boas, há dois escritos que desapareceram dos escaparates e que herdei de um tio meu, escritos em português vernáculo: “De Trinitate” (tradução do princípio do século XX), e o “Comentário à Primeira Epístola de S. Paulo”. O pensamento de Santo Agostinho é do melhor que tenho lido.

No “Comentário à Primeira Epístola de S. Paulo”, Santo Agostinho diz que a “união natural” (sexual) é boa, entendida no contexto da criação dos dois sexos, segundo o Génesis. Segundo Santo Agostinho, o bem do casamento não é somente a “procriação” (que significa “colaboração com a obra do Criador”), como considerava Clemente de Alexandria, mas também a “união indissolúvel” que representava simbolicamente a união de Cristo com a Igreja.

E agora prestem boa atenção: segundo Santo Agostinho, a virgindade não é um bem absoluto!, embora seja “a melhor das coisas boas”: ou seja, a virgindade é preferível, mas o casamento é um bem em si mesmo, e esse bem não depende da virgindade.

Essa ideia de que “as noivas não virgens não podem vestir de branco porque já não são virgens”, é uma concepção da cerimónia do casamento que o próprio Santo Agostinho não subscreveria.

sábado, 30 de agosto de 2014

Vivemos todos em Corinto, e a Igreja Católica já não ouve São Paulo de Tarso

 

“The secretary general of the Italian Bishops’ Conference has said that “unconventional couples” suffer “discrimination” and “prejudice” from the Church.”

Church ‘discriminates’ against ‘unconventional couples’: leader of Italian Bishops’ Conference

O secretário-geral da Conferência Episcopal italiana, o Bispo Nunzio Galantino, diz que a Igreja Católica discrimina os casais “não convencionais”. O conceito de “não convencional” é obviamente “pau para toda a colher” (pode servir para qualquer coisa), uma vez que o conceito de “casal” foi indevidamente alargado de forma subjectiva.

A Igreja Católica dirigida pelo cardeal Bergoglio — aka Francisco I — não só ignora ostensivamente S. Paulo, como está a trabalhar com afinco para eliminar ou censurar as epístolas de S. Paulo. Como cristãos e católicos, não podemos ignorar S. Paulo — mesmo que isso incomode os hereges liderados pelo cardeal Bergoglio que tomaram conta da Igreja Católica.


Sao Paulo WebNo tempo em que viveu S. Paulo, a cidade de Corinto tinha cerca de 500 mil habitantes, dos quais 2/3 eram escravos. Corinto era conhecida no império romano como uma cidade pervertida e licenciosa. S. Paulo criou uma comunidade de cristãos na cidade, e em relação a eles, escreveu: “Rogo-vos que sejais meus imitadores” (1 Cor 4, 16). Ou seja, S. Paulo pretendia que os cristãos de Corinto se demarcassem e se afastassem da cultura dos gentios da cidade. Isto significa que, para S. Paulo, os cristãos não se deveriam imiscuir com os gentios, conforme escreveu:

“Já vos escrevi na minha carta [alusão a uma carta pré-canónica] para não vos relacionardes com os devassos. Não me referia genericamente aos devassos deste mundo, ou aos avarentos, ladrões, ou idólatras, porque, então, teríeis que sair deste mundo. Não. Escrevi que não devíeis associar-vos com quem, dizendo-se irmão [cristão], fosse devasso, avarento, idólatra, caluniador, beberrão ou ladrão. Com estes, nem sequer deveis comer.”

— S. Paulo, 1 COR 5, 9

Ao contrário do que é defendido pelo supracitado Bispo herege da estirpe do cardeal Bergoglio, S. Paulo faz a distinção entre a comunidade cristã, por um lado, e o mundo, por outro lado. Mas o papa herege e os seus acólitos consideram que a comunidade cristã coincide com o mundo.

“Não vos iludais: nem os devassos, nem dos idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os pedófilos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os beberrões, nem os caluniadores, nem os salteadores herdarão o Reino de Deus.” — 1 COR 6, 9

S. Paulo tratou as mulheres e os homens em uma base de igualdade ontológica (igualdade do ser) — o que não é a mesma coisa que a igualdade física que a cidade de Corinto actual reivindica através da ideologia de género.

“Se algum irmão [cristão] tem uma esposa não crente e esta consente em habitar com ele, não a repudie. E se alguma mulher [cristã] tem um marido não crente e este consente em habitar com ela, não o repudie. Pois o marido não crente é santificado pela mulher, e a mulher não crente é santificada pelo marido; de outro modo, os vossos filhos seriam impuros, quando, na realidade, são santos.

Mas se o não crente quiser separar-se, que se separe, porque, em tais circunstâncias, nem o irmão [cristão] nem a irmã [cristã] estão vinculados.” — 1 COR 7, 12

Ou seja, para a Igreja Católica de S. Paulo, o que é mais importante é a comunidade cristã — e não o mundo. Mas para a igreja herege do papa Francisco I, o que é mais importante é o mundo, e não a comunidade dos cristãos.

“Irmãos, exorto-vos a que tenhais cautela com os que provocam divisões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Essa gente não é a Jesus Cristo que serve, mas ao seu próprio ventre; e com palavras lindas e lisonjeiras enganam os corações ingénuos.” — S. Paulo, Romanos 16, 17

Dizer que a Igreja Católica descrimina os casais “não convencionais” é a mesma coisa que defender que as epístolas de S. Paulo deveriam ser deitadas à fogueira da História. E é isso o que os hereges apaniguados do cardeal Bergoglio defendem.