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domingo, 12 de março de 2023

O “passado estrangeiro” do imbecil Pacheco


Aquilo a que o Pacheco chama aqui de “ecologia da natureza” (humana), é a cultura antropológica.

passado do pacheco web


A cultura muda com o passar do tempo, mas nem sempre para melhor, quando não há uma ligação próxima entre cultura e civilização: esta é produto de acções deliberadas, ao passo que a cultura resulta de acções involuntárias. A civilização é o propósito do intelecto; a cultura é a expressão da alma.

Na medida em que a cultura antropológica muda com o tempo (“a velhice do eterno novo” de Fernando Pessoa), o Pacheco (parafraseando outrem) diz que “o passado é um país estrangeiro”: há aqui (no Pacheco) uma ânsia, um desejo inconfessável de inutilização do passado como justificação para uma certa construção de um futuro — no caso do Pacheco progressista, a sociedade do futuro é uma escravidão sem amos.

Há (no Pacheco) como que uma “maldição do passado que nos compromete”, e que é preciso expurgar ou exorcizar: esse “passado é um país estrangeiro”, e, por isso, é algo alienígena que não nos deve merecer grande preocupação: para o Pacheco — e para um certo nicho “intelectual” —, é o futuro que importa, um futuro fastidioso porque nada impede que lá se depositem os sonhos de um qualquer imbecil pachequista.

Para o Pacheco, o conceito de “passado é um país estrangeiro” pretende quase colocar em causa a perenidade do conceito de Natureza Humana — digo “quase”, porque o Pacheco classifica uma hipotética Natureza Humana de “desgraça” : ou seja, “a possível Natureza Humana existe desgraçadamente”; ou não devia existir.

E suma, o Pacheco defende veladamente (brandindo a noção de “o passado é um país estrangeiro”) a ideia da validade de um corte epistemológico com o passado — é uma espécie de pensamento anti-cientifico que, aliás, caracteriza a Esquerda actual:

«O passado é estranho, por isso não interessa. O que interessa é o futuro glorioso, dos “amanhãs que cantam”», e onde os imbecis unidos em todo o mundo depositam os seus sonhos.

jpp-vesgo-web


Em contraponto, o passado que a Direita Tradicionalista elogia não é uma época histórica, mas antes é uma norma concreta. O que a Direita Tradicionalista admira em outros séculos não é a sua realidade, que é sempre miserável, mas é a desobediência em relação a uma norma (um determinado padrão histórico) peculiar.

A Direita Tradicionalista não aspira a retroceder no tempo, mas sim a mudar de rumo. O passado que ela admira não é uma meta, mas uma exemplificação de métodos civilizacionais. E quem não entende isto é um imbecil pachequista moderno e actualizado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A Raquel Varela, a historiadora da treta; e a falácia de Parménides

 

A falácia de Parménides consiste em uma falácia lógica que resulta da comparação de tempos diferentes, por exemplo, estabelecer a certeza de um determinado futuro baseando-se no presente, ou fazer juízos de valor acerca de um passado longínquo, estabelecendo como paradigmas de análise, os valores do presente.

É o tipo de argumentação que vai buscar ao passado as premissas que permitem a validação de uma determinada conclusão, no presente; como se o tempo não tivesse passado.


Dou um exemplo de falácia de Parménides: alguém dizer que “os políticos da Idade Média foram cruéis porque não empreenderam quaisquer iniciativas científicas no sentido de debelar a peste negra”.


A Raquel Varela, que se diz “historiadora”, utiliza muitas vezes a falácia de Parménides — por exemplo, quando ela diz que, no princípio da década de 1960, “em Lisboa as crianças ainda morriam de cólera e infecções provocadas por mordidas de ratos, porque 90 mil só na grande Lisboa viviam em Barracas”como se, em princípios da década de 1960, não tivessem existido barracas em Paris ou em Londres; ou como se, em princípios da década de 1960, a mortalidade infantil em Londres ou em Paris fosse a mesma que existe hoje nessas duas cidades (por exemplo).

A falácia de Parménides tem outro efeito pernicioso: a afirmação do contra-factual. Por exemplo, quando alguém diz: “se não fosse Portugal ter entrado no Euro, não haveria tanta gente com telemóveis em Portugal”. Trata-se da afirmação de um contra-facto — como se fosse possível afirmar que Portugal não teria evoluído economicamente se não tivesse entrado no Euro.

 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A diferença entre Fernando Rosas ou Raquel Varela, por um lado, e Rui Ramos, por outro lado.

 

Rui Ramos (historiador) escreveu aqui um ensaio notável acerca de Fátima. ¿E, “notável” por quê? Porque se apoiou em factos documentados (passo redundância), por um lado, e por outro lado porque se absteve de interpretações desconstrutivistas que caracterizam “historiadores” como Fernando Rosas e/ou Raquel Varela.

O desconstrutivismo histórico não é o cepticismo salutar do historiador: em vez disso, é a negação ou/e sonegação ou/e deturpação selectiva de alguns factos historicamente documentados — porque são julgados ideologicamente “inconvenientes”. Raquel Varela ou Fernando Rosas, entre outros “historiadores” marxistas, estabelecem a priori as conclusões da investigação histórica; mas um historiador propriamente dito segue os factos históricos independentemente das conclusões a que possa chegar.


Só há um reparo a fazer no ensaio de Rui Ramos: quando ele se refere à Renascença Portuguesa e aos nomes de “Teixeira Pascoaes, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio, Raul Brandão, e, ao princípio, Fernando Pessoa”.

« Nos seus artigos e conferências, Pascoaes, o líder da Renascença, citava, tal como Sardinha, Henri Bergson e William James, para repudiar o “egoísmo materialista”, o “cientismo estreito e superficial”, e saudar o “espírito religioso que ora aparece na Europa”. »

A Renascença Portuguesa pouco ou nada tem a ver (filosófica- e/ou teologicamente) com o catolicismo ou com a Igreja Católica do século XX.

Por exemplo, Leonardo Coimbra só se confessou “católico” pouco tempo antes da sua morte trágica; Bergson foi tentado pelo catolicismo mas não o adoptou. Todos nomes citados ou eram deístas (deísmo), ou eram panteístas (panteísmo, que é um monismo).

A mística teísta (teísmo católico) é incorruptível; mas a mística naturalista (o deísmo, ou “religião natural”) perverte-se em panteísmo, quando a consciência extática identifica o esplendor da Criação, por um lado, com o esplendor do Criador, por outro lado. E a mística personalista (a que é separada da religião) perverte-se em gnosticismo quando a consciência ensimesmada identifica a eviternidade da alma, por um lado, com a eternidade de Deus, por outro lado.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas

 

O Fernando Rosas tem razão quando critica o “fim da História” de Francis Fukuyama; mas perde a razão quando defende o “fim da História” de Karl Marx. O Fernando Rosas tem uma visão maniqueísta da História que é, segundo ele, o palco da luta das forças do bem contra as forças do mal. Essa visão maniqueísta caracteriza os gnósticos modernos e os puritanos contemporâneos; a diferença fundamental entre os gnósticos modernos e os da Antiguidade Tardia é a de que os primeiros têm uma religiosidade imanente, ao passo que a religiosidade dos segundos era transcendente.

O Fernando Rosas tem razão quando critica o presentismo:

No entanto, identificou os processos pelos quais, na actual sociedade portuguesa, se desenvolvem as “tentativas de reinterpretação” do passado recente. A primeira que apontou foi a “desmemória” criada pelos media, pela escola e as novas tecnologias, que criam um ambiente de “presente contínuo”, que significa “uma forma de manipulação da memória” pelo “apagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova ordem que se pretende estabelecer”. “Uma espécie de amoralismo paralisante” que inculca “a aceitação acrítica da lei do mais forte, da injustiça social, da destruição das forças produtivas”, disse.

Mas o Fernando Rosas perde a razão quando se verifica que o corte radical com o passado (cultural, tradicional, epistemológico) é característica da revolução marxista que ele defende. O presentismo é uma consequência cultural da tentativa da construção marxista do Homem Novo, em que o passado histórico é desconstruído e denunciado como negativo à luz da dialéctica hegeliana que define o progresso como uma lei da Natureza. A responsabilidade do Diktat cultural do presentismo não é apenas dos neoliberais: os marxistas são também responsáveis (juntou-se a “fome” com a “vontade de comer”, em uma conjunção de vontades que destrói a sociedade).

O Fernando Rosas reduz a moral à economia; ou seja, a ética e o valor da justiça são reduzidas às relações económicas. É certo que a equidade é uma característica da justiça, mas ficamos sem saber por que razão o Fernando Rosas critica a lei do mais forte (darwinismo social) ao mesmo tempo que defende o aborto, por exemplo. Se há exemplo escandaloso da lei do mais forte é o exercício discricionário do aborto, porque configura um acto gratuito que representa o exercício de um arbítrio total.

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas. O rei vai nu.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O Recentismo

 


O Recentismo é uma teoria de desconstrução da História segundo a qual , por exemplo, Jesus Cristo terá nascido no ano de 1053 e crucificado no ano de 1086; e as cruzadas terão acontecido logo após a morte de Jesus Cristo em 1086... o Livro do Apocalipse terá sido escrito em 1486, e o Antigo Testamento terá sido escrito na Baixa Idade Média.

Isto significa que Portugal não poderia ter sido fundado em 1143, porque nesta data não havia Antigo Testamento e os textos da Igreja Católica do tempo da fundação da nacionalidade portuguesa já faziam referência ao Antigo Testamento. Portanto, Portugal terá sido fundado em fins da Idade Média e D. Afonso Henriques simplesmente não existiu ou viveu no século XV. Provavelmente, a I dinastia portuguesa não existiu e os descobrimentos portugueses terão começado no século XVII... !

O Recentismo é uma teoria russa que coloca em causa a História ocidental e ataca a Igreja Católica: diz que foi a Igreja Católica que aldrabou a História da Europa. Na modernidade tudo é possível, incluindo colocar em causa factos históricos documentados. Nenhum documento histórico é hoje considerado fiável pelo Recentismo.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A segunda lei da termodinâmica aplicada à História

 

O José Pacheco Pereira escreveu aqui um texto interessante (ficheiro PDF) — o que já é coisa rara no nosso panorama da chamada “cultura intelectual”, o que corrobora a ideia de um fim de ciclo civilizacional.


Depois de um ciclo começa outro; o homem religioso propriamente dito vê a História em ciclos — desde o ciclo temporal e alternado do sagrado e do profano, até aos ciclos da História que se renova; e mesmo o Cristianismo que se arroga herdeiro da História linear judaica, anuncia a escatologia do “fim dos tempos” que dará lugar a um novo ciclo. Fernando Pessoa materializou o conceito dos ciclos da História através da noção da “velhice do eterno novo”.

O conceito de “história cíclica” é profundamente anti-hegeliano — e talvez seja essa uma das razões por que o José Pacheco Pereira se diz “agnóstico”, sendo que o agnosticismo é uma forma religiosa que se baseia essencialmente em uma espécie de monismo, seja este mecanicista (materialismo) ou dialéctico (Hegel) — porque não concebe o “progresso na Terra”.

De certa forma, a ideia de “história cíclica” aproxima-se do conceito do Eterno Retorno de Nietzsche e/ou dos Yuga dos brâmanes hindus, com a diferença de que o homem religioso não vê, nos ciclos da história, a expressão de um absurdo existencial, mas antes vê neles algo que dá sentido à existência (no sentido terrestre), na esperança de um Nirvana ou de uma vivência na Transcendência.

Não me lembro se foi Spengler que escreveu que “quanto mais se desenrola a História, menos tem para desenrolar”. É como se os acontecimentos tivessem um limite físico, uma finitude endógena, e depois se repetisse tudo outra vez, embora com outras cores — a essência mantém-se, a forma muda. Ao mudar a forma, parece-nos que a essência muda também.

O problema é o de saber se, com o globalismo, haverá espaço para ciclos históricos alternativos, porque um sistema isolado (fechado) exige que a entropia1 aumente com a passagem do tempo. A globalização (que não é a mesma coisa que “globalismo”, e que existe pelo menos desde o século XV) tolerava a existência de sistemas alternativos (embora sujeitos a uma hierarquização valorativa subjectiva ou objectiva) que comunicavam autonomamente entre si, e portanto não havia propriamente um sistema isolado/fechado. Havia trocas entre os vários sistemas.

Com o globalismo, paradoxalmente, a diferença (entre sistemas) vai sendo triturada à medida em que a entropia vai alcançando o seu valor máximo2 .

Quando Agostinho da Silva dizia que “do português há a esperar tudo, e haver um povo no Mundo do qual tudo há a esperar parece-me ser uma coisa extraordinária” — isso foi ainda no tempo subjectivo dele em que a imprevisibilidade do povo português ainda era um facto.

Com a entropia em um sistema fechado (globalismo), a degradação da energia é irreversível e toda a evolução se produz no sentido de estados cada vez mais prováveis e previsíveis. A imprevisibilidade vai desaparecendo à medida que a entropia avança e vai atingindo o seu máximo possível. Este crescendo da entropia globalista constitui um regresso progressivo a uma não-diferenciação da qual teria nascido a História — um regresso cíclico à “matéria inerte” da História que se traduz, como escreveu o José Pacheco Pereira, nos exemplos do “quadro branco de Malevitch, o urinol de Duchamp, o Finnegans Wake de Joyce, o teatro de Beckett, a música de John Cage, as imagens de Andy Warhol”. Enfim, desemboca-se no deserto da História.

Porém, nesta evolução entrópica da História em direcção ao estado mais provável, admite-se hoje que o desenrolar dos acontecimentos possa ser “travado” — por dados ainda não integrados pela teoria da relatividade — através do conceito de neg-entropia. Os sistemas ainda vivos e relativamente autónomos protegem-se do caos circundante criando uma ordem interna específica e própria (retorno ao nacionalismo), em uma espécie de “casulos” semi-autónomos que negam o sistema fechado globalista, por um lado, e por outro lado, exportam a sua própria entropia para os sistemas vizinhos, reforçando assim a sua própria ordem interna.

Portanto, o ciclo fecha-se e abre-se outro. Deste fechar de ciclo, muitos sistemas desaparecerão — aqueles que recusaram reconhecer que em um sistema globalista isolado se evolui irreversivelmente de tal modo que a energia se degrada (por dissipação parcial irrecuperável) em direcção ao seu máximo de entropia.

Notas
1. A entropia é a medida do grau de organização em um sistema isolado/fechado. Um aumento da entropia significa um decréscimo da organização de um sistema.
2. A Segunda Lei da Termodinâmica, também conhecida como Princípio de Carnot, estabelece que os processos que ocorrem naturalmente num sistema isolado aumentam, ao longo do tempo, a entropia do sistema. Ou seja, a quantidade de entropia (desorganização, ou desordem) de qualquer sistema isolado [fechado] tende a aumentar com o tempo e de uma forma espontânea, até alcançar um valor máximo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

As causas primevas da letargia do povo português

 

“Como é que os portugueses passaram de um povo guerreiro que em tempos se destacou pela tenacidade com que empreenderam a Reconquista e posteriormente a fantástica epopeia dos Descobrimentos, para um povo que arrisco chamar de letárgico, é coisa que não consigo compreender e sinceramente duvido que alguém seja capaz de tal.”

A Podridão do Regime

Uma resposta parcial pode ser encontrada em Maquiavel (não gosto dele, mas por vezes ele tinha razão). Outra razão foi a eliminação da diferença cultural hierarquizada. E, finalmente, a decadência das elites a partir de metade do século XVI que fez descambar Portugal para o domínio da Espanha dos Filipes.

Estas três componentes, digamos assim, devem ser vistas em conjunto, ou seja, estão interligadas e coincidiram fatidicamente as três em um espaço de tempo inferior a 100 anos: foi quanto bastou para a “letargia” de Portugal, que só foi mitigada no tempo através do apoio político e militar de Inglaterra.

Vamos a Maquiavel.

Nas suas Cartas, Maquiavel criticou o “otium” (lazer, inacção, ócio), porque, segundo ele, o ócio corrompe. Enquanto que para Petrarca e os filósofos do seu tempo, o lazer permitiria o regresso da pessoa a si própria, Maquiavel via no lazer a condição da dissolução do compromisso civil. Petrarca argumentava que poderia existir um ócio activo (“otium negotiosum”), mas Maquiavel afirmava que era tudo a mesma coisa: ócio é ócio, e nada mais do que isso.

Dizia Maquiavel que “as letras seguem as armas”, e que, “nas cidades, os capitães aparecem à frente dos filósofos”; “o poder de homens de armas não se pode corromper mais honradamente do que pela prática das letras, nem a ociosidade instalar-se na cidade de maneira mais pérfida e perigosa”. Isto foi o que aconteceu em Portugal até meados do século XVI, em que, por exemplo, o poeta Luiz de Camões seguiu a saga e a acção dos capitães dos Reino, e não o contrário disto. Até 1550, sensivelmente, os poetas e filósofos portugueses seguiam as armas; o regime político de antanho era “anti-ócio”.

Dizia Maquiavel que o lazer intelectual é ocioso, porque, alegadamente e segundo ele, nasceu da paz e nela se instalou criando a ilusão de ter toda a razão de ser nela própria: erradamente pensa-se, então, que bastaria amar a paz para ter a paz, o que faz com que se transforme o repouso, conquistado pelas armas, na ociosidade que faz baixar as armas e leva à extinção da virtude guerreira.

Por isso, diz Maquiavel, é preciso imitar Catão, que vendo a juventude romana afeiçoar-se a filósofos gregos Diógenes e Carnéades, “e sabendo o mal que tão honesta ociosidade podia trazer à pátria”, “tudo fez para que nenhum filósofo pudesse ser recebido em Roma”.

Portugal, até meados do século XVI, esteve praticamente fechado a influências ideológicas externas e, portanto, quase imune a qualquer tipo de desnacionalização (com excepção da influência dos reis católicos de Espanha), por um lado, e de contágio ideológico corruptor, por outro lado.

Maquiavel também se refere à localização geográfica onde vive um determinado povo. ¿Qual será o melhor local? — pergunta Maquiavel: ¿será preferível um local fértil ou um local estéril?

“Os homens agem por necessidade ou por opção (…) e daí que haja mais virtude onde a escolha é menos livre” — diz Maquiavel. A vantagem de um país menos rico em recursos é, em primeiro lugar, a de obrigar os homens a serem industriosos e menos preguiçosos, e a reforçar a sua unidade interna. Ao reforçar a concórdia interna, a necessidade satisfaz, então, a primeira condição da segurança da comunidade ou da nação. Porém, e para além dessa segurança interna, é necessário (segundo Maquiavel) ter capacidade de resistência às agressões externas, e por isso há que expandir o território através da criação de colónias, criando riqueza para aumentar o poder defensivo. Mas a criação de colónias apresenta o inconveniente de introduzir o ócio que ameaça a unidade dos cidadãos...

Para Maquiavel, o lazer adormece a consciência dos cidadãos em relação aos perigos latentes e faz perder as energias comunais, por um lado, e por outro lado contribui para o aumento exacerbado das ambições particulares que são sintoma de corrupção pública. Lazer e desunião são correlativos.

“As causas das desunião das repúblicas não são as mais das vezes a ociosidade e a paz; as causas da união, pelo contrário, são o medo e a guerra. Se, portanto, os habitantes de Véiès — que não cessaram de ofender os romanos com ataques e insultos — tinham sido sábios, mais o foram quando vendo Roma desunida, desviaram o pensamento da guerra e procuraram oprimir os romanos com a arte da paz”.

Quando a elite portuguesa (nobreza e o clero) da primeira metade do século XVI se apresentou desunida, foi oprimida pela “arte da paz” da potência espanhola.

Por fim, temos a eliminação da diferença cultural hierarquizada. Karl Popper chama à atenção para o facto de as civilizações surgirem em territórios onde existem diferenças culturais que coabitam, mas em que essas diferenças estão sujeitas a uma hierarquia de valor — as culturas coabitantes não são consideradas iguais entre si, mas antes há uma cultura que é preponderante e mais valorizada do que outras, ou seja, a antítese do actual multiculturalismo.

Com a perseguição aos moçárabes, e principalmente com a expulsão dos judeus a partir de D. Manuel I, Portugal deixou de ser uma sociedade em que existia uma diferença cultural hierarquizada.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O valor crítico da hipérbole

 

“A ironia é a melhor das armas.” — G. K. Chesterton

Quando usamos a hipérbole como figura de retórica, tentamos assim sublinhar o valor da crítica. O exagero que caracteriza a hipérbole assume a função de uma redução ao absurdo de uma determinada tendência cultural, teoria ou doutrina.

Por exemplo, se eu digo que “qualquer dia vai ser obrigatório ser homossexual”, trata-se de um hipérbole irónica — de um exagero, porque é óbvio que se trata aqui de uma ironia. Mas essa hipérbole tem uma função crítica no sentido de alertar (através do exagero) para a propagação cultural do pensamento único e politicamente correcto. A hipérbole, exactamente porque é exagerada, alerta as pessoas para a irracionalização da cultura através de uma denúncia do absurdo.

O “Admirável Mundo Novo” de Huxley e o “1984” de Orwell são obras hiperbólicas — são hipérboles que reduzem ao absurdo a modernidade. Não pretendem prever o futuro: apenas constatam tendências da cultura moderna e reduzem essas tendências ao absurdo através da hipérbole (do exagero).