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quarta-feira, 23 de julho de 2025

A tentativa absurda de separar a modernidade e o fascismo


“Acredito que o mundo moderno é uma empresa de desnaturação do homem e da criação. Acredito na desigualdade entre os homens, na maldade de certas formas de liberdade, na hipocrisia da fraternidade. Acredito na força e na generosidade. Acredito em hierarquias que não sejam a do dinheiro. Acredito que o mundo está podre pelas suas ideologias. Acredito que governar é preservar a nossa independência e, depois, deixarmo-nos viver como quisermos.”

Maurice Bardèche, neofascista

O fascismo está tão profundamente mergulhado na modernidade quanto o está o comunismo marxista, ou o liberalismo. Um neofascista, como Maurice Bardèche, é uma espécie de Mariana Mortágua virada do avesso (mas o tecido é o mesmo).


As hierarquias do fascismo (de Mussolini) foram fortemente marcadas pelo dinheiro, nomeadamente pelos latifundiários italianos que fomentaram decisivamente a ideologia e o regime. Afirmar que, no fascismo, as hierarquias não foram “as do dinheiro”, é uma falácia.

O mundo moderno, ocidental e ocidentalizado, não nega a existência de desigualdades: apenas segue o Direito Natural, medieval e cristão, que atribuía uma igualdade ontológica (à nascença) a todos os seres humanos em uma determinada sociedade com uma cultura antropológica comum. Por isso é que o Direito Positivo, desprovido da influência do Direito Natural (os “princípios metajurídicos” do Direito), é uma aberração. O fascismo afasta-se do Direito Natural medieval, no sentido em que nega (implícita- ou explicitamente) o princípio da igualdade ontológica.

A par com o comunismo, não há movimento mais conspurcado pela merda modernista do que o fascismo — incluindo o nazismo nietzscheano, que é uma corruptela socialista do fascismo original italiano.

Afirmar que o fascismo não é produto de uma ideologia, como escreveu Maurice Bardèche, é afirmar o absurdo, é negar a própria essência do fascismo. É como se alguém dissesse: “Eu não sou eu”.

Uma coisa é a crítica salutar à modernidade (incluindo a crítica ao modernismo “progressista” católico); outra coisa, diferente, é afirmar que “o fascismo é contra a modernidade”. Não é. O fascismo é a favor de uma outra forma de modernidade, que não deixa por isso de ser moderna.

O fascismo é uma vergôntea do romantismo de Rousseau.

O homem tribal primitivo transformava objectos em sujeitos; o homem moderno transforma sujeitos em objectos — com especial ênfase para os sistemas comunista e fascista que se especializaram na arte de coisificar a pessoa.

Salazar era demasiado inteligente (e cristão) para se sujeitar a ser fascista.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Como tornear a censura da União Europeia no YouTube (a União Europeia é um fascismo)

 

A União Europeia começou já a censurar opiniões colocadas nas redes sociais — por exemplo, no YouTube.

Se o leitor vive no espaço geográfico conhecido por “União Europeia”, verá (por exemplo) este vídeo de Faith Goldy censurado: trata-se de censura política à moda da PIDE ou da GESTAPO, patrocinada simultaneamente pela Esquerda internacionalista e pela Direita globalista.

No caso do YouTube existe uma solução: utilize um VPN.

Eu utilizo um VPN  grátis incorporado no Chrome (extensão HOXX, mas existem outras aplicações de VPN). Se instalarem a aplicação do VPN no Chrome e declararem que vivem nos Estados Unidos, poderão ver o referido vídeo (o que prova o regime fascista que impera na União Europeia).

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Foi o fascismo que engendrou Mussolini; e não foi Mussolini que engendrou o fascismo

 

O José Rodrigues dos Santos pega em dois ou três autores, e traça em volta deles uma teoria através de uma narrativa livresca elaborada que se torna difícil de desmontar. As boas obras de ficção parecem-se com a realidade; mas a semelhança é pura coincidência.

O José Rodrigues dos Santos (entre outros) acredita em uma determinada ideia. ¿E o que é que ele faz? Cria os factos que corroborem essa ideia! É uma espécie de “fake news”, de realidade alternativa que se concentra na obra de dois ou três autores.


O José Rodrigues dos Santos chega à conclusão de que o corporativismo foi uma evolução do marxismo incorporada no fascismo:

“Noutros pontos os fascistas desviaram-se da ortodoxia marxista. Por exemplo, aproximaram-se do revisionismo bolchevista quando abraçaram a ideia soreliana da violência provocada por uma vanguarda e afastaram-se do marxismo e do bolchevismo quando aderiram à ideia baueriana de que o sentimento de nação era para o proletariado mais galvanizador do que o sentimento de classe. Isto levou-os a dizer que a luta de classes não se aplicava a Itália porque esta era já uma nação proletária explorada pelas nações capitalistas. A luta de classes apenas iria dividir a nação proletária, pelo que em vez de conflitualidade deveria haver cooperação entre classes. O chamado corporativismo.”

Parece que, para o José Rodrigues dos Santos, a história das ideias começou no século XIX. Ele vai buscar a sua (dele) teoria a esta outra teoria; ou à Wikipédia.


O corporativismo foi defendido por Durkheim como uma forma superior de solidariedade social, e não consta que Durkheim fosse marxista ou fascista.

O corporativismo é uma herança da sociedade medieval das guildas e das classes sociais vitalícias — e nada tem a ver com o marxismo que só surgiu na segunda metade do século XIX.

É verdade que o desenvolvimento histórico-político do conceito de "Vontade Geral" de Rousseau marcou tanto o marxismo como o fascismo — assim como a "Vontade Geral" influenciou todas as ideias políticas no continente europeu (obviamente excluindo a Inglaterra, que seguiu John Locke).

Porém, enquanto que o marxismo se escorou nas ideias da Esquerda hegeliana, o fascismo foi beber a sua base ideológica ao hegelianismo clássico (Direita hegeliana) --- por exemplo, é nítido que, nos seus escritos, Salazar, embora católico, adoptou Hegel na sua concepção política e na dialéctica histórica; mas não só Salazar: Leonardo Coimbra, por exemplo, foi um hegeliano puro) — ambas as ideologias (fascismo e marxismo) utilizam Hegel, mas de forma muito diferente (materialismo versus idealismo do espírito).

Seria necessário que o José Rodrigues dos Santos (e outros chicos-espertos) entendesse minimamente a história das ideias, antes de “arrotar postas de pescada”.


O fascismo teve ideólogos próprios (por exemplo, Giovanni Gentile, ou Benedetto Croce; e não consta que estes dois ideólogos do fascismo, entre outros, fossem marxistas!); não foi Mussolini que moldou a ideologia fascista. Afirmar que “a ideologia fascista se deveu a Mussolini” (como implicitamente faz o José Rodrigues dos Santos, entre muitos outros intelectuais de Wikipédia) é um erro de palmatória.

A ideologia fascista é independente do facto de Mussolini se ter classificado a si próprio de “marxista” no tempo em que militou no Partido Socialista Italiano.

Foi o fascismo, enquanto ideologia, que engendrou Mussolini como seu Capo; e não foi Mussolini que engendrou o fascismo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Pacheco Pereira. “Se fosse cidadão dos EUA tinha votado Bernie Sanders”

 

Se o José Pacheco Pereira tivesse vivido na década de 1930, seria seguidor de Heidegger na mesma universidade em que este foi reitor.

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terça-feira, 14 de junho de 2016

John Locke, em vez de Rousseau

 

“Receio ter de recordar que não existe nada de novo na asserção de que são comuns as origens intelectuais do comunismo, do fascismo e, já agora, do nacional-socialismo nazi. Essa era e é a visão clássica sobre os totalitarismos na cultura política dos povos que mais lhes fizeram frente: os povos de língua inglesa”.

Ainda sobre a convergência entre comunismo e fascismo – Observador

É John Locke, em lugar de Rousseau. Os povos de língua inglesa seguiram John Locke; a Europa continental (em geral, incluindo Portugal depois de 1815) seguiram Rousseau. Mas as coisas estão a mudar. A esquerdas dos Estados Unidos, Canadá e do Reino Unido abandonaram já John Locke e adoptaram Rousseau. Ou seja, o “mundo livre” tem os dias contados.

Não é possível perceber a génese dos totalitarismos, por um lado, e da democracia liberal, por outro lado, sem se ler Rousseau e John Locke. E tudo o resto é retórica.

domingo, 12 de junho de 2016

Continuam as asneiras sobre o fascismo e comunismo

 

« When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa. » — Eric Voegelin

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O Renato Epifânio também deu a sua opinião sobre a polémica gerada pelo José Rodrigues dos Santos.

«Não, não foi por acaso, nem sequer de forma ilegítima, dado que o fascismo foi, a seu modo, uma variante do socialismo – um “socialismo de direita”».

Remeto para a diferença entre o romantismo e o racionalismo. Não confundam as duas coisas. E, por favor, não digam que o corporativismo medieval (as guildas, as confrarias, etc.) — que o fascismo pretendeu emular, de forma anacrónica — era uma “variante do socialismo”. Tenham dó!

“Dito isto, José Rodrigues dos Santos não tem razão na sua tese (algo provocatória, reconheça-se) de que “o fascismo tem origem no marxismo”. Já teria mais razão se defendesse que o fascismo e o comunismo têm, em parte, origens comuns, sendo que, para tal, teria de recuar muito mais na história. Recuemos nós a Platão (século V a.C.) e à sua “República” e perguntemos: a utopia platónica era mais proto-fascista ou mais proto-comunista?”

O Epifânio tem razão quando diz que há uma origem comum ao fascismo e ao comunismo, mas essa origem comum não se encontra em Platão. Quando se utiliza o conceito de “colectivismo” para designar toda a doutrina social que sacrifica o indivíduo à colectividade — que é o que o Epifânio faz —, incorre-se em abuso.

“Colectivismo” é um termo empregue em dois sentidos:

1/ de maneira histórica, para designar a doutrina dos socialistas não-estatistas do Congresso de Basileia de 1869.

2/ Hoje, para designar as experiências socialistas que só parcialmente resultam do marxismo, e que se caracterizam por uma intervenção moderada do Estado que se exerce através da planificação e das nacionalizações parciais (por exemplo, o socialismo da Índia ou os Kibutzim em Israel).

Ou seja, não confundir “colectivismo” com “comunismo” (marxista); e não confundir “colectivismo” com “fascismo”.

As origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se na Idade Clássica e na Razão de Estado (que não exista, como tal, na Esparta de Platão), e já no século XVIII, nos enciclopedistas franceses e principalmente em Rousseau e no seu conceito de "Vontade Geral". Dizer que as origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se em Platão, é um anacronismo (falácia de Parménides).

“Isso levou a que o fascismo acentuasse a sua dimensão anti-comunista, que não anti-comunitarista, bem como a outros desvios em relação às suas teses de raiz – sendo talvez o exemplo maior a sua relação com o cristianismo: em tese, o fascismo tende a ser anti-cristão (pelo seu anti-igualitarismo, desde logo); na prática, como sabemos, houve, nalguns casos, uma aproximação mútua, por mais que, em tese, o cristianismo esteja bem mais próximo do comunismo do que do fascismo (não é por acaso que muita gente, ainda hoje, e com bons argumentos, considera o comunismo como uma versão ateia do cristianismo)”.

Confusão de grelos.

O fascismo italiano (o genuíno) não era anti-cristão; pelo contrário!; e perseguiu ferozmente a maçonaria; e inicialmente não era declaradamente anti-semita: o anti-semitismo do fascismo italiano foi mais tarde imposto a Mussolini por Hitler. Dizer que “o fascismo é anti-cristão” é falso, por um lado, e por outro lado reduz o fascismo ao nazismo. Para o Epifânio, “fascismo = nazismo” (está na moda, nos meandros da chamada “extrema-direita”).

Mas mesmo o nazismo não era anti-cristão: era anticatólico, o que é diferente. O nazismo encontrou fortes bases sociais de apoio no luteranismo. O paganismo do nazismo tinha apenas como objectivo o fortalecimento do sentimento nacionalista alemão, e não tinha um suporte social e cultural alargado.

Por outro lado, está na moda (politicamente correcto) conceber o Cristianismo como uma forma de marxismo (ou melhor: vice-versa). O Epifânio não foge à regra.

  • O Cristianismo sempre separou o Estado (o Poder político) e a sociedade em geral;
  • o Cristianismo nunca pretendeu eliminar as hierarquias sociais (ver, por exemplo, S. Paulo);
  • o Cristianismo defendeu o respeito pelo Direito Natural (jusnaturalismo), e não um igualitarismo;
  • o Cristianismo é transcendente e dualista; o marxismo é imanente e monista;

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Um recado ao José Rodrigues dos Santos: o “romantismo” não é a mesma coisa que “racionalismo”

 

Num verbete anterior, demonstrei que o que existe em comum entre o marxismo e o fascismo, é Rousseau. A seguir faço um resumo das consequências das ideias de Rousseau no século XIX.

A vida intelectual do século XIX foi mais problemática do que a de qualquer século anterior, porque a ciência — que teve a sua fonte no século XVII — fez novas descobertas na biologia, na geologia e na química orgânica. E depois, a produção mecânica alterou a estrutura social e promoveu uma mentalidade prometaica na cultura antropológica. E, principalmente, aconteceu no século XIX uma revolta profunda contra os sistemas de pensamento em política e em economia.

Esta revolta teve duas formas diferentes: uma romântica, e outra racionalista.

A revolta romântica — que teve origem em Rousseau — vai de Byron, Schopenhauer e Nietzsche a Mussolini e Hitler; a revolta racionalista começa com os filósofos da Revolução Francesa (os enciclopedistas) e passa em Marx e vai desembocar à URSS.

A maioria dos filósofos da Revolução Francesa combinou a ciência (Positivismo) com crenças associadas com Rousseau. Helvetius e Condorcet podem considerar-se típicos da combinação de racionalismo e entusiasmo.

Os homens revoltados contra a tradição eram, como vimos, de duas espécies: racionalista ou romântica, embora, em alguns, como em Condorcet, se combinem os dois elementos. O movimento racionalista — de que fizeram parte também os apaniguados de Bentham — só veio a adquirir uma filosofia completa (um sistema) com Karl Marx.

Embora derivadas ambas da Revolução Francesa e dos filósofos imediatamente anteriores, a forma romântica de revolta é muito diferente da racionalista!

A primeira vê-se em Byron, sem traje filosófico; mas em Schopenhauer e em Nietzsche usa-se a linguagem da filosofia. A revolta romântica tende a elevar vontade à custa do intelecto; a impacientar-se com as cadeias de raciocínios, a glorificar certas formas de violência; é nacionalista; tende a ser hostil à Razão e a ser anticientífica. Algumas das suas formas mais extremas encontra-se nos anarquistas russos, mas na Rússia prevaleceu, por fim, a forma racionalista de revolta. Foi a Alemanha, sempre mais susceptível ao Romantismo do que qualquer outro país, que deu saída governamental à filosofia anti-racional da vontade nua.

sábado, 28 de maio de 2016

É Rousseau, estúpido!

 

Quando alguém da Esquerda pensa com lógica (coisa rara, aliás), sou obrigado a dar-lhe razão (por muito que me custe; e por vezes custa-me muito). Mas em Portugal há um maniqueísmo generalizado: a Esquerda diz que Direita nunca tem razão, e vice-versa; a Esquerda começou com a tolerância repressiva, e agora a Direita imitou a Esquerda. A política transformou-se em manicómio.

Na sequência da ideia de José Rodrigues dos Santos segundo a qual “o fascismo evoluiu a partir do marxismo”, um Insurgente (que é professor universitário, e por isso não tem desculpa), parece corroborar essa ideia:


“Não li o mais recente livro de José Rodrigues dos Santos mas, independentemente da sustentação que essa afirmação possa ter (ou não) no livro, a verdade é que está longe de ser um disparate, podendo a ligação entre marxismo e fascismo ser razoavelmente defendida por vários prismas. Dentro das limitações inerentes a um artigo como este, gostaria de realçar duas: as muitas semelhanças práticas entre regimes de inspiração marxista e fascista e as similitudes no plano ideológico”.

De Marx a Mussolini

E depois o professor universitário (com alvará de inteligência e tudo!) elabora uma lista de “similitudes” entre o marxismo e o fascismo, fazendo de conta de que as diferenças culturais são de tal grandeza que tornam as “similitudes” despiciendas.


O que há em comum entre o fascismo e o marxismo é, em primeiro lugar, o Romantismo do século XVIII, e mais precisamente o Contrato Social de Rousseau e o seu conceito de "Vontade Geral". E depois o marxismo adicionou o Positivismo à receita de Rousseau.

A “vontade geral” de Rousseau não é idêntica à vontade da maioria ou até à da totalidade dos cidadãos.

Rousseau entende a “vontade geral” como a vontade do corpo político que se assume arbitrariamente como intérprete da vontade do povo, na medida em que Rousseau considera a sociedade civil como uma pessoa e com atributos de uma personalidade ― tal como Hobbes ― que inclui o atributo da vontade. Segundo Rousseau, a sociedade civil não é (ou não deve ser) um conjunto de indivíduos organizados, mas antes uma pessoa colectiva.

Segundo Rousseau, o que interfere com a expressão da “vontade geral” é a existência de “associações subordinadas” ― ou seja, comunidades da sociedade civil ― dentro do Estado. Segundo Rousseau, cada uma delas quer ter a sua vontade geral, que pode ser oposta à da comunidade como um Todo. Escreve Rousseau:

»pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo«.

rosseauAs consequência práticas ― e se levadas até ao limite delas ― das ideias de Rousseau são as de que o Estado teria que proibir as igrejas ― excepto a igreja do Estado, que no caso português é cada vez mais a Maçonaria ―, proibir partidos políticos, sindicatos e todas as organizações de homens com interesses económicos e/ou políticos semelhantes. O resultado seria obviamente o Estado corporativista e/ou totalitário, em que o cidadão nada pode, isto é, em nome do diálogo directo entre o cidadão, entendido como indivíduo isolado, por um lado, e o Estado, por outro lado, Rousseau condena assim o cidadão à subordinação impotente inerente ao anonimato total.

O conceito negativista de democracia, segundo Rousseau, tem além do mais, uma outra particularidade: ele baseia-se na democracia da cidade-estado grega, e particularmente na democracia de Esparta em antagonismo com a democracia de Atenas. Porém, Rousseau diz que a democracia é de realização impossível porque o povo não pode estar sempre reunido para deliberar sobre os negócios públicos. Escreve Rousseau:

“Se o povo fosse composto por deuses, o governo seria democrático. O governo perfeito não é para os homens”.

Em consequência, aquilo a que os democratas chamam de “democracia”, Rousseau e os seus herdeiros ideológicos, chamam de “aristocracia electiva”, que ele quer dizer ser o melhor governo mas que não é possível em todos os países:

o clima não deve ser nem muito quente nem muito frio; a produção não deve exceder muito o necessário porque senão o demónio do luxo é inevitável; e o melhor é confinar a “aristocracia electiva” ao controlo de uma elite política, do que difundir a democracia na população.

Com tais limitações estabelecida por Rousseau para aquilo que ele entende por democracia, há largo campo aberto a um governo despótico.

O Contrato Social foi a "bíblia" da maioria dos chefes da Revolução Francesa ― incluindo Robespierre que era amigo íntimo de Rousseau ―, mas como é a sorte das bíblias, não foi bem lido e ainda menos compreendido por muitos discípulos: a sua teoria da “vontade geral” tornou possível a identificação mística do chefe com o povo, o que levou ao caudilhismo que não precisa de ser confirmado por coisa tão mundana como a urna de voto.

Hegel seguiu Rousseau para formatar a autocracia prussiana que levou à primeira grande guerra. Robespierre reinou segundo os princípios de Rousseau, e segundo este foram também formatados os princípios de afirmação política dos jacobinos. As ditaduras russas e alemã do século passado ― principalmente a última ― foram consequências da doutrina de Rousseau.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

José Rodrigues dos Santos e o fascismo

 

José Rodrigues dos Santos tem uma imaginação fértil que lhe deu algum sucesso literário, mas já não é a primeira vez que revela a sua ignorância em epistemologia ou em filosofia.

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Dizer que o fascismo é de origem marxista é o mesmo que dizer que um indivíduo pode ser o pai de um seu primo direito.

O marxismo e fascismo são vergônteas do Romantismo do século XVIII (por exemplo, com Rousseau) [esta opinião é corroborada, por exemplo, por Bertrand Russell]. Digamos que o fascismo e o marxismo são só “primos direitos” desavindos. Isto significa que o articulista Paulo Pena está errado quando escreve:

“A prova de que não há uma origem comum entre as duas ideologias é avançada pelo historiador inglês Tony Judt no seu livro Pensar o Século XX: “Quando falamos de marxistas podemos começar com os conceitos. Os fascistas não tinham, na realidade, conceitos. Tinham atitudes. Têm respostas distintivas a questões como a guerra, a depressão e o atraso. Mas não começam com um conjunto de ideias que depois tentam aplicar ao Mundo.”

Paulo Pena confunde o “antagonismo entre o fascismo e o marxismo”, por um lado, com “a origem comum” dos dois movimentos, por outro lado. A origem comum dos dois movimentos está em Rousseau e no Romantismo em geral (incluindo Lord Byron).