No discurso ético, político e jurídico, não devemos apresentar a nossa oposição a uma determinada ideia “útil” apresentando uma alternativa “útil”.
Ou, por outras palavras: não devemos apresentar uma alternativa utilitarista a uma ideia utilitarista — como se faz aqui. Não devemos apagar o fogo com gasolina. Vejamos este panfleto:
Esta forma utilitarista de apresentar alternativas a ideias utilitaristas pode ser ilustrada da seguinte forma:
“Em Portugal não se justifica o aborto, porque existe uma distribuição quase gratuita de preservativos e de contraceptivos”.
A verdade é que o aborto não se justifica por si mesmo, independentemente da “distribuição quase gratuita de preservativos e de contraceptivos”.
Não podemos criar uma relação de nexo causal utilitarista entre o aborto, por um lado, e os preservativos e contraceptivos, por outro lado — até porque esse nexo não existe de facto. Estamos a falar de coisas diferentes; o aborto não é a mesma coisa que o onanismo sexual, por exemplo. E não podemos dizer que “o aborto não se justifica porque existe a possibilidade do onanismo sexual” — porque estaríamos a justificar a negação de uma acção utilitarista através de uma outra acção utilitarista.
A Direita que temos está embrutecida, porque se deixou vencer pelo utilitarismo, que é a expressão do positivismo na ética. Nem tudo o que é útil é bom; e quem não sabe ver a diferença entre aquilo que é útil, por um lado, e aquilo que é bom e/ou belo, por outro lado, é um utilitarista.
Pelo seu lado, a Esquerda é utilitarista quando lhe convém, porque tira partido da contradição endógena do utilitarismo entre uma proposição positiva (que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista), por um lado, e por outro lado, uma proposição normativa (que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do "maior número").
Por exemplo, a Esquerda é utilitarista nas matérias de costumes, porque lhe interessa destruir a tradição e a cultura antropológica. Mas já não é utilitarista, por exemplo, em matéria de economia: a posição da Esquerda em relação à privatização da TAP, por exemplo, é uma posição não-utilitarista.
A oposição à adopção de crianças por pares de invertidos deve ser justificada em si mesma, e não recorrendo a paliativos utilitaristas alternativos.
A Direita deve ter valores que não se submetam ao “útil”.
Repare-se na narrativa dos me®dia: “ser filho de duas mães ou de dois pais é legalmente impossível em Portugal” — como se fosse possível realmente ser filho de dois pais ou de duas mães, legalmente ou não. Estamos no domínio da linguagem orwelliana; e o Partido Social Democrata e o CDS/PP aprovam. Estou seriamente a ponderar votar no PNR.


Não ter mãe ou pai conhecidos, é uma infelicidade. Mas uma coisa é admitirmos que existem casos de crianças que, por infelicidade, não têm mãe conhecida; e outra coisa é apoiar um movimento político homossexualista que fomente a proliferação e vulgarização de mães desconhecidas. Uma coisa é constatar que as desgraças existem; outra coisa é tentar promover e normalizar a desgraça das crianças em nome de putativos “direitos” de adultos.
Questiono-me como é possível que a Isabel Moreira seja considerada uma “constitucionalista” neste país. Não estão em causa aqui os putativos conhecimentos dela, mas a forma como ela vê o Direito: repare, caro leitor: uma pessoa pode estudar afincadamente uma determinada matéria para depois ganhar uma autoridade de direito que lhe permita, de forma impune, deturpar os princípios fundamentais dessa mesma matéria, reduzindo-a a uma pura arbitrariedade.